Lembrem-se de Cedrico Diggory
14 A Terceira Tarefa
Notas iniciais
“Just close your eyes, the sun is going down
You'll be alright, no one can hurt you now
Come morning light, you and I'll be safe and sound”
A hora de se recolherem veio e se foi e nenhum dos dois se moveu de volta para o Castelo às vésperas da terceira tarefa.
Cedrico estava muito sério e pálido, perigosamente pálido. Cordélia, silenciosa. A mão dele estava fria, um pouco úmida contra a dela e, com a cabeça encostada no peito do lufano, ela ouvia seus batimentos palpitantes. À sua frente, estendia-se o Lago Negro, fazendo jus ao seu nome na noite sem estrelas. A superfície de vidro estava imperturbável, refletindo apenas o brilho da lua; única luz na noite escura.
As montanhas estavam invisíveis contra o céu negro e mesmo o gramado parecia preto na escuridão; suas ondas indistinguíveis enquanto subiam e desciam os terrenos do castelo. A única luz era uma chama azul fria ao toque que Cedrico havia conjurado perto deles e que deixava seus rostos fantasmagóricos: os olhos cinzentos de Cedrico pareciam azuis e os olhos verdes de Cordélia pareciam simplesmente estranhos.
Ele estava completamente parado, exceto por uma mão que subia e descia pelas costas dela. Era uma noite quieta e ambos também estavam quietos.
Cordélia se inclinou para alcançar uma pena de açúcar no bolso da capa da Lufa-Lufa que Cedrico havia estendido no gramado para que eles se sentassem em cima e o namorado se deixou cair para trás na grama, fechando os olhos. Naquela posição, as chamas o iluminavam lateralmente e ele parecia surpreendentemente jovem com o rosto tenso em preocupação. Interessada, Cordélia se inclinou para perto e deixou a cabeça no ombro dele, os seus cílios roçando o maxilar de Cedrico quando ela piscava e a respiração dele movendo uma mecha de seus cabelos escuros diante dos olhos.
Ela inspirou fundo o cheiro de lavanda, mordiscando seu pescoço com carinho.
—Você devia se recolher. Vai ser um dia cheio amanhã. –Ela murmurou quietamente contra o pescoço dele, o causando arrepios, desejando que ele ficasse.
Cedrico suspirou alto.
—Tem razão.
Cordélia segurou a mão dele com força no caminho de volta para o castelo, subindo pelos jardins com as varinhas acesas. Havia feito um bom trabalho toda a semana, fingindo estar despreocupada, o fazendo comer quando ele dizia estar sem fome e inventando programas nos horários em que não estavam treinando, para distraí-lo. Os seus colegas pareciam bastante tranquilos depois de terem feito os NIEM’s e estavam curtindo o bom tempo de verão do lado de fora do castelo, mas eles dois ainda não tinham aquele luxo. A maioria dos alunos de Hogwarts havia mantido distância naquela semana, como se soubessem, ao vê-los sozinhos pelos corredores, Cordélia, toda feita de sombras com os cabelos escuros, a pele pálida e os olhos expressivos, e Cedrico, todo ouro, dourado e branco, que eles precisavam de espaço.
Mais cedo do que ela gostaria, eles chegaram ao saguão iluminado por archotes que lançavam luz amarelada neles. Cordélia encarou o caminho escuro que levava às masmorras da Sonserina e trocou o peso de um pé para o outro, esperando que Cedrico tomasse a iniciativa de leva-la para o dormitório como sempre fazia.
Ao invés disso, ele suspirou pesadamente.
—Você... você pode passar a noite comigo? –De novo, ele parecia muito jovem. O rosto pálido, os olhos cinzentos tempestuosos e hesitantes. Ele não parecia o garoto confiante por quem ela havia se apaixonado, mas o menino que ela amava profundamente.
Se ela podia passar a noite com ele? Provavelmente não.
—Claro. –Confirmou, sem nem perguntar como ele pretendia fazer aquilo; ele certamente estaria em problemas se a contrabandeasse para o dormitório da Lufa-Lufa e, de qualquer forma, não era exatamente um lugar privado já que ele dividia o quarto com Gregor e Hugh. Ela se inclinou e beijou o beijou, sorrindo contra os lábios dele. Ele a segurou pela cintura delicadamente e retribuiu seu beijo, antes que ela se afastasse. –...onde?
Cedrico olhou ao redor para ver se não havia nenhum professor se aproximando antes de colocar as mãos no bolso pensativamente.
—Há um lugar.... –Ele hesitou. –Lembra da festa de natal de Davies? Susana disse que ali é a Sala Precisa, ou Sala Vai e Vem. Ela...
—Se transforma em qualquer coisa que o bruxo precise. –Cordélia terminou, impressionada. –Uau. Achei que fosse uma lenda.
—Talvez seja, eu nunca tentei. –Ele admitiu com um dar de ombros, mas, em seguida, estendeu o braço, que ela aceitou e recomeçaram a caminhar.
Como normalmente ocorria, eles não encontraram ninguém nos corredores, que estavam tão vazios e silenciosos que seus passos ecoavam fantasmagoricamente pelas paredes de pedra. Cordélia, não pela primeira vez, se perguntou se eles tinham muita sorte ou se a segurança da escola era bem menos rígida do que os professores os levavam a crer nos primeiros anos de seu ensino mágico. Afinal, ela e Cedrico não eram os únicos a se esgueirarem pelos corredores. Embora Filtch fosse dedicado, era um só e não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Quanto ao corpo docente, ela tinha a impressão de que os professores preferiam passar suas noites dormindo do que se preocupando com o que eles estavam fazendo de suas vidas.
Finalmente o casal parou de frente para a tapeçaria de Barnabás, o Amalucado. Cordélia, outra vez cética, estreitou os olhos enquanto Cedrico andava de um lado para o outro e, mais uma vez, ficou extremamente surpresa em ver a magia funcionando quando a mesma porta de madeira com detalhes em arabescos se abriu diante deles.
Exceto que a sala não era de forma alguma a mesma da última vez.
O espaço amplo de pedra intricada e teto abobado havia sido substituído por um espaço bem menor, de teto baixo e de madeira. Da janela, ela via árvores e colinas até onde a vista alcançava, além de um rio serpenteando prateado no escuro, quando refletia a luz da lua. Uma vassoura tamanho infantil, assim como um tapete que imitava um gramado de quadribol e desenhos de aros em uma das paredes decoravam o lugar, que cheirava a madeira e lavanda.
