Notas iniciais
Meu planejamento é de postar semanalmente, mas isso pode variar conforme eu for escrevendo os capítulos. Tenho um bom número pronto, mas minhas aulas voltaram e meu ritmo de escrita pode variar a partir de agora. Boa leitura e nos vemos nas notas finais!

I love the way you could
See the good in everything
But, do we fuel the fire?

O dia seguinte amanheceu seco, embora as nuvens no céu estivessem cor de chumbo; ainda ameaçadoras. Os meninos pareciam ter ficado acordados até tarde na noite anterior, porque Warrington dormia com a cabeça ao lado de suas panquecas e Peter estava se servindo da segunda xícara de café na mesa da Sonserina. Cordélia, por sua vez, construía uma torre de kransekake com rosquinhas que ela enfeitiçara com o feitiço Colorvaria, de mudanças de cor, para que as rosquinhas fossem verde-musgo, amarelas, vermelhas, azuis e roxas.

O professor Snape a lançou um olhar reprovador quando passou entregando os horários.

—Srta. Bloxam, suponho que ainda queira ser pocionista? –Ele perguntou parado ao seu lado, fingindo indiferença, com uma pena enfeitiçada em cima do seu pergaminho de horários. Sabia que era apenas o jeito dele, mas desejou que seu padrinho fosse um pouco mais caloroso.

—Ainda. –Respondeu, embora ele soubesse disso antes de ela verbalizar.

—Muito bem. –Ele olhou seus horários. O professor havia sido colega de seu pai no Instituo Flammel, onde ambos se formaram, embora seu pai fosse mais um tutor, já que era alguns anos mais velho. –Você conseguiu nota para continuar em Poções, é claro. Herbologia, Feitiços e Runas Antigas são importantes para um pocionista. Algum interesse em continuar em Aritimância?

—Não. –Deu de ombros, um pouco aliviada em se livrar dos números, mas hesitante em diminuir o número de NIEM's que poderia tirar. –Mas quero História da Magia e Transfiguração.

—Muito bem. –Snape acenou com a varinha, a devolvendo seu horário em uma tabela.

—Você tem a sexta livre, que sorte. –Comentou Mary olhando por cima de seu ombro. –Por que diabos você vai continuar História da Magia? Você vai ser a única na sala.

—Não a única. –Edmundo acenou seu horário na direção delas, onde a matéria estava gravada em letras fortes e grandes. –Vejo você no segundo tempo, ‘Délia. Tenho o primeiro livre. –E saiu da mesa sem se despedir de mais ninguém.

Snape as interrompeu com sua voz mais desaprovadora.

—Srta. Selwyn, deixe sua colega em paz. –Recomendou. –Bloxam, vá para a aula.

O lançando um olhar magoado, Cordélia saiu para o seu primeiro tempo em poções. Andou sozinha de volta para as masmorras, onde poucos colegas esperavam na porta pelo professor Snape. O número de alunos no NIEM’s de Poções era pequeno o suficiente para que todas as casas tivessem aula juntas. Era assim com a maioria das matérias quando chegavam ao sétimo ano, enquanto a turma ia diminuindo pelas várias desistências. De seus colegas sonserinos, Peter, Edmund e Cassius haviam todos desistido de Poções.

Por isso ficou surpresa ao encontrar Cedrico Diggory ao lado de Susana Pevensie e Hugh Spizba na porta da sala de Poções, acompanhando uma aluna solitária da Grifinória e um Corvino chamado Theodore Clearwater, cuja irmã mais velha havia sido petrificada no ano anterior antes de se formar. Cedrico parecia entretido, de braços cruzados e um sorriso aberto em seu rosto. Mesmo a luz escassa de um dia nublado deixava seus cabelos com um brilho dourado e Cordélia tomou uma respiração antes de voltar a andar pelo corredor.

Ele foi o primeiro a notá-la e seu sorriso se abriu exponencialmente. Não havia nada a ser feito. Sem poder evitar, Cordélia sorriu de volta seu melhor sorriso: o que mostrava as covinhas em cada lado de suas bochechas.

Quando se aproximou do grupo, sendo recebida bem até por Alicia Spinnet, a grifinória que continuaria em Poções, Cedrico colocou uma mão em suas costas quando ela parou ao seu lado. Cordélia não se incomodou nem um pouco, mas, quando Mary e Lana se aproximaram, a lançaram olhares tão maliciosos que Cordélia quis sumir, desaparatar para longe.

