Lenora e Phillip — Um amor quase impossível
6 Capítulo 5
Capítulo 5
(...)
Em Pambley, o atual visconde Weston sofria de uma terrível dor de cabeça causada pelos dois irmãos mais novos de quem ficara responsável. Todos conheciam os gêmeos Kate e Charles e todos os temiam, com razão. Desde a morte prematura de seu pai os dois tornaram-se... Impossíveis de serem controlados. Armavam travessuras, armadilhas e já tinham assustado ao menos três babás somente naquele ano. Phillip não gostava de dar nomes e tão pouco se alegrava em concordar com alguns elogios que os irmãos recebiam das pessoas, mas o que podia fazer? Seus irmãos eram mesmo duas pestes.
E ouvia isso da babá Dudley naquele momento.
A mulher reclamava sobre uma das tantas brincadeiras que costumavam aprontar, mas Phillip não estava realmente prestando muita atenção em suas palavras. Apesar de manter os olhos firmes no rosto apreensivo e irritado da mulher responsável por cuidar dos dois mais novos, os pensamentos do visconde encontravam-se longe dali. Longe das reclamações e da peça que pregaram na mulher. Ele apenas ouviu de relance a menção de um peixe cru em sua cama e nada mais que isso.
— Tomarei providências. — disse quando a viu parar de falar.
Ele nem mesmo sabia sobre o que estava se referindo, mas garantiu a ela que cuidaria do assunto. E sabia que deveria fazer isso o quanto antes.
— Acho bom, milorde — a mulher respondeu. — Caso tenha se esquecido, sou uma criada deveras popular por entre as famílias e asseguro que há muitas igualmente respeitosas querendo meus serviços.
O alerta atraiu sua atenção.
— Quero deixar claro que a qualquer momento posso muito bem deixá-lo desamparado — disse, muito orgulhosa.
Phillip surpreendeu-se com a audácia da babá, mas nada disse a respeito porque não queria ter de ouvir novamente sua voz e também porque pouco se importava com a ameaça de uma possível demissão. Até porque, ele sabia de sua fama e foi por esse mesmo motivo que a contratou, porque sabia que a senhora Dudley seria capaz de cuidar das duas pestes que tinha como irmãos.
— Claro, claro.
Ele fez um gesto com a mão a dispensando, a mulher saiu de seu escritório resmungando algumas palavras que não tinham sentido para o homem e quando ele finalmente pensou que teria um momento de paz, alguém batera à porta. Phillip sequer teve tempo para responder ou pensar em que poderia ser, a mesma se abriu e a figura de sua tia surgiu.
A atual e até então viúva condessa Beston adentrou a sala com passos firmes demais para uma dama, sua presença no grande cômodo era perceptível e impossível de ser ignorada.
— Tia?... — ele abriu os olhos conforme ela caminhava para perto de sua mesa. — ... Condessa Beston.
A saudou formalmente, um tanto agitado demais com sua visita inesperada. Desde que a mulher se casara com o conde Michael Beston as visitas da mulher eram apenas emergenciais, fossem para trazer notícias ruins ou boas. Contudo desde o falecimento de seu pai e também de seu marido, sua tia o visitava para garantir que Phillip não tinha perdido o controle da situação como novo visconde.
E ela também temia pela vida dos sobrinhos mais novos, mesmo que não revelasse isso em voz alta.
— Sem formalidades, querido — ela pediu com um sorriso fraco, negando que ele se levantasse quando fez menção. — Sou sua tia, não precisamos de títulos nem nada disso quando estamos apenas entre nós.
— Quer que eu peça para preparar o chá? Podemos ir para o salão...
— Não, não. — o interrompeu, seu semblante tornou-se sério. — Não vim para conversas informais e sim para tratar de assuntos sérios.
Nesse instante Phillip voltou o corpo para sua cadeia e a viu fazer o mesmo, sentando-se ambos de frente para o outro. Ele não deixou de notar no tremor que correu por seu corpo quando ouviu as palavras que saíram de seus lábios e mesmo que tentasse mostrar-se relaxado, seu corpo inteiro encontrava-se rígido.