—É menor do que eu me lembrava. –Cedrico admitiu, os cabelos raspando no teto enquanto ele olhava ao redor com interesse. –Uau. Faz anos que não venho aqui.
—Que lugar é esse? –Cordélia continuou mirando ao redor, encantada. Um sofá amarelo de aparência confortável se acomodava num canto, coberto por uma manta azul com um símbolo da Corvinal; uma bancada acomodava corujas de pelúcia que piavam baixinho como se os feitiços estivessem desgastados, um móbile giratório descia do teto com vassouras, goles e aros e um cachecol listrado de cinza e amarelo parecendo feito à mão descansava em cima do sofá.
—Ottery St. Catchpole. Quero dizer, a casa na árvore no quintal lá em casa. –Ele tinha um sorriso interessado no rosto e olhava ao redor com a mês a atenção que ela. Quando a notou o encarando, apontou uma das janelas quadradas de madeira. –A vila é para aquele lado. Os Weasley também moram por lá. Passei grande parte da minha infância aqui. –Ele pegou a pequena vassoura em mãos, impressionado. –Eu não lembrava que era tão pequeno.
—Você que ficou grande. –Cordélia observou, pegando em mãos um estranho objeto retangular com dois círculos e uma fita onde estava escrito “Pink Floyd”. –O que é isso?
Cedrico pegou o objeto de suas mãos com interesse.
—É.... uma fita. Cassete. É como um toca discos trouxa. Tem música aqui dentro.
-Trouxa? –Cordélia levantou as sobrancelhas para ele. –Onde você o conseguiu?
—Minha mãe trabalhou no Departamento de Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas por alguns anos quando eu era pequeno. –Ele explicou, mas tirou a fita da mão dela. –Aqui, você não vai gostar dessa.
Ele pegou uma segunda fita, onde estava escrito “Guns and Roses”, um título para o qual Cordélia franziu a testa e, quando ele colocou a fita num estranho aparelho de aparência perigosa e metálica, de lá começou a sair o som de um assobio que Cordélia considerou suficientemente melódico.
—Essa é Patience. –Ele disse, à guisa se explicação, e a puxou para perto.
Ele a balançou de um lado para o outro, de uma forma diferente da qual fizeram no Baile de Inverno. Não era uma valsa, mas não deixava de ser uma dança. Cedrico segurou ambas suas mãos nas dele e a girou. Cordélia moveu os ombros, timidamente, para frente e para trás no ritmo leve e Cedrico a imitou.
Cedrico olhava para os seus pés para que acertasse o seu ritmo, mas Cordélia não podia tirar os olhos do rosto dele; o queixo pontudo e o nariz reto. Os olhos amendoados e os lábios rosados. Ele corou quando a pegou encarando, sangue colorindo suas bochechas pálidas de vermelho. Cordélia se aproximou até estar tão perto que podia sentir o peito dele no seu e o coração pela blusa. Ele a segurou de volta, as mãos tão leves em sua cintura que, se fosse outra pessoa, ela não teria sabido. Mas como era Cedrico, mesmo pelo seu suéter, ela sentia a eletricidade nas pontas dos dedos dele e em sua própria pele. Cordélia olhou para as listras amarelas no suéter dele e as verdes em seu próprio suéter, apenas para se distrair do toque dele para poder pensar.
A música foi morrendo e também a dança, até que, antes de começar a próxima canção, os dois estavam parados, ela com uma mão no ombro dele e a outra em sua mão quente. Ele a segurando como se a apoiasse para que não caísse, embora ela estivesse firme sobre os dois pés. A dança parecera durar uma eternidade –de um jeito bom. Como se eles pudessem dançar para sempre. E agora que estava acabada, pareceu não ter durado nada. Cedrico suspirou e soltou a mão de sua cintura, colocando os seus cabelos escuros atrás da orelha antes de puxá-la para o sofá amarelo-gema.
A sonserina se acomodou no sofá ao lado dele, puxando as pernas para cima e deixando Cedrico os cobrir com a manta azul macia. Cordélia apoiou o queixo no ombro dele e ficou observando desenhos de pequenos jogadores de quadribol se moverem nas paredes, em direção aos aros e de volta. Uma bandeira laranja chamou sua atenção do outro lado do cômodo, destoando da decoração amarela e madeira.
—Você torce para o Chuddley Cannons? –Até ela, que não entendia de quadribol, teve que torcer o nariz.
—Eu sou de Devon, Cordélia. –Ele a lembrou, parecendo chateado. –De jeito nenhum que iria torcer para um time de fora. Além disso, a arena de quadribol deles não era tão longe de casa, então eles foram os primeiros jogadores que eu assisti. Qual o seu time?
O olhar dele era desafiador, como se ela o houvesse ofendido. Cordélia sufocou um riso.
—Não tenho time, acho que isso não o surpreende.... A família de minha mãe torcia para o Pride of Portree, porque os Mckinnon são escoceses. –Explicou. –Supostamente, os Bloxam gostam dos Montrose Magpies, também escoceses, mas nenhum dos meus pais realmente torce, então não é como se realmente importasse. Meu tio me levou para ver um jogo uma vez, titio Arcturo. –Este era o irmão mais velho de seu pai, um desfazedor de feitiços que trabalhava para empresários bruxos. Ele aparecia uma vez a cada dois anos, com incríveis presentes: quando ela era mais nova, bichinhos raros e exóticos; quando ela ficou mais velha, belos colares de pedras preciosas e ouro. –Mas eu era muito nova. Nem lembro bem o que houve.
—Eu vou levar você para um jogo de quadribol de verdade nesse verão. –O ar dele era decidido e seus olhos estreitos determinados.
Ela balançou a cabeça, sem responder, apenas sorrindo. Não adiantaria fazer-se de difícil; se ele dissesse que a levaria, ela provavelmente iria com ele apenas pela companhia.
—Você falou com seu pai sobre ter se inscrito para Scholomance? –Cordélia bocejou, se espremendo mais contra Cedrico, que passou o braço pelo ombro dela e a puxou para se deitar em seu peito.
Ela o sentiu hesitando.
