Let Me Take Care Of You

6 PARTE V – A STUDY IN LONELINESS


As duas semanas de Greg na UTI se acomodaram em uma rotina confortável. Suas filhas vinham visita-lo em horários alternados – Natalie até convencera o namorado a vir com ela duas vezes -, todos seus colegas da Yard apareceram, e John vinha todas as noites examinar seu prontuário e tranquiliza-lo quanto a sua recuperação. A única pessoa que brilhava pela ausência era, justamente, a pessoa que Greg mais queria ao seu lado: Mycroft.

Desde a ligação recebida em seu segundo dia no hospital, o político estivera completamente fora de contato. Gregory não recebera nenhuma palavra dele. Ele, obviamente, se divertira mandando textos todos os dias de noite, sabendo que, em algum momento, Mycroft iria checar seu celular, e talvez eles lhe fizessem sorrir um pouco.

Mostrei meu presente de Dia dos Namorados para John. Ele me chamou de “bastardo sortudo”. Então eu perguntei o que ele tinha comprado para Sherlock e ele mandou eu me ferrar. Mas aquele vermelhão no rosto dele me é familiar. – Greg

Seu irmão é um bastardo, você sabia disso? Ele veio perguntar por que eu não estava enviando casos para ele. É bom que eu esteja preso a soro, máquinas e Deus sabe o que mais, senão eu já tinha matado esse desgraçado com as mãos nuas. — Greg

Meu Deus, que tédio. Sally esteve aqui hoje, completamente descabelada, dizendo que Gregson está deixando toda a minha equipe maluca. Ela disse que é mais fácil lidar com Sherlock. E também disse que, se algum dia eu contar isso pra ele, eu sou um homem morto. – Greg

Você tem ideia da falta que você me faz, seu bastardo? Por que eu tinha que me apaixonar pelo maldito Governo Britânico? – Greg

Acabei de me dar conta de que eu ainda não tinha falado isso, não é? Bom, mas é a verdade. Estou apaixonado por você, Mycroft Holmes. E espero uma compensação ampla por você não estar na cabeceira do meu leito enquanto eu sofro de dores excruciantes e tédio mortal. – Greg

Estou brincando sobre as dores excruciantes, My, não vá ficar preocupado. Mas o tédio mortal é verdadeiro. E a coisa sobre estar apaixonado também. – Greg

Dimmo esteve aqui hoje de tarde, enrolou, enrolou e perguntou sobre a Nat. Eu dei o telefone dela pra ele. Sou um homem morto, My. Pode encomendar a coroa, ela vai cometer parricídio quando descobrir. – Greg

Nat esteve aqui hoje de manhã, e disse que Dimmo ligou para ela, para pedir conselhos forenses. Ela comentou que ele tem uma bundinha gostosa. Argh. Por que eu tenho esse tipo de relacionamento com as minhas filhas? Não queira saber o que ela falou do seu irmão; eu nunca vou me recuperar do dano. – Greg

Sherlock está aqui, neste exato momento, fumegando porque Nad insinuou que a enfermeira do plantão noturno estava em termos mais do que amigáveis com John na última vez em que ela veio aqui. Ele acha que está sendo muito discreto, mas o único que não notou que ele está furioso foi John. – Greg

Eu espero que você esteja dormindo e comendo decentemente, Mycroft Holmes. Se eu descobrir que você passou os últimos dias à base de chá com biscoitos e cochilos de vinte minutos na cadeira de um escritório, Deus te ajude. – Greg

Eu estou enlouquecendo de tédio – e de saudade. Faz uma semana que não nos vemos, ou nos falamos. Eu sei que estamos acostumados, mas normalmente eu volto no fim do dia para uma casa onde tudo tem o seu cheiro, e recebo pelo menos um SMS de boa noite. Ficar sem nem esses pequenos confortos é duro. Odeio cheiro de hospital. – Greg

Qual é o problema com o seu irmão e membros decepados, hein? – Greg

Ótimo, John e Sherlock estão discutindo, e eu e Dimmo estamos tendo que segurar o riso, de tanto que isso berra “briga de casal”. – Greg

Droga. Eles nos pegaram.