—E aí? –Mary parou ao seu lado com as sobrancelhas levantadas. –Vocês já têm dezessete anos? Vão tentar?

Cordélia estava tinha apenas metade de sua atenção no diálogo. Os dedos de Cedrico tinham começado a subir e descer pela sua espinha; do ponto entre as suas omoplatas até a sua cintura, então de volta para cima, e ela os podia sentir, o seu calor, mesmo sob a camada da blusa branca de botões e o colete de tricô verde-esmeralda da Sonserina, que eles usavam enquanto ainda não estava frio o suficiente para os suéteres. Os colegas começaram a responder: Susana e Alice Spinnet pareciam ansiosas para se provarem.

—É uma oportunidade e tanto, não é? –Dizia Alicia ansiosamente. –De entrar na história, eu acho. Você vai tentar, Cedrico?

A mão do lufano parou com uma pressão constante no meio de suas costas. Ele sorria de forma adorável. Cordélia desviou o olhar para um archote na parede, sem ar.

—Vou, sim, acho. –A voz dele tinha um som de riso. –Meu pai ficaria exultante.

—Você seria o campeão perfeito. –Susana balançou a cabeça e interrompeu Hugh quando este começou a protestar. –Você sabe que ele seria.

Eles teriam continuado a conversa, mas o professor Snape, em passos pesados, a capa voando atrás de si como azas de um morcego, surgiu na curva do corredor, abrindo o grupo em dois para alcançar a porta sem olhar no rosto de nenhum de seus alunos.

—Para dentro. –Ordenou, ao que os alunos obedeceram às pressas. Embora fosse uma classe grande, apenas as duas primeiras bancadas foram ocupadas; uma delas pelos três lufanos mais Alice Spinnet e a segunda pelas três sonserinas acompanhadas de Theodore Clearwater.

Como sempre, a sala era um pouco escura demais, cheia de prateleiras com potes de ingredientes, às vezes em pó, às vezes líquidos e, algumas vezes, orgânicos boiando em líquido de conversa amarelado. Era exatamente o tipo de ambiente que fazia Cordélia se sentir em casa.

—Abram seus exemplares de Poções Muy Potentes na página 132. –O professor Snape apontou sua varinha para o quadro, desenhando as palavras com sua letra difícil: Contravenenos, uma Teoria. Cordélia abriu um sorriso para o tema. Já estava planejando seu projeto para se inscrever no Instituto Flammel no fim do ano, e incluía trabalho de modificação em um Veneno Luciferino –um dos venenos mais potentes do mundo mágico –para que tivesse as propriedades de não ter gosto ou cor como a Veritasserum, já que um dos maiores empecilhos do veneno era sua cor avermelhada característica e o forte cheiro de enxofre. –Quero que criem um contraveneno para o Veneno de Sangria. Como bem sabem, ele age rapidamente no organismo, especialmente se houver um agravante, como a sua mistura com qualquer poção que tenha como ingrediente verbena ou aracácia. Quero que usem esses dois ingredientes para fazerem um contraveneno nesses casos, usando as instruções na lousa.

Ao seu lado, Mary olhava para o professor Snape como se ele estivesse falando outra língua. Haviam oito frascos de Veneno de Sangria em sua mesa, que ele os mandou ir buscar, já que a base para o contraveneno é o próprio veneno. Entrando em seu modo de trabalho, concentrado e maníaco, Cordélia foi buscar seu frasco, voltando para a mesa, onde acendeu um fogo baixo embaixo de seu caldeirão de cobre e despejou o conteúdo do vidrinho. Não precisava ler as instruções no quadro; ela conhecia bem os passos para o preparo de um contraveneno, desde que venenos são suas misturas preferidas.

Arrumando seu cabelo cor de mogno no alto da cabeça para que não sejam afetados pelos vapores do caldeirão, Cordélia saí à procura de verbena, aracácia e valeriana –que embora o professor não tenha comentado, também reage mal com o Veneno de Sangria, sabendo que ele a daria pontos extras se conseguisse fazer um contraveneno que incluísse a valeriana.

Do outro lado da sala, Cedrico, melhor em Transfiguração do que em Poções, segue à risca as instruções do quadro, mas se entretém com o trabalho de Cordélia, a espiando pelo canto dos olhos, enquanto a bruxa faz medições com precisão, corta ingredientes com movimentos ágeis de seu pulso e não se dá ao trabalho de ler as instruções para isso.

