Lembrem-se de Cedrico Diggory
13 NIEM's
Notas iniciais
"Look at the stars
Look how they shine for you
And everything you do
Yeah, they were all yellow"
Ainda faltando um bom tempo para a última tarefa, ela e Cedrico vinham deixando o Torneio de lado para focar nos NIEM’s que se aproximavam. O professor Flitwick estava satisfeitíssimo com o resultado de seu trabalho em dupla com Edmundo para criar um feitiço e sugeriu que podia enviar o esboço para o ministério avaliar e computa-lo como um feitiço oficial. Snape também estava satisfeito com ela; passara o começo do mês ventoso de abril em grande parte no laboratório de poções, fazendo os últimos procedimentos de seu projeto. A Poção Luciferina tinha perdido a maior parre do cheiro de enxofre e aparentava mais uma água de rosas do que a textura densa de sangue, embora ainda não tivesse as características da Veritasserum, como ela planejara à princípio. O professor, entretanto, admitiu que ela conseguira mais do que ele pensara que conseguiria.
As aulas de Poções estavam mais puxadas do que nunca. As poções eram mais complexas e avançadas agora e o Snape que ela conhecia em sala de aula decididamente não era o mesmo homem que era seu padrinho em tempo livre, ela começava a desconfiar.
—É claro... –Ele estava dizendo em uma de suas aulas matinais da segunda-feira. –Que há a questão da animagia na Poção Polissuco. Alguém pode me explicar como essas coisas estão relacionadas?
Ao seu lado, Cedrico levantou a mão alto no ar. Cordélia também sabia a resposta para aquela pergunta, mas, se levantasse sua mão, seu padrinho daria a ela uma chance em detrimento de Cedrico e, agora que ela pensava sobre isso, quase nunca o via interagir em Poções. É claro que o fato de que o assunto de animagia o interessava ajudava-o a ter confiança em responder, mas, e ela nunca havia notado esse fato antes, ele parecia estranhamente rígido em sua cadeira. Nas aulas de Poções, também, ele nunca fazia nenhum movimento carinhoso com ela, embora em Feitiços ou Herbologia não hesitasse em segurar sua mão ou tirar uma mecha de seu cabelo do rosto.
—Diggory? –Seu padrinho o deu a vez como se isso doesse nele.
—À princípio, quando surgiu a ideia de animagia, bruxos menos talentosos em Transfiguração pensaram que podiam tomar um caminho mais rápido através da Poção Polissuco. –Ele explicou. –Logo, foi notado que esta nunca deve ser usada em Transfiguração humana-animal, pois os resultados são imprevisíveis e erráticos.
Snape crispou os lábios, descontente, e Cordélia soube que ele estava procurando um defeito na resposta.
—Cinco pontos para a Lufa-Lufa. –Cordélia sentiu Cedrico ao seu lado relaxar como se tivesse tido sua sentença de morte adiada, mas ele apenas assentiu e continuou a prestar atenção, sem trocar um único olhar com ela. –Como o Sr. Diggory disse, a Poção Polissuco...
O padrinho continuou a aula, mas Cordélia não estava mais prestando a mesma atenção de antes. Assim que ele deu uma pausa e os mandou fazer uma pequena atividade, recriando as condições da Poção Polissuco em sua terceira fase, ela se virou para o namorado:
—Você sabe que Snape não vai atacar você se tocar em mim, não sabe?
Cedrico olhou alarmado para a escrivaninha onde seu padrinho estava acomodado, como se temesse que ele os ouvisse.
—Não seria em você que ele descontaria. –Cedrico apontou, em voz baixa. –Especialmente depois da questão com a Poção Contraceptiva. Não pretendo me indispor mais com ele depois daquilo.
Cordélia riu, baixinho.
—E o que você acha que ele vai fazer? Envenenar seu suco de abóbora matinal?
—Eu estava pensando em colocar Veritasserum em meu suco de abóbora matinal. –O namorado admitiu, as bochechas coradas e sem olhar para ela. –Ele já ameaçou isso antes.
Ao fim da aula, ao invés de sair com seus amigos para o tempo de Herbologia, Cordélia ficou nas masmorras até que todos os alunos saíssem da sala. Cedrico a lançou um olhar curioso, mas não disse nada enquanto saia dali o mais rápido possível. Seu padrinho levou um segundo para notar que era a sua afilhada a aluna que restara em sala.
—Cordélia. –A cumprimentou, assumindo sua versão familiar de novo. –Como vão os estudos para os NIEM’s?
—Muito bem. –Ela disse, honestamente. –Me diga... você não tem nada contra Cedrico, tem?
A resposta foi tão rápida que por um segundo Cordélia se perguntou se ele estava esperando sua pergunta.
—Além do fato de ele distraí-la de suas atividades? De você deixar de responder questões cuja reposta você conhece por ele? –Ele não a olhou enquanto dizia essas coisas. Seus olhos negros estavam na atividade escrita que eles haviam acabado de entrega-lo e sua pena de corvo, negra e brilhante, riscou com violência um erro numa das redações. –Ou o fato de que, várias vezes, você negligenciou suas atividades para ajudá-lo?
Cordélia estreitou os olhos com muita astúcia.
—Você sente minha falta no laboratório. –Percebeu, escondendo um sorriso que ele não apreciaria.
—Você, bagunçando minhas coisas e ocupando meu espaço? Não.
Mas ela podia ver através de sua mentira tão bem quanto ele podia ver através das dela.
—Eu vou voltar a aparecer com frequência. –Garantiu a ele. Então continuou. –E deixar Cedrico responder no meu lugar foi... um experimento.
—Bem, você podia ter ganhado dez pontos para a Sonserina se tivesse respondido.
Cordélia não apontou a injustiça daquela observação, levando em conta que Cedrico havia ganhado cinco por explicar não menos mal do que ela teria explicado. Ela acenou para o seu padrinho enquanto saia da sala, ainda segurando o riso.
Ela e Cedrico estavam, numa sexta, saindo do salão principal após o jantar. Como sempre fazia, ela esperava que ele a acompanhasse até as masmorras, onde se beijariam por algum tempo nos corredores vazios antes de ela se recolher em seu salão comunal. Ao invés disso, porém, Cedrico a segurou pelos ombros a direcionou para o outro lado, num corredor adjacente, cheio de quadros coloridos se preparando para uma soneca. Alguns deles cumprimentaram Cedrico como se o conhecessem bem e o lufano acenou de volta para todos.
—O que você está fazendo? –Ela perguntou, quando decidiu que não fazia ideia de para onde estavam indo; não para os jardins, não para o banheiro dos monitores, seus locais usuais.
Cedrico sorriu grandemente e não respondeu, parando-a de frente para o quadro de uma tigela de frutas pintada à óleo. Sem explicar nada, ele estendeu uma mão de longos dedos e fez cócegas na pera verde –aqui Cordélia arregalou os olhos com surpresa. Hogwarts era o lugar mais estranho que ela conhecia. A fruta se contorceu debaixo dos dedos no aluno e se transformou numa maçaneta verde que Cedrico girou, abrindo para um cômodo até então desconhecido para ela.
