Let Me Take Care Of You
3 PARTE II – SCARED
Mycroft entrou em St. Bart's sem se preocupar em parar na recepção. Gregory estaria alojado na ala privativa, e seus homens estariam encarregados da segurança. Não havia necessidade de se submeter à burocracia tediosa da instituição. Subiu até o terceiro andar do hospital e cumprimentou o guarda-costas postado na entrada da ala com um aceno breve de cabeça. Sentados nas desconfortáveis cadeiras plásticas do corredor de espera, em um silêncio tenso, aguardavam Sherlock e Anthea. Ao ver o chefe chegar, a jovem ergueu-se, apertou de leve o braço do político ao passar por ele e saiu. Sherlock levantou-se, parecendo embaraçado, o que era uma novidade para Mycroft – Sherlock nunca sentia vergonha de nada. Parecia que a convivência com o Doutor Watson estava trazendo grandes benefícios para as habilidades sociais de seu irmão, se ele era capaz de sentir algo.
- John está conversando com o médico de plantão. Ele tentou entrar no bloco cirúrgico, mas disseram que ele seria de pouca ajuda. Mesmo assim, deixaram ele acompanhar a cirurgia de uma das galerias. – o detetive aproximou-se do irmão e, hesitante, colocou uma mão no ombro dele. – Mycroft... eu sei o que Lestrade significa para você. E eu reconheço o que ele significou para mim. Eu gostaria de poder fazer mais... sinto muito por não poder doar sangue para ele. – Mycroft assentiu lentamente, sabendo o quão difícil devia ter sido para Sherlock falar aquelas palavras, e lhe oferecer aquele pífio conforto, uma paródia de abraço. Respirando fundo e olhando em volta, certificando-se de que estavam sozinhos naquele instante, Mycroft puxou o irmão para seus braços, tomando-o de surpresa em um aperto estreito. Ele colou a boca na orelha do caçula.
- Eu estou assustado, Lockie. – Sherlock enrijeceu o corpo ao ouvir Mycroft chamar-lhe pelo apelido de infância. A última vez fora durante a sua desintoxicação. – Eu estou aterrorizado só de cogitar a possibilidade de que algo ruim aconteça com ele. E esse terror me paralisa completamente, e eu não consigo pensar. – Sherlock hesitou por um momento, antes de enlaçar com cuidado a cintura do irmão, encostando o rosto no dele.
- Vai ficar tudo bem, Myc. Lestrade é duro na queda. Não vai ser isso que vai derrubá-lo. – Mycroft respirou fundo e desvencilhou-se do irmão, tentando esconder o brilho das lágrimas nos seus olhos. Ele sentou-se e apoiou o queixo no cabo do guarda-chuva.
- Obrigado, irmão. – Sherlock sentou-se ao lado dele, recostando a cabeça na parede. – A única coisa que podemos fazer agora é esperar.
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Depois de cinco horas de espera agoniante, John apareceu no fundo do corredor, aparentando cansaço, mas com a fisionomia aliviada. Mycroft não erguera o rosto durante todo o tempo de espera; permanecera com o rosto apoiado no guarda-chuva, os olhos fechados, como em oração. Sherlock andara de um lado para o outro, colara e descolara seus adesivos de nicotina e batucara a Nona Sinfonia completa no encosto da cadeira. Agora ele estava em pé, escorado na parede diante do irmão. Ao avistar John, ele saltou ao encontro do amigo.
- Como ele está? – John aproximou-se de Mycroft e tocou-lhe de leve o ombro. O político ergueu o olhar, a respiração presa, mas soltou-a devagar ao ver a expressão relaxada do médico.
- Ele está fora de perigo. A cirurgia foi tranquila; as balas foram extraídas, assim como o baço, os nervos e tendões rompidos foram remendados, a placa já está no lugar. Nada que repouso e fisioterapia não curem. Ele deve ficar no tratamento intensivo por cerca de 15 dias, depois talvez mais umas duas ou três semanas no hospital, dependendo de como o quadro dele avançar, até ficar bem o suficiente para voltar pra casa. Ele vai reclamar, com certeza. – John sorriu para Mycroft, que assentiu lentamente, deixando o alívio inundar seu corpo. Gregory estava vivo. Era o único pensamento em sua cabeça. Sua mente, sempre inundada de elucubrações, planos e estratégias, estava vazia depois do pânico que atravessara. O único pensamento em sua cabeça no momento era "Gregory está vivo".
- Muito obrigado, John. – ele deu um sorriso cortês. – Foi muito mais fácil para mim ao saber que você estava acompanhando a cirurgia, mesmo que apenas como espectador. Eu agradeço. – John sorriu e deu de ombros.
- Não foi nenhum sacrifício, Mycroft. Greg é meu amigo também. E eu sei o quanto você e Sherlock se importam com ele; por mais que Sherlock não admita. – ele falou, dirigindo uma carranca ao amigo. – Se você me desculpar, eu vou até a cafeteria do hospital. Mal tive tempo para uma xícara de chá, e já passa do meio dia. Estou desmaiando de fome. Sherlock, você vem? – o detetive olhou para o irmão mais velho, que deu um aceno quase imperceptível com a cabeça. Ele prontamente seguiu o médico rumo ao primeiro andar. Mycroft ficou olhando os dois se afastarem, caminhando muito junto um do outro, os ombros se esbarrando, ocasionalmente se tocando ao frisar algum ponto da conversa. Ele revirou os olhos; "Meu Deus, quanto tempo até eles se darem conta?". Levantara-se para esticar a coluna dolorida, quando de repente ouviu o barulho de passos correndo em sua direção, e virou-se a tempo de amparar a figura pequena que quase caía.
- Mycroft! – a pessoa falou, parecendo a um só tempo aliviada e angustiada. – Como ele está? — O político sorriu para a pessoa em seus braços e para as duas outras figuras que vinham correndo em seu encalço.
- Boa tarde, meus caros. Tenho boas notícias.
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