Lendas da meia-noite

8 Na casa da vovó


Sophia ia para a casa de sua avó com Chris. Adorava visitá-la, e era a primeira vez que levaria seu novo amigo lá. Pararam em frente a uma porta de madeira tão velha quanto a pessoa que morava naquela casa. A garota bateu três vezes na porta, alguns minutos depois ela se abriu. Perante as duas crianças, surgiu a imagem de uma mulher idosa usando um vestido preto com o cabelo branco liso amarrado num coque muito elegante. Ela usava brincos e um colar de ouro, mostrando extrema elegância, difícil de ver naquela Vila sempre tão modesta. Sophia abraça a mulher, que sorri devagar, agradecendo a visita da neta e então cumprimenta Chris e os convida para entrar.

Tomam chocolate quente em frente à lareira da sala de estar. Sophia e a avó conversavam futilidades enquanto Chris analisava a casa daquela mulher. Nas paredes escuras estavam penduradas cabeças de animais, nas estantes antigas espalhadas pela sala viam-se estranhos objetos de prata e ouro. Havia um ou dois quadros de pinturas maravilhosas, uma parecia ser uma feira da Vila cotidiana, mas muito bem representada. Chris poderia jurar que pareciam reais. E o outro quadro era um retrato da própria mulher, só que cerca de uns 30 anos mais nova.

— Meu marido era pintor. — Contou a velha, ao perceber os olhares bisbilhoteiros do rapaz rondando sua sala. — Morreu faz alguns anos, dormindo. É como morrem as pessoas de alma pura.

— Ah, meus pêsames pelo seu marido...

— Obrigada meu jovem. Já eu não terei a mesma sorte que ele. Não durmo, sou uma mulher apavorada pelo grande desastre.

— Que desastre, vovó? — Perguntou Sophia que nunca ouvira aquela história antes.

— O desastre que fez todos pensarem que sou louca, minha querida. Quando fomos atacados por uma fada. — A avó levanta a manga preta do vestido, fazendo com que aparecessem quatro grandes cicatrizes, como marcas de garras de algum animal feroz. — Elas pareciam demônios, me atacaram, tentaram me levar! Mas eu resisti e lutei. Dois que estavam comigo morreram, e quando o socorro chegou a maldita fada fugiu. Todos duvidaram da minha palavra e acharam que tinha sido o ataque de um lobo que

— A senhora realmente viu fadas? — Perguntou Sophia, encantada com a história da avó.

— Sim! Piores do que demônios! Menina, não escuta? Atacaram-nos! São criaturas maléficas e horrendas! Desejo que nunca se depare com uma.

— Por quê? — Indagou a neta mais uma vez. A senhora idosa já não olhava mais para ela, e sim fitava a janela aberta sem nem desviar os olhos para as crianças em sua sala.

— Ora, menina! Porque elas não hesitarão em atacá-la. São terríveis e foram meus piores pesadelos por muito tempo. — Fez-se silêncio após esta última declaração da velha senhora. — Vão embora, crianças, já é tarde.

— Mas avó, acabamos de chegar! — Protesta Sophia.

— Não me contradiga. Sabe como sua mãe é.

Sophia não mais o fez. Despediram-se da velha senhora solitária e seguiram caminho para as suas casas. No meio dele, conversaram sobre a história.

— Você acredita na sua avó? — Questionou Chris.

— Por que não? Ela não mentiria para mim. Com certeza, não para mim. Só achei estranho o jeito como nos colocou para fora...

— Ela deve ter se sentido mal.

— Ela nunca se sente mal. Viu como ela ficou olhando para a janela? Parecia que esperava alguém passar por lá.

— Pare de inventar essas coisas! — Desacreditou Christopher. — Ela não estava esperando ninguém, só se sentia cansada. É velha já, normal sentir-se assim.

— Não ela. — Insistiu. — Você não a conhece, mas eu sim, e sei que ela estava agindo de um jeito estranho.