Lembrem-se de Cedrico Diggory
15 Despedidas
Notas iniciais
“How can I say this without breaking?
How can I say this without taking over?
How can I put it down into words?
When it’s almost too much for my soul alone”
Quando acordou na manhã seguinte, por um milagroso momento, estava esquecida do que acontecera e olhou ao redor confusa, se perguntando como parara na ala hospitalar. Então a mesma dor da noite anterior rasgou suas entranhas, a deixando sem ar. Cordélia lutou com seus pulmões para que funcionassem por um momento, respirando em arquejos, a dor a cortando ao meio de forma que a fazia se dobrar sobre si mesma do mesmo jeito que se dobraria com uma risada intensa –exceto que era o exato contrário. Havia, é claro, logo se perguntado onde Cedrico estava, e foi como tentar mover um membro arrancado violentamente de seu corpo. Não poderia se imaginar rindo outra vez na vida.
Uma voa familiar se fez ouvir ao seu lado:
—Respire. Devagar. Mais devagar. –Seu professor de poções a segurava pelos ombros. Ela nem o havia notado ali. –Vamos. Isso.
Respirando mais devagar, sentiu o ar entrando em seus pulmões novamente e o sangue deixando seu rosto afobado. Então desejou ainda estar lutando pelo ar, porque quando respirava doía intensamente; mais do que não respirar.
—Venha. –O padrinho chamou em voz baixa. –O professor Dumbledore quer vê-la.
Cordélia o acompanhou, registrando com apenas metade de sua atenção que Harry Potter estava na enfermaria também, um grande cão negro sentado ao seu lado, vigiando. O cão a olhou com um interesse muito inteligente e pouco canino quando ela passou, mas Cordélia não registrou o ato; esqueceu-se dele assim que saiu da enfermaria. Não havia lugar dentro de seu corpo para conjecturas, apenas dor.
Snape a levou pelos corredores em direção à sala do diretor. Não encontraram ninguém no caminho e, pela posição do sol, Cordélia supôs que era muito cedo para qualquer estudante estar acordado. Se perguntou se estavam tendo sonhos agitados e cheios de pesadelos, ou pesados e agitados, por causa da noite anterior, sem interesse na resposta.
Para sua surpresa, lá dentro estavam os Diggory. Cordélia parou de supetão na entrada quando os olhos da Sra. Diggory encontraram os seus, cinzentos como eram os de Cedrico. Bile ácida subiu sua garganta, queimando-a no caminho, mas a sonserina engoliu de volta, sem nem pensar no ferimento interno. Era só mais um.
Seu padrinho teve que rebocá-la até a cadeira ao lado de Amelie, que estava além das lágrimas, os olhos secos e pesados. O Sr. Diggory, por outro lado, parecia incapaz de conter os soluços. Cordélia achou o choro bem-vindo. Que ele se unisse ao seu, porque ela também era incapaz de fazer as lágrimas pararem de descer, embora os soluços exigissem muito de seu corpo exausto.
—Eu acredito que vocês merecem saber o que houve. –Dumbledore disse, com calma. –Mas antes de tudo, minhas sinceras condolências por uma perda tão terrível.
Cordélia colocou uma mão para trás, para checar se seu padrinho permanecia ao seu lado. Ele colocou uma mão em seu ombro. A Sra. Diggory estendeu uma de suas próprias mãos para a outra bruxa, que a aceitou, vagamente agradecida, na parte dela que vivia na realidade.
A outra parte seguia no campo de quadribol, no momento em que encarara Cedrico, o corpo no chão, os olhos cinzas muito abertos numa última expressão de surpresa.
Então Dumbledore falou. Falou do combinado entre Harry e Cedrico para que ambos pegassem a taça –nesse momento, o Sr. Diggory soluçou ainda mais alto –falou sobre o cemitério. Falou sobre o assassinato. Ao fim de tudo, Cordélia se virou para o seu padrinho, se perguntando se seria pedir demais dele que a deixasse abraça-lo. Para sua surpresa, ele próprio tomou a iniciativa, acariciando seus cabelos enquanto ela encharcava suas roupas de lágrimas quentes e molhadas. Se sentia um pouco mais viva quando tocava em alguém; menos como se estivesse presa em suas piores memórias.
—Devemos falar com Harry Potter. –Murmurou a Sra. Diggory. Então se virou para Cordélia com cuidado; parecia anestesiada. –Cuide-se bem, sim, querida? Ele amava muito você.