John ameaçou não vir mais olhar meu prontuário, e recomendar mais uma semana de UTI se eu não “me comportar como um adulto e parar de rir da desgraça dele”. Sherlock só me deu um olhar realmente sujo, como se estivesse planejando a maneira mais fácil de vingar-se de mim. Me salve, My. – Greg

Nad está comprando uma passagem só de ida pro inferno. Ela não parou de atazanar John e Sherlock desde o momento em que pisou aqui. John está mais vermelho que uma beterraba, e seu irmão está com um olhar positivamente homicida. Meu pobre neto vai acabar crescendo sem mãe. – Greg

Hey, boas notícias, My: amanhã já vou ser transferido para o quarto. :-) Então pode arrastar esse seu traseiro delicioso de volta para a Inglaterra, porque agora você pode me ver em qualquer horário. Sério, sinto sua falta. — Greg

Quantas pessoas você teve que subornar pra conseguir esse quarto pra mim, My? Parece mais um quarto de hotel – com a óbvia exceção da cama hospitalar e da aparelhagem obrigatória. E eu posso ficar com meu celular o dia inteiro, então espere toneladas de mensagens até você voltar.

Eu adorei as violetas. Conhecendo você, deve haver algum significado por trás delas. Volte logo para me explicar. – Greg

Adivinha quem está aqui nesse momento, mandando muitos beijos para o vovô Mycki? – Greg

Vou começar a fisioterapia hoje. Segundo o médico, possivelmente vou pra casa andando, talvez só com uma bengala. Vai ser bom sair um pouco dessa cama. — Greg

Tem um canal reprisando vários episódios do Monty Python’s Flying Circus. Estou salvo. — Greg

Deus, como eu sinto a sua falta na hora de dormir. Eu daria de bom grado outro órgão vital pra poder estar em casa com você. – Greg

MHGLMHGLMHGLMHGLMHGLMHGLMHGLMHGLMHGL

Mycroft desembarcou em Heathrow no meio da madrugada, sentindo-se exausto, mas aliviado. Finalmente estava em casa. Ele embarcou no carro que já o aguardava, e puxou seu celular do bolso, relendo as mensagens de Gregory. Doce, querido Gregory, mandando aqueles pequenos pedaços de normalidade para iluminar seus dias terríveis. Ele só conseguia ler as mensagens quando já era meio da madrugada em Londres, e não teve coração de responde-las – especialmente aquelas em que Gregory abria seu coração, falando do quanto sentia a sua falta. Mas agora finalmente tudo se acertara – ao menos por um tempo. A crise estava controlada, e por mais que ele tivesse toneladas de trabalho esperando em seu escritório, ele sempre podia contar com Anthea para reservar uma hora ou duas do dia para que ele pudesse ver Gregory no hospital. Deus, se não fosse duas da manhã, ele iria até St. Bart’s naquele exato momento.

A última mensagem fez o coração de Mycroft encolher-se e apertar-se de dor. Ele sabia bem o que Gregory queria dizer. Ele mesmo não tinha uma noite de sono decente há semanas. E não estava particularmente excitado em voltar para o flat vazio e frio, para possivelmente encarar uma nova noite insone. Sem pensar duas vezes, ele baixou a divisória do carro para falar com seu motorista.

— Joshua, para St. Bart’s, por favor. – o motorista assentiu, em silêncio.

Mycroft desceu do carro quase arrastando os pés, sentindo o peso das semanas de noites em claro e dias tomados da tensão de decisões de vida e morte pesarem sobre seus ombros. A enfermeira da recepção não lhe lançou mais do que um olhar breve; era uma veterana do hospital, e já conhecia Mycroft desde os tempos em que ele vinha resgatar seu irmão desgarrado. Ela sabia que ele se encaminhava para a ala privativa, e não via razão para impedi-lo, mesmo àquela hora; o homem, afinal de contas, fazia generosas doações ao hospital, duas vezes por ano, e mantinha quase que sozinho o programa de bolsas da faculdade de medicina.

Na porta do quarto de Gregory, ele hesitou. Abriu-a com delicadeza, tentando não fazer ruído nenhum. A luz do luar penetrava pela cortina entreaberta, banhando a cama onde Gregory dormia, roncando suavemente. Os cabelos dele pareciam feitos de fios de prata, e as linhas do rosto dissolviam-se, fazendo-o parecer jovem e despreocupado. Mycroft aproximou-se e sentou-se na confortável poltrona que ladeava a cabeceira da cama. Ele curvou-se e beijou com o máximo de leveza possível a testa de Gregory, que sorriu e murmurou seu nome no sono.

- Estou em casa, amor. – ele sussurrou, antes de recostar-se na poltrona e, finalmente, permitir-se adormecer.

Notas finais
Esse capítulo é uma espécie de interlúdio na história... espero sinceramente que gostem =)

Until next week,

Eowin