Lendas da meia-noite

10 Meu sonho é as estrelas


Sophia saía da sala de aula, quando o professor de Agricultura Básica a pediu para ficar. Com seu vestido azul claro e sapatos brancos, anda de costas até parar em frente ao professor com seus olhos curiosos atentos.

— Você tirou nota baixa no último teste. — Ele a informa entregando-lhe a prova com nota 4,5.

— Eu recupero. — Sophia dá de ombros. — Ainda há mais outra prova e as lições de casa, um mero 4,5 não irá me afetar muito.

— Eu confio na sua capacidade de recuperar a nota. Eu só queria entender o motivo de tê-la tirado. Você nunca foi aluna de ter notas baixas.

Sophia revira os olhos, não quer ouvir aquele sermão, não agora nem nunca. Sério que os professores acham que esses sermões funcionam? A garota que revira os olhos sabe exatamente (ou pelo menos acredita saber) que os professores não se importam com os alunos, eles não acreditam realmente que ela tem capacidade para tirar notas perfeitas, apenas dizem isso.

— Ei! Eu estou falando sério, Sophia! O que aconteceu com você neste teste?

— Nada! Eu apenas não estudei, estou com a cabeça cheia de outras coisas.

— Que coisas seriam mais importantes do que os estudos para uma criança de 14 anos? — O professor indaga cruzando os braços.

— O resto do mundo, que tal? Me diz, professor, estamos presos num círculo enorme, e minha curiosidade cresce a cada dia, me pedindo para atravessar a muralha e descobrir o tamanho do mundo. De que me interessa saber quais terras são boas para plantar batata ou milho? De que me interessa saber como se deve plantar feijão? Eu quero o mundo, professor, não um simples pedaço de terra para plantar milho.

O professor a analisa e vê a paixão em seus olhos, a fome de conhecer o que tem além da Muralha, vê perigo, não só para a garota, mas para a Vila.

— Esquece a ideia de sair desta Vila. A curiosidade matou o ladrão, Sophia. Você é uma garota muito inteligente para desperdiçar seus pensamentos em sonhos inúteis. Você poderia usar a agricultura para colher alimentos para seu futuro marido e filhos. Nenhum conhecimento é desnecessário para uma mulher inteligente. Fazer contas para ir ao mercado e comprar sem exaltar os gastos, Agricultura para colher alimentos para o marido, costurar é importantíssimo para uma mulher.

— Se um dia eu tiver um marido, ele colherá os próprios alimentos e costurará as próprias calças. Acredito que minha utilidade neste mundo vá além desta maldita muralha e deste maldito pensamento. Meus sonhos não são inúteis, seus "conselhos" é que são. — Sophia pega a prova da mão do professor e sai da sala nervosa.

Nunca que tinha falado deste jeito com um professor antes! Mas o que foi essa explosão de raiva? Ah, com certeza aconteceu quando ele chamou os sonhos dela de inúteis. Mas quem ele pensa que é para chamá-los assim? A única pessoa que poderia chamar seus sonhos de inúteis seria ela mesma, mais ninguém tem esse direito. E quem disse que ela vai passar a vida plantando comida para marido? Ele que plantasse! Sophia sairia da Vila e ganharia o mundo, descobriria o tamanho dele, cada Vila que ele teria. Quantas Vilas seriam? Umas 20? Não, o mundo deve ser maior, umas 40 ou 50 Vilas... Nem que demorasse toda sua vida e mais um pouco, Sophia conheceria o mundo além daquela Muralha que a aprisionava.

A garota de cabelos escuros e desgrenhados, com o seu vestido azul claro e sapatos brancos como as nuvens, saiu do prédio da escola e caminhou em linha reta, seguindo o caminho de casa. Christopher a vê andando emburrada e corre até ela e caminha ao seu lado.

— Por que o professor de Agricultura te pediu para ficar mais?

— Para dizer que tirei nota baixa no teste e que meus sonhos são inúteis. — Ela lhe entrega o teste em que tirou 4,5. — Ah, e ele disse que sou muito inteligente também.

— Ele é estranho, — Chris comenta rindo, devolve a prova para Sophia. — E seus sonhos não são inúteis... — Ele faz uma pausa, pensativo. — Espera... Quais são seus sonhos mesmo?

Sophia não se contém e dá uma risada. Eram amigos fazia pouco tempo, e nunca conversaram sobre sonhos nem nada parecido. Se bem que ela nunca contara seu sonho para ninguém até aquele momento.

— Em conhecer o que tem além da Muralha. Ganhar o mundo inteiro, conhecer cada Vila além desta. Belas Rosas é uma Vila muito linda, mas as pessoas não gostam de mim aqui, ninguém gosta de mim na verdade. Então melhor eu sair daqui.

— Ei! — Ele repreende. — Eu gosto de você.

— Até não me aturar mais... — Sophia abaixa a cabeça. — Sou uma criança muito chata, você não me aguentará por muito tempo. — Eles andam mais um pouco em silêncio até Sophia parar e ficar de frente para Christopher. — Chris... Não me entenda mal, mas eu queria continuar o caminho de casa sozinha.

— Tudo bem, eu vou seguir o meu caminho então, até a Vigília hoje à noite. — Chris sorri e se despede da amiga.

Enquanto um vira para a esquerda, outro vai para a direita. Sophia segue para casa, sem temer o que seus pais dirão de sua nota. Afinal, não há castigo para ela que não passeia com amigos nem nada do gênero, apenas lê livros em casa e de vez em quando sai com Chris para brincar ou simplesmente conversar. Será que poderiam proibir isso?

Sophia chega em casa e larga a mochila ao lado da porta, caminha até a cozinha com o teste na mão, deixa-o em cima da mesa de madeira e anda lentamente para fora quando sua mãe se vira e a pega no flagra.

— Sophia! — A chama com as mãos na cintura. — Por que não me faz o favor de deixar esse papel em minha mão?

— Não é necessário. — Ela sorri nervosa. Agora que tinha parado para pensar que seus pais poderiam proibi-la de sair com Chris, passou a temer a reação deles perante a nota baixa. — É só uma coisinha sem importância.

— Quem decide o que tem ou não importância, sou eu. Entregue esse papel em minhas mãos.

Vencida, a filha vai até a mesa de madeira no centro da cozinha, pega a prova e a entrega nas mãos de Laura que analisa cada detalhe desta. Sua expressão mudara de séria, para irritada, depois para muito brava e então, para finalizar, decepcionada.

— Você nunca tirou nota menor que sete. Pode me explicar o que se passa? — Laura cruza os braços, se segurando para não gritar com a filha.

— Eu... Não gosto de agricultura? — Sophia sugere com um sorriso amarelo.

— Estou falando sério Sophia! Uma nota baixa não é motivo para brincadeiras. Agricultura será muito útil para você. Como pensa em criar uma família sem plantar algumas verduras?

— Você não planta nada e se dá muito bem.

— Se me acompanhasse no mercado, saberia como legumes estão caros e como aprender agricultura será muito útil em sua vida adulta.

— Mãe, eu não quero passar a vida plantando batatas. Eu sei que é importante, te juro que sei. E eu vou recuperar a nota, agora posso ir pro meu quarto?

— Vai, antes que seu pai chegue e brigue feio com você. — Laura foi vencida dessa vez.

Sophia se retira, estava realmente precisando ficar sozinha e sonhar. Era só o que ela queria: sonhar. Mais tarde iria para a Muralha com Chris, onde olhariam as estrelas.