Quando os Diggory saíram da sala do diretor, Snape fez um gesto para que o seguissem, mas Cordélia havia se virado para Dumbledore.
—As pessoas não voltam dos mortos. –Apontou. –Como o Lorde das Trevas voltou?
—As pessoas não deveriam voltar dos mortos. –O diretor a corrigiu. –Quanto ao como, podemos apenas imaginar.
O diretor a deu um olhar empático e muito triste. O tipo de olhar que quase a convencera de que ele poderia estar tão triste quanto ela. Cordélia não retribuiu, porque sentia que ele poderia ler sua mente e aquele não era um bom momento para isso. Uma ideia terrível surgia de suas entranhas, subindo à sua cabeça, disputando lugar com o luto. O luto venceu, mas a ideia não foi esquecida, apenas adiada.
Cordélia seguiu o padrinho absolutamente apática pelos corredores vazios –ainda era muito cedo. O sol que se infiltrava pelas janelas era muito fraco e amarelado, quase adoecido, como ela se sentia. Eles passaram por um corredor que levava ao banheiro dos monitores e Cordélia desviou o olhar, se sentindo machucada. Prendeu a respiração até passarem para não cair no choro de novo; como seu coração, seus olhos estavam sensíveis das lágrimas, vermelhos e doloridos.
Os aposentos de seu padrinho compreendiam uma pequena sala de estar, com um sofá de couro preto como os do salão comunal da Sonserina, uma grande lareira, grande o suficiente para que seu padrinho ficasse de pé lá dentro, uma mesa de centro em madeira escura e duas portas para outros cômodos. Ele a sentou em seu sofá, sem que Cordélia reagisse, de frente para a lareira apagada e sumiu por uma das portas.
Cordélia não se importou. Sozinha ou acompanhada, estava presa em seu torpor de dor; revivia de novo e de novo a cena no campo de quadribol, procurando uma versão da realidade em que ele voltasse para ela, como ela havia imaginado. Ao invés disso, sempre batia de frente com a lembrança dos olhos cinzentos dele fitando um céu estrelado sem vê-lo e era arrastada de volta ao seu pesadelo.
—Cordélia. –Seu padrinho a chamou. Ela nem o havia notado voltando para a sala, mas ali estava ele, em suas vestes de pocionista e carranca habitual. Carregava consigo um frasco de uma poção lilás e brilhosa. –Tome disso.
Ela desviou o olhar do padrinho, desinteressada.
—Não quero Poção Para Adormecer. –Murmurou baixo.
O couro negro afundou ao seu lado quando seu padrinho se sentou no lugar vago do sofá.
—O que você quer? –A voz dele também era baixa, respeitosa.
Antes de responder, as lágrimas que ela segurava inundaram seus olhos e fizeram sua garganta coçar e se fechar; impedindo suas palavras. Ela respirou fundo uma, então duas vezes, sabendo, mesmo antes de abrir a boca, que iria soar como uma garotinha:
—Eu quero Cedrico de volta. –Sua voz soou fina e frágil exatamente como ela se sentia por dentro.
O suspiro de Snape foi alto agora, mas não impaciente. Surpreso, como se ele não esperasse que Cordélia verbalizasse aquilo, mesmo que ambos soubessem que era o que ela estava pensando. Adultos não verbalizavam desejos infantis e ela não esperou que sua fraqueza fosse ser bem recebida.
—Não posso dar isso a você. –A voz dele ainda era suave. –Você... –Ele hesitou agora, olhando para baixo, ela podia dizer pelo canto dos olhos, mesmo pela visão embaçada. –Você é muito nova para passar por isso. Jovem e.... muito jovem para ficar de luto.
—Não acho que isso importe. –Cordélia abriu um sorriso triste. –Não é assim que funciona.
—Não. –Ele concordou imediatamente, os olhos negros perscrutando os dela como se achasse que ela era mais sensata do que ele lhe dava crédito. –Suponho que não.
“I loved, and I loved and I lost you
I loved, and I loved and I lost you
I loved, and I loved and I lost you”
Cordélia voltou às masmorras da Sonserina ainda naquela manhã. Para sua surpresa, Mary e Edmundo esperavam lá embaixo por ela, já acordados. Não fizeram perguntas nem ofereceram consolos. Disseram a ela que Dumbledore fizera um anúncio naquela manhã, sugerindo que deixassem Harry Potter em paz e não o fizessem perguntas. Disseram, também, que a festa de formatura do último ano fora cancelara e que ninguém parecera decepcionado com isso. Ainda, avisaram que Karkaroff havia fugido do castelo, deixando seus alunos, que continuariam a ser hóspedes até o fim do ano letivo.