—Mais ou menos. –Ele colocou as pernas para cima também, de forma que ela ficava apoiada em sua coxa. –Bem, não. Meu pai quer que eu entre no Ministério e eu ainda não o disse que não tenho nenhuma intenção de fazer isso.
—Ele quer que você passe a vida atrás de uma escrivaninha? –Cordélia tentou imaginar Cedrico, o bruxo talentoso que ela conhecia, lidando com papéis por anos a fio.
—Ele quer que eu seja Ministro ou coisa assim. –A voz de Cedrico era subitamente sem graça.
Cordélia considerou a questão.
—Eu vejo porque ele pensa isso. –Admitiu. –Se você fosse popular no Ministério como é em Hogwarts, não levaria muito tempo para isso.
—Deve ser bom ter a carreira de seu pai como sonho. –Cedrico comentou após um momento.
—Ele não ligaria se eu quisesse outra coisa. –Cordélia sorriu amorosa. –Mas Poções sempre foi meu sonho, desde a primeira vez que eu entrei no laboratório dele em casa.
—Fleur diz que você é boa em Magia Antiga. Poderia ser Desfazedora de Feitiços ou algo assim, se quisesse.
—Magia Antiga e Poções não são excludentes. Na verdade, existem poções de Magia Antiga. –A sonserina explicou, distraída, pois se sentia embalada pelo ritmo da música. –E eu não me imagino vivendo a vida de aventuras de um Desfazedor de Feitiços. Gosto de laboratórios, não de campo.
Eles ficaram em silêncio por algum tempo. Cedrico se levantou e achou dois pares de meias num baú, que colocaram para aquecer seus pés do vento que de alguma forma a sala precisa conseguia imitar. Depois, ele transfigurou o sofá numa cama pequena e amarela e se deitou ao lado dela; as pernas enroscadas; ela virada de lado para ele, ele passando a mãos nos cabelos castanhos de Cordélia; ela com o rosto em seu ombro e a mão por cima da barriga dele. Por algum motivo, uma antiga história que seu pai gostava de contar para ela dormir se infiltrou em sua mente. Uma história sobre glória. Lembrou-se das palavras de Dumbledore sobre o Cálice de Fogo. "Glória Eterna", ele havia dito.
—No que você está pensando? –Ele levantou seu queixo para que os olhos deles se encontrassem.
—Em Aquiles. –Ela respondeu, ao que Cedrico franziu a testa, então ela continuou. –Aquiles... vai para a Guerra de Troia em busca de glória, e por causa dos pais. Ele sabe que vai morrer lá, mas, se não for, ele jamais vai ficar conhecido como um grande guerreiro entre os gregos. É uma antiga história trouxa que meu pai costumava contar em casa. Não sei porque lembrei dela agora. –Cordélia sorriu sem graça quando ele a encarou com as sobrancelhas franzidas. –Deixa para lá.
Cedrico pigarreou.
—Eu... Humm... vi um anúncio no profeta de um apartamento no Beco Diagonal. O Instituto Flammel é lá perto, não é? O Circe também. –Cordélia ficou em silêncio, ouvindo as batidas do coração dele aumentarem de frequência. –Eu apenas pensei.... Se você quiser olhar...
Cordélia suprimiu um sorriso pretensioso enquanto tentava agir com naturalidade.
—Claro que quero. –Disse com uma voz que pensava ser neutra. –Você me mostra amanhã.
A sonserina já estava começando a ver o quarto embaçado de tanto sono, mas os olhos cinzentos de Cedrico seguiam bem abertos, encarando o teto com a respiração pesada.
—Você está com medo? –Ela perguntou com a voz sonolenta.
Cedrico ficou de lado para encarar seu rosto e a namorada fez um esforço para parecer bem acordada.
—Um pouco. –A voz dele falhou. –A primeira tarefa foi realmente perigosa, a segunda foi... desesperadora, mas só quando eu descobri que era você lá embaixo. Conscientemente, eu sabia que Dumbledore não deixaria ninguém se machucar, mas quando eu a vi... bem. Já essa tarefa parece... silenciosa, de uma forma preocupante. Pessoas costumavam morrer. Falta tão pouco que às vezes me sinto superconfiante. Apenas mais uma tarefa. Sinto até como se pudesse vencer, mas então... –Aqui os olhos dele se estreitaram como se ele visse mais do que o rosto dela ali no escuro. –Não sei. Não é nada. –Ele baixou a voz um pouco mais. –Eu queria ganhar.
Cordélia estendeu uma mão para o rosto dele e desenhou o contorno do maxilar até a têmpora, então do nariz à boca, segurando o queixo dele quando seus dedos desceram pelo rosto pálido. Se inclinou e o beijou na boca, saboreando o gosto dele, a textura macia de seus lábios, a pressão das mãos dele em suas costas a puxando para perto com apenas um pouco mais de força do que o necessário. Na verdade, ele sempre era cuidadoso e, às vezes, cuidadoso demais, como se pensasse que ela poderia quebrar sobre a pressão de seus braços. Naquele momento, porém, ele a segurou com força; força como se quisesse fundir os dois em um só ou segurar até que se despedaçassem um no outro. Cordélia se inclinou para ele como uma flor cresce em direção ao sol.
—Você é tão brilhante, Ced. –Ela disse baixinho, contra a boca dele. –O bruxo mais talentoso que conheço. Se alguém pode fazer isso, é você. Você não é apenas talentoso; é bom, generoso e corajoso. Eu... –Ela tomou uma respiração e se afastou para olhá-lo bem nos olhos. –E se você não ganhar, eu vou me sentir tão orgulhosa de qualquer forma.
—Você vai? –Ele soou jovem e inseguro.
—Vou, sim. –Cordélia passou os braços pela cintura dele, o rosto pressionado contra seu peito.
Ele continuou com os braços ao seu redor; seguros e firmes.
—Nesse caso, eu vou voltar por você.
Ela assentiu, se sentindo confortada pela ideia. O sono havia praticamente fugido agora ele não pareceu se incomodar quando ela moveu o corpo para cima do dele, os joelhos de cada lado de sua cintura, pressionando o quadribol contra o dele e se inclinando para beijá-lo na boca. Sem hesitar, ele passou por dentro de sua saia até que estivessem em ambas suas coxas nuas. Ela deslizou as mãos frias pelo torso quente dele por debaixo da camisa e arqueou as costas para o dar espaço quando ele fez um movimento para despi-la.