O aposento em que entraram tinha um teto tão alto quanto o do salão principal, repleto de tachos e panelas de latão empilhados ao redor das paredes de pedra, um grande fogão de tijolos no extremo oposto. No mínimo cem elfos domésticos pararam para observar sua entrada, sem parecerem desaprovadores. Todos eles, com seus olhos grandes e orelhas de morcego, se adiantaram e começaram a pergunta-los o que podiam fazer pelo casal de alunos, usando toalhas de chá ao redor dos corpinhos pequenos e fazendo reverências exageradas que levavam seus narizes pontudos até o chão.
—Eu sou Dobby, senhorita. –Um elfo de roupas especialmente coloridas, olhos verdes e muitas meias se aproximou dela, enquanto Cedrico falava com outro elfo. –O que posso fazer por você? Dobby fica feliz em servir os alunos de Hogwarts, senhorita. Aceita uma xícara de chá?
—Prazer conhece-lo, Dobby. –As orelhas do elfo tremeram quando ela falou gentilmente, parecendo ansioso. –Talvez em outra ocasião, esse chá.
Em poucos minutos, cerca de cinco elfos os haviam abastecido com bolinhos de caldeirão, suco de abóbora e caramelos, então os dois saíram da cozinha, acenando e fazendo promessas para voltarem, enquanto vários enormes pares de olhos de várias cores os encaravam cheios de expectativas.
—Não acredito que levei sete anos para descobrir isso! –A sonserina exclamou quando estavam do lado de fora do quadro fechado, ainda no corredor. Cedrico sorriu alegremente quando olhou para trás e continuou andando, a puxando pela mão.
—Você espera aqui um segundo? –Ele perguntou, a fazendo parar diante de três barris. Cordélia simplesmente o olhou sem entender, mas um segundo depois ele tocou uma música rápida batendo nas tampas dos barris de madeira como se fossem tambores e um deles se abriu no que parecia um pouco com uma toca. Ela levou ainda mais um segundo para notar que estava diante da entrada do salão comunal da Lufa-Lufa, por onde Cedrico sumiu, após sorrir misteriosamente com o canto do lábio.
Ela ficou no corredor ainda por cerca de vinte minutos. Era uma sorte que não tivesse tido aula à tarde e, portanto, tivera tempo de se trocar após o jantar, porque, nesse tempo, vários alunos lufanos passaram por ela a lançando olhares de curiosidade, embora nenhum fosse abertamente hostil. Seu vestido anos cinquenta mídi e florido, no entanto, no geral, os convencia de que ela era um deles, e alguns poucos que pareceram a reconhecer não reclamaram de ela descobrir a localização do esconderijo lufano.
Quando Cedrico voltou, também estava sem farda, usando um suéter amarelo grosso e calças pretas. Carregava consigo a cesta de piquenique de seu primeiro encontro e um cobertor fofo jogado por cima do ombro. Cordélia deixou que ele mais uma vez pegasse sua mão, a levando até os lábios e depositando um beijo ali, sem tirar os olhos cinzas de cima dela, e então a guiar por todo o caminho até a Torre de Astronomia.
—O que você está planejando, Diggory? –Cordélia perguntou em um murmúrio quando ele se pôs ao lado da escadaria em espiral, indicando que ela subisse na frente, o que Cordélia fez, sempre olhando para trás, para a expressão dele, de quem se achava muito esperto. No escuro ali em cima, os olhos de Cedrico brilhavam perigosamente, cheios de ideias.
—Um encontro. –Ele respondeu muito simplesmente, encolhendo os ombros.
A Torre de Astronomia era a mais alta do castelo, aberta em todos os lados de forma a formar uma visão em 360° graus lá de dentro, além das aberturas no teto que deixavam entrever um céu azul anil lá em cima, particularmente estrelado naquela noite agradável –um pouco fria, mas não congelante ainda. As mesas aonde os alunos faziam seus mapas astrais estavam empurradas num canto e, perto de uma das janelas, aos pés de uma luneta enfeitiçada para ver o céu com precisão, um buquê de peônias vermelhas e rosa-chá estava no chão.
Cordélia lançou um olhar para trás com um enorme sorriso nos lábios –não seu sorriso fechado de covinhas, feito para ser charmoso, mas um natural e espontâneo sorriso de lábios abertos, em que ela mostrava os dentes brancos, os olhos verdes brilhavam muito e seu nariz se franzia como o de um coelho.
Cedrico estava parado no último degrau da escada, apenas observando sua reação; as mãos enfiadas no bolso e a cabeça inclinada de lado. Quando ela se apressou para pegar o buquê, ele se aproximou, colocando o cobertor amarelo no chão, a cesta de piquenique por cima dele e então usando sua varinha para baixar o telescópio até que eles pudessem alcança-lo estando sentados.
—Vamos ver as estrelas. Você conta. –Ele disse, inclinando para ela o telescópio. Então se posicionou sentado por trás dela com as mãos em sua cintura e o queixo apoiado em seu ombro. –Eu te dou um beijo a cada estrela encontrada.
—São infinitas. –Cordélia apontou, sem conter um sorriso.
Ele a deu uma das garrafas de suco de abóbora de dentro da cesta para que ela molhasse a garganta para a tarefa.
—Exatamente. –Ele respondeu. –Bom que temos a noite toda.
Era uma boa coisa que seu vestido fosse de alcinhas. Ele começou afastando o cachecol e beijando seu pescoço, antes de desenrolar a peça verde-escura e descer os beijos pelo seus ombros. Em pouco tempo ela se deixou cair por cima do cobertor; o corpo dele cobrindo o seu com facilidade, as pernas dela o enlaçando para mantê-lo perto e os braços dele apoiados dos dois lados de sua cabeça. Ele ria maliciosamente quando ela gemia suave em repsosta aos beijos que ele pousava em seucolo e pescoço, mas ficou sério uma vez que ela deslizou a mão entre o tecido de sua cueca e a pele quente abaixo dela.
Cordélia não contou todas as estrelas do céu naquela noite e teve a impressão de que se fossem encontrados por algum professor estariam em sérios problemas, mas Cedrico tinha aquele efeito sobre ela; ela simplesmente não se importava com nada quando estava com ele.
Rita Skeeter seguia escrevendo artigos maldosos e Cordélia se encontrou satisfeita que ela não desse tanta atenção a Cedrico. O último de seus artigos sugeria que Krum e Harry estavam envolvidos num triângulo amoroso –o que deixou tanto Cho quanto Krum muito chateados, embora ela não tivesse visto a reação de Harry e Hermione. Não que a sonserina lesse os artigos da repórter, mas era difícil não ouvir seus colegas comentando. Krum e Hermione passavam muito tempo escondidos na biblioteca, frequentemente juntos e, Cordélia observou, sem Harry Potter. Às vezes Cedrico e Cordélia se juntavam a eles e mesmo Fleur, Marlon e Claire, mais familiarizados com o castelo agora, começaram a explorar o lugar.
Numa tarde, Cordélia encontrou uma estranha oportunidade para retribuir um favor.