Depois, Lucy as encontrou no salão comunal. Não sabia como a irmã havia feito seu caminho até o ninho dos sonserinos, que devia ser um lugar escondido, mas ela fizera de qualquer forma. Cordélia não se incomodou quando Lucy, mesmo que fosse a irmã mais nova, praticamente a arrastou até o dormitório, enquanto suas amigas, hesitantes, seguiam para a aula, a colocou dentro do banheiro, encheu a banheira com água quente sem bolhas –parecia não haver um humor para bolhas –e a fez afundar na água irresponsiva.
A sensação da água quente era quase um abraço reconfortante e sua irmã massageou poção capilar de flores silvestres em seu cabelo, limpando-a. Havia lágrimas e terra na camisa que Cedrico a dera e Lucy a separou ao lado da banheira, para ser limpa pelos elfos. Cordélia demorou um bom tempo sendo mimada pela irmã antes de conseguir proferir alguma palavra:
—Você devia ir para sua aula. –Comentou, menos porque queria ser deixada sozinha e mais porque devia falar aquilo.
Lucy apenas balançou a cabeça e deitou-se ao seu lado na cama, sem se importar se seus cabelos molhados encharcavam o travesseiro.
—Mamãe diz que irmãs cuidam uma da outra. –Foi tudo que teve em resposta. É claro que sua mãe teria dito aquilo; depois de não ter feito nada para impedir que os dois irmãos caçulas morressem na guerra, provavelmente não queria o mesmo destino para as duas filhas. Cordélia se sentiu grata por isso.
Durante o resto do mês, Cordélia passou muito tempo com seus amigos. Eles estavam sendo incrivelmente respeitosos com ela. A deixavam em paz na maior parte do tempo, mas nunca sozinha e nunca davam a impressão de que ela –e sua tristeza mórbida sem fim –era um incômodo. O peso em seu estômago e as batidas lentas e esforçadas de seu coração não diminuíram naquele mês. Ela contava o tempo apenas pelo aumento de suas olheiras, que ela via quando lavava o rosto diante do espelho.
É claro que nem sempre mesmo a presença reconfortadora de seus amigos era o suficiente para mantê-la longe de, se não de sua tristeza habitual, então de ouvir os rumores. Ela sabia o que todos os alunos estavam sussurrando baixinho quando pensavam que ela não ouvia.
Numa tarde, ela acabou por ouvir uma dessas conversas, enquanto ela e Edmundo saiam do salão comunal da Sonserina para os jardins onde encontrariam o resto da turma para passar a tarde.
Estavam Ariadne Rosier, do quinto ano, junto com Urquhart e outros colegas.
—Eu acho que Diggory fez alguma besteira e Potter está tentando abafar o caso. –Ela dizia em voz alta para quem quisesse ouvir. –Podem até fingir que não, porque Diggory era tão perfeito, Lufa-Lufa e tudo o mais, mas foi ele quem se explodiu. O Cálice devia simplesmente ter escolhido Warrington ou Selwyn e....
Ela parou quando se virou para sorrir para um de seus colegas e deu de cara com Cordélia, lívida, os pés bem fincados no chão enquanto Edmundo tentava tirá-la dali. Rosier tinha pálpebras pesadas e olhos escuros, que se arregalaram levemente ao dar de cara com a colega.
—Continue. –Cordélia incentivou, num tom de voz que quase era o seu normal. Edmundo, notando que ela não se debulhara em lágrimas, deixou de tentar arrastá-la dali para ficar ao seu lado de pé.
Todos o salão comunal da Sonserina olhava para elas agora; desde os quartanistas, Malfoy e a Greengrass do meio, até alguns primeiranistas de passagem.
Rosier hesitou, mas acabou por tomar fôlego e continuar:
—Eu só estou dizendo o que todos estão pensando. –Seu to era defensivo, mas Cordélia não se apiedou. –Ninguém que falar mal de um morto, mas todos agora sabem que Diggory simplesmente não era bom o suficiente e....
