Capítulo 6

(...)

PUM!

Phillip praticamente saltou de sua cama quando o primeiro estrondo ecoou pela casa, assustado por ser despertado inesperadamente, notou que era cedo demais para as badernas de seus irmãos e torceu, com todas as forças que poderia existir em si, que aquilo não passasse de apenas um sonho ruim de como seria seu dia.

PUM!

O segundo estrondo veio mais forte, um pouco mais alto também e pareceu vir de dentro de seu quarto. Isso o deixou ainda mais preocupado. Não com o fato de seus irmãos possivelmente estarem a derrubar toda a casa, mas de como o barulho de algo sendo completamente destruído ecoou pelo cômodo onde estava.

Parecia um aviso, de que Phillip deveria levantar-se e ver o que estava acontecendo.

A babá, pensou por um momento breve quase aliviado. Ela deveria estar cuidando deles e obviamente não o estava fazendo naquele momento. Pois ela jamais teria permitido que eles continuassem com a bagunça.

Ela não estar cuidando deles também o preocupou.

PUM!

O terceiro estrondo foi a gota d’água para ele, Phillip colocou-se de pé em um salto e procurou por suas próprias roupas de forma apressada é urgente. Geralmente ele esperava por Carter para ajudá-lo, mas aqueles barulhos... E toda a grande urgência que sentia de que algo grande e muito ruim estava acontecendo em sua casa não permitiu que ele se demorasse ali.

PUM!

Phillip parou o que fazia, dessa vez até mesmo o teto de seu quarto parecia que cairia a qualquer momento, esse último estrondo conseguiu ser ainda pior que os anteriores. Ele esperou, não sabia ao certo pelo quê, mas esperou. Olhou para o quarto e nada. O silêncio que se seguia depois de uma travessura como aquela nunca era um bom sinal e conhecia a seus irmãos bem o suficiente para temer qualquer coisa que eles fizessem.

Especialmente quando ficavam em silêncio.

O visconde vestiu as botas o mais rápido que pôde, olhou-se brevemente pelo espelho, estava vestido. Ainda que com o cabelo levemente desgrenhado. Phillip saiu de seu quarto e correu pelo corredor em direção a origem dos estrondos. No meio do caminho ele viu alguns dos criados correrem na direção contrária, Carter também estava lá, de frente para a porta da ala infantil e apontou de forma discreta para o local; a origem da bagunça.

— Os dois estão lá dentro?

Perguntou Phillip, alternando seu olhar entre a porta entreaberta e o mordomo.

— Estão, — respondeu o homem, ele fez uma pausa breve e engoliu seco. — Há mais alguém com eles, milorde.

— Ouvimos alguém, mas não sabemos quem pode ser. — respondeu uma das criadas.

Ele piscou.

— Quem?

Não houve tempo para uma resposta, um novo estrondo cortou o momento breve de silêncio e Phillip teve quase certeza de que poderia infartar a qualquer momento se seus irmãos continuassem com aquela baderna.

— Maldição!

Ele abriu a porta de uma só vez e foi surpreendido pela sequência de acontecimentos, primeiro seus olhos recaíam sobre os gêmeos com clara irritação e logo em seguida se focaram na babá Dudley que se encontrava amarrada junto a uma cadeira com um lenço amarrado em sua boca. A mulher começou a gritar — ou pelo menos tentar — e se balançar na cadeira.

Logo percebeu que toda a ala infantil se encontrava em uma grande bagunça, muitos de seus brinquedos estavam jogados pelo chão, alguns pareciam quebrados. Um pequeno baú com os dois nomes gravados em sua tampa estava jogado em um canto qualquer e ao redor pedaços irregulares de madeira. Ele olhou um pouco mais, até encontrar o que tinham destruído.

Uma mesa que usavam para seus desenhos e lições.

E então, como se nada daquilo fosse o suficiente para tornar aquela manhã agitada, um balde com lama caiu sobre ele. Phillip conseguiu ouvir a exclamação surpresa dos criados do lado de fora e soube que sua situação era... Lamentável para um visconde.

Phillip limpou o rosto, tirando apenas o excesso que caiu sobre seus olhos e então encarou os dois irmãos, Kate e Charles o encaravam de volta, se olharam e depois olharam para a babá ainda amarrada e então, saíram correndo. Os dois passaram apressados por ele, quase o derrubando e, Phillip um pouco atrasado em seus pensamentos, os perseguiu.

— Desamarem a babá! — gritou ao passar pelo mordomo e alguns criados que estavam por perto.

Ele sabia que, ao começar aquela insana perseguição por seus irmãos estaria sujando a casa e consequentemente dando um trabalho que poderia ser evitado aos criados, mas os dois não podiam simplesmente saírem ilesos daquela. Amarrar a babá? Ele mesmo já tinha feito isso quando tinha a mesma idade, mas a lama foi...