Quando Cordélia volta ao armário de ingredientes à procura de soro de malagarra, Cedrico segue a colega, fingindo ir buscar a mesma coisa, aproveitando-se dos colegas distraídos e do professor que parece ocupado.

—Ei. –Chamou a atenção da colega quando se postou ao seu lado. Cordélia, que tinha dois frascos na mão, mas parecia procurar o mais adequado, o encarou com seus grandes olhos verdes, um pouco desproporcionais em seu rosto. –O que está fazendo?

Ela nem hesitou.

—Quanto mais velha a malagarra, mais escuro o soro extraído dela. –Explicou, com tranquilidade. –E quanto mais velho o soro, menor é a validade da poção produzida por ele. Qual desses você acha que parece mais claro?

Cedrico levou um tempo fingindo analisar os frascos, mas na verdade aproveitando um pouco da atenção dela.

—Esse. –Ele apontou para o que ele pensava ser o certo. –Escute, você tem aula na sexta à tarde?

Cordélia o olhou com curiosidade.

—Não.

O sorriso de Cedrico poderia iluminar mesmo as masmorras frias do castelo.

—Poderíamos fazer um piquenique à beira do lago se você quisesse. –Ele sugeriu, o rosto inclinado na direção dela, um pouco intenso demais. –Se você não estiver cheia de deveres, é claro.

—Piquenique? –Cordélia fingiu considerar, desviando o olhar do cinza dos olhos do garoto.

—Sim. –Ele continuou, parecendo ansioso. –Posso conseguir comida da cozinha. Fica perto do meu salão comunal. Vou pegar doces para você.

Cordélia deu a ele seu sorriso de covinhas, levantando os olhos novamente.

—Bem, se terão doces... –Riu-se. –Eu adoraria ter um piquenique com você.

Então largou o frasco azul mais escuro na prateleira de ingredientes e voltou para a sua poção, que borbulhava em seu cadeirão, em ponto perfeito como o livro dizia que devia estar àquele estágio. Quando se aproximou, Mary tentou convencê-la a ajudar com a sua mistura, que adiquirira um doentio tom de verde, mas Cordélia apenas a deu algumas dicas e voltou para seu próprio caldeirão, novamente concentrada.

O resto da semana se passou como passavam a maioria dos dias em Hogwarts: corridos, com alguns eventos que pareciam inexplicáveis e outros que faziam Cordélia se perguntar se estava num hospício ou em uma escola. Todos os dias, Cordélia observava sua irmã na mesa da Corvinal e sempre que passava por ela, perguntava como iam as coisas. A caçula havia feito amizade com a garota chamada Orla Quircke e agora as duas viviam juntas, então Lucy nem sempre tinha tempo para Cordélia.

Estavam vendo plantas aquáticas na aula de Herbologia com a Lufa-Lufa, que começou a se passar à beira do lago negro. Estavam cultivando Trapaceiras na água rasa, o que era uma coisa boa, pois os tentáculos das plantas agarravam os tornozelos dos nadadores incautos e os puxavam para as profundezas. No raso, porém, podiam ser facilmente repelidas com feitiços paralisantes, que os meninos logo descobriram esguichar água para todos os lados e passaram a fazer isso de propósito para irritar as colegas.

—Seu grande idiota! –Exclamou Mary, logo na primeira aula, o uniforme da Sonserina molhado contra sua pele, depois de Edmundo a atingir com um esguicho de água. A bruxa de cabelos cor de palha estuporou o colega para o meio do lago negro, fazendo com que perdesse dez pontos para a Sonserina e ganhasse uma detenção.

Na quarta, seus colegas tiveram a primeira aula de Defesa Contra as Artes das Trevas; uma matéria que Cordélia havia rejeitado desde o sexto ano, desinteressada no assunto, embora fizesse estudos independentes sobre Artes das Trevas propriamente dita (seu pai sempre dizia que os Bloxam tinham a mão boa para o assunto). Sem culpa alguma, a setimanista se despediu de seus colegas para ir à aula de Runas Antigas, dividida com os alunos da Corvinal; e Theodore Clearwater fora gentil o suficiente para dividir uma mesa com ela. Ao fim da aula, se despediu do novo amigo para encontrar os colegas para o jantar.

