Mycroft Holmes estava no meio de uma difícil teleconferência com o Primeiro Ministro, que já durava a noite inteira, quando sua assistente irrompeu em seu escritório, os lábios pálidos sendo o único sinal de emoção em seu rosto. Ele lançou um olhar de desagrado para a jovem.

- Estou ocupado, Anthea.

- Senhor... temos um código 9. – Mycroft empalideceu visivelmente e lutou para controlar sua expressão. Código 9 significava familiar em risco de morte. Mycroft se importava com apenas cinco pessoas no mundo a quem atribuíra o código. Uma delas estava lhe trazendo a notícia. Sua mãe, embora em excelente condição de saúde, fora quem lhes legara a tendência a atrair encrencas. E Mycroft estava mais do que ciente dos riscos ocupacionais em que Sherlock se colocava, e arrastava junto o bom doutor John Watson. E, claro, havia Gregory, seu doce e teimoso detetive-inspetor, cujo trabalho lhe era uma constante fonte de preocupação e ansiedade.

- Quem? – pela profunda respiração que Anthea tomou, Mycroft antecipou a resposta.

- O detetive-inspetor Lestrade. – toda a força deixou o corpo do político, e ele deixou-se afundar na cadeira do escritório. Não, Deus, não Gregory. Não agora, quando eles finalmente haviam se acertado; quando depois de seis anos de amizade e de amor platônico, ele finalmente tinha o policial para si. Fazia pouco mais de um mês desde que Gregory admitira seus sentimentos! Não, ele não...

- Vá, Holmes. – a voz suave do Primeiro Ministro arrancou Mycroft do transe de sua dor – O mais importante já está definido, agora é só uma questão de esperarmos a resposta. Ligue-me depois, para me dizer como Lestrade está.

- Obrigado, senhor. – Mycroft ergueu-se de um salto, endireitando o paletó ajustado e correndo para pegar o sobretudo e seu inseparável guarda-chuva. Enquanto trancava a porta do escritório e ativava o alarme, ouvia o tap-tap de sua assistente digitando furiosamente em seu Blackberry. – Relatório, Anthea. – ele falou, seco, dirigindo-se ao elevador.

- O inspetor e a Sargento Donovan estavam de tocaia pelo caso Winger. – Mycroft assentiu. Gregory não dormia em casa há três noites, ajudando a desbaratar uma quadrilha de contrabandistas de armas. Era um assunto trivial demais para que Mycroft interviesse (nada que ameaçasse a segurança do Reino), então ele não se preocupou em manter uma vigilância mais estrita. – Próximo ao amanhecer, eles ouviram um grito de socorro, seguido de dois disparos. Encontraram a vítima morta, com dois tiros na cabeça, e o inspetor Lestrade saiu em perseguição ao suspeito, orientando a sargento Donovan a cuidar da cena do crime. Ele... levou três tiros antes que pudesse reagir. – Mycroft sentiu seu estômago dar uma volta dolorosa, quase devolvendo a refeição frugal que ele fizera durante a madrugada. Respirou fundo e esperou que Anthea continuasse. – Só fui capaz de encontra-lo porque ele ligou para o senhor logo após ser baleado.

- Como assim?

- Eu estava com seu celular pessoal, como o senhor me orientou. Ele tocou, e eu vi que era o inspetor Lestrade... e eu sei que ele nunca liga, a não ser que seja algo de extrema importância; ele prefere SMSs, se o assunto não exige resposta imediata. Eu atendi, e... – Anthea deu um suspiro profundo, tentando dominar o tremor na voz antes de continuar. – Ele só falou “Me encontre, My, rápido”.

Mycroft fechou os olhos por um momento, encostando-se à parede do elevador. Se ele houvesse desligado o celular, como costumava fazer quando tinha reuniões longas e confidenciais... mas desde que ele e Gregory passaram a morar juntos, antes mesmo de qualquer envolvimento romântico, ele tomara o hábito de deixar o telefone com Anthea, ligado. O trabalho de Gregory era tão absorvente e perigoso quanto o seu próprio; ele ficava mais aliviado só de saber que o policial podia ao menos deixar um recado direto com sua assistente, em caso de emergência.

Essa pequena mudança em um hábito de anos podia ter salvado a vida de Lestrade.

- Qual a gravidade dos ferimentos? – ele perguntou, apertando com força o cabo de bambu do guarda-chuva, as juntas dos dedos embranquecidas pelo esforço.