Cho Chang ficava com os olhos vermelhos e inchados quando chorava. Algumas pessoas eram assim, Cordélia sabia, feliz por não ser o seu caso. A garota não estava chorando ativamente, mas se encostava tristemente na mesma janela onde Cordélia estudara algum tempo antes, quando tivera uma pequena crise de ciúmes da garota. Mas eles haviam passado por isso agora, e a corvina era uma garota legal, ela sabia.
—Chang? –Cordélia se aproximou da garota de cachecol azul-marinho. –Você está bem?
Havia uma edição do Profeta Diário ao seu lado, com uma foto de Harry Potter na capa, parecendo profundamente desconfortável. Cho desviou o olhar do jornal para a sonserina que havia se aproximado furtiva e deu uma fungada.
—Claro. –A sua voz era fraquinha. –Estou bem.
É isso, Cordélia disse a si mesma. Agora siga o seu caminho.
Mas a garota da Corvinal virou os olhos escuros tristemente para baixo e a sonserina percebeu que andar com lufanos a estava transformando numa pessoa empática –o que não necessariamente era uma boa coisa, pois ela tinha os próprios problemas com os quais lidar.
—Espero que você não esteja acreditando nessas bobagens. –Comentou, pegando o jornal do lado da outra menina para dar uma olhada na matéria, que sugeria que Granger tinha uma queda por jogadores de quadribol. Bobagem. Cordélia havia namorado mais jogadores do que ela.
Cho hesitou, como se não tivesse certeza de que Cordélia era a pessoa com quem ela queria conversar, mas depois de alguns minutos pareceu dar de ombros e decidir que a colega seria tão boa quanto qualquer outro, então cedeu um pouco de espaço na janela para que Cordélia se aproximasse.
—Como você se sentiria se, dos três campeões, a coisa mais preciosa de dois deles fossem suas namoradas. Menos do seu namorado. –Ela suspirou alto. –Todo mundo comentou, sabe? Hermione foi de Krum, você de Cedrico.... E a coisa mais preciosa de Harry foi Ronald Weasley.
Cordélia considerou a pergunta com seriedade. Isso nem havia se passado pela sua cabeça, mas, por outro lado, não era o seu namorado que parecia não a levar a sério. Suspirando, a sonserina se empoleirou na janela também, que era espaçosa o bastante para as duas, de frente para Cho, as pontas de seus sapatos pretos de boneca encostadas nos dela e a visão dos jardins por de trás do vitral colorido chamando sua atenção. O corredor em arco, iluminado pela luz do sol vinda das janelas de vidro, estava vazio e suas palavras ecoavam um pouco, mas não parecia como se ninguém estivesse vindo –nem haviam quadros para fofocar depois.
—Iria me sentir frívola na vida dele. Sentiria ciúmes. Iria querer que ele me compensasse por isso; me fizesse sentir importante. –Admitiu. Pela expressão de Cho, ela acertara em cheio. –Mas isso não significa que é isso que ele pensa de você, Cho. Weasley ser importante não torna você menos importante. Provavelmente, ele nem sabe como você se sente.
—Não acho que ele saiba. –A outra garota concordou.
—Fale com ele. –Cordélia recomentou. –Foi o que você me disse para fazer, não foi? Foi um conselho inteligente.
Cho sorriu um pouco presumida.
—Eu notei que você e Cedrico estão bem de novo. –Disse. –Fico feliz.
A sonserina se acomodou melhor na janela, desviando o olhar para a visão seis andares abaixo e tirando duas penas de açúcar do bolso, estendendo uma para a corvina, que esboçou um sorriso.
—Eu também. –Murmurou.
Depois de conversarem algumas amenidades –afinal, para Cho, era ano de NOM’s como para Cordélia de NIEM’s e elas compararam o estresse dos testes e a pressão exercida pelos professores, as duas garotas saíram de seus lugares na janela para irem até o Salão Principal, onde o jantar já devia estar sendo servido.
Antes das duas meninas chegarem ao saguão, Cordélia visualizou Edmundo vindo na direção delas. Quando o sonserino notou a amiga, abriu um grande sorriso.
—Cordélia. Olá, Chang. –Ele as cumprimentou, antes de se virar para a sonserina. –Vou ao corujal. Você vem comigo?
Não era exatamente um passeio no parque, mas não era como se Cordélia tivesse algo melhor para fazer, então acenou para Cho, que continuou seu caminho, e voltou-se de novo para a ala oeste do castelo, dessa vez acompanhando Edmundo. Edmundo, aliás, Cordélia observou, estava com um tipo de energia nervosa. Um agitar de mãos e um sorriso estranho nos lábios.
—O que há? –Cordélia finalmente perguntou quando eles começaram a subir as escadas em espiral da torre no corujal e o cheiro de palha os atingiu.
Edmundo sorriu misteriosamente e abriu a porta, checando se tinha alguém lá dentro.
O corujal estava vazio. Até as corujas eram escassas, pois a noite já tinha caído e a maioria delas havia alçado voo para a refeição noturna. Uma coruja branca de olhos amarelos virou a cabeça para eles tenebrosamente, mas pertencia a um aluno, por isso os dois sonserinos a ignoraram e Cordélia ficou com uma pequena coruja das torres no braço enquanto Edmundo amarrava sua carta à perna na ave.
—Eu não contei a ninguém ainda... –Ele disse em tom de aviso. –Eu e Claire... nós... dormimos juntos.
Por um segundo, Cordélia abriu e fechou a boca, apertando os lábios para se impedir de sorrir.
—E então? –Perguntou, tentando ser diplomática. –Foi... sua primeira vez?
Edmundo, até onde ela sabia, jamais havia feito sexo antes. Porém, não era como se eles costumassem conversar sobre o assunto; ela sempre imaginara que, se acontecesse, ele falaria com Peter e Cassius, não com ela. Afinal, por mais próximos que fossem, ela também não procurara Edmundo após transar com Cedrico, mas Mary e Lana.
Ele fez que sim com a cabeça.
—E a dela também. –Disse. Ele já havia amarrado a carta na pata da coruja e foi até uma das janelas, onde a deixou alçar voo de seu braço e não se virou para ir embora. Cordélia se aproximou dele. –Foi estranho... eu pensei que era mais silencioso. Claire fez... barulhos.
—Eu não preciso de detalhes. –Cordélia avisou.
—E com quem mais eu vou falar? –Edmundo cruzou os braços.
—Peter e Cassius?
—Eles fariam graça. –O sonserino argumentou. –Você e Mary são melhores para isso, mas Mary estava ocupada. E vocês são garotas, e você é amiga de Claire....
—Ela não me disse nada. –Se adiantou a avisar. Então suspirou e fez um gesto para que Edmundo continuasse, mais por estar lisonjeada de ser a primeira a ouvir. –Vá em frente.
Edmundo contou, com mais detalhes do que ela gostaria de ouvir, e a fez opinar, mesmo quando ela achava não ter nada a dizer. Os dois perderam o jantar e tiveram que ir na cozinha mais tarde pegar alguma coisa para comer antes de se recolherem no salão comunal da Sonserina, mas Cordélia não se importou.