Ela estava agora sentada sobre o que era uma ereção volumosa e quente. Lentamente, ela rebolou um pouco por cima dele, até que, tendo explorado a pele macia e fina do pescoço e colo dela, ele a girou no sofá para que ficasse por baixo. Cordélia num instante desceu as mãos pela barriga dele até dentro da calça, usando as pernas para mantê-lo preso em seu lugar.
No dia seguinte, os joelhos de Cordélia estariam vermelhos de ter se ajoelhado ao lado do sofá, e ele teria marcas claras no pescoço pálido onde a boca dela sugara e mordiscara. Estar com ele a deixava acordada, mas o processo todo era cansativo e logo ela estava quente e sonolenta quando se deitou ao lado dele, com nada além do cobertor azul por cima deles.
Seus olhos estavam pesados e seu peito leve; isso significava que em breve ela estaria dormindo pesadamente. Enquanto ela era lentamente carregada pelo sono, embalada pelas carícias de Cedrico em seu cabelo e pelo cheiro de lavanda da pele dele, ela pensou que em breve, muito em breve, ela teria aquilo; o teria, daquele jeito que ali estavam, por muito, muito tempo.
Na manhã da última tarefa, Cordélia estava sentada descaradamente à mesa da Lufa-Lufa ao lado de Cedrico, encharcando suas panquecas com mel e frutinhas vermelhas sob o olhar enojado dos colegas que preferiam salgados durante o café. Cedrico, embora comesse ovos e torradas, riu para ela com alegria. Parecia tranquilo, embora de vez em quando respirasse fundo e seus olhos expressassem preocupação.
—Café? –Ele ofereceu a ela quando a notou o observando.
O olhar de Cordélia foi do mais profundo desgosto.
—Essa bebida amarga que suga sua felicidade como um dementador? –Torceu o nariz. –Não, obrigada.
Ao que ele apenas sorriu, tolerante, e se inclinou para beijar a testa dela.
—Pare com isso, eu tenho uma reputação. –Cordélia brincou, se inclinando para beijá-lo na boca.
Ele riu contra os lábios dela.
Quando chegou o jornal matinal, Cordélia se inclinou por cima do ombro de Cedrico para ler uma matéria sobre a suposta loucura de Harry Potter. A sonserina, que ainda via sempre o colega grifinório pelos corredores, duvidou bastante da jornalista que escrevera o artigo, mas estava se sentindo aliviada por ela não se interessar o suficiente por Cedrico para usar a entrevista que fizera com a bruxa contra ele.
A maioria de seus colegas começou a se levantar para a aula de Poções –um esforço inútil, já que praticamente não estavam tendo aula –quando a professora Sprout se aproximou deles com seus passinhos curtos.
—Sr. Diggory, os campeões devem se reunir na câmara ao lado após o café. –Como Cedrico seguiu olhando para ela em questionamento, a professora continuou. –Para encontrarem seus familiares antes da última tarefa.
Cordélia estava se sentindo um pouco egoísta por ficar chateada em perder o dia ao lado do namorado já que, ao contrário dos pais dele, tivera o ano ao seu lado, mas ia sair da mesa quando ele segurou-a pela saia e voltou-se novamente para a professora Sprout.
—Com licença, professora Sprout. Posso levar a Srta. Bloxam comigo? –Ele sorriu um sorriso charmoso. –Queria que ela conhecesse meus pais, entende?
—Se o professor Snape não se importar... –A diretora da Lufa-Lufa pareceu cética de que Cedrico fosse convencer o Mestre de Poções.
Quando acabaram o café, ao invés de deixar Cedrico ir para a câmara ao lado, para onde Fleur já havia se retirado, Cedrico a pegou pela mão com familiaridade e eles correram para a mesa dos professores, onde o lufano abordou o mestre de poções:
—Com licença, professor Snape. –Ele pediu para chamar a atenção dos inescrutáveis olhinhos de besouro do pocionista. –O senhor se importaria se eu levasse Cordélia para conhecer meus pais? Imaginei que, como seu padrinho, talvez pudesse liberá-la da aula.
Cordélia observou ansiosa enquanto o padrinho os observava impassível por um segundo, antes de fazer um único gesto com a mão para que andassem logo para onde deviam estar, desde que sumissem de sua frente. Cedrico soprou um agradecimento para ele, mas Cordélia o lançou um grande sorriso, que ela achou ter sido vagamente retribuído, antes dos dois andarem para a câmara.
Os pais de Cedrico estavam logo à entrada, e pareceram surpresos de ele vir acompanhado. Fleur, sua irmãzinha Gabrielle, e seus próprios pais estavam do outro lado da câmara, perto de um casal Búlgaro, cujo homem de nariz adunco parecia com Vítor, e uma senhora baixinha, gorda e ruiva, acompanhada de um charmoso rapaz igualmente ruivo e muito alto, a quem Fleur espiava com interesse.
Fleur, de seu canto, fez um gesto para apontar Cedrico e Cordélia, que acenaram para os pais da garota loura. Sua mãe, como ela, tinha cabelos prateados e ares de realeza.
—Amelie, Amos. –Chamou Cedrico após abraçar a ambos, com um tom de orgulho em sua voz. –Esta é Cordélia Bloxam, minha namorada.
O pai de Cedrico era um homem alto, que se apresentou como Amos, apertando sua mão com animação, e uma moça esguia, cujos olhos cinzentos eram exatamente como os do filho. Ambos foram excepcionalmente simpáticos com ela, mesmo quando Cedrico disse que estudava na Sonserina.
—Prazer conhece-los, Srs. Diggory. –Cordélia deu um passo à frente, sem soltar a mão de Cedrico para apertar a mão de cada um deles.
Amos, que trabalhava no Departamento de Controle das Criaturas Mágicas, pareceu, na verdade, muito interessado nos negócios da família Bloxam. Depois, ambos olharam ao redor com muita curiosidade, a Sra. Diggory “me chame de Amelie, querida” estava bastante impressionada com o quanto Hogwarts não mudara em nada desde a última vez que estivera ali.