Seus colegas estavam na altura da metade da mesa da Sonserina, falando animadamente uns com os outros, com gestos expansivos e expressões impressionadas. Quando Cordélia se aproximou, mirando num guizado de boi exposto à frente dos colegas, Warrington fez gestos para que ela se sentasse ao seu lado.

—Cordélia, não acredito que você perdeu essa aula. –O colega parecia como se houvessem estado na melhor exibição de feitiços do país.

Mesmo Mary, que gostava de se fazer de indiferente, parecia pegando fogo.

—O professor Moody é um gênio das Artes das Trevas. –Disse Mary, baixando seus talheres na mesa. –Ele está nos ensinando maldições imperdoáveis. É claro, como foi a primeira aula, vimos apenas um pouco de teoria, respondemos algumas perguntas, mas, meu Merlim, ele fez algumas demonstrações num coelho. –Nesse momento, Lana pareceu desconfortável, como a própria Cordélia se sentia apenas ao ouvir a história, mas os outros quatros colegas não as deram atenção. –Nas próximas aulas talvez ele nos deixe tentar algumas. Lupin era ótimo, com os feitiços não-verbais e tudo o mais, mas Moody realmente entende da prática do assunto. Ele viu essas coisas com os próprios olhos.

Cordélia, que não tinha interesse nenhum em ver o sofrimento alheio, nem com os seus próprios olhos nem com os de mais ninguém, não ficou particularmente interessada.

—A escola vai se meter numa confusão com o Ministério se descobrirem sobre isso. –Comentou Edmundo, que não parecia tão agitado quanto os outros. –Não somos supostos a aprender Artes das Trevas, não é?

—Duvido que Dumbledore esteja preocupado. –Peter deu de ombros. –Ele sempre fez as coisas do próprio jeito. Afinal, lembram de Lockhart-sorriso-maior-que-o-cérebro?

—Lembro de Lockhart-bunda-bonita-boca-calada. -Mary meditou.

A semana se seguiu dessa forma. Logo, alguns boatos de que o professor Moody havia transfigurado Draco Malfoy numa doninha, sendo repreendido pela professora Mcgonagall, fizeram Cordélia ter certeza de que seus colegas estavam inventando coisas. Foi só ao ver o prórpio Malfoy andando assustado pelos corredores que a sonserina pensou que talvez fosse verdade, o que não contribuiu para sua opinião do professor.

Quando teve tempo livre, Cordélia escreveu para suas colegas francesas, que havia conhecido durante o seu ano de intercâmbio. Fleur, Claire e Marlon já tinham dezessete anos e, portanto, deviam vir como alunos para a competição. Pegando uma coruja da escola, Cordélia observou a ave sumir no horizonte da janela do corujal, num horário de almoço entre duas aulas.

Em Transfiguração, uma aula com todas as casas, por causa do número limitado de alunos, eles estavam aprendendo transfigurações complexas em humanos. Até o ano anterior, vinham apenas mudando as cores de suas sobrancelhas e cabelos, ou o formato de suas sobrancelhas, então quando Cordélia viu no quadro negro instruções para transformar seus próprios braços em barbatanas, engoliu em seco, recebendo um olhar da professora Minerva.

—Fico feliz em ver que decidiu continuar se esforçando em Transfiguração, Srta. Bloxam. –Disse a professora quando, rondando a sala para ver como se saiam seus poucos alunos de NIEM’s, parou ao seu lado, a olhando por cima dos óculos de aros finos. –Especialmente desde que sua escolha em carreia não pede pela matéria.

—Não, professora. –Cordélia respondeu, descansando a sua varinha de cipreste e corda de coração de dragão no tampo da mesa. –Mas eu poderia usar os créditos extras para minha inscrição.

—É uma coisa boa que já saiba o que vai fazer com tanta certeza. –Comentou, antes de seguir para a mesa de Cedrico e Anna Smith, que pareciam ter sucedido com a transfiguração da aula, Cedrico já acenando suas nadadeiras. –Oh, Sr. Diggory. Muito bem, dez pontos para a Lufa-Lufa por ser o primeiro.

A sexta-feira amanheceu finalmente ensolarada, com poucas nuvens no céu; que parecia refletir o seu humor. Cordélia encontrou seus colegas no salão comunal, onde eles seguiram para o café-da-manhã. Assim que entraram no salão, seus olhos escanearam a mesa da Lufa-Lufa, mas Cedrico não estava à vista. Ansiosa com o encontro mais tarde, quase não pôde colocar comida alguma dentro de si, mesmo que tenha encharcado suas panquecas com mel.