— Sabe bem que nunca fui de dar atenção para as tantas fofocas que correm pela sociedade, mas hoje mais cedo ouvi algo que me deixou... Curiosa. — começou a falar, os olhos escuros fixos no rosto mais jovem do cavalheiro pareciam avaliá-lo.
Ele assentiu.
— Lady Coublepett tinha muito a dizer sobre o baile de ontem e dentre todas as fofocas que me contou me foi revelado que até o momento não tem cortejado nenhuma moça. Apesar de todos estarem dizendo que pretende casar-se até o fim da temporada.
Mentalmente o visconde amaldiçoou Lady Coublepett e sua língua gigantesca, na verdade nem tanto. Muitas moças e suas mães casamenteiras já sabiam que Phillip não tinha o propósito de casar-se com qualquer moça; ele gostaria sim de casar-se. Mas apenas com a moça com quem mantinha uma amizade secreta de suas famílias.
— Também me incomoda que há tantos boatos envolvendo seu nome em um possível casamento grande no futuro — contou. Ela parecia quase tão surpresa quanto ele. — E devido ao que tenho escutado recentemente, tenho quase certeza de que casamento não é uma possibilidade para você. Ao menos não até o fim dessa temporada.
— Não há...
— Poupe-me das desculpas de sempre — o interrompeu de maneira mais ríspida. — Tenho certeza de que já as ouvi antes e não preciso ouvi-las novamente.
Ela fez uma pausa demorada.
— Mas acho que não preciso lembrá-lo de seus deveres, não é mesmo? Seu pai se foi e agora torno-me responsável por você e seus irmãos indiretamente, prometi a ele que cuidaria do bem-estar dos três filhos quando ele partisse — o lembrou. — É um visconde, precisa de uma esposa para ajudá-lo em Pambley e também para ajudar a cuidar de seus irmãos!
Phillip outra vez assentiu. Realmente ele não tinha a intenção de casar-se com nenhuma das debutantes, muitas sequer lhe despertavam interesse para fazê-lo cogitar a ideia de convidá-las para uma dançar e sentia-se péssimo por isso, pois sabia que muitas delas estavam apenas cumprindo ordens dadas por suas mães.
Existia apenas uma moça que ele gostaria de ver como sua viscondessa e ela, infelizmente estava fora de seu alcance por motivos óbvios.
— Há inúmeras moças solteiras loucas para encontrar um marido, escolha uma e torne-a viscondessa. — a mulher disse simplesmente.
— Nenhuma delas me agrada. — disse firmemente.
— Não é possível! — duvidou. — Posso assegurar que ao menos há uma moça nessa sociedade que desperte em você alguma coisa, por mais simples que seja.
Ele negou.
Não queria ter de falar de casamento com sua tia, na verdade, não queria falar sobre aquele assunto com ninguém. Contudo achava que era hora da mulher ficar ciente do que ele queria para si.
Até porque, imaginava que isso fosse cessar as cobranças sobre casar-se.
— Não quero casar-me apenas porque sou obrigado ou porque Pambley precisa de uma viscondessa — respondeu, olhando para a mulher. — Se for para casar-me, eu quero que seja por amor e não apenas para cumprir uma obrigação que tenho.
A tia assentiu.
— E como casará por amor se não tenta conhecer nenhuma moça? — questionou, arqueando uma sobrancelha. — Faz quatro anos, Phillip. Não é possível que não converse nem conheça nenhuma moça com quem deseja relacionar-se.
Ele bufou.
Sentia como se tivesse sido encurralado em rua sem saída.
— Há uma... — ele começou a falar, mas logo parou. Não podia contar seu segredo assim para a mulher. Não podia.
— É mesmo?!
O tom de voz mudou, sua tia parecia mais calma do que estava momentos atrás.
