Let Me Take Care Of You
5 PARTE IV – AWAKENING
Eram duas horas da madrugada quando Mycroft sentiu um toque muito leve em seu braço, e ergueu a cabeça, prontamente desperto. A vantagem de se ocupar uma posição delicada como a dele era que se adquiriam reflexos soberbos. A enfermeira sorria delicadamente, com um prontuário em mãos. Ao seu lado, o doutor Watson dormia, as costas eretas na cadeira, a cabeça caída contra o peito. Sherlock pegara no sono também, o corpo atirado de qualquer jeito na cadeira e a cabeça caída no ombro de John. Mycroft esfregou a ponte do nariz e ergueu-se, afastando-se do par adormecido, conduzindo a enfermeira pelo braço.
- Novidades?
- Ele está acordado. Não vai ficar consciente muito tempo, porque ainda estamos mantendo a sedação, mesmo que reduzida. O senhor pode ficar cinco minutos com ele. – Mycroft sentiu seu coração falhar uma batida. Assentiu em silêncio, e seguiu a enfermeira até a UTI privativa da ala. Quando entrou no amplo quarto, sentiu-se como se houvesse um ouriço trancado em sua garganta. Gregory estava deitado na cama hospitalar, pálido, com uma intravenosa presa no braço direito e uma sonda nasal. Um grampo prendia-se ao indicador da mão direita, fazendo o monitor cardiorrespiratório bipar ritmadamente. Os olhos castanhos encontraram os seus, e Gregory deu um sorriso cansado.
- Hey, você.
- Hey. — Mycroft sorriu e sentou-se em uma cadeira à esquerda da cama, passando os dedos de leve no rosto do policial. – Como você está?
- Feliz que você me encontrou. – Mycroft acariciou os cabelos grisalhos de Gregory e inclinou-se para beijar-lhe a testa.
- Na verdade, foi Anthea. Ela estava com meu celular, eu ainda estava empacado em uma maldita reunião. – ele retrucou, amargo. Gregory sorriu e tentou erguer o tronco, sendo prontamente impedido pelo político.
- Não interessa. Ela só se deu o trabalho de me procurar por sua causa. Então, indiretamente, sim, você me encontrou. – ele deu um de seus sorrisos travessos, que faziam o coração de Mycroft disparar. – Hey, você está usando o meu presente! – ele soou feliz.
Mycroft olhou para o prendedor dourado em sua gravata vermelha, rindo. Na noite anterior, ao chegar em casa, encontrara um pequeno embrulho sobre o travesseiro, e um cartão vermelho manuscrito na caligrafia firme do namorado.
My,
Desculpe estar trabalhando feito louco e não ter conseguido tirar um tempinho pra ver você hoje. Prometo compensar quando essa loucura toda terminar.
Feliz dia dos namorados,
Greg
Dentro do embrulho, um prendedor de gravata dourado ostentava as quatro primeiras notas musicais do refrão de No feelings, sua música favorita do Sex Pistols. Do lado interno do prendedor, estava gravado em letras miúdas: Eu sei que não é verdade. G.
- Ele é lindo, Gregory. E eu sei que deve ter dado trabalho encontrar. Seu presente ficou no meu escritório; eu pretendia te surpreender durante o dia na Yard, para almoçarmos juntos. Já tinha mandado Anthea deixar minha agenda totalmente livre.
- Na verdade, eu mandei fazer pra você. É nosso primeiro Dia dos Namorados juntos, My, eu queria te dar um presente especial... e acabei na porra da UTI. Eu estou ficando velho para esse trabalho. – ele suspirou, remexendo-se dolorosamente na cama de hospital – Se fosse antes, eu teria conseguido derrubá-lo antes que ele disparasse...
- Não seja tolo, Gregory. Você tinha passado a noite inteira em claro e não dorme direito há dias, seus reflexos estavam claramente comprometidos. – ele levantou-se da cadeira e ajeitou o travesseiro de Lestrade, beijando-lhe a testa novamente. – Eu tenho que ir. O médico disse que eu só podia ficar cinco minutos. O senhor deve repousar muito, Detetive-Inspetor Lestrade, e fazer tudo para sair daqui o mais rápido possível. – ele falou, a voz numa paródia de comando. Greg sorriu e fez beicinho.
- Sem nem um beijinho? – Mycroft sorriu e inclinou-se para encostar seus lábios nos de Gregory, num toque breve e casto. Os dois sorriram antes de quebrarem o beijo. – Vem me ver amanhã? – Mycroft ergueu uma sobrancelha, a mão na maçaneta da porta.
- Nem o advento da Terceira Guerra Mundial me impediria, meu caro Gregory.