Quando os três campeões mais velhos se juntavam, frequentemente o assunto era especulação da terceira tarefa. Fleur não parava de falar em túneis subterrâneos, mas Krum era mais cético sobre o assunto. Eles o faziam cada vez menos agora; todos eles estavam entrando na reta final de sua educação mágica primária e as aulas estavam cada vez mais exigentes.
Por isso, no dia em que Cordélia entrou na biblioteca para encontrar Cedrico com um buquê de Cardos Escoceses e cercado de livros de Transfiguração, seu coração disparou.
—A professora Minerva mandou alguma atividade que eu não estou sabendo? –Ela precisou tirar três livros de uma pilha para poder ver bem o rosto dele. Seu tom era alarmado.
Ele levantou os olhos e sorriu, mas no segundo seguinte os baixou de novo.
—Não, não se preocupe. –Ele puxou uma cadeira para que ela se sentasse perto dele. –Esses são um presente para Minerva. Ela vem me ajudado na inscrição para cursos de Transfiguração. Você sabe, a Academia Circe, o Instituto George Wingrave... –Ele bateu com a varinha nos cardos, que se moveram apaticamente, então o lufano suspirou e se virou para ela. –Bem, de qualquer forma, as flores não são supostas a secarem, nem perderem o cheiro e estou procurando os feitiços para isso.
—Isso é.... muito doce. –Ela observou, sentando-se e colocando seus próprios livros na mesa. –Aqui, me deixe ajudar. Você fica com os livros da esquerda, os meus são os da direita.
Na metade de abril, o tempo já havia esquentado o suficiente para que guardassem suas capas de volta no armário, mas Cordélia ainda pôs um cachecol no sábado que iriam a Hogsmead antes de subir para o saguão onde encontraria Cedrico. Quando chegou, ele já estava lá segurando, para sua surpresa, uma câmera fotográfica que funcionava com magia.
Os dois não estavam indo sozinhos ao vilarejo dessa vez. Mary, Susan, Vítor, Fleur, Edmundo, Claire e Marlon logo se animaram para ir também e, agora que o frenesi sobre os campeões havia baixado consideravelmente, ninguém os importunaria se passassem toda a tarde no Três Vassouras.
Ela e Cedrico, porém, tinham uma parada obrigatória antes de se juntarem aos amigos para algumas cervejas amanteigadas. Por isso, já na rua principal, deixaram o grupo maior fazer sua direção para o bar, enquanto andavam de mãos dadas para a Dedosdemel. Cedrico a deixou escolher seus doces preferidos: os diabinhos de pimenta, varinhas de alcaçuz, pirulitos sanguíneos, quadradinhos de chocolate, lesmas de geleia –sugestão de Cedrico –e delícias gasosas. Eles estavam absolutamente distraídos com a tarefa, quando de repente foram interrompidos por uma familiar voz ácida que se lembrou da existência do primeiro campeão de Hogwarts sem Potter por perto.
—Ora, ora. –Disse Skeeter, chupando uma balinha ácida num tom de verde que combinava com suas vestes. –O campeão mais bonito de Hogwarts... e quem é essa senhorita?
O casal trocou um olhar de entendimento rapidamente. Provavelmente era melhor não provocar a mulher e evitar sofrer o que Hermione vinha sofrendo, com as cartas raivosas e os artigos maldosos.
—Olá, Srta. Skeeter. –Cedrico apertou sua mão educadamente. –Esta é Cordélia Bloxam.
—Sua namorada. –Ela levantou as sobrancelhas com falsidade.
—É, sim.
Os olhos da jornalista brilharam perigosamente.Ela passou a língua pelos dentes de forma faminta.
—Me diga, já namorava o Sr. Diggory antes de ele ser escolhido? Ou namorou o campeão de Hogwarts apenas depois de sua ascensão? Como se sente sobre o torneio? –Skeeter, como o cão treinado que era, sentiu logo sua hesitação e jogou a cabeça para trás com tranquilidade. –Apenas uma palavrinha para que possamos ver nosso campeão pelos olhos do... amor adolescente.
Cedrico, talvez na intenção de deixa-la mais confortável, talvez apenas para se afastar da bruxa de vestido verde-ácido, se afastou com o saco de doces para pagá-los no balcão. Skeeter o observou sair com um olhar entretido, o que deu a Cordélia tempo para pensar numa resposta que ela não pudesse distorcer para algo constrangedor.
Quando a jornalista se virou novamente para ela, a sonserina deu um sorriso doce e se fez de entretida.
—Ah, bem, já namorávamos quando ele se inscreveu no Torneio. –Contou. –Fiquei preocupada, principalmente, mas Cedrico é um bruxo muito talentoso e excepcionalmente competente.
—Você se inscreveu?
—Não.
—Hum... –o olhar dela foi especulativo. –O que pensa dos outros competidores? Cedrico é melhor que eles? Eles são amigáveis? Ficou chateada com Harry Potter por tirar os holofotes do seu namorado?
Cordélia olhou ao redor, à procura de um escape ou um conhecido, mas a Dedosdemel estava cheia de terceiranistas empolgados e Cedrico continuava no balcão –ao lado de um grupo de meninas muito pequenas, mas que davam risadinhas e suspiros ao seu lado.
—Acho que todos os escolhidos são talentosos e competentes de forma equilibrada. –Cordélia deu de ombros, achando que seria melhor não comentar que havia sido a própria Skeeter a tirar os holofotes de seu namorado. –Cada um apenas tem que explorar os seus pontos fortes para vencer.
—E quanto a Potter? –Insistiu.
—Potter... –A sonserina fez um esforço para não soar incrédula ao citar o bruxo. Ficava impressionada com o tanto de destruição que um quartanista franzino era capaz de causar. –Potter tem um longo histórico de quebra de regras, então acho que nenhum aluno de Hogwarts ficou surpreso por ele ter dado um jeito de se colocar na competição.
A jornalista deu a ela um sorriso particularmente perigoso por ser excepcionalmente simpático. Apenas quando se despediu da jornalista que Cedrico voltou ao seu lado, com seus doces, e os dois andaram para o Três Vassouras, onde passaram a tarde bebendo cerveja amanteigada e tirando fotos do grupo, sendo interrompidos uma única vez por Cho Chang, à procura de Harry Potter, que havia sumido em algum lugar no vilarejo com Weasley e Hermione –informação que deixou Vítor visivelmente desconfortável em sua cadeira.
Eles rapidamente mudaram de assunto, fazendo um combinado de provarem cada uma das bebidas do cardápio, agora que eram todos maiores de idade. Madame Rosmerta riu alto ao ouvir os pedidos, e seu riso tinha um tom de sabedoria, mas logo voltou com uísque de fogo, cerveja amanteigada, hidromel envelhecido em carvalho, vinho dos elfos, vodka de bolhas –uma bebida importada, familiar aos nortenhos que fora sugerida por Keira Vulchanova e Ivan Ibramovitch, trazidos por Hugh, quando ele também se juntarou ao grupo.
—Isso vai dar tão errado. –Cordélia murmurou para Marlon, enquanto aceitava uma taça de hidromel, mas recusava a vodka e o vinho.
—Sem dúvidas. –Edmundo sorriu de forma cruel, tendo ouvido o comentário e bebendo vodka como se fosse água.
