Lendas da meia-noite
1 Lendas da meia-noite
— Vou contar uma história! — Bradou Donen, destacando-se no meio dos camponeses simples da Vila de Belas Rosas. — A história da Grande Muralha!
— Ah, Donen, não venha com lendas da meia-noite! — Irritou-se Bradley Cooper, um dos pais das crianças ali presentes.
— O que são "lendas da meia-noite"? — Perguntou Sophia Cooper para Bradley, seu pai.
— Lendas antigas feitas para assustar crianças. — Seu pai limita a responder.
Bradley é lenhador, alto, moreno com a pele castigada pelo sol e forte. Sophia de 14 anos é morena de pele branca, rosto angelical, vestidos sempre coloridos, possuía olhos grandes cor de mel, estes eram os olhos mais curiosos de toda aquela Vila, seus pais que o digam! A garota, apesar de ter os cabelos negros, não os tinha lisos como os de sua mãe, e sim encaracolados e sempre desgrenhados.
— Mas que há Bradley! Todo habitante precisa saber o porquê de vigiarmos a muralha toda noite, e o porquê de sua existência. — Enfatiza Donen.
Os outros pais presentes ao redor da fogueira não parecem fazer objeções, apenas Bradley, que se cala vencido.
Há pelo menos uma dúzia de crianças e pais juntos em volta de uma fogueira, e Donen está de pé, na frente de todos, de modo que ninguém não lhe forneça atenção. Donen é um homem já castigado pelo tempo, um dos mais velhos da Vila, vive das roupas que sua mulher lava e das bebidas vendidas em sua taberna.
— Que comece então a grande história da noite!
É o seguinte, crianças, aconteceu há milhares de anos. Antes de a Muralha ser erguida, vivíamos como camponeses felizes. Recebíamos turistas e novos cidadãos o tempo inteiro! Todos viam a beleza de Vila de Belas Rosas, e os fazendeiros vinham para cá em busca de prosperidade. Terra mais fértil que esta não há. Mas apesar de todo esse cenário de prosperidade, Belas Rosas tinha um segredo maligno! Começou com uma moradora indesejada, uma Bruxa!— Donen enfatizou esta palavra gesticulando e gritando, sabendo que assustaria as crianças, que gritaram de susto. — Ela era maligna, e acabou, por muitos anos, assustando moradores e visitantes, que começaram a diminuir com o passar do tempo. Com suas poções e bruxarias, todos faziam tudo que ela pedia, com medo de serem visitados por lobos assassinos à noite caso não agradassem a malvada bruxa. A Vila parou de receber visitantes, e aqueles que tentavam abandoná-la eram perseguidos por demônios e comidos vivos. O medo reinava.
A população se reunia em segredo, sem a bruxa saber, para planejar como se livrar daquele monstro! Até que, por euforia coletiva, todos se juntaram, ascenderam tochas e empunharam armas e marcharam até a casa do demônio vestido de mulher e atearam fogo. Escutaram os gritos dela, amaldiçoando o vilarejo inteiro que pararam de comemorar e ficaram com medo das promessas por ela feitas. "Eu amaldiçoo esta terra pela eternidade!" Ela gritava enquanto sua casa pegava fogo. — O trovador, animado por estar assustando as crianças, imitava a voz da bruxa como uma velha de voz rouca. — "Vocês morrerão, seus filhos morrerão das piores formas possíveis! Arderão no fogo de Marakná!"
— O que é "fogo de Marakná"? — Perguntou Sophia, interrompendo o contador impaciente que dá uma bufada, não esperava que fosse interrompido na melhor parte.
Na verdade esperava sim, aliás, era Sophia, mais curiosa impossível.
— É um lugar aonde as pessoas amaldiçoadas por bruxas vão para serem torturadas eternamente depois de morrerem.
— Ai...
— Agora, menina Sophia, eu posso continuar a história?
— Pode. — Sophia assente sorrindo, satisfeita.