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Mycroft voltou para o corredor e acordou John e Sherlock, que ainda dormiam a sono solto nas cadeiras. Os dois se ajeitaram e bocejaram, e Sherlock ficou aliviado ao ver o rosto do irmão tranquilo e com um sorriso leve. O político mandou uma mensagem para sua assistente mandar um carro lhes buscar.
- Gregory acordou da anestesia; ele está bem, dentro do possível. John, eu ficaria muito agradecido se você pudesse passar no horário de visitas noturno e dar uma checada no prontuário dele diariamente. – ele falou, enquanto eles se dirigiam para o elevador. John esfregou os olhos com a ponta dos dedos, tentando clarear a mente.
- Claro, sem problemas. Quais são os horários de visita? Todos eles?
- Pela manhã, das dez às dez e meia. À tarde, das duas e meia às três e meia. E à noite, das oito às oito e meia. – Quem respondeu foi Sherlock. Quando John voltou-se espantado para ele, o detetive apenas deu de ombros – Já fiquei internado aqui vezes suficientes para saber de cor todas as diretrizes, horários e o cardápio do hospital.
Mycroft conteve o sorriso ao sair do elevador. O hospital estava mergulhado em quietude pela hora adiantada, e o carro já os aguardava do lado de fora, o motorista segurando a porta traseira. O ar da madrugada estava gélido, e Mycroft estreitou o sobretudo contra o corpo antes de subir no carro. Mais uma noite que passaria sozinho, e possivelmente em claro. Desde que ele e Gregory haviam se acertado, ele só tinha uma noite de sono decente quando o corpo quente e bronzeado estava enroscado no seu. Mesmo que eles ainda não tivessem, efetivamente, consumado seu relacionamento, Mycroft ficava satisfeito de apenas dormir abraçado com Gregory, pegar no sono com os braços fortes enlaçados em torno dele num agarro possessivo, o rosto do policial enterrado na curva de seu pescoço, e acordar pela manhã com beijos suaves na nuca e carícias leves. Era a ideia de Mycroft de paraíso.
Os três fizeram o trajeto até Baker Street em silêncio, Sherlock meio adormecido, a cabeça pendendo e, finalmente, repousando sobre o ombro de John. Mycroft observou por um momento o rubor leve que tomou as bochechas do médico, e mesmo na penumbra do interior do veículo ele foi capaz de distinguir o sorriso mínimo e o gesto discreto que o doutor fez, a fim de ajeitar o ombro e deixar Sherlock mais confortável. Ele puxou o celular do bolso do sobretudo e sem hesitação enviou a mesma mensagem três vezes, mesmo dado o adiantado da hora. Sabia que eles ainda estariam acordados, esperando notícias.
Acordado e se recuperando bem. Horários de visita: 10h-10h30 AM, 02h30-03h30 PM, 08h-08h30 PM. Máximo de três pessoas por visita, e só porque insisti muito. Quando ele for levado para o quarto, será liberado. Por gentileza, me avisem com um pouco de antecedência seus planos, a fim de que eu faça os meus. Boa noite. – MH
As respostas chegaram na sequência, com menos de um minuto de intervalo entre si.
Obrigado, Mycroft. Vou amanhã à noite. – CL
Graças aos deuses! Eu e Eric vamos passar amanhã de manhã, ele está em pânico. Johnny manda beijos pro vovô Greg e pro vovô Myckie. – Nadine
Vou dar uma fugida no horário de almoço e passar aí à tarde. Me avise se precisar de ajuda com os exames. – Nat
Depois de um momento de hesitação, ele resolveu mandar mais duas mensagens. Gregory gostaria que ele o fizesse.
Sargento Donovan, gostaria de informa-la que Gregory acordou da cirurgia e já pode receber visitas em horários restritos. Anthea passará amanhã na Yard às sete e meia para busca-la para o horário de visitas noturno. – MH
DI Dimmock, Gregory ficaria feliz de vê-lo amanhã no período da tarde. Se for conveniente, mandarei um carro busca-lo na Yard às duas em ponto. – MH
O carro estava parando em frente ao 221B quando as respostas chegaram.
Obrigada, Mycroft. E é Sally, já falei. – Donovan
Vou estar esperando, Sr. Holmes. Obrigado. – Dimmo
Mycroft despediu-se de John e Sherlock com um aceno de cabeça, e o médico praticamente carregou o detetive para dentro de casa, tentando acordá-lo no trajeto. O carro arrancou com suavidade rumo a seu flat em Bond Street, e Mycroft permitiu-se relaxar um momento, aproveitando a solidão, e deixando escapar duas lágrimas silenciosas. Fora um alívio ver Gregory acordado, consciente, mesmo pálido e abatido. O político só pensava em chegar em casa e tentar descansar um par de horas antes de começar sua estafante rotina diária.