Harry Potter estava saindo com a mulher e o garoto ruivo quando Amos, deixando de ser amável, o abordou por um segundo, parecendo raivoso, mas sendo contido tanto por Cedrico quanto por Amelie. Desconectada da discussão, Cordélia notou Fleur olhando por cima do ombro de sua mãe para o garoto ruivo acompanhando Harry Potter e seu olhar parecia muito interessado.
O grupo –Cedrico abraçado à mãe e segurando uma mão de Cordélia –atravessou o salão principal, agora vazio, em direção aos jardins. Lá, os pais de Cedrico ficaram bastante impressionados com a carruagem de Beauxbatons e o navio de Durmstrang, atracado à beira do lago. Em primeira mão, Cedrico contou aos pais sobre as duas primeiras tarefas, aproveitando para citar a ajuda que tivera de Harry Potter nelas, o que Cordélia achou muito decente de sua parte, embora o Sr. Diggory houvesse resmungado.
—Você sabe que pode ser o melhor, Ced! –O sr. Diggory passou um braço pelos ombros do filho, que parecia tenso como Cordélia raramente via. –Você vai ser.
Quando voltaram ao café para almoçar, Cordélia hesitou, mas Cedrico insistiu que ela se sentasse à mesa da Lufa-Lufa mais uma vez. Para sua surpresa, lá estava também Mary, almoçando com Susana. As duas estavam mais próximas do que nunca e, embora não fossem o tipo de casal que demonstrava afeto em público, não pareciam ter nada a esconder.
Susana cumprimentou os pais de Cedrico, e Hugh, quando se aproximou, apertou a mão do Sr. Diggory respeitoso e chamou a mãe de Cedrico de “Sra. D”, o que a fez corar e rir. Mary foi apresentada como uma das “surpreendente amigas sonserinas” de Cedrico e Amos murmurou como aparentemente o filho estava muito ligado à casa das serpentes, o lançando um olhar significativo.
À tarde, os quatro voltaram mais uma vez ao seu passeio, dessa vez pelo castelo. Amos foi à frente com o filho que era mais alto que ele, como que exibindo o campeão. Amelie foi mais atrás, com Cordélia e, em dado momento, entrelaçou o seu braço com o da namorada do filho, andando de cabeças juntas para comentarem sobre o seu menino. Ela quis saber se ele estava nervoso, se andava indo bem nas aulas, se era carinhoso com ela como parecia ser.
Longe da audição dos Diggory do sexo masculino, Amelie se virou para Cordélia:
—Ele gosta mesmo de você. –Comentou. –Você gosta dele?
—Muito. –Admitiu. –Mais do que eu esperava.
—Isso é bom. –Murmurou a bruxa mais velha. –É bom que ele tenha alguém como você... carinhosa, apoiadora, mas... bem você me passa uma sensação de constância. Constante é bom.
Um pouco antes do banquete, Cordélia desceu para as masmorras, onde no seu quarto a esperava, surpreendentemente, uma camisa metade amarela, metade preta, com mangas de cores alternadas e o nome DIGGORY atrás em vermelho. Havia também um bilhete do próprio Cedrico, a dizendo que aquela era igual à camisa que ele usaria para a tarefa e que ela só precisava usar se quisesse –mas que ele ficaria feliz com isso.
Cordélia logo percebeu que a camisa não fora feita para ela. Talvez fosse uma extra da qual o namorado houvesse aberto mão, porque, quando a vestiu, a camisa bateu na metade de suas coxas e as mangas precisaram ser dobradas várias vezes para que liberassem suas mãos. Cordélia vestiu leggings pretas por baixo e tênis, antes de sair do dormitório, sendo encarada com estranheza por todos os colegas sonserinos que estavam no salão comunal.
No saguão, encontrou Cedrico e os pais mais uma vez, e os dois tiveram a bondade de se fingirem de distraídos com uma estátua qualquer para dar aos namorados um minuto de privacidade. Cordélia rapidamente puxou Cedrico para um corredor mais vazio, onde o beijou com calma, respirando fundo, o coração batendo muito alto de ansiedade, mas de medo também. Cedrico observou com preocupação o punhado de sardas no nariz da namorada pareceram mais pálidas do que o normal, quando se afastou.
—Eu vou voltar para você. –Ele prometeu, sorrindo calorosamente.
—Eu vou ser a garota com seu nome nas costas. –Cordélia deu um giro para que ele apreciasse o modo como a camisa caia no corpo dela; apertada no peito, folgada na cintura e nos ombros e a barra se amontoando em seu quadril. O próprio Cedrico já usava a sua, que lhe caia muito bem no corpo magro e alto; e Cordélia sentiu como se eles pertencessem a uma Casa aparte, só os dois. Ele a beijou na testa antes de saírem de novo para o saguão.
Quando voltaram ao grande salão para o banquete, Cordélia, mesmo com a camisa preta e amarela, sentou-se à mesa da Sonserina com seus colegas, tendo passado pela mesa da Corvinal para trocar beijinhos com Fleur e a desejar, com ênfase, uma boa sorte. A amiga loura a agarrou num abraço apertado e Cordélia também cumprimentou seus pais. A irmãzinha de Fleur estava ao lado de Lucy, as duas com a mesma idade parecendo se darem bem.
Na mesa da Sonserina, sentou-se no lugar de sempre junto de seus amigos. Ela não era a única a ter adotado as cores de Cedrico. Lana e Mary haviam amarrado fitas amarelas em seus cabelos louros e Peter e Warrington haviam pintado metade do rosto de preto a outra metade de amarelo. Edmundo colocou uma mão em seus ombros, dizendo baixo em seu ouvido para que tivesse coragem e paciência, mas Cordélia não podia tirar os olhos da mesa da Lufa-Lufa onde, na sua ausência, os amigos de Cedrico –e mesmo outros lufanos mais novos –haviam se amontoado ao seu redor com os melhores desejos.
O banquete estava especialmente variado naquela noite, como foi nos primeiros banquetes na chegada das delegações de Durmstrang e Beauxbatons, mas Cordélia quase não comeu nada. Krum, ao seu lado, parecia igualmente tenso, os ombros muito duros. Cordélia o havia visto recebendo um abraço de Hermione mais cedo e ficou feliz que a garota grifinória estivesse sendo gentil com o búlgaro.