— Onde eu estava? Ah! "Vocês morrerão, seus filhos morrerão das piores formas possíveis! Arderão no fogo de Marakná!"— Donen repete a última parte, gesticulando e imitando a voz da bruxa. — Repetindo essa maldição, viu-se a temível mulher queimar, e a fumaça que saia de sua casa era verde! O cheiro poderia facilmente ser confundido com lixo derretido em água fervente. Bebês choraram por três dias seguidos, ninguém dormia direito por meses, as plantações tiveram as piores épocas, mas tudo isso era pouco para o que ainda estava por vir.
O terreno da casa da bruxa virou apenas uma área negra, onde não nasce nem um única flor. E dizem que pisar lá atrai a morte. Mal sabiam eles que a morte viria de qualquer jeito. Uma noite antes da lua cheia, uma das mulheres que lavava roupa no rio sumiu e nunca mais foi vista. Na noite de lua cheia, outro camponês sumiu. E foi assim sucessivamente, todo mês duas pessoas sumiam, deixando filhos e pais desamparados. Ninguém sabia quem era o responsável pelo sumiço. Quando a população já estava assustada, a Rainha das Fadas apareceu.
— Rainha das fadas?
— Sophia! Não pode só ouvir a história? — Lamentou Donen. — Seres mágicos existem, se vocês não sabem, e são poderosos, estão além da Muralha. Agora, quando a Rainha das Fadas apareceu, homens ficaram cegos por três dias, só de olhar para ela.
— E as mulheres? — Questionou Sophia mais uma vez, irritando o trovador.
— As mulheres ficaram com inveja, Sophia, agora se cale! A Rainha foi para o centro da Vila, e se comunicou com todos: "Nós, as fadas, nos sentimos ofendidas com o modo que estão cuidando de suas terras. Estamos passando fome também, graças a vocês e suas magias que não deveriam possuir. Os Grandes Deuses falaram conosco e estamos dispostas a declarar guerra contra esta vila, tomaremos suas casas, suas fazendas, e com o nosso cuidado a terra continuará a ser fértil e ninguém na floresta passará fome. Vocês serão nossos escravos, como os deuses mandam." Ninguém a escutou, e começaram a atirar pedras nela.
— Mas se os homens estavam cegos, como atirariam pedras nela?
— Sophia pare de interromper! — Seu pai a cutucou dessa vez.
— Eles ficaram cegos depois que a Rainha foi embora. O que aconteceu logo que começou a ser apedrejada. — Respondeu Donen, respirando fundo para não perder a paciência com Sophia, mas no fundo adorava aquela menina curiosa. — Na mesma noite, as fadas atacaram, matando famílias inocentes em suas casas, foi um verdadeiro massacre, ninguém podia acreditar. Sangue para todo lado! As fadas aparentavam verdadeiros demônios! Mas os homens acabaram vencendo-as, e capturaram sua Rainha. Cortaram sua cabeça fora e assassinaram as fadas que sobraram, deixando apenas um pequeno grupo que recuou para dentro da floresta. As fadas, com mais sede de vingança do que antes, juravam retornar mais fortes. Construiu-se a Muralha no mesmo dia da morte da Rainha. Note-se que ela une nossa Vila em um circulo abraçando-nos em sua proteção. A Muralha resiste até hoje, fortemente vigiada, para nos privar de mortes horrendas causadas por fadas vingativas. Tudo isso por culpa de uma bruxa que amaldiçoou o solo, não apenas o nosso, mas o de toda a floresta, fazendo as fadas se irritar e nos atacarem. Agora temos de nos proteger de dois males eternos: As Fadas e a maldição da bruxa. Dizem, que na noite de lua cheia, ainda se escuta a voz da bruxa amaldiçoando a todos nós! Ah, e quanto aos camponeses que sumiram; ninguém nunca mais ouviu falar deles, acredita-se que foram usados como sacrifícios para os deuses das fadas, como uma tentativa de resgatar a fertilidade do solo.
— Mas a maldição acabou... Não é? — Perguntou Christopher Halley, um garoto de 14 anos, loiro e razoavelmente "gordinho", cabelo nos olhos, escondendo seu tom verde.
— Por que acredita nisso, pequeno Chris? — Indaga o contador de histórias, agachando-se em frente ao menino.
— Porque temos ótimas épocas de plantação. Meu pai é fazendeiro!
