Sophia teve um pesadelo. Sonhou com uma bruxa correndo atrás dela e gritando "Sua menina intrometida! Morra, morra!". A garota assustada, correra até os limites da Vila, desesperada, gritando por socorro, mas ninguém a ajudava.

Ela tropeçou e caiu. Olhou para cima, um garoto loiro, com o cabelo nos olhos e um pouco gordinho a esta encarando. Ela estende a mão, pedindo por ajuda. "Não consigo levantar, me ajude!" o menino não a ajudava, apenas encarava a garota do cabelo desgrenhado. "Por favor!" ela chorava "Ela está atrás de mim!", mas o menino não se movia; "ninguém gosta de você, se morrer, vamos comemorar. Ninguém atura sua chatice." Sophia entra em desespero, agarra nas roupas do menino para tentar levantar, mas este recua, cruzando os braços, ela olha para trás e vê a bruxa se aproximando segurando uma faca. "Não faça isso comigo, por favor!" ela implorava descontrolada. "Você não é minha amiga, não é nada minha! Por qual motivo iria te ajudar?" o garoto lhe dá as costas, e Sophia se vira, enxerga a bruxa bem na sua frente, brandindo a faca. "Agora você vai ver menina intrometida! Morrerá por sua curiosidade!" a bruxa desfere alguns golpes e Sophia acorda aos berros, totalmente descontrolada e chorando.

— Sophia! — Sua mãe Laura entra às pressas em seu quarto. Corre e abraça sua filha, tentando segurá-la. — Calma! Foi apenas um pesadelo.

— Não mamãe... — Chora a garota. — Eu senti ela me puxar... Foi real, ela queria me matar.

— Por que alguém iria querer te matar?

— Porque ninguém gosta de mim...

— Pare de falar asneira! Quem não gosta de você?

— Ninguém gosta mamãe. É por eu ser muito intrometida, mas eu não consigo ser diferente.

Laura abraça Sophia mais forte. É um pesar ouvir de sua filha que não se sente amada por ninguém. Todos sabem como ela é uma menina difícil, mas ela é tão boazinha! Tão dócil, adora conversar com todo mundo.

— Meu amor, meu pequeno amor, não se sinta assim. Você é uma criança adorável, não há ninguém capaz de duvidar disso. — Laura começa a cantar uma canção de ninar, coisa que costumava acalmar Sophia quando menor. E ainda funcionava. — Durma bem, meu bebê que cresceu. — A mãe se despede de sua cria já adormecida, e deixa o quarto.

No corredor para retornar à sua cama, depara-se com seu marido. Que lhe pergunta o que acontecera desta vez com Sophia. Laura, mostrando-se muito zangada com Bradley, diz o que aconteceu.

— Ah, foi uma história de Donen hoje. Sobre a bruxa da Vila.

— E você fala com essa tranquilidade toda? Eu já disse mais de mil vezes, nada de Lendas de meia-noite!

— Mas amor, você está sendo injusta comigo. Todas as crianças precisam ouvir as histórias do Contador. É tradição!

— Não me importa a tradição. Não é a tradição que põe as crianças para dormir, que as atura com medo toda noite, tendo pesadelos! Pesadelos.

— Ela nunca teve pesadelos. É a primeira vez.

— E para o seu bem que seja a última. Já chega o Tyler se perguntando por que é deixado de lado, agora me vem Sophia com medo de bruxas! Francamente Bradley, temos de ter uma conversa muito séria!

Ao ver sua esposa irritadiça, Bradley, sendo um marido inteligente, abraçou-a e disse:

— Calma, eu cuido de tudo, meu amor. Vamos voltar pra cama, estou exausto e ambos acordamos cedo amanhã.

Laura dá uma risada, conhece seu marido e sabe quando ele foge de uma boa briga sabendo que irá perder. Durante a noite, eles não foram mais chamados por nenhum de seus três filhos. Além de Sophia, eles tinham Tyler, garoto de 15 anos, que era miúdo e fraco, cabelos castanhos e lisos, e tinham Elizabeth, já com seus 17 anos, menina bonita, chama atenção de todos com seus cabelos negros e lisos, olhos verdes e corpo escultural, não havia um vestido que não lhe caísse bem, estava pronta para casar!

Na manhã seguinte, todos acordaram com o cheiro de café empesteando a casa. Todos se juntaram na mesa de madeira da sala de estar, esperando a mãe servir-lhes o desjejum.

— Ouvi a Sophia chorar ontem, o que aconteceu? — Pergunta Elizabeth.

— O bebê estava chorando? — Caçoou Tyler.

Sophia fica emburrada.

— Cala a boca Tyler! Eu não chorei não.

— Então quem foi que chorou? — Tyler ri, divertindo-se ao enfezar a irmã.

— Não te interessa. — A mãe interveio, sentando-se à mesa e servindo-se de café e pão.

Tyler fica mal-humorado durante a refeição inteira, enquanto o resto da família conversa e se diverte. O garoto miúdo e fraco tinha motivos para ficar desse jeito, se sentia sempre deixado de lado, por ser fraco e nunca ter forças para nada. E a única vítima possível era Sophia, a irmã caçula. Queria ser lenhador, como seu pai, mas todos já sabiam que o pequeno Tyler nunca teria forças para tal trabalho, o que depreciava tanto pai quanto filho.