Cordélia mordia os lábios tão insistentemente que Edmundo a cutucou para mandar que parasse.
—Eu queria... –Ela suspirou. –Poder pedir a ele que não fizesse isso.
Edmundo a olhou com uma expressão surpreendentemente pensativa no rosto.
—Acho... –Ele disse. –Que não existe muita coisa que Cedrico não faria por você, se você pedisse. Se é certo pedir, por outro lado, eu não sei dizer.
Então ficou em silêncio para que ela ruminasse as palavras por um segundo. Se a primeira parte era verdade, ela não podia dizer com certeza, mas, se seria certo pedir, ela sabia a resposta. De qualquer forma, ela pensou na expressão ansiosa de Cedrico quando ele encontrara o pai, e no modo como o Sr. Diggory não estava apenas certo e ansioso para que Cedrico vencesse, e em como Cedrico ficaria nervoso com a ideia de decepcioná-lo.
—Acho que até aqueles condenados à forca merecem uma última refeição decente. –Brincou Peter na mesa da Sonserina, indicando a riqueza daquela refeição. Cordélia o lançou um olhar amuado enquanto Vítor ficava verde.
Também estavam participando do banquete, sentados à mesa dos professores, Bagman e o Primeiro Ministro Cornélio Fudge, usando um chapéu coco verde-musgo. Pareceu como se tempo nenhum houvesse se passado quando Dumbledore se levantou de seu lugar, chamando a atenção de todo o salão.
—Senhoras e senhores, dentro de cinco minutos, vou pedir a todos que se encaminhem para o estádio de quadribol para assistir à terceira e última tarefa do Torneio Tribruxo. Os campeões, por favor, queiram acompanhar o Sr. Bagman ao estádio agora.
Cordélia bateu palmas quando Krum se levantou da mesa da Sonserina, deixando seus pais para seguirem-no depois, mas seus olhos estavam em Cedrico, que teve o cabelo bagunçado por Hugh e pelo próprio pai antes de se juntar aos colegas fora do salão.
Cinco minutos mais tarde, Cordélia se levantou e se apressou com Mary, Edmundo, Susan, Claire e Marlon, que Cordélia apreciou ter se juntado a eles ao invés de ficado com a menina com quem estava saindo, em seu encalço para pegarem bons lugares na arquibancada. Hugh foi convidado pelo grupo, mas decidiu ficar com Ivan e o pessoal de Durmstrang. O campo de quadribol estava irreconhecível. Uma sebe de seis metros de altura corria a toda volta e a entrada do labirinto, onde estavam postados os campeões, parecia escura e sinistra.
Os professores estavam lá embaixo, junto com os campeões, mas, quando Cordélia pôs os olhos em seu padrinho, ele, como uma sombra, saiu de junto dos colegas para a barra da arquibancada, para onde Cordélia desceu. Ela notou os olhos de Cedrico seguindo o professor de Poções, até encontrarem-na e, quando ela falou com seu padrinho, tinha os olhos no namorado.
—Você vai protege-lo? –Perguntou, intensa e insistente, antes que seu padrinho pudesse dizer qualquer coisa. –Você vai estar perto, se parecer...
—Se parecer que ele está em perigo, eu agirei. –O padrinho disse, em sua voz seca, mas ela acreditou nele mesmo assim.
Suspirando, ela se inclinou por cima da barra e colocou aos braços ao redor dele, finalmente o olhando. Ele não respondeu exatamente com um abraço, mas apenas colocando as mãos ao redor dela. Cordélia piscou e foi subindo de volta para seu lugar.
O céu se tornara azul profundo e límpido e era uma noite agradável enquanto seus colegas tomavam lugares fazendo barulho e estardalhaço ao seu redor. Quando todos se acomodaram, Bagman apontou a varinha para a própria garganta para aumentar o som de sua voz:
—Senhoras e senhores, a terceira e última tarefa do Torneio Tribruxo está prestes a começar! Deixe-me lembrar a todos o placar atual! Empatados em primeiro lugar, com oitenta e cinco pontos cada: O Sr. Cedrico e o Sr. Harry, os dois da Escola de Hogwarts! –Os vivas e aplausos da arquibancada fizeram pássaros saírem voando da floresta proibida. –Em segundo lugar, com oitenta pontos, o Sr. Vítor Krum, do Instituto Durmstrang! –Mais aplausos, engrossados principalmente pelos sonserinos, mas também pelos alunos educados de Hogwarts. –E, em terceiro lugar, a Srta. Fleur Delacour, da Academia de Beauxbatons!
Aplausos educados varreram o campus, mais os entusiasmados de Marlon e Claire ao seu lado.
—Então... –continuou Bagman –Quando eu apitar, Harry e Cedrico! –Ele fez um gesto para a sombria entrada do labirinto. –Três... dois... um!
O bruxo soou com força o apito e Harry e Cedrico correram para a entrada do labirinto. Quando os dois sumiram, Cordélia se levantou de seu lugar, mas não teve jeito; perdera toda visão que tinha do namorado. Pouco tempo depois, Krum entrou, seguido por Fleur com mais um instante. A bruxa ainda olhou nervosa para trás, na direção deles na arquibancada, mas as sebes se fecharam na frente dela e ela também sumiu de vista.
Frustrada, Cordélia se deixou cair no banco, onde Claire segurou sua mão fria. Depois de cinco minutos sem nenhuma agitação, começou a dar uma olhada nos colegas ao redor. Edmundo se sentava do outro lado de Claire, e Marlon, no banco acima, olhou para ela com um sorriso. Mary e Susana estavam de mãos dadas, mas em silêncio tenso. Não muito distantes deles, estavam Warrington, Peter e Lana, os cabelos dourados com fitas amarelas e pretas. Os amigos de Harry Potter, Hermione e Weasley sentavam-se junto da mulher mais velha de cabelo ruivo, que parecia a matriarca da família, mas Cordélia notou que Ivan e Hugh estavam junto de Hermione e supôs que ambos ansiavam por Vítor também.
O primeiro grito veio, e era identificavelmente de Fleur. Ao seu lado, Claire se debulhou em lágrimas e Cordélia e Edmundo ambos a abraçaram. Notando que ela estava bem aparada, a sonserina se levantou com dificuldade e passou pelas pernas dos colegas até chegar em Marlon, que encarava palidamente a entrada do labirinto, e sentou-se ao seu lado, oferecendo-o sua mão. Marlon a pegou e a deu um olhar agradecido. Seus cabelos louros geralmente em perfeito estado estavam despenteados.