O apartamento estava escuro e silencioso, e Mycroft sentiu um arrepio ao trancar a porta e ativar o alarme. Ele detestava ficar em casa sem Gregory. Sempre que o inspetor precisava passar a noite numa tocaia, ou na Yard trabalhando em algum caso difícil, ele acabava por se recolher ao cômodo que servia tanto de escritório como de sala de música. Não suportava o silêncio que tomava os amplos cômodos quando Gregory não estava lá. Arrastando-se sem vontade até o quarto, ele tirou o terno, amarrotado por ter passado o dia inteiro sentado nas desconfortáveis cadeiras plásticas de St. Bart’s, vestiu uma calça de pijama de seda e, depois de hesitar por um momento, pegou uma das camisetas gastas que Gregory costumava usar para dormir. Ele precisava do conforto. Pegando o travesseiro do detetive de cima da cama, Mycroft dirigiu-se até o estúdio, deixando-se cair no pequeno sofá de couro no canto próximo ao aparelho de som, e colocou um dos CDs de Gregory para tocar. Uma coletânea gravada por ele, com todas as suas músicas favoritas – coisas que iam de Queen a Iron Maiden. Encolhendo-se desconfortavelmente, ele agarrou-se no travesseiro de Gregory, aspirando fundo o aroma amadeirado que emanava dele. Tentaria ao menos dormir um par de horas. Gregory sempre sabia quando Mycroft não dormira, e ele não queria ser causa de preocupação para seu amante; não quando ele jazia em uma cama de hospital.
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Beep... beep... beep...
Mycroft pulou do sofá e gemeu de dor ao sentir os músculos das costas reclamarem da noite passada no minúsculo sofá do estúdio. Ele pegou seu celular e olhou a hora. Cinco e meia da manhã. Ele conseguira dormir quase três horas. Uma quantidade de sono bastante satisfatória para uma noite, considerando que ele costumava dormir não mais que oito horas por semana antes de Gregory ir morar com ele. O policial tomara como uma missão pessoal cuidar da saúde de Mycroft, vigiando com olhos de águia se ele dormia e comia. Se Mycroft aparecesse no hospital deixando parecer que não dormira ou comera direito, ele nunca ouviria o fim das reclamações de Gregory.
Com um suspiro, ele se ergueu e foi tomar um rápido banho. Em meia hora, Mycroft estava vestido, já tomara sua costumeira xícara de chá matinal e saía na porta do prédio para entrar no Jaguar preto que estacionava silenciosamente junto ao meio-fio. Anthea estava no banco de passageiros, impecável como sempre, olhos travados no Blackberry em sua mão direita, enquanto a esquerda segurava uma pilha de arquivos.
- Bom dia, senhor. Aqui estão os documentos referentes ao encontro desta manhã. E aqui – ela entregou os documentos nas mãos de Mycroft, e puxou uma embalagem de dentro de sua bolsa – está o presente do Inspetor Lestrade. O senhor não vai ter tempo de voltar ao escritório antes do horário de visitas. – Mycroft suspirou, guardando o embrulho no bolso do sobretudo e folheando as pastas.
- Obrigado, minha cara. Café da manhã com a África do Sul, então?
- E brunch com a França, às onze. – Mycroft deixou escapar um gemido muito pouco digno, e olhou para Anthea com um ar sofrido.
- Oh, Deus, já é época de encontrar aquele incompetente de novo? Parece que foi semana passada que tive que aguentar os avanços insuportáveis daquele homem! – Anthea conteve um sorriso, e assentiu. – Está bem. Pelo menos minha contraparte africana é agradável e inteligente o suficiente para não me deixar num humor insuportável. Ao contrário daquele maldito francês.
Durante a primeira metade daquela manhã, Mycroft ocupou-se com Malika, a gentil e idosa representante do governo sul-africano. Durante três horas, Mycroft deixou sua mente apagar a lembrança de Gregory no hospital e mergulhou no trabalho, ou ao menos foi o que ele pensou. Enquanto arrumavam seus arquivos, ao final da reunião, e se engajavam em assuntos amenos, Malika finalmente suspirou e colocou sua xícara de chá sobre o pires.
- Muito bem, Mycroft, quem é ela?
- Perdão? – a mulher sorriu, as rugas em torno dos olhos vincando-se pronunciadamente.
- Você olhou para o relógio de parede cinco vezes ao longo da reunião, o que você nunca fez antes; antes de começar a guardar seus documentos, você ajeitou a gravata e penteou o cabelo com a mão direita; e quando eu estava falando sobre o meu marido, você acariciou seu prendedor de gravata que, aliás, é novo. – ela inclinou-se para mais perto, lendo as notas e as cantarolando, sem, obviamente, reconhece-las. – É um belo prendedor; infelizmente, não reconheci a canção.