Ela não terminou a frase, mas parou quando encontrou a varinha de Cordélia apontada para ela. Era a primeira vez em dias que sentia algo ao invés de luto; e mesmo aquela raiva incandescente era bem-vinda.
—Ser da Sonserina não é desculpa para ser uma vaca, Rosier. –Edmundo falou em voz alta, seco, colocando uma mão sobre o braço estendido de Cordélia, o baixando. –Vamos. Venha. Você não quer perder tempo com ela.
Simples assim, a raiva escorregou para um lugar fundo de sua mente, sendo logo substituída pela dor entorpecente que sempre vinha à tona, não importava o quanto ela lutasse. Cordélia não brigou aquela briga, mas, mais tarde, Edmundo e Mary se juntaram, azararam a garota na frente de toda a Sonserina, embora pelas costas de Cordélia, que apenas soube depois, e ameaçaram qualquer um que ousasse falar mal de Cedrico Diggory. Seu padrinho, embora alguns monitores o tivessem avisado do ocorrido, não colocou seus amigos de detenção e, de certa forma, essa foi sua maneira de contribuir com o recado.
Um de seus passatempos preferidos se tornara olhar ao redor do buraco de destruição em seu peito, imaginando a extensão dos danos. Conseguia se ver na beirada, prestes a cair, irrecuperavelmente perdida. Se perguntava se veria Cedrico do outro lado. De manhã, assim que acordava, se ocupava em reviver o futuro que ela imaginara um dia para eles; um apartamento em Londres, enquanto ela fazia o curso de pocionista e ele o de transfiguracionista, as idas ao Beco Diagonal para comprar ingredientes e coisas para casa, os jantares com Mary e Susana. Então, depois de sonhar acordada por alguns minutos, imaginava a si mesma, tendo que fazer todas essas tarefas sozinhas, sabendo que não as faria se houvesse justiça no mundo.
“Por que?”, ela se perguntava, sabendo que nunca acharia uma resposta que fosse satisfatória. Porque ele estivera no lugar errado, na hora errada. Porque ninguém o protegera. Porque, ao contrário de Harry Potter, ele não dera sorte. Isso não era o suficiente. Tinha de haver mais, um bom motivo. Tinha de haver um bom motivo para um garoto no auge de seus dezessete anos morrer, mas não havia. A morte não se importava com motivos.
Nunca voltou ao banheiro dos monitores e nem foi a mais nenhuma aula, sem ser repreendida. Também passou muito tempo com Claire, Fleur e Marlon, além de seus companheiros mais leais que eram Edmundo e Mary, frequentemente também Hugh e Susana. Em dado momento, conseguiram até mesmo convencê-la a tomar sol, embora nunca fossem no lugar do lago que ela e Cedrico sempre iam, nem ao campo de quadribol.
Numa dessas manhãs livres, Cordélia estava ocupando um lugar esmo do castelo, que nunca havia frequentado assiduamente e onde era deixada em paz. Um corredor vazio entre duas salas inutilizadas no sexto andar; ninguém nunca passava por ali e ela mesma jamais havia achado o lugar apelativo até aquele momento.
Ela não levou um livro ou qualquer atividade para distraí-la. O próprio corredor era pouco atrativo; paredes nuas de pedra, o teto em arcos, portas de madeira pesadas e sem janelas. Nada de vista para o lago, as estufas ou o jardim.
Foi dessa forma que Minerva Mcgonagall a achou sentada no chão, de pernas cruzadas, encarando a parede fria. Cordélia a notou pelo canto dos olhos, mas não se virou para olhar a professora se aproximando. Já havia aceitado que perderia pontos por estar matando todas as aulas; não importava.
Ao invés de começar uma bronca, porém, a professora suspirou pesadamente quando parou de pé ao seu lado e encarou a mesma parede que ela, como se também visse mais que pedra e argamassa.
—Você ficaria surpresa, Srta. Bloxam, ao saber quantos alunos eu vi viverem menos do que eu. –Disse ela. Sua voz era emocionada em algum ponto, mas era difícil se sentir empática. Cordélia vivia em sua própria bolha de sofrimento e não tinha interesse em compartilhar seu luto. –Na minha idade, eu sempre espero que eles compareçam ao meu funeral, seria o certo, e, ao invés disso, eu já fui a funerais demais.
Cordélia não tinha intenção de responder, mas, mesmo assim, se encontrou pensando.
