Lendas da meia-noite
11 O Brilho da Fadinha
— Sophia! — Bradley a chama da ponta da escada. — Já está na hora!
— Já estou descendo pai! — Grita de volta.
Em segundos já está no hall da porta, pronta para sair e enfrentar mais uma vigília da Muralha. Abraçou seus pais e estava prestes a escapar quando Bradley a puxou pelo braço.
— Não pense que irá escapar de uma boa conversa, menina! Amanhã discutiremos sobre seu desempenho escolar.
— Tudo bem, mas agora posso ir? Por favor? — Sophia dá um sorrisinho querendo fugir daquela situação desconfortante.
— Agora pode ir. — Ele solta o braço de sua filha que sai em disparada para encontrar com Christopher.
Eles se encontram mais a frente e vão juntos para o posto, onde pegam uma tocha e um apito e então partem para a vigília.
— O que seus pais disseram sobre o teste? — Chris inicia uma conversa.
— Minha mãe brigou, mas ela não serve pra brigar, é legal demais. Já meu pai... Disse que vai falar comigo amanhã sobre meu "desempenho escolar".
— Você vai ficar de castigo?
— Acho que não. Bem... Espero que não. É só Agricultura, não é uma matéria muito importante.
— Eu gosto de Agricultura... É muito importante e eu quero ser um grande fazendeiro, posso te dar muito legume se quiser.
Eles dão risada.
— Eu sei que meus "planos" são só alguns sonhos idiotas. Mas eu preciso desses sonhos, preciso imaginar que um dia toda a minha curiosidade será saciada e eu conhecerei o mundo... Mas quanto mais eu cresço, mais percebo que tudo isso não passa de um sonho.
— Já temos 14 anos, daqui a pouco teremos que seguir as escolas certas para nossas profissões. Eu vou estudar três anos para ser um bom fazendeiro, você deveria escolher o que quer ser também.
— Ainda tenho tempo, meu irmão atrasou um ano, eu posso fazer a mesma coisa.
— Na verdade não. Seu irmão estava doente, você não. Este é o último ano, no próximo vamos ter que escolher um caminho.
— Minha irmã faz vestidos, minha mãe é dona de casa, meu pai lenhador e meu irmão vai ser aprendiz de lenhador ano que vem... Acho que não conheço muitas profissões.
— Vai ter uma feira onde poderemos conhecer todas as profissões semana que vem, quem sabe você ache alguma coisa.
— "Achar alguma coisa" significaria desistir do meu sonho de conhecer o mundo, logo prefiro estar perdida mesmo.
— Você quem sabe. — Chris dá de ombros. — Chegamos ao lugar do buraco, quer sentar e olhar para o céu de novo?
Sophia concorda com a cabeça, eles sentam no chão encostados na Muralha e Christopher olha para o céu enquanto a menina olha para o chão. De súbito percebe que aquele buraco crescera uns dois centímetros. Agora dava para ver um pouco mais da grama secreta. E como a grama é linda! A grama que ninguém mais viu, somente eles dois, como era mais verde e mais graciosa. Como uma grama seria graciosa? Sophia não conseguiria explicar, mas aquele pedaço de grama recém-descoberto era tão gracioso! Milhares de anos escondida da vista de todos, resolvera revelar-se justamente para a menina de olhos curiosos.
— Christopher! — Ela o chamou quase que gritando. — Venha ver, o buraco cresceu!
— Como assim? — Ele se agacha e percebe como aquele buraquinho havia crescido um tanto. — Quem será que fez isso?
— Não importa, será que conseguimos aumentar mais?
— Não pense nisso! Sabe como pode ser perigoso.
— Pare de ter medo. — Ela o repreende. — Nunca aproveitará nada na vida se permanecer com medo. — Sophia empina o nariz, posando de valente para o amigo.
— Eu não tenho medo, apenas sou sensato. — Chris se defende.