— E quem seria a moça? Eu a conheço? Conheço sua família? Se desejar posso ajudá-lo com o cortejo.
Ele ficou calado por tempo demais. Ouvindo as perguntas que saltavam dos lábios da condessa Beston, ela realmente estava interessada em tirar tal informação dele e iria persistir se percebesse resistência.
Tornar público seu interesse por Lenora levantaria algumas suspeitas, sua tia era quase tão astuta quanto Lady Coublepett e ele não seria louco de brincar com sua inteligência.
Desde aquela noite de abril, durante o baile da duquesa Hale, Phillip sentia seu coração bater forte por ela e quando dançaram, encarando-a fixamente no par de olhos castanhos e grandes... Ele ficara hipnotizado, por sua beleza, sabedoria e humor.
E sem que percebesse, pensar nela trouxe em seus lábios um riso leve e sua tia o percebeu.
— Deve tratar de uma moça muito importante, até sorrindo está — observou ela, trazendo Phillip de volta de seus devaneios.
O visconde piscou, tentou disfarçar, mas já era tarde demais. Lady Beston já tinha percebido e iria atormentá-lo pela informação no nome da moça.
— Então, quem é ela? — questionou, como ele havia previsto que aconteceria.
Não houve uma resposta, ao menos não uma tão imediata e essa demora não o ajudou. O olhar da mulher sobre si tornou-se mais firme, ao ponto de ele questionar se ela estaria tentando ler sua mente de alguma maneira; o que ele não duvidava nem um pouco. Lembrou-se com certo pesar no coração de que seu pai era assim também, persistente quando queria alguma informação dos filhos e tinha aquele mesmo olhar firme.
Algo quase assustador, observou.
— Não adianta saber de quem se trata, tia — falou, tentando levantar-se de seu assento, mas logo desistiu da ideia. — Mesmo que eu a queira como esposa, jamais poderemos nos casar.
— E por que?
— É complicado.
— Complicado?
— Sim, complicado.
— De quantos outros complicados eu precisarei ouvir até que me fale o nome da moça? — perguntou de forma ríspida outra vez, olhando-o como se fosse ainda uma criança.
Por Deus! Era um homem com quase vinte e oito anos, sua tia não deveria olhá-lo como se o fizesse com os gêmeos.
— Lenora Barrington.
Ele reparou que, ao revelar para a tia o nome da única moça com quem gostaria de casar-se, sentiu como se acabasse de tirar um estranho peso de seus ombros e realmente o tirou. Vinha guardando aquele segredo por quatro anos, sua tia era a primeira pessoa a saber sobre isso.
— Ah.
Foi tudo o que saiu de seus lábios. Ele já esperava por isso, o silêncio incomum que se seguia quando ouvia o nome Barrington.
— Ah? — repetiu ele. — É só o que tem a dizer sobre isso?
A mulher deu com os ombros e Phillip se viu um tanto contrariado, estava imaginando reações exageradas e talvez até um longo sermão com todas as razões para convencê-lo de que estava fora de si.
— Bem, eu a conheço dos bailes, recitais e da família de onde vem — contou com muita naturalidade. — É uma moça adorável, um pouco severa com os solteiros... Se não me engano está em sua quarta temporada.
Ele assentiu.
— Ela é uma Barrington.
— Sim, qual o problema disso? — questionou.
O problema nisso? Pensou ele, e quanto a questão de suas famílias nutrir uma rixa fazia anos? Era como uma tradição que tinha de ser passada para todas as gerações Weston, seus filhos teriam de saber sobre a inimizade entre suas famílias, os filhos de seus filhos e assim por diante.
Seu pai já fizera a tarefa de contar para os gêmeos sobre a rixa e apesar de Phillip ter agradecido por não ter ficado com essa responsabilidade, ele queria ter dado uma pequena distorcida na história que fora contada. Gostaria de ter excluído Lenora disso, porque bem sabia que se os dois a encontrassem e soubessem quem era ela, iriam aprontar.