— Kate, Charles! — o mais velho gritou por seus nomes assim que os viu descer pela escada.

— Estávamos apenas brincando — respondeu Kate.

— A babá foi raptada por Kate e eu deveria resgatá-la. — completou Charles.

A despreocupação em suas vozes o fez piscar sem acreditar, para eles era tudo uma brincadeira?

— Parem de correr! — gritou outra vez, descendo os degraus da escada com mais dificuldade por causa da lama. Ele quase escorregou.

Os dois seguiram até saírem da casa e Phillip continuou a persegui-los, em certo momento os dois se separaram e ele seguiu o gêmeo que considerava mais fácil de ser apanhado: Charles. Kate era mais rápida por ser alguns centímetros mais alta do que o outro.

Charles seguiu até que estivessem perto do lago, o menino percebendo que estava perto de ser pego, começou a correr em zig-zag, tentando confundir o mais velho que, se esforçava para não desistir. O garoto seguiu a correr mais próximo do lago, ele não era fundo, mas Phillip temeu que ele fosse cair e por isso lançou-se em sua direção antes que algum incidente pudesse acontecer ali.

Agarrou Charles com força o sujando também com a lama, entre os protestos do menino e algumas reclamações pela sujeita, o mais velho cobriu a boca do mais novo com a mão.

— Charles você vai se afogar! — gritou o mais alto que pôde, sabendo que isso iria atrair a curiosidade de Kate.

Ele virou-se para o lago e entrou, apesar da água estar um pouco fria por ser cedo demais, a lama começou a soltar-se de suas roupas e corpo. Phillip não soltou Charles, começou a bater a mão livre na água para dar mais veracidade para sua farsa e, notou que o irmão nem reclamava mais, batia os pés com força como se tentasse ajudá-lo a capturar a irmã.

— Charles!

— Kate, me ajude! — gritou Phillip, esticando a mão livre na direção em que ela estava.

A menina nem pareceu perceber que estava sendo enganada, esticou o braço e segurou a mão do mais velho, não teve tempo nem mesmo de dar-se conta do que houve, Phillip a puxou para frente fazendo com que ela caísse dentro do lago também. Ele então soltou o garoto e, entre alguns protestos pelas roupas ensopadas, houve risada.

Nem mesmo ele conseguiu evitar.

— Estamos rindo, mas os dois estão de castigo — disse Phillip, sendo o primeiro a sair do lago para logo em seguida ajudar os dois mais novos. — Vão limpar toda a sujeira de lama da casa e da ala infantil e também vão ajudar o jardineiro a cuidar do jardim durante duas semanas.

— Phillip!

— Não pode fazer isso!

Os gêmeos começaram a reclamar, mas não adiantaria de nada, sua decisão já estava tomada e também o jardineiro precisaria mesmo de ajuda, afinal, Pambley era conhecida pelo imenso jardim e também sabia que seus irmãos não gostavam de tarefas árduas como aquela e castigá-los assim era a melhor solução que encontrou.

— Se continuarem reclamando aumentarei o castigo para um mês inteiro! — ameaçou ele, encarando os dois com firmeza. — Quase destruíram a ala infantil, destruíram sua mesa e alguns brinquedos... Poderiam ter ferido a mim e a babá! Foram irresponsáveis!

Kate e Charles se calaram.

— Entendo que gostem de brincar, mas o que fizeram dessa vez passou dos limites! — continuou o mais velho. — Não estou nem me referindo a lama e sim por terem amarrado a babá numa cadeira! No que estavam pensando?

— Era apenas uma brincadeira...

— Não precisavam tê-la amarrado! — ele olhou para os dois. — Agora voltem para a casa, vou pedir para que os criados expliquem como farão a limpeza da bagunça que fizeram e não quero ouvir reclamações. Entenderam-me?

Os dois assentiram, as cabeças baixas.

— Podem ir.

Os gêmeos seguiram de volta para a casa e Phillip seguiu mais atrás, as roupas molhadas e sujas de lama nem eram o que incomodada e sim o fato de que duas crianças de dez anos conseguiam armar travessuras que muitas vezes quase destruíram toda a casa.

Phillip sempre se perguntou a quem eles puxaram, os criados nunca mencionaram que ele fosse travesso como os irmãos, seu pai contava suas poucas travessuras, mas nunca foi nada perto do que os gêmeos causavam. Mas os dois…

Phillip sequer conseguia pensar direito quando tinha os gêmeos a ocupar sua mente. Se preocupava com eles e com seus futuros, em particular com Kate. Daqui alguns anos ela estaria debutando e, Deus lhe ajudasse para esse momento.

●●●

Lenora preguiçosamente relaxada no sofá, alheia a tudo e todos. Os pensamentos distantes demais enquanto acabava com os biscoitos amanteigados que acabaram de trazer.