O grupo de lufanos, sonserinos, nortenhos e franceses voltou a Hogwarts rindo alto e cambaleando. Era uma sorte que tivessem voltado tarde, porque haveria um número maior de fofocas se mais colegas vissem os campeões naquele estado. Se topassem com Rita Skeeter, então, o escândalo estaria completo. Fleur andava girando com os braços abertos, Marlon ao seu lado a apoiando para que não tropeçasse em nada no caminho, e Cedrico soluçava a cada vez que ria, se apoiando majoritariamente em Cordélia, que sentia que devia a ele depois do Baile de Inverno, em que ficara completamente alterada. O pobre Edmundo havia se responsabilizado por Claire, Mary e Susana, com ajuda de Marlon, mas Fleur sozinha já mantinha o francês ocupado o bastante.
—Pom... –Comentou Krum, olhando o tempo razoável que fazia, apesar do vento. –Essta é um pom horra parra voarr.
—Eu não acho... hic... que poderíamos.... hic... ter uma partida de quadribol nesse estado. –Cedrico disse a Krum muito sensatamente.
Cordélia não pode deixar de pensar que ele era um bêbado muito consciente, porque do outro lado Marlon, Hugh e Mary se animaram com a ideia, fazendo planos que foram logo deixados de lado quando eles chegaram a Hogwarts e se sentaram no gramado à beira do lago, cansados da caminhada.
—Eu não acredito que eles simplesmente trouxeram quatro dragões para Hogwarts. –Mary ria com lágrimas nos olhos. –Sério, dá para acreditar nisso?
—O qu’ non dá parrra acrrreditarr é na comide desse castele! –Fleur disse em voz alta, a língua solta ainda mais solta pela bebida. –Eu ganhei dois quiles esse ano!
Edmundo, que não perdia a dignidade nem mesmo bêbado, trocou um olhar divertido com Cordélia, enquanto balançava a cabeça imitando o jeito de Fleur com os cabelos prateados. Cordélia fez uma careta para o amigo, sem conseguir reprimir uma risadinha apenas um pouco debochada.
—Oh, merde. –Murmurou Fleur, um segundo antes de se inclinar para frente e vomitar, o que foi a deixa de todo mundo para levar a garota para a carruagem de Beauxbatons e então se recolherem.
No dia seguinte, no café da manhã, a maioria de suas expressões denotava arrependimento profundo, enquanto mesmo os sons dos talheres de seus colegas faziam doer suas cabeças pesadas. Cordélia apenas tomou suco e com muito esforço, enquanto Vítor e Keira, também na mesa da Sonserina, comiam ovos como se não houvessem amanhã.
À tarde, eles já estavam juntos, planejando a próxima.
Como previsto, exatamente um mês antes da última tarefa, Cedrico recebeu um aviso da professora Sprout para, à noite, encontrar seus colegas no campo de quadribol. Quando ele a deixou na biblioteca sozinha, Cordélia arrumou suas coisas e foi ao laboratório de poções, não para trabalhar em seu projeto, que já estava pronto, mas para estudar a parte prática dos NIEM’s. Não sabia quais poções seriam pedidas, mas podia preparar um Poção do Morto-Vivo ou começar uma Poção da Aurora para se manter praticando.
Havia uma carta de seu pai na bancada, mas ela fez um esforço para ignorá-la. Ainda assim, não podia deixar de conjecturar em sua cabeça se seria sobre ela. Mas vinha fazendo tudo certo: seus deveres de monitora, seu projeto estava pronto e seu padrinho o havia aprovado e suas notas seguiam boas depois de seu sucesso com a atividade de feitiços.
Ainda assim, tinha uma estranha sensação que a fez abrir o papel de pergaminho apenas um pouco. A escrita de seu pai estava desleixada como se ele estivesse escrito com alguma pressa.
Como Cordélia esperava, a carta era sobre ela:
Severus,
Se o que desconfia for verdade, estamos todos em perigo. Você deve proteger Cordélia, devemos mantê-la por perto. Marilyn ficou bastante desgostosa com a informação, mas, do jeito que age distante de Cordélia...
O resto da carta ela deixou de lado. A menção a sua mãe fez com que perdesse todo o interesse no assunto. Além disso, desconfiava de que eles estavam falando sobre as coisas estranhas que vinham acontecendo naquele ano, e é claro que estavam preocupados com ela.
Já estava na fase final de sua Poção do Morto-Vivo quando seu padrinho, resmungando, abriu a porta do laboratório com um estrondo e entrou com a capa esvoaçando atrás de si dramaticamente.
—Maldito Potter! –Ele rosnou, parecendo indiferente à presença dela. Cordélia, porém, virou-se no balcão para encará-lo à espera de respostas. –Agora sumiu-se o chefe do Departamento de Cooperação Internacional em Magia e um dos organizadores do Torneio Tribruxo. Melhor seria simplesmente cancelar o torneio antes que alguém saia irremediavelmente ferido.
—Acha que vão cancelar? –Cordélia perguntou esperançosa.
—Não. –Snape tirou a capa e a pôs em cima do balcão, ficando apenas com as vestes negras que cobriam todo o seu corpo, menos as mãos. –Dumbledore está sendo descuidado, fazendo o jogo de quem quer que seja que planeja isso. E Moody apoiando enquanto faz ameaças!
—Ele ameaçou você? –Perguntou Cordélia, tentando imaginar alguém que pudesse ameaçar seu padrinho. Havia mantido uma cuidadosa distância do professor Moody desde que ele chegara a Hogwarts, e de seu olho mágico. Seus colegas, entretanto, ainda pareciam mesmerizados pelos seus métodos. Até Cedrico gostava dele.
Snape, porém, não a deu atenção.
—Vão esperar que Potter ou algum dos outros garotos morra antes de cancelarem o maldito Torneio.
A respiração de Cordélia ficou presa na garganta e ela se voltou para o caldeirão para que o padrinho não visse sua expressão.
—Não diga isso! –Pediu, a voz estrangulada, encarando o líquido arroxeado que era a sua poção.
Ele parou de resmungar, virando-se para ela como se finalmente a notasse na sala e sua expressão era preocupada, mas ele não se desculpou.
—Bem. –Disse ele, finalmente. –Se isso serve de consolo, espero que seja Potter.
O padrinho a encarou como se esperasse que ela de fato ficasse confortada. Incapaz de responder, Cordélia desligou o fogo embaixo do caldeirão, fez um feitiço rápido para limpá-lo, juntou suas coisas e se virou para ele, infeliz.
—Não serve. –Respondeu. –Aliás, não acho que você quis dizer isso.
Os olhos negros dele eram muito insondáveis, mas, imitando-a, ele se virou no balcão de frente para ela e suspirou longamente.
—Tem razão. –Admitiu. –Mas, enquanto o Primeiro Ministro não quiser cancelar o Torneio, não há nada a se fazer.
—Claro que há. –Ela murmurou baixinho. –Quero dizer... eu tenho que fazer algo.
Ele a olhou com compreensão; um tipo de compreensão que ela não esperava dele: o coração mais gelado da Sonserina.