—A senhora se lembra de todos eles? –A pergunta era motivada. Se era verdade que uma guerra estava prestes a explodir no mundo mágico, Cordélia queria saber se pararia de doer conforme os fantasmas fossem se acumulando, seus rostos e o tom de suas vozes se confundindo.
Minerva pareceu pensar sobre isso, sem desviar os olhos da parede.
—Alguns com mais frequência que outros. –Disse finalmente e desviou seus olhos severos para sua aluna. Cordélia notou o movimento pelo canto do olho, mas não retribuiu. –Sua tia, por exemplo. Marlene era uma aluna genial. Uma menina gentil... bem, os da minha Casa mais que os outros. James Potter. Lílian Evans. Era Potter, mas me lembro mais dela como a garota inteligente e boa que foi minha aluna. Cedrico Diggory. Quando acordei hoje de manhã, os cardos enfeitiçados que ele me deu de presente haviam secado.
—Parece muito mais simples ser a que morre. –A aluna observou, agora olhando o rosto infeliz da mulher mais velha; as rugas ao redor dos lábios acentuadas por uma expressão de tristeza.
Ao ouvir o que ela disse, Minerva se virou muito severamente.
—Para quem morre, talvez. Mas você é muito inteligente para não saber disso. E muito gentil para pensar sobre. –Ela assentiu e suspirou. –Venha comigo, Srta. Bloxam. Vamos tomar um chá.
Como vinha acontecendo muito nos últimos dias, Cordélia apenas se deixou ser levada.
Sua companhia mais constante, porém, era sua irmã mais nova. Lucy não desgrudou dela depois de que saiu da ala hospitalar. Comia na mesa da Sonserina e dormia em seu dormitório. Mais de uma vez, Cordélia sugeriu que voltasse para seus amigos antes que os perdesse, mas sua irmã ficou firme. Seus pais também a escreviam preocupados, perguntando se gostaria de voltar para casa, mas Cordélia seguia recusando.
—Você não vai comer esses? –A irmã um dia encontrou um estoque de doces em seu armário, que ela havia guardado apenas algumas semanas antes.
Cordélia desviou o olhar como se eles a queimassem. Eram prova de que ela tivera um relacionamento com um rapaz que, sempre que podia, saia do próprio caminho para agradá-la, a mimando com coisas que ela gostava; aqueles doces eram prova de que, um dia, ela e Cedrico Diggory foram à Dedosdemel, que um dia ela tivera um namorado que a amava e que ela amava. Um namorado que não voltaria.
—Pode ficar com eles.
Harry Potter a encontrou no corredor, saindo do salão principal um dia, e pediu uma palavrinha. Cordélia respirou fundo, testando para ver se havia raiva do garoto em algum lugar dentro de si. Afinal, ele estava vivo e Cedrico, não. Cedrico, que era mais velho e experiente. Que a prometera. Mas, no fim, a bruxa concordou, percebendo que sentia muito mais raiva de si mesma –afinal, será que devia tê-lo impedido? Implorado que não se inscrevesse todos aqueles meses atrás? Pedido para que entrasse no labirinto e então lançasse faíscas vermelhas, desistindo?
Seguiu o quartanista até os jardins, onde ele olhou ao redor para ver se não estavam sendo ouvidos, então virou-se para ela.
—Ele me pediu... –O garoto começou, sem precisar o nome, mas então parou e refez sua frase. –Cedrico me pediu para dizer a você que sentia muito... por ter quebrado a promessa.
O mundo girou perigosamente enquanto a memória emergia. Não a do Cedrico morto, os olhos abertos, estirado no chão do campo de quadribol, mas da última vez que ela falara com ele. Sabia que havia algo errado no Torneio. Ele sabia também, mas ambos foram relapsos com a segurança dele. Tudo que ela fizera fora pedir uma promessa quando devia ter feito de tudo para acabar a competição.
Então se lembrou de que estava diante de Harry Potter, mas agora não podia parar as lágrimas. O bruxo a olhou com profundo desconforto, mas estendeu uma mão para seu ombro. Vinha, naquele último mês, desejando que houvesse sido ele, e não Cedrico. Naquele momento, percebeu que vinha sendo injusta. Deseja que não houvesse sido ninguém.
—Obrigada. –Murmurou e voltou para dentro do castelo, onde Mary e Lucy aguardavam por ela.