—Eu já estou cheio de trabalhos para fazer. –Peter reclamava. –E o professor de Trato das Criaturas Mágicas ainda pediu um pergaminho de trinta centímetros sobre dragões. Como se não estivéssemos atolados por Feitiços e Defesa Contra as Artes das Trevas.

Edmund se virou para Cordélia.

—Você já escreveu o trabalho sobre a Primeira Guerra Bruxa? –Eles finalmente haviam saído do assunto das inúmeras revoltas dos duendes em História da Magia e deviam escrever um pergaminho de 40 centímetros sobre o contexto da guerra.

—Terminei ontem à noite. –Cordélia moveu uma panqueca de um lado para a outro. –Ainda estou com os livros que peguei na biblioteca para pesquisa, você os quer? Teve Ascenção e Queda das Artes das Trevas, Uma História da Guerra das Três Primaveras... você pode pegar no meu dormitório.

O seu primeiro horário da manhã era de feitiços com a Corvinal. A turma estava tendo aulas teóricas de latim para criação de feitiços no primeiro bimestre e eles deviam ter uma ideia até o fim de novembro para criar um feitiço a ser avaliado pelo professor Flitwick. Cordélia estava em dupla com Edmundo, porque Warrington largara a matéria, Peter e Lana eram uma dupla e Mary estava dando em cima de James Cumberbatch, da Corvinal, e, portanto, fazia dupla com ele. Nenhum dos dois ficou insatisfeito; como monitores, eram dois dos melhores alunos da Sonserina e sempre faziam um incrível trabalho juntos.

Os dois estavam com as cabeças juntas em cima de um pergaminho amarelado no tampo da mesa que dividiam, atrás de Peter e Lana, onde deviam desenvolver a segunda parte da tarefa: o nome que daria poder ao feitiço. A teoria era simples, o professor avisara. Mais difícil seria mais tarde, quando tivessem que pesquisar o movimento de varinha e o tom que chegaria ao resultado que eles esperavam.

Estavam planejando um feitiço chamado “Astrangulare”, que seria suposto a fazer a vítima sentir os pulmões comprimidos até que ficasse sem ar e desmaiasse. O mais difícil, eles já previam, seria fazer com que o feitiço parasse de agir uma vez que a vítima estivesse desacordada, pois o professor deixara claro que qualquer feitiço que eles planejassem não devia ser fatal.

Logo depois, os dois rumaram juntos para a aula de História da Magia; que se passou de forma especialmente lenta. Cordélia devia encontrar Cedrico nas portas para sair da escola apenas às três da tarde, mas sentia como se aquela aula fosse a única coisa entre ela e seu primeiro encontro com o garoto de ouro da Lufa-Lufa. Ao fim da aula, Cordélia sentia-se vibrando de ansiedade.

Depois do almoço, a maioria de seus colegas foi para suas aulas da tarde, mas Cordélia, Lana e Peter voltaram ao salão comunal, sentando-se às poltronas de couro negro de Dragão das Ilhas Hébridas normalmente ocupadas junto da lareira. Tiraram os coletes e as gravatas, ficando, Lana e Cordélia, com a saia plissada do uniforme e a camisa branca de botões e Peter, de calça. Cordélia aproveitou o tempo livre para fazer seu relatório de monitoria para entregar ao professor Snape e começar a esboçar as primeiras linhas de sua atividade de poções intitulada Erros Comuns no Preparo de Contravenenos.

Quando subiu ao dormitório para arrumar-se para seu encontro, encontrou seu amasso deitado sobre um grosso envelope de carta azul-royal, com seu nome como destinatário. Quando abriu o envelope, encontrou quatro cartas dentro dele: uma de Fleur Delacour e outras três de Claire Bellefleur, Charlotte Millefuille e Marlon Beauvale, que confirmaram sua ida para Hogwarts em meados de outubro daquele ano, exceto por Charlotte, que ainda tinha dezesseis anos. Momentaneamente distraída, a sonserina sentou-se à cama, ao lado de Gargamel, para apreciar a escrita cursiva de Fleur e a letra apressada de Claire.

Cordélia demorou a perceber que estava se atrasando, então correu para pegar um vestido florido em tons pastéis vintage, cuja saia rodada ia até abaixo de seus joelhos, em seu armário e combiná-lo com uma sapatilha com fitas para amarrar no tornozelo no tom de creme de sua pele e um cachecol verde-escuro ao redor de seu pescoço, porque setembro já estava bastante ventoso àquela altura.