- É uma composição própria – Mycroft mentiu com convicção. Afinal de contas, ele realmente compunha. Ele era o autor, sob pseudônimo, de duas das dez músicas mais tocadas do século 20 na lista da Billboard.
- Você evitou minha pergunta como sempre, Mycroft. Quem é ela? – Mycroft respirou fundo, levando os dedos até o prendedor de gravata numa carícia leve.
- Ele – Malika ergueu as sobrancelhas, mas sorriu, incitando-o a continuar – é inspetor na New Scotland Yard, e uma das únicas pessoas capazes de lidar com meu irmão da mesma maneira que eu. Nós nos conhecemos há alguns anos, mas apenas recentemente nos engajamos em um relacionamento mais íntimo.
- E qual o nome do afortunado cavalheiro? – Malika espantou-se ao ver a transformação no rosto de Mycroft. Para um observado casual, ela passaria despercebida; mas para ela, que conhecia o homem há quase vinte anos, e tratara de segredos de vida e morte com ele, era uma transmutação impressionante. As linhas de expressão no rosto de Mycroft se suavizaram, e um brilho quente inundou seus olhos.
- Gregory – ele respondeu, a própria voz numa carícia em torno do nome adorado – Detetive Inspetor Gregory Lestrade. – Malika assentiu com um sorriso.
- É aquele com o cabelo grisalho, que está sempre nos jornais. – ela afirmou. Mycroft acenou em concordância – E você vai encontra-lo depois que sair daqui? – ela não perdeu o leve tremor das pálpebras, nem as linhas que voltaram a instalar-se no rosto do político. Malika franziu o cenho — Espero que ele seja bom pra você, Mycroft. – falou, num tom soturno. Mycroft suspirou, abanando a cabeça.
- Não, Malika. Eu vou vê-lo quando sair daqui; vou visita-lo no hospital. Ele levou três tiros durante uma perseguição a um suspeito ontem pela manhã. – ele respondeu, a voz tranquila, ainda que uma sutil sombra de dor obscurecesse os olhos azuis. – Ele passou por uma cirurgia delicada de extração do baço ontem, mas já está fora de perigo. Sofre apenas o risco de ficar terrivelmente entediado, por ficar um mês no hospital. — Os dois trocaram um sorriso contido, e Mycroft ergueu-se para se despedir de sua contraparte sul-africana. Os encontros com Malika sempre tinham o poder de deixa-lo relaxado, tranquilo; Anthea sempre os agendava para a primeira parte da manhã em função disso. Independente do que Mycroft fosse passar ao longo do dia, depois de uma reunião com sua velha conhecida – e, porque não dizer, amiga -, ele sempre se sentia energizado.
Anthea já o aguardava no carro quando ele deixou o prédio. O tempo que o veículo levou até St. Bart’s foi ocupado com trabalho – Mycroft pretendia trabalhar em todos os momentos em que não estivesse no hospital com Greg, tirar o máximo possível de obstáculos do caminho, a fim de que ele pudesse ter aqueles breves intervalos durante o dia completamente livres. Com uma careta, ele selecionou os arquivos necessários para o encontro com o insuportável Marcel, sua contraparte no governo francês. O homem era de uma incompetência gritante, e ele se perguntava como tal mula conseguira chegar ao posto. Vincent, seu antecessor, era charmoso, brilhante e um diplomata nato; Marcel era barulhento, flertava descaradamente e não tinha o menor tato. Mycroft só podia deduzir que ele andava dormindo com a pessoa (ou pessoas) certa.
Quando o carro parou diante do hospital, o político entregou os arquivos à sua assistente e entrou, com uma pontada de preocupação a lhe torcer o estômago. Por mais que Gregory houvesse acordado, e tivesse passado bem pela cirurgia e pela maciça transfusão de sangue que se seguiu, Mycroft não se sentiria aliviado enquanto ele não deixasse a UTI – o que ainda levaria em torno de duas semanas. Ele esperava que o policial não estivesse se sentindo muito prostrado naquela manhã; ele realmente precisava da visão do sorriso infantil e carinhoso de Gregory para conseguir atravessar a segunda parte daquele dia pavoroso. Mycroft entrou no quarto sem bater, e deparou-se com Nadine e seu marido, Eric, já ao lado da cama, conversando com um Gregory sonolento e levemente mal humorado.
- Bom dia. – ele saudou, com um sorriso educado. Eric adiantou-se para lhe apertar a mão, e Nadine deu-lhe um beijo na bochecha. Mycroft inclinou-se e beijou a testa de Gregory – Como você está se sentindo esta manhã? – o policial deu de ombros com um sorriso fraco.
- Na mesma. Um pouco enjoado, mas o médico garantiu que é um efeito colateral da anestesia. – Mycroft franziu o cenho e Greg deu uma risadinha – Não precisa pensar em ligar para o John, Nadine já fez isso. Ele confirmou. – o político deu um suspiro e sentou-se na cadeira ao lado da cabeceira da cama.