Às vésperas da partida de volta para casa –pela última vez –Cordélia arrumou as malas com um sentimento conflitante no peito. Por um lado, o castelo era cheio de fantasmas –figurados, não literais –de Cedrico. Às vezes, virava em um corredor e esbarrava com a memória de um beijo apaixonado que trocaram num dia qualquer entre aulas –podia quase reviver o exato momento em que ele a encontrara por acaso no corredor e se desviara de seu caminho para a desejar um bom dia. Outras, entrava no salão principal e, antes que pudesse evitar, procurava por ele na mesa da Lufa-Lufa, apenas para achá-la silenciosa e triste. Parte dela queria escapar das memórias, porque era como cutucar suas feridas.
Por outro lado, sentia como se, com as feridas fechadas, sua pele cicatrizasse e não fosse haver marcas do ocorrido. Uma vez longe de Hogwarts, não poderia acessar com tanta facilidade cada um dos momentos que passara ao lado de Cedrico e eles se perderiam lentamente, até que virassem uma ou duas memórias. Os pais dele permitiram que ela mantivesse um de seus cachecóis da Lufa-Lufa e o presente que ela o havia dado de natal: o pomo de ouro com a foto deles dentro. Também imprimira todas as fotos que tiraram juntos e com os amigos ao longo do ano para fazer um álbum. A ideia de superar era tão ruim quanto a ideia de sofrer para sempre.
Colocou então no malão suas roupas, as vestes da Sonserina, o vestido etéreo que usara no Baile de Inverno, a camisa que Cedrico a dera para a última tarefa e o cachecol amarelo e preto. Havia lançado neste último um feitiço que mantinha o cheiro –sabonete de limão, sol e lavanda. Guardou também suas roupas de Beauxbatons; o chapéu pontudo azul-claro e as peças azuis de seda. O anel que ganhara dele de natal estava no seu dedo há bastante tempo agora e ela não tinha nenhum plano de tirá-lo num futuro próximo ou distante, mas pensava que o pomorim voava com mais tristeza do que habitualmente. A miniatura de dragão focinho curto sueco que ela Cedrico a havia dado após a primeira tarefa também expelia chamas muito desanimadamente, fazendo Gargamel perder o interesse pela miniatura.
Quando chegaram ao salão principal, notaram que ao invés da habitual decoração em homenagem à casa vencedora da Taça das Casas, o salão tinha tecidos negros por trás da mesa dos professores, que davam ares sombrios ao banquete, mas que eram em respeito a Cedrico.
Olho-Tonto Moody sentava-se à mesa, embora Cordélia houvesse ouvido a história de seu infortúnio naquele ano. O lugar do professor Karkaroff estava vazio, mas Madame Maxime se sentava lançando olhares a Hagrid o tempo todo. Snape a acompanhou com os olhos quando atravessou o salão e fez um aceno de cabeça quando a filhada se sentou na mesa da Sonserina, perto de Mary, Edmundo e Vítor Krum. Como sempre fazia, o professor Dumbledore se levantou de seu lugar à mesa. Daquela vez, não interrompeu muitas conversas. A maioria dos alunos estava calada, ou falando baixinho.
—O fim –ele começou, olhando para todos –de mais um ano.
Seu olhar pousou na mesa da Lufa-Lufa, onde todos pareciam mais pálidos e abatidos do que os membros das outras Casas, então dançou por Harry Potter e parou na própria Cordélia.
—Há muitas coisas que eu gostaria de dizer a todos vocês esta noite, mas, primeiro, quero lembrar a perda de uma excelente pessoa, que deveria estar sentado aqui –ele fez um gesto em direção à mesa da Lufa-Lufa –festejando conosco. Eu gostaria que todos os presentes, por favor, se levantassem e fizessem um brinde a Cedrico Diggory.
Todos obedeceram. O nome dele, dito daquela forma, mesmo com aviso prévio, era um feitiço de corte atravessando sua alma, mas ela aprendera a lidar com a dor. Todos ergueram seus cálices e, em um eco uníssono, alto, grave e ressonante, ouviu-se um: Cedrico Diggory.
—Cedrico era o aluno que exemplificava muitas das qualidades que distinguem a Casa da Lufa-Lufa. –Continuou Dumbledore. –Era um amigo bom e leal, uma pessoa aplicada, valorizava o jogo limpo. Sua morte nos afetou a todos, quer vocês o conhecessem bem ou não. Portanto, creio que vocês têm o direito de saber exatamente como aconteceu.