Não muito depois disso, a professora Mcgonagall voltou com Fleur, que foi reanimada e levada para uma barraca junto do campo, armada para os feridos, onde Cordélia desconfiava que Madame Pomfrey pudesse ser encontrada. Marlon e Claire suspiraram com alívio e Cordélia se viu desejando que Cedrico saísse logo também, mesmo que sem a taça.
Vinte minutos ou mais se passaram depois do segundo grito. Esse foi uma sucessão de gritos agoniados de dor intensa. Cordélia se pôs de pé imediatamente, reconhecendo a voz, e fez menção de descer as arquibancadas até o campo, onde estavam os professores e juízes. Notou a mãe de Cedrico caindo nas lágrimas junto ao marido. Alguém a segurou pelas costas e, embora ainda tenha feito um esforço para se desvencilhar, os gritos acabaram e Edmundo e Marlon, juntos, a sentaram novamente, trêmula e abalada, nas arquibancadas, sob olhares de pena de alguns outros colegas.
Quando uma série de faíscas vermelhas cortou o ar, Cordélia se sentiu subitamente tranquilizada. Então ele voltaria... ele voltaria para ela. Sem a taça, mas o que a interessava daquela maldita taça que só a trouxera ansiedade e medo durante todo aquele ano? Uma sombra pairando sobre seus melhores momentos com o namorado. Não era a taça que era queria de volta.
Mas quando Hagrid apareceu com o segundo competidor desistente, esse era Vítor Krum, desacordado.
Passou pela cabeça de Cordélia que isso significava que, quem quer que pegasse a taça, a Vitória seria de Hogwarts. Achou que não era a única a notar isso, mas nenhum dos alunos da escola comemorou, embora tenham murmurado em voz baixa sobre o assunto. O ar de tensão ainda era muito forte para que houvesse comemoração, especialmente depois que a volta de Krum causou uma comoção porque ele não podia se lembrar de como fora nocauteado, assim como Fleur. Também não tinha lembranças de mandar faíscas vermelhas para abrir mão da tarefa.
Os murmúrios eram passados de boca em boca pelo campo como uma doença contagiosa. Cordélia descobriu que não ficou particularmente surpresa com a informação, embora um grupo da Corvinal ao seu lado, que incluía Cho Chang, a namorada de Potter, tivesse ficado desconfiado da situação. Mas eles não sabiam o que Cordélia sabia sobre as coisas estranhas que vinham acontecendo, afinal, a maioria delas fora abafada e, se não fosse seu padrinho, a sonserina seria tão ignorante quanto os colegas sobre o assunto.
Depois disso foi uma tortura. O labirinto estava calmo e silencioso, parecendo guardar todo tipo de mistérios de onde ela estava. A maioria de seus colegas, vendo que não vinha nenhuma agitação, havia desistido de se porem de pé para observar. Sentados, os murmúrios cresciam, mas ainda eram contidos, baixos, como num funeral. Marlon e Claire os haviam abandonado para sentarem-se com Fleur mais embaixo nas arquibancadas, deixando Hugh –que subira quando Ivan se juntara a Vítor –Edmundo, Mary e Susana para distraírem Cordélia, que ainda se sentia tensa como uma corda repuxada, formigas andando por sua pele, suas palmas suadas e sua mente exaurida.
Repassava na mente todos os feitiços que havia treinado com Cedrico nos últimos meses, incluindo os de cura e proteção. Se perguntou se havia alguma chance de o labirinto ser magicamente encantando para ser bem maior do que o campo de quadribol quando a primeira hora da tarefa veio e se foi.
Notou Dumbledore se aproximando de Bagman para uma conversa –e mesmo este, geralmente animado, pulando na ponta de seus pés, tinha o cenho franzido em preocupação. Dentro de Cordélia, suas entranhas, que vinham apertando-a com força o suficiente para estrangular, se dissolveram, e houve um grande vazio frio no lugar onde elas deviam estar.
Esperava que Cedrico, agora sem imaginar que poderia desistir, saísse pela entrada a qualquer momento. Encarava o vazio entre duas sebes altas como se a sua força de vontade sozinha pudesse trazê-lo de volta e, por isso, levou um momento para perceber quando uma chave de portal trouxe dois meninos para a beira da arquibancada, sendo a última a se levantar.
Harry Potter havia caído chapado no chão, Cedrico deitado ao seu lado, ambos parecendo sujos e exaustos, ambos sem se mover. Cordélia se levantou de onde estava, os passos apressados abrindo caminho entre seus colegas, que a deixavam passar principalmente pela camisa que usava, exatamente igual à do campeão que aterrissara na grama verde do campo.
Dumbledore havia corrido na direção dos dois garotos. Cordélia estava na metade do caminho agora, o coração palpitando e, embora já pudesse ver os pais de Cedrico, avançando com cuidado, e as costas do diretor por cima dos dois alunos, o rosto de Cedrico ainda estava coberto. Ela se perguntou se estava desacordado, como Fleur e Krum estiveram.
Havia uma agitação acontecendo entre Dumbledore e Potter que fez o ministro se aproximar do trio, que ainda estava no chão. Cordélia seguia inexoravelmente pelo mar de alunos, que estavam todos de pé, parecendo ansiosos para verem alguma coisa, e atrapalhavam sua passavam. Estava quase lá, quando o ministro murmurou algo que ela não entendeu em voz alta.
As palavras começaram a ser repetidas pela arquibancada e, nesse momento, uma mão masculina alcançou seu braço com força, a fazendo parar de supetão e quase cair para trás. Quando se voltou para entender o que houvera, deu de cara com o rosto muito pálido de Edmundo. As vozes continuavam ao seu redor, cada vez mais histéricas. Muitos colegas a olhavam com preocupação, então Cordélia parou para ouvir:
“Diggory está morto! ”, meio que gritou alguém muito próximo dela.