Já vestida, com a varinha enfiada num dos bolsos frontais da saia do vestido, a bruxa se apressou pelos corredores frios das masmorras, subindo lance pós lance de escada –não muito apressada para não chegar afobada, mas decididamente ansiosa.

O saguão estava vazio, exceto pela figura alta e magra de Cedrico, que esperava junto às portas de entrada com uma cesta de piquenique feita de palha em uma das mãos e uma toalha de piquenique xadrez amarela e preta por cima do outro braço. Ele usava uma camisa branca e o cachecol da Lufa-Lufa, que dava um ar saudável à sua pele pálida; ele parecia adorável. Cordélia tomou um último fôlego antes de se apressar para junto dele com passos decididos.

—Me desculpe o atraso. –Cordélia se desculpou assim que se aproximou, chamando a atenção do colega bruxo. Cedrico se virou com tranquilidade, mas pareceu abalado com seu vestido, que deixava à mostra mais do seu colo do que o uniforme geralmente deixava, além dos ângulos de seus ombros, mesmo por debaixo do cachecol. –Você esperou muito?

—Não. –Ele balançou a cabeça e a ofereceu um braço com um floreio, fazendo Cordélia rir e colocar o braço junto com o dele. –Você está muito bonita.

—Obrigada. Fiquei feliz de você me dar um motivo para me arrumar um pouco. –Admitiu, espiando dentro da cesta de piquenique para achar seus doces preferidos: torta de frutas vermelhas, macarrons coloridos que ela comera na França, clafoutis de mirtilo, rolinhos de canela e madeleines. –Me diga onde você conseguiu tudo isso... não só os doces! Que você acertou, aliás, mas a cesta e...

Cedrico sorria como se a reação dela fosse a que ele esperava.

—Bem, os doces consegui na cozinha com os elfos. Falei com eles essa manhã e quando fui buscar agora há pouco estava tudo pronto. –Contou, num tom modesto, apesar de estar claramente orgulhoso de si mesmo. –A cesta e a toalha de piquenique ficam sempre disponíveis no salão comunal da Lufa-Lufa, mas ninguém nunca usa.

—Genial. –Elogiou Cordélia, com honestidade. –Não temos isso no salão comunal da Sonserina, apenas xadrez e livros.

—Eu teria esperado para convidá-la a Hogsmead. –Cedrico contou, enquanto desciam em direção ao lago passando pelas estufas de Herbologia. –Mas não quis cometer o mesmo erro do ano passado.

Cordélia corou. Na verdade, ficara esperando pelo convite dele, mas então Rogério Davies a chamara antes e ela acabara por aceitar, sem esperanças de que Cedrico fosse chama-la tão cima da hora, mas não disse nada disso. Apenas sorriu para ele e o acompanhou enquanto ele a levava para uma área tranquila com um pouco de areia de praia à beira das águas escuras, que naquela tarde refletiam um céu que já estava cinzento novamente.

A sonserina tirou as sapatilhas, enquanto o colega estendia a toalha na areia, então sentaram-se: Cordélia de pernas cruzadas, tirando os doces de dentro da cesta e os colocando na toalha e Cedrico esticando as pernas em direção ao lago e olhando seu rosto com interesse. Antes de tudo, ele começou o que parecia um questionário, exceto que era confortável e natural:

—Qual o seu doce preferido? –Ele perguntou como quem não queria nada.

—Varinha de alcaçuz. –Ela disse imediatamente, após breve hesitação, considerando balinhas ácidas.

—Feitiço?

—Difícil. –Cordélia mordeu o lábio. –Lumus, ou Orchideous.

Ele riu, com as sobrancelhas franzidas.

—Muito pacífico. –Assentiu para si mesmo. –Nada de maldições? Que tipo de sonserina é você?

—Meu pai sempre diz que devemos evitar coisas que nos tentam. –Ela admitiu, encolhendo os ombros. –Quais os seus? Não me diga que os lufanos são pessoas violentas? Eu ficaria decepcionada.

Ele passou a mão pelo cabelo, pensativo.

Vera Verto! –O sorriso dele foi enorme. –Minha primeira transfiguração notável. Hummm.... Poção preferida?

Cordélia torceu a boca.