Cordélia ergueu a cabeça para encarar, incrédula, Dumbledore.
—Cedrico Diggory foi morto por Lorde Voldemort.
Um murmúrio de pânico varreu o Salão Principal. As pessoas olharam para Dumbledore incrédulas, horrorizadas. Ele parecia perfeitamente calmo, observando-os. Da mesa da Corvinal, Fleur, Claire e Marlon não ficaram surpresos com a notícia. Quando recuperara a fala, Cordélia havia contado aos amigos o que ouvira, deixando de lado os detalhes que doíam mais.
—O ministro da Magia –continuou Dumbledore –não quer que eu lhes diga isto. É possível que alguns pais se horrorizem com o que acabo de fazer, ou porque não acreditam que Lorde Voldemort tenha ressurgido ou porque acham que eu não deva lhes informar isto por serem demasiado jovens. Creio, no entanto, que a verdade é, em geral, preferível às mentiras, e qualquer tentativa de fingir que Cedrico Diggory morreu em consequência de um acidente ou de algum erro que cometeu é um insulto à sua memória.
Um arrepio cruzou os braços de Cordélia. Foi praticamente a primeira vez que ela sentiu algo que não dor na última semana. Estava emocionada. Emocionada o suficiente para ignorar Draco Malfoy cochichando para os seus armários, com um sorriso discreto, mas muito desrespeitoso nos lábios.
—Há mais alguém que deve ser mencionado com relação à morte de Cedrico. –Agora o salão olhava ao redor. –Estou me referindo, naturalmente, a Harry Potter.
Cordélia não se deu ao trabalho de virar a cabeça em direção ao garoto, como fizeram muitos de seus colegas.
—Harry Potter conseguiu escapar de Lord Voldemor. E arriscou a própria vida para trazer o corpo de Cedrico de volta a Hogwarts. Ele demonstrou, sob todos os aspectos, uma bravura que poucos bruxos jamais demonstraram diante de Lord Voldemort e, por isso, eu o homenageio.
O diretor voltou-se solenemente para Harry e ergueu sua taça mais uma vez. Quase todos os presentes no salão seguiram seu exemplo, embora Cordélia tenha sentido um gosto amargo no fundo da garganta ao fazê-lo.
Quando todos se sentaram mais uma vez, o diretor prosseguiu:
—O objetivo do Torneio Tribruxo era aprofundar e promover o entendimento no mundo mágico. À luz do que aconteceu, o ressurgimento de Lord Voldemort, esses laços se tornam mais importantes do que nunca.
O olhar do diretor foi para Madame Maxime e Hagrid, mas Cordélia trocava um olhar de amizade com Fleur Delacour, Claire Bellefleur e Marlon Beauvale. Ainda estendeu uma mão para o braço de Vítor, que a olhou com surpresa, então um tipo de entendimento. Sim, eles sairiam dali como amigos, a bruxa percebeu.
—Cada convidado nesse salão –o olhar do diretor se demorou nos alunos de Durmstrang –será bem-vindo se algum dia quiser voltar para cá. Repito a todos, à luz do ressurgimento de Voldemort, seremos tão fortes quanto formos unidos e tão fracos quanto formos desunidos.
“O talento de Lord Voldemort para disseminar a desarmonia e a inimizade é muito grande. Só podemos enfrenta-lo mostrando uma ligação igualmente forte de amizade e confiança. As diferenças de costumes e língua não significam nada se os nossos objetivos forem os mesmos e os nossos corações forem receptivos.
“Creio –e nunca tive tanta esperança de estar enganado –que estamos diante de tempos negros e difíceis. Alguns de vocês, neste salão, já sofreram diretamente nas mãos de Lord Voldemort. As famílias de muitos já foram despedaçadas. Há apenas uma semana, um aluno foi levado de nosso meio.
“Lembrem-se de Cedrico Diggory. Lembrem-se, se chegar a hora de terem de escolher entre o que é certo e o que é fácil, lembrem-se do que aconteceu com um rapaz que era bom, generoso e corajoso, porque ele cruzou o caminho de Lord Voldemort. Lembrem-se de Cedrico Diggory.”