- Você me conhece bem demais para o meu próprio bem, Gregory. – ele voltou-se para o casal – E como está o pequeno Johnathan?
- Preocupado. – foi Eric quem respondeu. Mycroft apreciava o marido de Nadine; professor de história, honesto, bem humorado, com a tendência de ir direto ao ponto numa conversa (e não era nada mal de se olhar, também, com seus cabelos negros cortados bem curtos, olhos castanhos, um queixo bem definido e seu corpo esguio de atleta marcial) – Preferimos contar a verdade a ele, porque ele queria passar o final de semana com vocês. De novo. Mas eu prometi que, quando Greg for para um quarto, ele pode vir vê-lo. – o sorriso de Gregory iluminou-lhe o rosto exausto. Mycroft sabia o quanto ele adorava o neto, e ele próprio também não era imune aos encantos do pequeno. Era uma criança educada, ativa e com uma inteligência muito viva. Ele ficou quieto, observando os outros três conversarem sobre o menino, e deixou-se ficar apenas bebendo a visão de seu parceiro acordado e seguro.
- My... você dormiu no sofá do estúdio de novo? – a voz de Greg arrancou-lhe de seus pensamentos, e ele tentou esconder um olhar culpado.
- E o que pode lhe ter dado essa ideia, meu caro?
- O jeito que você está sentado. Dá pra ver claramente que você está com dor nos ombros e nos quadris. Já vi você assim vezes demais pra não aprender a ler os sinais. – ele franziu o cenho – Bom, pelo menos, você dormiu. Já é uma pequena vitória. – Mycroft fez força para conter o rubor que ameaçava tomar seu rosto. Gregory aprendera a lê-lo bem demais com o passar dos anos. Seu único amigo de verdade, e agora seu amante; não havia como esconder muitas coisas dele. – Espero que tenha comido, também.
- Café da manhã com Malika. – ele respondeu, brevemente. Gregory já ouvira ele falar centenas de vezes de sua boa amiga, e sabia o que isso significava. O policial deu um sorriso aliviado.
- Deuses, vocês parecem estar casados há um milhão de anos. – Nadine resmungou, mas havia um brilho travesso em seu olhar que era inconfundível. Ela deu um sorriso malvado ao ver seu pai corar, e Mycroft baixar brevemente o olhar para esconder o brilho de satisfação. – Papa, nós temos que ir. Eric tem uma aula em menos de meia hora, e eu já devia estar na agência desde as nove. Não, nem adianta reclamar. – ela interrompeu, ao ver que o pai abrira a boca para lhe dar um sermão. – Eu compenso no fim do expediente. – ela curvou-se e beijou o pai no rosto, fazendo o mesmo com Mycroft. – Comportem-se, os dois! – e com essa última provocação ela saiu, arrastando Eric pela mão, deixando os dois homens no quarto rindo e balançando a cabeça.
- Minha filha é uma maluca sem nenhum pingo de juízo. – Gregory suspirou, balançando a cabeça.
- A quem será que ela puxou, eu me pergunto. – Mycroft provocou, tomando-lhe a mão. – E você sabe que não é completamente verdade; com todas as suas excentricidades, ela é uma excelente mulher, Gregory. Uma profissional dedicada, uma mãe carinhosa e uma boa filha, também.
- Fico feliz que pense assim, My. As pessoas costumam deixar-se levar apenas pela primeira impressão que têm das minhas filhas. – Mycroft ergueu a sobrancelha com ar arrogante, e Gregory riu – Claro que isso não ia enganar a mente brilhante por trás do Governo Britânico.
- Isso me lembra... A mente brilhante por trás do Governo Britânico trouxe um presente para o Melhor da Scotland Yard; seu presente de Dia dos Namorados. – Mycroft pescou o embrulho no bolso de seu sobretudo com os dedos longos levemente trêmulos. O presente lhe tomara muito tempo e consideração. Ele só esperava que estivesse, minimamente, à altura do esforço que Greg colocara em seu próprio presente. Ele entregou o embrulho para Gregory, que sorriu deliciado.
- Ora, obrigado. – ele rasgou o pacote estabanadamente, e ficou sem ar ao tirar o conteúdo de dentro do papel. – Mycroft... é lindo!
Gregory acariciava com as pontas dos dedos uma caderneta, do tamanho de um livro de bolso, encadernada em couro azul brilhante, e com a capa gravada ao modo de uma das antigas cabines policias da década de 1960. Mycroft sabia que Gregory era absolutamente obcecado por Doctor Who, desde criança. Como não era homem de fazer as coisas pela metade, presa por uma alça de couro à capa, havia uma caneta que era uma réplica perfeita de uma sonic screwdriver, feita sob encomenda na Suiça. E além disso...