—Tem razão. –Repetiu o Mestre de Poções. –Vá fazer o que acha que deve.
Cordélia acenou e o deu as costas.
Ao invés de continuar nas masmorras, indo para o dormitório, Cordélia fez o caminho para a superfície, onde ficava o corredor da cozinha. Chegando aos três barris escondidos num recuo de pedra que ela sabia se abrirem para o salão comunal da Lufa-Lufa, Cordélia respirou fundo e não bateu, sabendo que certamente erraria a senha e seria encharcada de vinagre –Cedrico já a havia avisado sobre aquela possibilidade. Ao invés disso, voltou à cozinha, onde pediu a um elfo que fosse chamar por Cedrico, se ele ainda estivesse acordado, então, no corredor, sentou-se no chão e esperou.
Não mais de cinco minutos depois, Cedrico surgiu pelo barril; primeiro os cabelos castanhos, então o rosto cheio de ângulos com as sobrancelhas grossas franzidas em preocupação e, nesse momento Cordélia esqueceu-se do motivo que a levara ali em primeiro lugar, pijamas amarelos listrados.
—Eu não tive tempo de me trocar. –Ele murmurou quando se aproximou, corando. Cordélia prendia o riso sem sucesso, não podendo deixar de encarar o algodão macio e colorido do pijama. –O elfo disse que você parecia preocupada... ah, vamos, não ria! –Mas ele não parecia chateado.
—Você já soube? –Cordélia se perguntou se alguém havia se dado ao trabalho de avisar aos campeões que o Torneio mais perigoso do mundo bruxo vinha sendo estranhamente modificado, fazendo-o ainda mais perigoso.
—Do campo de quadribol? –Ele perguntou, soando muitíssimo insatisfeito. –O último obstáculo vai ser um labirinto, sabe? É uma coisa boa que os NIEM’s já sejam na próxima semana, porque poderei focar nisso. Vão haver criaturas e feitiços para serem desfeitos. Ainda bem que eu continuei na turma de Aritimância.
Cordélia suspirou, desanimada. Cedrico era um bruxo competente, disse a si mesma. Poderia passar por algumas feras –afinal, ele já havia passado por um dragão –e desfazer alguns feitiços. Mas algo cheirava mal naquele torneio. Ela quase podia acreditar que Potter não havia mesmo se inscrevido de propósito, em sua inexorável vontade de quebrar as regras.
Então ela contou a Cedrico sobre o sumiço de Bartolomeu Crouch e sobre a discussão que tivera com Snape –omitindo a parte onde ele dissera que alguém acabaria morrendo. Ele ouviu com atenção, franzindo o cenho e olhando para a parede vazia com preocupação. Quando Cordélia finalmente terminou, ele ainda levou alguns minutos para falar:
—Não posso me recusar a terminar as tarefas. –Ele apontou, suspirando. Quando olhou para ela, foi com curiosidade, mas também desconfiança. Ele tinha esse jeito específico de estreitar os olhos e abrir e fechar a boca antes de falar quando estava desconfiado. Cordélia achava adorável, exceto quando era dirigido a ela. –O professor Snape... costuma fazer isso? Simplesmente contar os bastidores para você?
—Não. –Admitiu. –Mas ele anda bastante preocupado.
—Ele ficaria chateado que você me contou?
—Acho que não. –Ponderou. –Ele sabia que eu contaria a você quando me disse. Além disso, não se engane, Ced. Madame Maxime e Igor Karkaroff estão fazendo o possível para Fleur e Krum vencerem. Eles sabiam dos dragões, afinal, não sabiam? E Potter... bem, tem sempre alguém favorecendo Potter. É você, o campeão mais justo e honesto e corajoso, Ced, que está mais sozinho.
Cedrico apenas olhou para as próprias mãos pálidas de dedos longos com o anúncio dela, mas Cordélia não tinha terminado. Ele parecia consternado, mas ela estava furiosa. Furiosa com Madame Maxime, com Igor Karkaroff e com Potter, que parecia ter o mundo inteiro girando à sua volta.
—Não vou deixar você ser desfavorecido. –Disse com raiva, levantando-se e estendendo uma mão para ele. –Vamos começar a treinar amanhã. Mary é a melhor da turma em Defesa Contra as Artes das Trevas, eu fiz Aritimância até o ano passado. Se você quiser pedir ajuda, ela vai ajudar. Vamos.
Cedrico aceitou sua mão, mas, ao invés de voltar ao dormitório, fez questão de leva-la de volta às masmorras, embora Cordélia, assustada com as coisas estranhas que vinham acontecendo, houvesse insistido para que ele não fizesse isso. Quando se despediram, Cedrico parecia quase esperançoso e ela tentou agarrar-se à esperança também.
Da próxima vez que viu Cedrico, ele havia prometido a ajudar com o exame de Transfiguração. Ela entrou na sala onde haviam marcado de se encontrarem no quinto andar para se achar no meio do que parecia ser uma floresta tal qual a Floresta Proibida, que fez Cordélia se perguntar se não havia encontrado uma passagem secreta sem querer; com árvores, grama fofa sob seus pés, o som de pássaros cantando e Cedrico, bem no centro, varinha em mãos, adicionando detalhes, como uma luz difusa e esverdeada passando por ele através das copas das árvores.
—Ei. –Ele a beijou quando ela se aproximou. –Acha que vou impressionar o examinador?
Cordélia deixou sua mochila escorregar do ombro para o chão e fechou os olhos; havia o som de folhas se movendo, o cheiro de grama, a sensação áspera da madeira quando ela pôs a mão em uma árvore. Parecia tão real que ela poderia se confundir se não soubesse que Cedrico havia criado aquilo a partir das cadeiras e mesas disponíveis na sala –seu gênio de Transfiguração.
—Você vai ganhar um ótimo. –Disse com confiança. –Ainda bem que o meu teste é antes do seu, ou o avaliador não se impressionaria com meu porco sem rabo.
—Não se depender de mim. –Ele disse.
Nas quatro horas seguintes, eles, mais ele do que ela, mas certamente Cedrico era um bom professor quando estava determinado a não flertar ou beijá-la, transformaram a floresta em uma paisagem vulcânica, então numa praia de águas quentes impressionantemente real. Cedrico conjurou a água, mas a espuma foi ideia de Cordélia e assim eles iam montando cenário pós cenário, quase sem se distraírem, num treino sem pausas em direção a um Ótimo nos NIEM’s.
Mas Cedrico não era o único com truques. Cordélia o ensinou alguma magia básica que ela sabia fazer sem varinha, como conjurar chamas ou convocar objetos na palma de suas mãos. Magia Antiga era a especialidade da escola francesa, como herbologia era da escola sul-americana e Magia Moderna da escola japonesa. Se pudesse, Cordélia teria passado cada um dos sete anos de sua educação mágica em uma escola diferente, mas seu pai sempre achara que isso fragmentaria sua educação sensivelmente.