“I don’t want them to know the way I loved you
I don’t think they’d understand it, no”
Seu malão estava pronto; Gargamel, seguro em seus braços. No fundo de seu malão, havia achado a figurinha de Morgana, com as iniciais “C.D.” O colocara no bolso para dar boa sorte na volta como a dera na ida para Hogwarts no começo daquele ano letivo. Fazia um belo dia de verão e, pela última vez, Cordélia e seus colegas faziam o caminho das masmorras para o saguão de entrada, onde pegariam os barquinhos de volta para Hogsmead, enquanto o restante voltaria de carruagem. O saguão estava lotado de alunos e malas –barulho sem fim. Fleur acabara de se despedir de Harry Potter e vinha em sua direção com determinação.
—Vô vir morrarr am Londrrres no prrróximo ano se cons’guirrr am ‘stágio no Grrringots. –Ela disse. –Deveme nous ver, oui? Podeme dividir am apartamant!
Claire e Marlon também apareceram para se despedirem. Claire e Edmund passaram um longo momento trocando endereços para mandarem corujas e o amigo pareceu incrivelmente corado quando a francesa o deu um beijo bem na boca antes de virar as costas e dar tchauzinho para Mary e Cordélia. Marlon a segurou em seus braços um longo tempo em um abraço apertado e Cordélia soube que, independentemente do quão afastados tivessem sido naquele ano, tudo estava perdoado e eles se entendiam.
Krum apareceu logo depois, acompanhado de Ivan e Keira. Ele tinha um papel nas mãos e deixou que Cordélia o pegasse, um pouco lisonjeada; era seu endereço, para que ela o escrevesse. Ela iria escrever, notou com surpresa para si mesma.
—Eu gostava de Diggory. –Ele a disse. Como sempre acontecia quando era pegada fora de guarda, Cordélia sentiu o ar sendo tomado de seus pulmões. –Erra semprre educado comigo, Semprre. Mesmo eu sendo de Durmstrrrang. –Então ele balançou a cabeça. –De qualquer forme, estou pensando em deixarr o quadrrribol e me inscrever parrra pocionista. Devemos nos ver prrrócimo ano.
Acenando em concordância, Cordélia se despediu de Krum com um abraço apertado e deixou que ele fosse me direção ao barco, onde Ivan e Hugh trocavam uma despedida discreta, mas muito amorosa, com um longo abraço, acenando para os outros dois alunos de Durmstrang –Keira a dera também um abraço, o que a surpreendeu bastante vindo da norueguesa –então pediu um segundo para os amigos e se aproximou de Harry Potter, sempre ladeado por Rony e Hermione.
—Potter! –Chamou, ao que o garoto virou parecendo muitíssimo desconfiado. –Dumbledore tem razão, sabe? Você foi mesmo muito corajoso. Não acho que o tenha agradecido por trazer o corpo dele de volta. –Então, pela primeira vez no mês, Cordélia foi capaz de dar um sorriso. –Tenho a sensação de que nos veremos de novo.
Se despediu dos mais novos com um aceno e se juntou aos amigos. À beira do lago, no exato lugar onde ela e Cedrico costumavam se encontrar, Cordélia tomou um barco, acompanhada por Edmundo, Mary, Lana, Hugh e Susana. Assim, eles fizeram o caminho de volta para o começo, com um sentimento sublime no peito enquanto observavam o castelo se distanciar deles; o céu límpido, azul e claro atrás das torres altas contrastando com o aguaceiro do primeiro de setembro, como se até o tempo os quisesse dar uma despedida digna.
Naquele momento, Cordélia viu o futuro mais claramente do que a professora de adivinhação da escola jamais havia visto. Um dia, não no futuro próximo, mas um dia, o nome de Cedrico não faria seu coração parar e doer; não arrancaria o ar de seus pulmões. Ela não seria capaz de se lembrar do exato tom cinza de seus olhos ou do som de sua risada e ela não iria mais usar seu cachecol ou sua camisa diariamente e esses objetos seriam quase esquecidos no armário.
Ela continuaria sofrendo até lá e se agarrando às memórias, então se agarrando a dor, porque seria a única coisa que sobrara dele.
Ela sempre se lembraria de Cedrico Diggory, mas um dia ele seria uma nota de rodapé agridoce, feliz e triste, de sua vida. O seu melhor ano, a sua pior memória. Suas lembranças felizes estariam para sempre manchadas de perda, mas um dia, talvez, fosse deixar de doer.
Mas ainda não.
“I loved, and I loved and I lost you
And it hurts like hell”
(Continua…)
Spin-Off: 3 Atos Para Continuar
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