- Abra a caderneta, Gregory. Há mais uma surpresa.
A primeira coisa que Gregory notou foi a letra elegante de Mycroft na folha de rosto, anunciando: “Esta caderneta pessoal pertence à Gregory Johnathan Lestrade. Pessoas não autorizadas estarão sujeitas a sofrer sanções do Governo Britânico”. Ele riu, divertindo-se com o senso de humor do outro. Então seus olhos foram atraídos para o verso da capa, e ele sentiu a boca ficar subitamente seca.
- My... essas assinaturas...
- Eu sei, estão faltando algumas, sinto muito. – Mycroft falou de pronto, cruzando e descruzando as mãos nervosamente. – Mas eu não consegui entrar em contato com todos antes do Dia dos Namorados. Prometo que vou conseguir que os outros assinem na contracapa... – Gregory não conseguia tirar os olhos da página onde se viam os nomes assinados, um embaixo do outro: Peter Davison, Colin Baker, Christopher Eccleston, David Tennant. Ele ergueu os olhos, e Mycroft viu que estavam cheios d’água.
- Mycroft... essa foi a coisa mais maravilhosa que alguém já me deu de presente! E se eu não estivesse me recuperando de três tiros em um leito de UTI, você ia saber exatamente o quão agradecido eu estou. – O sorriso de Mycroft seria capaz de iluminar meia Londres. Ele inclinou a cabeça e fez uma carícia leve no braço de Gregory.
- Eu também mandei gravar uma coisa na caneta. – ele falou, quietamente, sem tirar os olhos do outro enquanto ele lia a gravação. Em letras minúsculas, na lateral da caneta, ele escrevera “Meus sentimentos por você atravessam o tempo e o espaço, além das dimensões conhecidas. M”. Mycroft viu a expressão de Gregory suavizar-se e um rubor suave tomar-lhe o rosto. O policial virou-se para ele com um sorriso um pouco tímido, e fez menção de erguer-se. Mycroft entendeu e evitou que ele se levantasse, inclinando-se sobre a cabeceira para beijá-lo. Ele pretendia dar um beijo breve e terno em Gregory, mas logo o outro lhe segurou a nuca com a mão livre, forçando-o a aprofundar o beijo. Foi o barulho do monitor cardíaco de Gregory, registrando a súbita aceleração de seus batimentos, que fez Mycroft interromper o contato, ainda que a contragosto. Ele acariciou a face afogueada do outro, com dedos leves.
- Descanse, meu caro. Quero você fora desse hospital o mais rápido possível.
- Você volta hoje, ainda? – Mycroft assentiu, erguendo-se com um suspiro contrariado.
- No próximo horário de visitas, se aquele maldito francês não me forçar a cometer um assassinato e ter que movimentar todo o MI6 para me acobertar. Até mais tarde, Gregory. – ele deixou o quarto, seguido pela risada suave do inspetor.
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Quando retornou ao hospital, para o horário de visitas da tarde, Mycroft encontrou Natalie e Michael Dimmock, engajados numa conversa animada com Gregory, sobre... evidências forenses. O jovem detetive-inspetor, aparentemente, estava trabalhando em um caso junto com DI Gregson, e o legista escolhido andava reclamando do péssimo trabalho do laboratório forense. Mycroft ficou parado do lado de fora do quarto, ouvindo Natalie pedir que Dimmock levasse as evidências até o laboratório onde ela trabalhava em Yorkshire, e Gregory falando que assinaria a autorização, se Donovan a trouxesse quando viesse naquela noite. Com o cenho franzido, Mycroft escolheu aquele momento para entrar.
- Michael, Natalie. Boa tarde. – ele sorriu educadamente, voltando-se para Greg e fechando a expressão. – Gregory... você não devia estar trabalhando. – o policial teve a decência de parecer embaraçado.
- Só estou oferecendo uns conselhos, My. Não é como se assinar um papel fosse dar muito trabalho. – Mycroft ergueu a sobrancelha, descrente. – E talvez eu desse só uma olhadinha no arquivo do caso, pra oferecer uma visão diferente... – ele baixou a voz até o nível de um sussurro. Mycroft virou-se para Dimmock, os olhos gelados.
- Faça a gentileza de mandar apenas a autorização para ele, inspetor. Se eu descobrir que a Sargento Donovan trouxe o arquivo do caso... – ele deixou a ameaça pairar no ar, sabendo que o efeito psicológico seria bem maior. Dimmock empalideceu e acenou com a cabeça, lançando um olhar apologético para seu colega e dando de ombros.