Uma vez, quando era criança, Cordélia havia caído do cavalo. Era uma tarde comum; Lucy era muito pequena e tinha as pernas gordinhas aos quatro anos, mas, aos dez, Cordélia era esguia e flexível e seu programa preferido com a mãe era montar os cavalos alados da propriedade. Sua mãe, como seu pai fazia quando ela estava o ajudando no laboratório, nunca a colocava em perigo; a dava o cavalo mais lento, mais calmo, que trotava amigavelmente pela grama verde do cercado e acompanhava sua mãe quando ela o levava para fora.
Naquela tarde, porém, quando ela andava seguindo sua mãe no cavalo maior, a aparatação de um par de bruxos –o irmão de seu pai e a esposa dele –se fez com um estalo que assustou o cavalo que ela cavalgava e o abraxano dourado alçou voo em plena corrida, sem nem hesitar.
Cordélia foi jogada para trás, com as costas batendo com força na grama. A queda em si havia sido ruim; o impacto tirou todo o ar de seus pulmões e por segundos infinitos fora como se ela jamais fosse respirar de novo. Mas o susto havia sido tão ruim quanto; o momento exato em que ela percebeu que estava caindo e não sabia o porquê, mas tinha certeza de que não conseguiria se salvar.
Ela estava sentindo algo parecido agora.
Ao seu redor, o mundo caiu e girou e foi uma sorte que Edmundo a tenha segurado porque seus joelhos cederam e ela teria ido ao chão se não fosse pelo colega. Garotas choravam histéricas, mas tudo isso, mesmo a voz de Edmundo ao seu lado, murmurando para que ela o seguisse para longe, parecia distante.
Cordélia se dividiu em duas. Uma parte dela, ali no campo, criou forças e continuou tentando abrir caminho entre os colegas. Eles agora, menos ansiosos para se aproximarem, a deixavam passar por mais facilidade. Quando chegou à beira do campo, notou que alguém havia levado Harry Potter embora e o corpo docente da escola fazia um escudo para afastar os olhares, enquanto o professor Flitwick ordenava aos alunos que voltassem para o castelo.
Notou sua irmã caçula tentando chegar a ela e sendo segurada por uma menina mais velha de sua casa, talvez uma monitora, mas Cordélia não registrou nenhuma das duas realmente. Ficou aliviada que alguém estivesse cuidando da mais nova.
—É minha irmã ali! –Lucy falava alto com a menina da Corvinal; Cho Chang, Cordélia notou, afinal, mas a asiática a levava para fora do campo com determinação.
Madame Maxime já estava saindo do campo, levando seus alunos consigo. Cordélia viu Fleur lhe olhando com um ar apavorado, mas não retribuiu. Não fazia sentido, pensou, que Cedrico estivesse morto. Não podia estar. Estivera com ela apenas horas antes, prometera que voltaria. Garotos de dezessete anos não morriam de uma hora para a outra. Não caiam mortos no chão, simplesmente.
Tão distraída que estava, os olhos na cena à frente, que nem notou o professor de Feitiços mandando-a voltar ao castelo. O professor Snape os alcançou no segundo seguinte, e, ao invés de manda-la embora também, se responsabilizou por ela e a levou para perto de onde os adultos se reuniam, nervosos, ao redor do corpo.
—Vão conseguir reanima-lo? –Perguntou debilmente ao padrinho, que a lançou um olhar de profunda pena.
Mais perto, sua alma pareceu começar a voltar para o corpo, porque de repente se sentia tremendo, fria, gelada. Todas as sensações bateram nela com força e seu estômago pareceu pesar vários quilos. Então ela o viu.
Amelie estava ajoelhada diante do corpo, com a professora Sprout tentando tirá-la dali. Cordélia, não ouvia nada além de seu coração batendo com força no ouvido. Ainda não haviam fechado os olhos dele, que, cinzas e apagados, encaravam o céu acima sem vê-lo.
Caiu em seus joelhos, mas não sentiu nada neles.
Respirar era impossível; ela poderia nem ter mais seus pulmões. A ideia de continuar vivendo também não era assim tão tentadora. O mundo havia perdido seu eixo e ela flutuava no abismo infinito, sem nada que a prendesse à terra.
Alguém cobriu o corpo com uma manta, mas não importava. Cordélia ainda podia vê-lo ali, onde estivera um segundo antes, mesmo quando se arrastou para perto enquanto Snape atrás dela, tentava impedir.
—Cordis Ictus. –Ela sussurrou baixo tirando a varinha das vestes e passando por cima do pano branco que o cobria. Era um feitiço médico, para aferir batimentos cardíacos. O coração dela caiu em seu estômago quando não deu resultado, um estranho frio se espalhando pelos seus ossos e lascas de gelo em seu sangue, que passava vagarosamente pelas veias, anestesiado.
Seu padrinho se aproximou, murmurando para que ela o acompanhasse, mas suas pernas não a obedeceriam nem que quisesse; e não queria. Qual era o sentido de ir a qualquer outro lugar? Não haveria nada depois dali. Apenas um abismo que iria a engolir dia após dia.
Nem sentiu quando a professora Sprout a levou embora. Seu padrinho havia sumido, assim como Mcgonagall e Dumbledore. Provavelmente para cuidar de Potter. Cordélia percebeu com surpresa que não havia espaço para sentir raiva dele. Suas entranhas eram uma massa de dor que não podia ser ultrapassada. Se perguntou, sem interesse, se alguém poderia usar um feitiço de cura nela, mas não desejou que o fizessem.
A diretora da Lufa-Lufa a aparou pelos corredores vazios com seu corpo baixo. Mesmo enquanto desconfiava que jamais seria feliz novamente, ao passar pelos corredores em arco, não pôde deixar de notar que o castelo estava ficando um tanto sujo de novo –a limpeza adotada no começo do ano para receber as delegações de Durmstrang e Beauxbatons havia sido relegada ao longo do ano e um par de aranhas relativamente grandes passavam faceiras de um archote para a janela escura. Quis rir. Cedrico estava morto. Parecia distante em seu consciente; algo que acontecia com outra pessoa, mas ela conseguia sentir a dor latejante.
A professora de Herbologia a levou à enfermaria ao invés de aos dormitórios e fez descer uma poção quente e agradável pela sua garganta, deixando-a cair num sono sem sonhos –o último sono tranquilo de seus próximos meses.
“Don't you dare look out your window, darling everything's on fire
The war outside our door keeps raging on
Hold onto this lullaby even when the musics gone, gone”
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