— Como assim qual o problema? Nossas famílias não são rivais desde... — ele fez uma pausa para pensar e deu-se conta de que não fazia ideia de quando foi que aquela rixa entre as duas famílias começou. — Desde sempre?
Novamente ela deu com os ombros, como se não estivesse dando a mínima para aquele assunto.
— Ora, essa besteira ainda é dita entre os Weston? — perguntou surpresa, um pouco decepcionada também. — Bem, sim, ambas as famílias são rivais e nunca entendi o motivo. Mas acho que isso não é um problema para vocês dois, não é mesmo?
— O que quer dizer?
— Não faça de mim como tola. — repreendeu, novamente o tratando como se ele fosse apenas uma criança. Ele simplesmente odiava quando a tia fazia isso, claramente para irritá-lo. — Acha que as fofocas que Lady Coublepett e eu trocamos não incluem a moça que afugenta pretendentes está sempre conversando com um certo amigo visconde dela?
Phillip não conseguiu nem mesmo piscar devido ao espanto. A mulher contara até isso para ela!
Estremeceu apenas de imaginar o que mais a Lady fofoqueira teria contado para sua tia, provavelmente sobre a conversa que tiveram na noite anterior.
— Percebo que não me desmentiu.
— E adiantaria de algo?
— Não. — a mulher parecia sorrir. — Mas, se isso o deixa mais aliviado, eu não faço nenhuma objeção a essa união.
Ele nada disse.
— Ela é uma moça belíssima e confiando nas palavras de Lady Coublepett, a única provida de inteligência na sociedade — riu do próprio comentário feito. — E se ela consegue fazer com que o imbecil do Haskett saia correndo, tenho certeza que é uma moça e tanto.
Mentalmente ele concordou.
Sua tia não fazia nem ideia do quanto. Na realidade, a sociedade parecia não ter ideia do quão especial e incrível era Lenora.
— E o que impede de cortejá-la? — perguntou. — São amigos, às vezes dançam juntos, acho que ela o aceitaria.
— A família dela não.
— Ah. — aquela sim era a reação que ele esperava dela.
— Exatamente.
— Mas você ao menos pensa em cortejá-la?
Aquela pergunta o deixou em silêncio. Phillip já pensou em tentar um cortejo, mesmo que isso seria algo completamente inaceitável por ambas as famílias, mas ele queria ao menos tentar. Contudo, depois de quatro anos, foi percebendo que as duas famílias manteriam aquela briga pelo tempo que fosse necessário e não seria um cortejo que mudaria isso.
— Nunca deixei de pensar nisso.
— Então por qual razão não o faz? Já é um homem adulto, consegue fazer isso. — argumentou a mulher. — A não ser que tenha medo da família dela.
— Não é tão simples...
Ele interrompeu-se, esperando que ela dissesse alguma coisa ou até mesmo retrucasse sua fala, mas ela apenas se calou por um tempo e ele pôde ver que sua mente parecia trabalhar em algo e ele temia o que ela poderia dizer a seguir.
— Prezo pelo respeito de sua família, mesmo que as nossas não sejam amigas — contou, era um peso aquele fator. — Não quero que isso acabe causando algum problema a Lenora, gosto muito dela e sempre prezei por nossa amizade, se isso acabar por estragá-la...
Sua tia soltou um muxoxo desdenhoso.
— Ora! — exclamou. — Case-se com ela e pronto, se demorar demais um tolo qualquer fará isso antes de você e então irá se lamentar pelo resto de sua vida.
Phillip encarou a tia, aquelas foram as mesmas palavras que ouviu de Lady Coublepett na noite anterior. E talvez tenha sido isso ou o fato de estar se demorando demais em tomar uma decisão, mas isso o deixou pensativo.
Muito pensativo.
E enquanto pensava a respeito das palavras da tia, Phillip não fazia nem ideia de que seus dois irmãos estavam atrás da porta, ouvindo cada palavra ali conversada.
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