Ela não esperava visitas de possíveis pretendentes, comparecia aos bailes e todos os eventos porque era exigido que fizesse isso, mas não criava expectativa de que alguém iria aparecer para tentar cortejá-la. Primeiro porque geralmente dançava com algum cavalheiro apenas por sua mãe obrigá-la e segundo porque nenhum homem realmente fazia aquele tipo de avanço.

Não que reclamasse, preferia assim. Não se preocupar em receber pretendentes, porque sabia que todos os solteiros existentes em Londres não lhe agradavam muito.

Apenas um, Phillip, mas ele não era um pretendente. E — infelizmente — nunca seria.

— Lenora! — a mãe lhe chamou assim que a viu deitada, acabando com os biscoitos. Aquela já era a segunda leva!

A jovem a olhou, não parecia muito incomodada pela possível bronca que levaria da mãe.

— Vai mesmo acabar com todos os biscoitos?

Ela deu com os ombros.

— Ninguém vai vir mamãe. — respondeu com um sorriso fingido de tristeza. — E não vou deixar que eles estraguem.

Lady Barrington fechou os olhos e suspirou, provavelmente resmungando sobre ela.

Grace sabia que era verdade, a filha apesar de vir de uma família popular e muito influente não atraia uma quantidade adequada de pretendentes e em quatro anos de temporada, apenas o futuro duque Haskett se mostrou disposto a começar um cortejo.

Essa mesma disposição sumiu quando Lenora o expulsou de sua casa. E o faria de novo, com um sorriso largo em seus lábios.

Dizia para a mãe não criar muita expectativa, ela mesma não o fazia porque era mais fácil aceitar que, somente um milagre faria com que Lenora enfim escolhesse alguém e não o afugentasse logo em seguida.

— Não está preocupada? — questionou a mãe, sentando-se ao seu lado depois de perceber que não iria adiantar nada esperar que alguém aparecesse.

Isso não iria acontecer.

— Preocupada? E com o que exatamente?

Lady Grace deu com os ombros.

— Isso? — ela gesticulou para a sala completamente vazia.

Lenora seguiu o gesto da mãe e pensou muito a respeito. Estava preocupada? Realmente preocupada que sua sala não estava abarrotada de pretendentes loucos para cortejá-la com buquês?

Tinha vinte e dois anos, estava em sua quarta temporada e para muitos isso já era algo com o qual se desesperar. A solteirice inevitável estava a bater em sua porta e Lenora sabia que ninguém iria se surpreender, na verdade todos já esperavam por isso.

Mas preocupada?

Ela olhou para a mãe.

— Honestamente? Me preocupo mais com a senhora e o papai — admitiu. — Sei que querem e esperam que me case também e sei que não gostam disso.

Ao imitar o gesto da mãe em mostrar a sala completamente vazia, a mais velha torceu muito levemente os lábios. Ela pareceu concordar, mas se conteve.

— Nos preocupamos porque seu pai e eu não queremos que fique sozinha pelo resto da vida — justificou-se. — Esperamos que alguém bom o suficiente para você apareça, que mova céus e terra para fazê-la feliz… Que lhe dê tudo.

Lenora sorriu.

— Mas eu preciso ser menos dura com os cavalheiros, não é?

Lady Barrington demorou para responder, mas a expressão que formou-se em seu rosto pareceu denunciá-la e ela soube que não poderia esconder sua real resposta. Não quando sabia que tinha uma filha quase tão astuta quanto ela mesma.

— Se puder ser um pouquinho menos assustadora com eles — pediu, olhando-a como se implorasse por isso. — Sei o que pensa sobre a maioria deles, mas deve existir ao menos um que não queira afugentar.

Lenora pensou em como sua mãe reagiria ao saber que o único cavalheiro que ela não afugentava era Phillip Weston. Mas achou melhor não dizer nada.

— E seu pai e eu gostaríamos que ao menos tentasse, — a mais velha tocou sua mão, esboçando um sorriso leve e discreto. — Só queremos o seu bem.

Havia muitas respostas que Lenora poderia ter dito para a mãe, a mais óbvia, a mesma que sempre usava quando seus pais tocavam no assunto casamento e aquelas que evitavam futuras perguntas. Mas pela primeira vez desde que debutou, Lenora Barrington escolheu a única resposta que sabia que agradaria a mãe.

O caminho mais curto e mais fácil também. Principalmente para si.

— Eu vou tentar. Juro.

Prometer algo para sua mãe significava realmente cumprir e, após ter noção das próprias palavras, Lenora percebeu que se enfiou em um caminho que não teria volta ou alguma nova desculpa para se livrar. Mentalmente ela fez uma aposta consigo mesma, de quanto tempo demoraria para que a mãe apresentasse algum solteiro que ela conhecesse.

E não estava nada ansiosa para esse momento.