— Há milhares de anos, nosso solo era o mais fértil que já se vira. Não importa o quanto se colha hoje, não é nem metade do que se colhia antes da bruxa nos amaldiçoar para sempre!
Fez-se um silêncio entre as crianças, assustadas com a "Lenda de meia-noite", como os adultos a chamavam. Não paravam de pensar se a lenda é real, pois ainda se vigia a Muralha até hoje, ninguém sai e ninguém entra.
— Foi boa essa! — Parabenizou um dos pais presentes, Robert, xerife da Vila.
Robert Watson estava com suas duas filhas, Melissa e Amélia Watson, de 13 e 14 anos, e seu filho mais velho, Anderson Watson, de 18 anos. O menino, alto e magro, não demonstrava nenhum medo, querendo sempre aparentar ser o "adulto" e nada mais chato que uma criança se fazendo de adulta. Já as meninas estavam assustadas, mas começaram a se distrair conversando entre si.
— Obrigado, Robert, é sempre bom ouvir elogios! Agora, vamos todos entrar, que acordamos cedo amanhã, e já está tarde.
As famílias se levantaram e começaram a se retirar, alguns paravam para cumprimentar Donen, e outros simplesmente se retiraram. Bradley fez questão de ir falar com o contador de histórias junto com sua filha Sophia.
— Ainda não aprovo que conte essas lendas de meia-noite para crianças, Donen, mas foi ótimo como lhes contou esta.
— Obrigado, Brad. E obrigado Sophia, por ser uma grande colaboradora de minha história, mais uma vez. — Donen ironiza enquanto bagunça o cabelo da garota que já era desgrenhado.
— Me desculpe pela Sophia também. Mas você sabe, não tem como deixá-la quieta.
Sophia se encabula e olha para o chão.
— Desculpa Donen... É que eu fiquei curiosa...
— Como sempre, não? Mas não se preocupe pequena. É bom saber que tenho uma ótima ouvinte.
Donen sorri para a garota que sorri de volta. Seu pai pega em sua mão, se despede dele e leva Sophia para casa. A pequena menina, pequena até para sua idade, não parava de pensar na história. Sabia o significado de "lenda", quer dizer que não é real. Mas amuralha existe, logo as fadas poderiam existir também. Tal ideia assustava Sophia, que se agarrava cada vez mais no braço de seu pai.
— Filha, é apenas uma lenda, está bem? As pessoas já não acreditam mais. Mas ainda é tradição contá-las para a próxima geração.
— Se é só uma lenda... Por que há um muro? Por que estamos isolados do resto do mundo? Ninguém entra e ninguém sai.
— Os perigos lá fora, são reais, mas a lenda não. Há uma imensa floresta além da Muralha, totalmente selvagem. Vigia-se a Muralha apenas para não deixar animais perigosos entrarem, e não fadas ou bruxas. Essas coisas não existem.
— Não entendo como o senhor pode ter tanta certeza, papai. — Sophia empina o nariz, desafiando a sabedoria de seu próprio mestre.
— Eu sou mais velho e mais vivido, sei do que estou falando. Pergunte para Donen, ele também não acredita, apenas conta as histórias por ser tradição, não confunda tradição com verdade.
Sophia se cala, decide deixar seu pai ganhar desta vez. Mas não estava totalmente convencida de que a lenda era apenas o que se dizia ser, uma lenda.
É curioso como funciona o cérebro de uma criança, em especial, o de Sophia. Sempre procurando respostas para todas as suas perguntas, com sua mente inquieta. Mas quando lhe dão uma resposta, acredita fielmente em quem respondeu primeiro, pois acredita que a verdade se encontra ali. Já os adultos que conhecia, procuravam respostas entre os mais velhos, onde se sentem mais seguros.
Sophia acreditava na lenda de meia-noite, não em todas, claro que não era idiota! Apenas em algumas, e naquela em especial. Já que havia realmente uma área de terra negra, sem vida onde ninguém pisava e nada florescia, e o perímetro ocupado era retangular, do tamanho da área de uma casa normal. As provas falavam a favor da lenda, e contra a afirmação do pai.
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