Todos já saiam de casa para suas funções, Elizabeth leva Sophia para a escola, enquanto a mãe lava a louça do café e o pai começa a se arrumar para trabalhar. Tyler, o único ainda na mesa, junta suas forças para se levantar e ir atrás de Bradley que estava em seu quarto abotoando a camisa listrada vermelha.

— Pai? — Chama Tyler.

— Diga filho. — O pai olha para o garoto através do espelho.

— Eu queria saber se poderia ir com você no trabalho hoje.

Bradley suspira. Senta na cama de casal e convida seu filho para sentar ao seu lado. Era hora da conversa. Hora de falarem sobre o elefante na sala. Pois todos sabiam, mas ninguém ousava tocar no assunto da deficiência do lindo garoto de 15 anos que mal conseguia ir à padaria e voltar sem se sentir muitíssimo cansado. Tyler, com seu corpo magrelo, olha para o pai, o seu herói, com os olhos grandes de garoto sonhador, o que fazia Bradley perder a coragem de falar, mas isso não poderia mais ser adiado, tinham de falar daquele assunto, e não poderia mais adiar!

— Olha... Filho... É difícil para um pai dizer que um filho não pode seguir seus passos... Desde que você nasceu eu soube que me daria muito orgulho. E ainda sei disso, não duvide. Mas... Você é fraco, não serviria de lenhador, que exige muito esforço. Procure algo que você goste muito, e que não exija força, como... Como professor! Pode ser um ótimo professor! Mas lenhador não, filho, e não vale a pena tentar, você sabe que não consegue.

— Por isso você nunca me leva pra lugar nenhum. Tem vergonha de o seu filho ser fraco. — Tyler segurava as suas lágrimas, que insistiam em cair.

— Nunca teria vergonha de você, não ouse dizer uma coisa dessas! Eu apenas estou sendo realista.

— Mas é claro que tem vergonha de mim. Nunca me leva para passear, é sempre a Sophia ou a Elizabeth. Até parece que eu não existo. Nunca me levou pro médico pra ver se o que eu tenho é curável, apenas fecha a porta e finge que não existo. Pois se eu não existo, não sou uma decepção.

O garoto, profundamente ferido e magoado, vira as costas pro pai e, ignorando seu chamado, vai para seu quarto e tranca a porta. Tyler não gostava de ser miúdo e fraco, apenas era, fazia alguns anos que se sentia assim, e seus pais nunca o levaram ao médico, mesmo com suas insistências, "é normal dele" eles diziam, sem acreditar que seu filho pudesse estar doente. Em seu quarto, escuta os passos de seu pai, que vai embora trabalhar. O garoto triste e miúdo não sai da cama o dia todo, nem para o almoço ou para o jantar, estava muito magoado, não com o pai, mas consigo mesmo, por ser fraco e patético. Ele escuta mais passos pesados se aproximando e parar em frente ao seu quarto.

— Filho? — Seu pai bate na porta e entra sem esperar resposta.

— O que você quer? — Resmunga Tyler.

— Quero te levar para o médico. Acho que já passou da hora.

Rapidamente ele levanta da cama, alegre, finalmente veria o que há de errado com ele e então melhoraria e seria um grande lenhador, o mais forte de todos! Sua mãe também aparece no quarto, e põe um casaco em Tyler e o ajuda a levantar. Deixaram as duas garotas em casa e levaram seu filho para o médico. No caminho, Bradley carregou Tyler, que já estava com suas forças esgotadas e se encontrava ofegante. Chegando ao médico, foram rapidamente atendidos pelo Doutor Calvin, amigo da família. Após os exames de rotina, e a descrição dos sintomas do garoto, e de quando começou, e a informação detalhada de sua alimentação, o médico declarou:

— Ah, meus amigos, deixe-me explicar-lhes como funciona nossos corpos. O alimento que ingerimos diariamente serve de energia para gastarmos ao longo do dia com atividades. Quando não comemos direito, não temos energia e sem energia, ficamos fracos e miúdos. Assim como nosso Tyler.

—Ah então é tudo culpa dele! Essa fraqueza toda, é por não comer direito. — Contrariou a mãe, um pouco ofendida, como se o doutor insinuasse que ela não alimentava seus filhos corretamente.

— Calma Dona Laura, tudo que precisará é comer sempre de três em três horas algo saudável, como frutas, legumes e verduras e sem dúvida beber muita água. Deve ter uma alimentação reforçada e praticar muita atividade ao ar livre.

— E ele ficará mais forte? — Perguntou o pai esperançoso.

— Mais forte não, mas com certeza mais disposto. Todo esse cansaço e fraqueza irão embora, e creio que com a melhora na alimentação, ele dará uma engordada e deixará de ser miúdo e fraco. — O médico sorri para a família que sorri de volta.

Então Tyler não era mesmo doente, estava apenas sem energia! Não era nada grave ou incurável. Graças aos céus!

Chegando em casa, Laura preparou uma refeição reforçada para Tyler que comeu tudo com gosto, apenas a ideia de que não se sentiria mais fraco, já lhe dava forças. Mais tarde, antes de dormir, comera umas duas maçãs que sua mãe colhera naquela tarde. As expectativas, não só dele, mas de toda a família, eram as melhores para que Tyler voltasse a ser um menino sadio e forte.