—Gosto de venenos... –Deu de ombros.

—Por quê? –Ele não pareceu particularmente surpreso.

Cordélia abriu seu sorriso de covinhas.

—Engarrafar a Morte. –Citou algo que havia ouvido o padrinho repetir várias vezes. Cedrico riu, despreocupado.

Então eles comeram, e conversaram. Cedrico falou de sua família, sobre ser filho único e perguntou de sua irmã caçula. Cordélia disse como se sentia abandonada pelo modo como Lucy estava se saindo bem em Hogwarts sem sua ajuda e falou da carreira de pocionista de seu pai, que ela pretendia seguir. Ele disse que, por causa de seu pai, cursava Trato das Criaturas Mágicas, mas queria seguir carreira em Transfiguração. Falaram sobre os escândalos da Copa Mundial de Quadribol; o Profeta Diário seguia fazendo reportagens diárias sobre o assunto, acusando o Ministério de incompetência por ainda não terem identificado o culpado. Então falaram sobre as aulas:

—Foi terrível. –Cedrico contou da aula de Defesa Contra as Artes das Trevas em que o professor Moody torturara um coelho, parecendo abalado. –Não precisava daquilo; foi muito brutal. Susana saiu da sala aos prantos; a mãe dela foi morta na última ascensão de Você-Sabe-Quem.

—Minha família materna também foi morta. –Cordélia contou. Sua mãe sempre falava da família Mckinnon, sobre sua irmã caçula, Marlene, sobre como ela era corajosa e brilhante. Sobre o irmão do meio, Marcus, e sua genialidade. –Minha mãe perdeu dois irmãos caçulas. Nem consigo pensar em perder a minha.

Cedrico segurou sua mão. Se sentindo ousada, Cordélia foi para mais perto dele e colocou a cabeça em seu peito. A conversa mudou; falaram sobre o futuro: Cedrico, como ela, pensava em ser professor. Antes de anoitecer, eles se levantaram e molharam os pés na água do Lago Negro, apontando a Lula Gigante ao longe, que acenava com seus tentáculos para fora d’água. Depois, antes do sol se pôr, arrumaram as coisas e, com os sapatos na mão, fizeram o caminho de volta para o castelo. Antes de entrarem para o saguão, Cordélia o puxou de lado e inclinou o rosto na direção dele, um sorriso de covinhas brincando nos lábios. Ele sorriu de volta.

Cedrico fechou a distância entre eles descendo seus lábios nos dela. Ele tinha gosto de mel e raio de sol e seus lábios eram macios e gentis; sua mão na cintura da colega era um peso confortável e Cordélia, de olhos fechados, se sentia leve e tonta de um jeito agradável, amparada apenas pelos braços dele ao seu redor.

Cordélia tinha experiência com beijos. Já havia tido namorados antes. Sempre pensara que beijos tinham a ver com boca, língua e, talvez, mãos. Mas o beijo de Cedrico esquentou, derreteu e fundiu até os seus órgãos internos, como se apenas naquele momento eles estivessem arranjados do modo correto. Algo nela se soltou e, como uma flor em direção ao sol, ela se inclinou, passando os braços pelo pescoço dele e o puxando para perto. Suas terminações nervosas estavam eufóricas, como se houvesse eletricidade na pele dele e na ponta de seus dedos. Quando ele a soltou, Cordélia pensou que cairia, e seguiria caindo para sempre. Ao invés disso, encontrou os olhos cinzentos dele escurecidos como nuvens de tempestade, tão alarmados quanto ela se sentia por dentro, mas sorridentes também.

Havia uma magia em ter o primeiro beijo com alguém, ela sempre pensara, mas havia uma magia extra naquele. Talvez fosse Cedrico, talvez fosse ela nunca ter feito um piquenique. Ainda, talvez fosse porque ela sempre o achara intocável. De qualquer forma, tivera gosto de alegria e expectativa. Ao fim do beijo, ele fez questão de deixa-la nas masmorras, embora não fosse caminho para o seu próprio salão comunal.

Notas finais
Esse foi um pouquinho mais looongo, eu sei! Mas não pude cortar, porque ficou exatamente do jeito que eu queria. Quero que Cordélia tenha uma vida com os amigos e é importante para mim que vocês conheçam os sonserinos do sétimo ano, além dos personagens já familiares! Aceito comentários! Beijinhos! A música do capítulo é Like Gold, do Vance Joy.