A semana de NIEM’s se passou mais rápido do que Cordélia havia esperado. No primeiro dia, houveram História da Magia e Runas Antigas, duas provas teóricas que Cordélia levou com tranquilidade, se sentindo livre depois de fazê-las. Nos quatro dias restantes, foram Poções, em que ela tinha certeza de que conseguira um Ótimo; Herbologia, com tranquilidade; Transfiguração, que a deixou insegura sobre se o avaliador tiraria pontos por seu elefante ter um chifre, e finalmente Feitiços, onde ela achara que o seu Astrangulare, mais algumas das Magias Antigas que aprendera em Beauxbatons, a daria pontos extras.
Quando finalmente as provas acabaram, ao invés de comemorarem, Cordélia e Cedrico passaram a se dedicar ao estudo de feitios e azarações para que ele passasse a última prova do Torneio pelo menos ileso. Mary, Edmund, Hugh e Susana frequentemente os faziam companhia, ajudando-os. Mary, mestra em Defesa, podia passar horas num único duelo com Cedrico, enquanto os outros ficavam com os livros, pesquisando novos feitiços.
Geralmente, era Mary a que duelava com Cedrico, mas isso não significa que o resto deles não tinha seus momentos. Edmundo era um bom adversário e Susana se esforçava. Hugh gostava mais de plantas do que de duelos e geralmente acabava tendo que ir catar sua varinha nos arbustos à beira do lago. Certa manhã, após muita insistência, Cordélia concordou em ser adversária do namorado.
Como todos esperavam, não começou bem. Cedrico tinha mais prática em Defesa Contra as Artes das Trevas do que ela e Cordélia passou os primeiros cinco minutos do duelo apenas tentando evitar ser acertada pelos feitiços que vinham um após o outro. Uma vez que ela pegou o ritmo, porém, notou Cedrico ficando nervoso e movendo a varinha com mais agitação. A sonserina, apesar da falta de prática, tinha feitiços mais poderosos do que meros Expelliarmus e Estupefaças e o namorado estava claramente assustado em ser atingido por um feitiço que possivelmente o mandaria para a ala hospitalar.
—Merlim! –Ele exclamou, mais aliviado do que vitorioso quando, como todos previam que aconteceria, a varinha de Cordélia voou no ar direto para a mão do lufano.
Seus colegas começaram a aplaudir de seu lugar seguro sentado na grama –Mary, Lana e Edmundo sem entusiasmo, mas Susana e Hugh com palmas altas. Cordélia, ao invés de se dar por vencida, estendeu a mão vazia na direção dele, com concentração. Cedrico a olhou com desconfiança, mas ela estava distraída dele, os pensamentos na sensação da varinha em sua mão; no modo como se encaixava em seus dedos, na textura e temperatura da madeira.
Cedrico soltou uma exclamação quando a varinha de cipreste e corda de coração de dragão escapou por entre seus dedos para bater na palma dela. Ele abriu e fechou a boca, exasperado. Colocando a varinha no bolso, Cordélia estendeu a mão para o lago e uma onda de água negra e gelada encharcou seu namorado à sua vontade.
Ela fez uma reverência e foi se sentar, sob o silêncio dos colegas. Cedrico torceu a blusa para se livrar da água e colocou as duas mãos na cintura, mudando o peso de um pé para o outro.
—Alguma chance de você me ensinar isso?
Logo, perceberam que treinar do lado de fora chamava a atenção de seus colegas, que se juntavam para assistir, então passaram a procurar lugares dentro do castelo. O professor Flitwick os precisou expulsar de sua sala de aula pelo menos um par de vezes e a professora Mcgonagall já parecia cansada deles quando finalmente Severus abordou Cordélia e ofereceu uma grande sala nas masmorras onde eles poderiam praticar sem serem interrompidos –Cordélia achava que era o jeito dele de se desculpar por ser uma porta insensível.
—Aqui. –Cordélia interrompeu um duelo entre Cedrico e Susana numa tarde, ao que a lufana pareceu aliviada. –Você tem que aprender esse feitiço.
O Vulnera Sanentur era o feitiço de cura mais poderoso que ela conhecia. Um dos poucos que funcionavam com danos causados por magias antigas tais como o Sectumsempra, o Orbis e o Arterium. Passaram toda aquela tarde trabalhando para que Cedrico aprendesse o feitiço, curando cortes simples feitos com Diffindo naqueles que se oferecessem como cobaia, embora Cedrico fosse contra a ideia de autoflagelo pelo seu treinamento.
Outro feitiço de proteção que Cedrico precisava aprender com urgência era o Feitiço do Patrono. Este, os dois costumavam treinar juntos antes ou depois de os colegas se juntarem a eles. Pegaram na Sessão Reservada, a qual Cedrico conseguira acesso com a professora Mcgonagall, vários livros teóricos, mas a prática era frequentemente frustrante. Cedrico foi o primeiro a conseguir produzir um fiapo de fumaça prateada, mas Cordélia, que jamais havia tido dificuldade com um feitiço na vida, estava bem atrás.
—No que você está pensando? –Ela perguntou.
—No campeonato de quadribol entre os campeões. –Ele admitiu, rubor subindo para suas bochechas. –Eu perdi, mas foi um dos meus melhores dias aqui em Hogwarts. Os alunos não estavam divididos por casas, todos se divertiram e mesmo você assistiu aos jogos.
A sonserina considerou que aquele também era um de seus dias preferidos.
Estava usando uma memória dela com sua irmã caçula, na praia que ficava na propriedade da família Bloxam, na Escócia, durante as férias. Era um dia ventoso; frio, mas ensolarado, e as duas se vestiram em seus maiôs de banho e andaram até a praia, onde construíram castelos de areia mágicos –muito mais simples agora que Cordélia podia usar magia fora da escola –e tomaram banho de mar.
No fim da tarde, às últimas tentativas, Cedrico conseguiu o que parecia a Cordélia um abraxano: a mais bela e nobre espécie de cavalo alado. A sonserina balançou a cabeça, desistindo de fazer o feitiço e os dois continuaram aprimorando a técnica do lufano até que estivesse quase perfeita.
Também passavam muito tempo estudando criaturas mágicas, que poderiam estar no labirinto. Mantícoras, lobisomens, brasílicos –já que havia um precedente do uso do bicho –quimeras e mesmo trasgos e dementadores.
Passados os NIEM’s, as aulas para os setimanistas haviam acabado, na prática. Em teoria, ainda tinham carga-horária para matar, mas os professores estavam completamente relaxados e mesmo Snape os preferia jogando xadrez do que estragando seus ingredientes.
O padrinho também a escreveu uma carta de recomendação para o Instituto Flammel, que ela enviou numa segunda-feira junto com sua carta de apresentação e o projeto de melhoria da poção Veneno Luciferiano, quando Snape finalmente a aprovou de uma vez. Além disso, como garantia, escreveu para a Academia Dagworth-Granger para pocionistas.
—Mandei uma inscrição para a Scholomance. –Cedrico anunciou uma tarde. A Scholomance era o melhor instituto de transfiguração que havia no mundo e mandava inscrições para pouquíssimos bruxos muito bons. Por outro lado, ficava na Romênia. Cedrico devia ter notado seu olhar, porque continuou falando. –A professora Minerva me ajudou com a papelada; ela acha que tenho chance. Mas também me inscrevi na Academia Circe, em Londres.
