Lendas da meia-noite

7 A primeira vigília de Tyler


— Sophia! — Laura grita da ponta da escada. — Levanta menina! Já são três horas da tarde!

A doce menina aparece na outra ponta da escada, meio sonolenta ainda e com um vestido azul claro e sapatos pretos, com seu cabelo sempre desgrenhado.

— O Chris já chegou? — Ela pergunta descendo os degraus lentamente.

— Já sim. Está na porta.

De repente aparece na menina uma energia que ninguém nunca soube de onde veio e saiu em disparada para a porta. Laura ri da disposição da filha e volta para a cozinha, onde Tyler estava se levantando um tanto apressado.

— Ei! — Chamou a mãe. — Tomou seu café da tarde?

— Tomei mãe.

— E vai pra onde com tanta pressa?

— Vou passear com uma amiga. — Tyler declara um tanto encabulado.

— Amiga? — Laura sorri se aproximando de seu filho.

— Sim mãe. — Ele revira os olhos. — Mais alguma pergunta, ou estou liberado?

— Hm... — Ela se aproxima mais um pouco com um sorriso orgulhoso. Alisa sua camisa e diz: — Está liberado, filho. Bom passeio!

Tyler sai apressado, deixando sua mãe sorrindo na cozinha. Atravessa a porta e vai em direção à praça central da Vila das Rosas, onde uma garota ruiva de cabelo um pouco enrolado e desgrenhado estava sentada no banco branco. Usava um vestido verde claro, sapatos brancos e uma fita verde no cabelo. Ela era menor do que ele, rosto redondo e bem desenhado, pois para ele, a menina ruiva parecia ter saído de um belo desenho.

— July? — Ele a chamou dez passos de distância.

A ruiva vira a cabeça para o lado e sorri quando o vê. Arregala seus olhos negros que já eram grandes normalmente. Tyler sorri tímido e envergonhado, dá os dez passos que o separam e senta ao seu lado.

— Pensei que não viria mais... — Comenta July, encabulada e olhando para seus sapatos alvos.

— Nunca a deixaria esperando. — O garoto apaixonado olhava seu cabelo vermelho reluzir no sol. Achava-a tão atraente, aparentava ser um segundo sol, só que mais belo que o primeiro.

— Ainda bem. Quer dizer... Não gosto de ficar esperando. — A ruiva cruza os braços e faz sumir a imagem de menina tímida, aparecendo a de garota séria.

— Nunca faria isso. — Ele repete rindo. — Bem... Então por que me chamou aqui?

— Queria dizer que fico feliz que esteja se recuperando rápido. Parece até outra pessoa.

— Me sinto outra pessoa. — Ele ri concordando. — Me sinto mais homem, antes me sentia como um menininho de 10 anos.

— Deve ter sido difícil para você, nunca ter forças para nada. Eu sempre te levo torta de amora uma vez por mês, mas acredito que não será mais necessário.

— Por quê? Adoro sua torta de amora! — Protesta Tyler.

— Sim, eu sei. — Ela ri. — Mas... Você pode ir lá em casa agora, sempre que quiser. — July solta um sorriso olhando para os olhos de seu amigo. — Para comer a torta, é claro. Não vá pensar outra coisa. Não uma garota qualquer que você pode enganar com seus lindos olhos. — Ironiza.

— Então acha que meus olhos são lindos? — Tyler gravou apenas esta parte da fala de July, até porque era a mais importante.

— Eu não... Eu... — July se perde completamente, não sabe mais o que falar. Fica toda vermelha, olha para o chão e depois volta o olhar para ele. — Não me cause embaraços!

Tyler cai na gargalhada com sua amada. Vê-la perdida nas palavras pela primeira vez, era mais do que divertido, era a confirmação de que ela sentia o mesmo por ele.

— Hoje será a nossa vigília. — Ele a lembra. Era a primeira de Tyler, e July tinha se voluntariado para ir com ele. — Ontem foi o de Sophia. Todos temiam algum acidente, mas ela se saiu perfeitamente bem.

— Sophia é uma garota esperta. Adoro-a. Sempre que ia te ver, ficávamos conversando na sala de estar. — July relembra os bons momentos com a irmã de Tyler.

— Não sabia disso. Parece-me que toda minha família te adora. E acho que você é a única que gosta de verdade de Sophia, os outros só a suportam.

—É que ela é inusitada. Vê detalhes pequenos que ninguém percebe, presta atenção em tudo e gosta de saber. Algumas pessoas não gostam de outras curiosas, pois as fazem sentirem-se burras. Já eu adoro as pessoas curiosas, pois me mostra que tenho muito a aprender ainda. Quisera eu ser um pouco como a pequena Sophia, mas sou muito desatenta e desastrada. As pessoas não gostam muito de mim também, mas é por motivos opostos. — Ela ri de si mesma, o que faz Tyler sorrir também. Será que aquela menina tinha algum defeito?

— Não sei como as pessoas podem não gostar de você.

— Ah. Mas claro que sabe. Até parece que você gosta. Apenas me atura... Pois eu ia lhe trazer agrados todo mês. Pequenos mimos, e sente-se na obrigação de retribuir tal gentileza dando-me um pouco de sua atenção. Não tenho qualidades que atraem as pessoas. Não sou bonita, inteligente ou boa em quaisquer tarefas... — Lamentava-se a garota olhando para seus sapatos outra vez.

— Não diga essas coisas. Todos têm talentos. Eu também não descobri o meu. — Ele segura a mão de July, num gesto de apoio. Trocam olhares envergonhados. — Vamos descobrir nossos talentos um dia. Mas nunca diga que não tem suas qualidades, pois as têm de sobra. Só você não vê.

July aperta a mão de Tyler com mais força e recosta-se em seu ombro abraçando seu braço. Já se entregara a esse amor juvenil, não tinha mais volta, mas sentia que seu amor não era correspondido. Não era por nada, apenas não conseguiria acreditar que alguém como ele — pessoa de boa família, bonito, de olhos encantadores e possuidor de belas palavras — se apaixonaria por ela, uma desastrada encabulada, que não sabia onde enfiar a cara quando se entregara ao momento e apertava com mais força a mão de Tyler, e deitava a cabeça em seu ombro.

— Eu tenho que ir... — Ela avisa.

— Mesmo?

— Sim. — Ela levanta do banco da praça, largando a mão do garoto, toda encabulada. — Tenho de arrumar as coisas para a vigília de hoje à noite. Tchau e obrigada por me aturar.

Ele assiste a garota ruiva sair correndo, morrendo de vergonha. Tyler a achava tão doce... A maior parte de sua beleza era devida a sua grande doçura e timidez, pelo menos era a opinião dele, e só ela importava.

Ainda pensando em July, ele vai para o encontro de seus amigos e jogam bola o resto da tarde. Mas quem disse que deixava de sonhar acordado com um beijo que talvez nunca vá acontecer? Estava totalmente distraído que até jogou mal a última partida. Sonhou na vigília daquela noite, talvez aí teria o grande e esperado beijo, pois já tinha certeza que July gostava dele. Apenas pelo modo de como agira com ele mais cedo, mostrava um paixão há muito existente, ou então que florescia aos poucos.