- Um tiro no ombro esquerdo; alguns nervos rompidos, um tendão, nenhum vaso sanguíneo importante. Uma bala alojada no quadril; quebrou uma parte do osso pélvico e vai precisar de uma placa, mas também não fez nenhum dano maior. – Mycroft aguardou, sabendo que Anthea guardaria a notícia mais delicada para o final. – O terceiro tiro perfurou o baço. Ele perdeu muito sangue, vai precisar de uma transfusão massiva. Nós já contatamos a família. Eles estão a caminho.

Mycroft assentiu. O tipo sanguíneo de Gregory não era comum – B negativo. Era o mesmo tipo sanguíneo de Sherlock, mas ele não poderia doar, por causa de seu passado de viciado. E Mycroft, infelizmente, tinha um tipo sanguíneo mais raro ainda – AB negativo. Ele se sentiu inútil, enquanto entrava no grande carro preto que já o esperava na porta. Anthea fez menção de entrar, mas ele ergueu a mão, impedindo-a.

- Faça a gentileza de ir até Baker Street buscar meu irmão e o doutor Watson, minha cara, e leva-los até St. Bart’s. Eu preciso ficar sozinho com meus pensamentos por um momento. – a assistente assentiu e fechou a porta, sabendo que Mycroft não pretendia demonstrar vulnerabilidade na frente dela. O carro arrancou com suavidade, o motorista certamente já instruído por Anthea sobre o destino. No trânsito matutino, Mycroft sabia que o carro levaria, no mínimo, 25 minutos de seu escritório até o hospital. Ele largou o sobretudo e o guarda-chuva sobre o banco diante dele, puxou as pernas até o peito, enrolando-se em uma bola, enterrou o rosto entre os joelhos e deu vazão às lágrimas que já ameaçavam sufoca-lo.

A última vez que chorara assim já fazia mais de seis anos. Foi quando recebera o telefonema de Gregory – então apenas Detetive Inspetor Lestrade para ele -, avisando que Sherlock estava no hospital, depois de uma overdose, em estado crítico. O pânico de perder seu irmão caçula, de ter que levar a notícia até a Mansão Holmes e despedaçar o coração da sua mãe engolfaram Mycroft, e ele se permitiu chorar durante os 15 minutos que o carro levara até o hospital. Quando descera do carro, no entanto, encontrando um Lestrade nervoso e escabelado, de olhos vermelhos, fumando junto ao meio-fio, não havia sombra de lágrimas em seus olhos azuis, e seus lábios estavam apertados em uma linha fina. Lestrade olhara-o exasperado, certamente o julgando um bastardo insensível. Mas Mycroft aprendera, em uma idade muito tenra, a não demonstrar emoções fora de seu círculo de confiança; emoções eram fraquezas, e fraquezas podiam ser exploradas por seus inimigos.

As lágrimas ensoparam as calças bem passadas e as mangas do paletó ajustado. Mycroft chorava como fazia quase tudo em sua vida: sozinho, sem estardalhaço e procurando não chamar a menor atenção para si. As únicas pessoas capazes de arrancar alguma demonstração mais passional dele eram Sherlock... e Gregory. Com Gregory, Mycroft podia agir como se tivesse 20 anos e toda uma vida pela frente – despreocupado, tolo, sem pressa. Ele trazia o melhor de Mycroft à tona, e o político não conseguia mais imaginar uma vida sem o obstinado policial ao seu lado.

Quando as lágrimas pareciam ter se esgotado, Mycroft sentou-se reto no banco, com um suspiro. Mexeu em um compartimento camuflado sob o assento e pescou um kit de primeiros-socorros. Enxugou o rosto com o lenço de linho que trazia no bolso do colete, tomando cuidado para não esfregar a pele. Pegou um vidro de colírio e pingou cuidadosamente duas gotas em cada olho, em seguida pressionando durante alguns segundos um pacote de gelo pego no frigobar sobre os mesmos.

Ao descer do carro em frente ao hospital, a única coisa que traía alguma emoção no rosto de Mycroft Holmes era uma veia que latejava incessantemente em sua têmpora esquerda.

Notas finais
N/A: Eu sempre imagino o Mycroft assim: uma pessoa tão acostumada a engarrafar suas emoções, a nunca demonstrar fraqueza diante de ninguém... mas nunca um homem insensível, isso não. Quando ele afirma que se preocupar não é uma vantagem, ele quer dizer deixar que os outros saibam que ele se preocupa. Na minha opinião, claro.

Bom, semana que vem tem mais, minha gente.

Until we meet again,

Eowin