— Christopher! Você tem que arriscar uma vez na vida. Se não agora, quando? Se não aqui, onde? Quem sabe este seja o momento mais emocionante de nossas vidas? Seremos os primeiros a ver além da Muralha depois de milhares de anos! Pare de ter medo e me ajude a aumentar este buraco.
Christopher resiste de início, porém é vencido pelo pequeno discurso de sua amiga. Tira da mochila uma faca que levava para descascar uma fruta de seu lanche mais tarde.
— Eu sei que vou me arrepender disso depois. — Comenta e começa a bater numa pedra pequena com a faca para soltá-la.
Aos poucos foram tirando uma pedrinha por vez, aumentando não só o tamanho como também a profundidade. Pararam quando realmente enxergaram a luz da lua atravessar uma pequena fresta 20 centímetros à frente. Logo se empolgaram. A mão de Chris quase que prendia no buraco, se não fosse a faca, não alcançaria o fundo. Aumentaram a fresta que agora teria 5 centímetros de altura e uns 3 de largura. Revezaram para olhar o outro lado, a luz do luar parecia mais intensa vinda de lá.
O que se sucedeu, eles não saberiam explicar, muito menos dizer se fora uma alucinação: duas perninhas pequenas pararam de frente para a fresta. Via-se um brilho estranho, e as perninhas abaixaram-se e surgiu o resto do corpo e um rosto. Era uma pessoinha, uma pequena pessoinha! Cabelos ruivos e ondulados que iam até o chão, um vestido prata cintilante como a lua cheia, um sorriso miudinho e bochechas rosadas.
— Olá! — Gritou para ser ouvida.
— Sophia... Alguém falou alguma coisa? — Christopher perguntou se assustando com o som um tanto agudo que saia daquela fresta.
Sophia não responde, apenas está paralisada observando a pequena pessoa que possuía asas.
— É... É... É uma... — As palavras não saem da boca de Sophia.
Christopher a empurra ansioso para ver o que era e grita:
— É uma fada! Não é p-possível! — Ele pula para trás, aterrorizado.
Sophia volta a olhar pela fresta, a fadinha está agachada e observando tudo que acontecia igualmente atônita. As duas se encaravam sem piscar. A fada, de olhos prateados e arregalados se surpreendia em ver uma humana pela primeira vez. E a menina de olhos negros e arregalados se surpreendia com a descoberta da existência de uma pequena fadinha, mas seria mesmo existência? Talvez sua mente que ansiava por aventuras e novas descobertas a estivesse enganando.
— Um humano! — A fada fala, com sua voz um tanto aguda e delicada. — Por Deiner, nunca tinha visto um humano! Que impressionante! — E ela dá pequenos pulinhos com risadinhas.
— V-você... — Sophia está paralisada. — Você é... Uma f... Fada?
— Sim! E você é uma humana. — Ela ri. — Me chamo Íris, e você?
— Eu me chamo... Sophia e meu amigo é Christopher...
— O que gritou e foi embora? Ele parece ser divertido! — Íris ri novamente. — Não sabia que vocês realmente existiam.
— Como?
— A Muralha esta aqui há mais tempo do que nós, não sabíamos se vocês existiam mesmo ou era invenção de nossas anciãs. — A fada fez uma pausa pensativa e então comemorou. — Mas vocês existem! E eu sou a primeira das fadas a ver um humano. Isso é tão emocionante, você não faz ideia.
— Sim... Eu faço sim... Eu... Eu tenho que ir, sabe? Mas eu volto na semana que vem, nessa mesma hora. — Sophia recua, sem tirar os olhos da fresta.
A fada grita um "Espera, não vai!", mas Sophia estava muito assustada para ouvi-la, prometeu voltar na semana seguinte e correu. Correu para longe daquele buraco. Não podia voltar para casa ainda, não podia abandonar a vigília, mas podia fugir para longe. Uma fada? Uma fada! Uma fada falou com ela, como acreditar nisso? Uma fada!
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