- Desculpe, parceiro. Ordens superiores. – Natalie riu, e Michael olhou-a de canto, corando de leve (Mycroft armazenou a informação para uso posterior; Gregory não gostava do namorado da filha caçula, nem um pouco. Talvez, depois que toda essa confusão passasse, eles pudessem se entregar a um passatempo novo?) – Mas eu vou entregar a autorização para Sals, não se preocupe. – Mycroft sentou-se junto à cabeceira de Gregory, tomando-lhe a mão e beijando-lhe de leve os dedos.
- Como foi com o francês? – Mycroft deu um suspiro dramático e rolou os olhos, arrancando uma risada dos outros três.
- Infernal, como sempre. Eu quase o fiz engolir meu guarda-chuva no final da reunião. O cretino só faltou pular em cima de mim. – Gregory fechou a expressão, enciumado. Mycroft apertou-lhe de leve a mão. – Agora, meu caro, nada de se exaltar. Joshua estava comigo o tempo todo – o político referia-se ao seu motorista, uma montanha de músculos de quase dois metros de altura, que lhe devotava uma lealdade canina e gostava imensamente de Gregory.
- A culpa é sua, My, com esses ternos ajustados, esses olhos expressivos e essa voz capaz de derreter um iceberg. – ele reclamou, fazendo um beicinho. Mycroft abafou uma risada e deu-lhe um beijo leve.
- Awwn, vocês são tão bonitinhos juntos que chegam a dar enjôo! – Natalie debochou dos dois, puxando uma das outras cadeiras presentes no quarto e sentando-se do outro lado da cama. – Cuidado, Mycroft: papai é uma peste quando fica com ciúmes. Ele é extremamente possessivo. – Mycroft ergueu uma sobrancelha, um sorriso sarcástico nos lábios finos.
- Isso eu já sabia, Natalie, querida. Gregory não é exatamente a pessoa mais sutil do mundo quando se trata de esconder seus sentimentos de posse. – Greg abriu a boca, indignado, e Mycroft apenas retrucou. – Hyde Park. – o policial fechou a boca, ficando muito vermelho, e Mycroft sorriu. Natalie e Dimmock se entreolharam, curiosos.
- Nós queremos saber essa história? – Natalie perguntou. Mycroft deu um sorriso maléfico, enquanto Gregory negava com a cabeça freneticamente. – Ah, pelo visto queremos. – ela sinalizou para Dimmock sentar-se ao lado dela, na cadeira livre. – Vamos lá, papai, desembuche. Ou prefere que Mycroft conte a versão dele? – Greg bufou, contrariado, mas acatou o pedido da filha.
- Na primeira semana do ano, fui atender uma ocorrência em Hyde Park. Uma tentativa de assalto em que a vítima reagiu, matou o assaltante e acabou ferida. Era sábado, estávamos tomando café da manhã em casa, portanto Mycroft me deu uma carona até a cena do crime e ficou aguardando junto ao carro; eu esperava terminar tudo a tempo de almoçarmos juntos, com sorte antes que o governo entrasse na costumeira crise do final de semana. – Mycroft fez uma careta, mas não interrompeu. — Donovan estava tomando o depoimento da vítima, e eu fui ver com Anderson se ele havia encontrado algo que identificasse o corpo. Então, enquanto eu me erguia do lado do cadáver, vi que um sujeito loiro estava encostado no carro, perto demais de Mycroft. E Mycroft estava rindo; não sorrindo, mas genuinamente rindo! – ele interrompeu a história com um sorriso constrangido, e olhou o político de canto – Você raramente ri de verdade, quanto mais em público. Acho que vê-lo tão à vontade perto de outro homem me perturbou mais do que se se eu tivesse pego ele te beijando ou algo assim.
- Gregory...
- Me deixe terminar, My. Eu nunca expliquei porque eu agi feito um Neandertal naquele dia, não é? – Mycroft deu um sorriso enigmático e acariciou-lhe a mão, incitando-o a prosseguir. Gregory virou-se para a filha e o amigo – Então, lá está Mycroft, distraído, rindo com aquele sujeito, todo relaxado contra o carro, quando eu chego de supetão por trás, puxo ele pela cintura e dou o beijo mais indecente possível, dentro dos limites da legalidade, claro. – Mycroft escondeu o rosto nas mãos, suspirando, enquanto ouvia as risadas de Nat e Dimmo. – Quando finalmente nos separamos, ele teve que se apoiar contra mim, e eu tive que me apoiar no carro. Ele levou uns três segundos para se recompor, pigarrear e se virar para o sujeito... – Mycroft ergueu o rosto e interrompeu, terminando a história ele mesmo.