—Isso é incrível. –Ela colocou suas preocupações de lado para que sua voz soasse animada. Ela estava animada. Não havia lugar no mundo longe o bastante que ela não fosse alcança-lo. –Scholomance! Isso é grande.... Eles têm que aceitar você. Serão bobos se não aceitarem.
Todos os seus amigos, aliás, pareciam estar se preocupando com a vida pós-Hogwarts. Ela e Cedrico haviam tido uma conversa sobre dividir um apartamento em Londres –a não ser que ele passasse na Scholomance, então eles teriam que refazer os planos. Mary havia feito aplicação para o curso de Inominável do Ministério da Magia e Susana mandara uma carta ao Profeta Diário, solicitando estágio; ambas pretendiam morar juntas assim que saíssem de Hogwarts. Hugh iria para o Brasil estudar magizoologia num curso superior em Castelobruxo e Ivan, para o Japão, estudar Magia Moderna. Edmundo, por conta de seu pai, já tinha um estágio garantido no Ministério e Fleur pretendia vir trabalhar no Gringots em Londres. Lana um dia herdaria a Borgin & Burkes, então não estava preocupada, mas Peter permanecia indeciso, assim como Vítor, que não tinha certeza sobre seguir carreira como jogador de quadribol; já Claire queria se especializar em musicomagia na França e Marlon em medibruxaria.
—Só espero que não acabemos indo para muito longe um dos outros. –Susana comentou uma tarde, todos eles à beira do lago; britânicos e estrangeiros. Os pés na água fria e escura, o sol baixo sobre suas cabeças.
Hugh alcançou a mão de Ivan que descansava na grama verde.
—Se nós vamos manter um namoro à distância, conseguimos manter uma amizade à distância com vocês. –Disse o lufano, beijando o namorado no rosto por cima de uma barba rala.
Fleur olhou para Cordélia e Claire com um grande sorriso, os cabelos prateados refletindo o sol de fim de tarde de forma quase ofuscante.
—Nous temes experriência em manterrr amizade à distância. –Comentou.
—Simplesmente não acredito que vamos deixar Hogwarts. –A voz de Mary era quase abalada. –Parece que foi ontem que passamos por esse lago pela primeira vez, nos barquinhos pequenos.
—Eu detestava você. –Lana comentou, os olhos claros no lago escuro. –Eu conhecia Cordélia há anos e de repente você chegou no expresso e fez amizade com ela e ficaram super próximas.
—Mas você superou. –Mary sorriu com confiança.
—No quinto ano, mais ou menos, quando Cordélia fez intercâmbio e sobramos nós duas e eu tive que fazer amizade. Mais ou menos como nos acostumamos a uma infestação de bandinho. –A loura admitiu, fazendo todo o grupo rir um pouco. A própria Cordélia se levantou de seu lugar ao lado de Cedrico no gramado macio para sentar entre as duas, recebendo um beijo de cada uma nas bochechas rosadas.
De lá, trocou um olhar com Cedrico. O olhar dele sobre ela era feliz; ele não estava preocupado com a possibilidade de se afastarem. Cordélia também não. Lembrou-se do que havia dito a Marlon no começo do ano, sobre levar Cedrico a sério. Ainda era verdade. Achava que sempre seria verdade. Hogwarts acabaria para eles; mas era apenas o começo para ambos.
—Tudo bem, tudo bem. –Hugh levantou as mãos para chamar a atenção. –Desafio Hogwarts melhores momentos! –Ele pigarreou. –O meu foi no terceiro ano; primeira visita a Hogsmead. –Então apontou para a britânica mais perto dele. –Mary?
—Uau... hum.... Ah! Quando a Sonserina ganhou a Taça de Quadribol no segundo ano, comigo jogando como artilheira substituta! –Ela se virou para Lana. –Lana?
—Correio Elegante de Lockhart no quinto ano. Foi quando eu e Peter começamos a namorar. –Ela se virou para Cordélia. –Délia?
—Hummm... Uau. Esse ano foi tão bom que é difícil escolher apenas uma. Acho que o dia da partida de quadribol entre os campeões.
Cedrico se virou para ela como se ela tivesse falado outra língua.
—Você não gosta de quadribol. –Ele apontou.
Ela encolheu os ombros.
—Eu adorei aquele dia. –Disse com simplicidade. –Humm... Susana?
—Segundo ano, quando o professor Kettleburn fez aquela encenação de A Fonte da Sorte e colocou fogo no Grande Salão ao enfeitiçar um cinzal para ser o verme da peça. Edmundo?
—Quinto ano. —Levou uma mão aos cabelos. —Mas apenas porque ninguém morreu. Clima tenso terrível.
—Aquele ano foi terrível. –Hugh apontou. –Cancelaram o quadribol.
Susana encolheu os ombros.
—Essa parte foi chata. –Admitiu. –Mas todos ficaram tão aliviados. Lembram dos lufanos que foram petrificados? No fim, foi bom. Bem.... Cedrico?
—Difícil. –Ele estreitou os olhos para o lago. –Tenho várias lembranças boas desse ano. –Ele olhou para Cordélia por baixo dos cílios, mas ela fingiu que não viu. –Ver Malfoy ser transformado em doninha por exemplo foi incrível. –Hugh riu tão alto com a lembrança que Ivan, ao lado dele, se inclinou preocupado. –Acho que no sexto ano, quando eu, Hugh e Gregor viemos no compartimento de bagagens do Expresso de Hogwarts, nos escondendo do monitor da Corvinal.
Hugh balançou a cabeça com um sorriso.
—Pior viagem da minha vida. –O sorriso contradizia as palavras. –Melhor lembrança. Tudo culpa de Gregor.
Cedrico assentiu, também divertido.
Passava agora a maior parte do seu tempo livre com Cedrico e a irmã mais nova, que não se importava em ser separada dos colegas para ficar com eles. Mary e Susan também frequentemente os faziam companhia, mas Edmundo passava mais tempo com Claire. Vinha vendo muito pouco de Marlon desde que ele levou uma garota de Hogwarts para o baile e podia ser visto com ela para cima e para baixo pelos corredores.
Lucy havia pego para si a tarefa de ensinar seus colegas a jogar snap explosivo, o que era sempre um evento bagunçado em que a corvina ganhava dos sonserinos de lavada. Algumas vezes convencia alguns de seus amigos, como a também corvina Orla Quirke, e os grifinórios Dênis Creevey, Nigel Wolpert e Natália Mcdonald a se juntarem a eles; o que era sempre uma estranha visão, aqueles setimanistas cercados de primeiranistas de várias casas.
Os outros dois campeões também andavam muito ocupados treinando para passar tempo com eles, mas todos ainda se cumprimentavam amigavelmente na porta do salão principal quando se cruzavam e –uma vez que chegou o verão e eles trocaram os cachecóis por gravatas –às vezes se juntavam na beira do lago para tomar sol, comer doces e colocar os pés na água fria do lago para se refrescarem.
Assim, se passou junho, mais rápido do que Cordélia gostaria.
"Oh yeah, your skin and bones
Turn into something beautiful
And you know
For you I'd bleed myself dry
For you I'd bleed myself dry"
Fale com o autor