- Eu peguei a mão de Gregory, virei-me para meu amigo e falei “Harry, este é o Detetive Inspetor Gregory Lestrade, meu parceiro. Gregory, este é Sir Harry Saint Wilson, um antigo colega de universidade... e o Valete de Sua Majestade.” Gregory ficou absolutamente lívido quando ouviu a última parte, e parecia claramente desejar que um buraco se abrisse sob seus pés e o engolisse. Harry, que é um homem muito bem humorado, estendeu a mão e respondeu “Prazer, Lestrade. Holmes falou muito sobre você, só nunca mencionou o quão... possessivo você é”. Gregory cumprimentou-o, murmurou alguma coisa sobre precisar dar um pulo na Yard e enfiou-se dentro do carro, pedindo que eu não demorasse. Eu me despedi de Harry, desculpando-me pela indelicadeza do meu companheiro, e entrei no carro... e encontrei Gregory com a cabeça enfiada entre os joelhos, murmurando algo sobre ser um idiota ciumento e ter arruinado a minha carreira com o comportamento dele. Um contrassenso, obviamente, uma vez que Harry não é em instância alguma meu superior, e como meu amigo, jamais faria qualquer comentário em nosso ambiente de trabalho que pudesse comprometer minha posição junto à Coroa. Ele sabe que o Reino perderia mais com isso do que eu, pessoalmente.
- E esse é meu modesto amante, senhoras e senhores. – os dois riram juntos, perdendo o olhar suave com que Natalie observava a cena.
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Quando Mycroft chegou ao hospital para o horário de visitas da noite, estranhou a ausência de Sherlock. John estava no quarto, examinando o prontuário de Gregory, como ele solicitara, e conversando com o inspetor e com Christian. Ele cumprimentou o parceiro com um beijo casto e acenou para John e Christian enquanto se sentava na cadeira ao lado da cama. Sentia-se exausto, e não tinha bem certeza de que horas seu dia terminaria.
- Conversei com a enfermeira-chefe, Gregory, e ela concordou em ficar com seu celular. Caso você queira ligar para alguém durante um dos horários de visita, só precisa chama-la. Mas ela não vai liberar o celular em nenhum outro horário.
- Ótimo, eu posso ligar para o Johnny amanhã à noite. Como foi a sua tarde? – Mycroft suspirou.
- Pavorosa, mas era de se esperar. Estamos lidando com alguns... problemas no Leste, por assim dizer. John, onde anda meu irmão?
- Em casa, fazendo um experimento que envolve algum tipo de ácido, unhas e cinzas de charuto, se eu entendi os resmungos dele. Ele disse que vem amanhã pela manhã perturbar Greg um pouco. – ao ver a expressão sombria de Mycroft, ele emendou – Estou brincando, Mycroft. Jesus, você realmente acha que ele ia... desculpe, deixa eu retificar isso: você realmente acha que eu ia deixar ele perturbar o Greg na UTI?
-Eu sei, John. Mas você vive com meu irmão e o conhece melhor do que ninguém; sabe bem que ele é capaz de aparecer aqui com um jarro de falanges em conserva ou algo assim. – Christian olhou divertido para os dois e balançou a cabeça, incrédulo – E sua esposa, Christian, como vai?
- Bem, obrigado, Mycroft. Ela deve aparecer mais para o final da semana. – eles foram subitamente interrompidos pelo som de God Save the Queen. Mycroft soltou uma imprecação em voz baixa e desculpou-se, atendendo ao telefone.
- Mycroft Holmes. – Gregory ficou preocupado quando, depois de ouvir seu interlocutor por alguns segundos, toda a cor do rosto de Mycroft pareceu desaparecer. Ele sentou-se reto na cadeira. – Sim. Sim, eu compreendo. Estarei aí em vinte minutos. – ele desligou e soltou uma torrente de imprecações, que sobressaltou os outros três, e fez uma nova ligação. — Anthea? A situação deteriorou-se no leste. O carro. Agora. – ele desligou o telefone e ergueu-se, ajeitando o terno, seu rosto uma máscara rígida. Gregory sentiu um princípio de pânico instalar-se em seu peito.
- My? O que houve? – o político inclinou-se e beijou-lhe a testa, fazendo uma carícia breve nos fios grisalhos e rebeldes.
- Um problema dos grandes, meu caro. Temo que não saiba se vou poder voltar para vê-lo tão cedo. Talvez eu tenha que sair do país por uns dias, ainda não tenho certeza. John, — ele virou-se e encarou o médico — conto com você para zelar pelo bem estar de Gregory, e cuidar para que meu irmão não o incomode. Christian, mande minhas recomendações para sua esposa. Boa noite, senhores. – ele virou-se para sair do quarto, e Gregory interpelou-o.
- Mycroft, não pode pelo menos me dar uma dica sobre o que aconteceu? – o político parou no umbral e virou-se para encarar Gregory.
- Lembra do que eu lhe falei ontem à noite? Parece que a Terceira Guerra não é uma coisa tão impossível assim.
Notas finais
Until next week!
Eowin
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