Notas iniciais
Como prometido, aqui está o próximo. Esse é um capítulo de transição e estamos cada vez mais nos aproximando da reta final da fanfic! Estou um pouco ansiosa para o final, admito. Boa leitura para vocês, nos vemos nas notas finais.

"But it was not your fault but mine
And it was your heart on the line
I really fucked it up this time
Didn't I, my dear?"

De volta ao dormitório da Sonserina, Cordélia estava trancada no banheiro do dormitório: ladrilhos verdes, uma banheira pequena afundada no chão, as bordas cheias de poções para cabelos, hidratantes mágicos para a pele, esfoliantes mágicos com cheiros especiais e sabonetes que faziam bolhas coloridas, um grande espelho que aprovava suas roupas em voz alta quando elas paravam para checar o reflexo e uma pia simples. Havia tomado um banho para se livrar do cheiro de lago que se impregnara em sua pele e cabelos e agora enxaguava a boca com uma poção para limpar os dentes antes de se deitar, quando, com seu costumeiro despeito pelas regras de privacidade, Mary entrou no banheiro sem bater e a procurou com os olhos.

—Você tem Poção Para Dor? –A amiga encostou o quadril no batente da porta. –Minha cabeça está doendo.

Cordélia a olhou pelo reflexo do espelho em cima da pia, onde havia uma cobra de metal entalhada na torneira, com aborrecimento. Já havia insinuado que a amiga devia fazer um estoque de poções necessárias (cólicas, dor, poção para adormecer, para tosse) antes de começar o ano letivo, mas há sete anos era ignorada.

—No meu armário. –Então fez um gesto para que Mary a deixasse sozinha.

Depois de cuspir a poção de volta na pia –ela saiu verde de sua boca, o que significava que seus dentes e gengivas estavam saudáveis –e enxugar a boca, Cordélia despiu-se de seu roupão para colocar uma camisola de seda verde-escura na altura do joelho, antes de voltar para dentro do dormitório.

Ao voltar ao dormitório, em direção à cama de dossel mais perto da janela por onde entrava uma difusa luz esverdeada, com visão para o lago, e Gargamel em cima dos lençóis verdes como um rei em seu trono, Cordélia encontrou seu caminho bloqueado por Mary, de braços cruzados e sobrancelhas levantadas. Em uma de suas mãos, estava um pequeno frasco vazio de Poção para Dor, na outra, um frasco cheio de Poção Contraceptiva.

—Quando você pretendia contar? –A amiga perguntou, soando magoada.

Lana, atrás dela, também a deu um olhar com seus grandes olhos castanho-claros, enrolando os cabelos dourado num dedo com tristeza. Mesmo seu gato passou a prestar atenção na conversa e seu olhar era o mais julgador de todos.

A sonserina abriu e fechou a boca, diante do questionamento. Não vinha escondendo de propósito. Na verdade, elas vinham estando simplesmente muito ocupadas para ter aquele tipo de conversa nos últimos tempos. Mary, com Susan. Lana ela mal via ultimamente, desde que a amiga vinha andando muito com Peter e Warrington e a própria Cordélia estava sempre com Cedrico.

—Eu contei a você quando aconteceu comigo. –Lana fez beicinho.

Cordélia levantou as mãos em rendição.

—Eu não tive uma boa experiência com a primeira pessoa que soube. –Admitiu. –Depois disso, acho que só não pensei em contar a mais ninguém. Mas eu devia, desculpem-me. Fui uma péssima amiga.

Os olhos de Mary haviam crescido ao dobro do seu tamanho, muita área de seu globo exposta para ser confortável.

—Você contou a outra pessoa antes de nós? –Sua voz aumentou em uma oitava em volume. –Se foi Fleur e Claire...

—Com quem você acha que eu consegui essa poção? –Cordélia se apressou a interromper antes que a imaginação de Mary fosse muito longe.

As duas amigas passaram um segundo de silêncio considerando a questão antes de abrirem grandes sorrisos divertidos e soltarem risadinhas um tanto debochadas.

—Oh, Merlim, por que você não pediu a Cedrico para conseguir isso? –Lana a empurrou para a cama, afastando Gargamel, que pulou da cama com um miado indignado, sentando-se ao seu lado enquanto Mary conseguia um lugar com o travesseiro no colo. –Peter sempre pediu a nossa no meu lugar.

Cordélia tomou do colo de Mary o seu travesseiro e afundou o rosto dele, se encolhendo como uma bola, enquanto Lana a dava tapinhas amigáveis nas costas.

—Eu pensei que podia conseguir com a Madame Pomfrey. –Disse, a voz saindo abafada pelo travesseiro fofo. –E então, quando descobri que não, já estava muito em cima da hora e eu tive que conseguir logo, não tinha tempo de pedir a Cedrico, que pedisse à professora Sprout e então me desse...

—Como ele reagiu? –Lana colocou o queixo nas mãos, como uma criança pronta para ouvir uma história.

—Acho que ele preferia dar aula vestido de rosa pink. –Cordélia fez uma careta infeliz.

Seus planos de dormir cedo foram por água abaixo naquela noite. As duas meninas fizeram questão que Cordélia contasse a elas, com todos os detalhes sórdidos, sobre sua experiência no banheiro dos monitores. Elas eram boas ouvintes: Mary comparava com sua experiência com Susana, com outra garota, e Lana reclamou em voz alta da injustiça que era o banheiro dos monitores ser tão restrito quando era tão incrível –ela e Peter tinham sempre que se esgueirarem para sala de aulas vazias ou torcerem para encontrar o dormitório vazio. Cordélia se sentiu muito feliz em ter amigas como elas.

Nas semanas seguintes, Cordélia nunca fora tão popular. Mesmo como namorada de Cedrico, um dos campeões de Hogwarts, seus colegas no geral preferiam manter distância dela. Isso jamais a incomodara; não fazia questão de ter um bocado de meninas mais novas interrompendo os momentos entre ela, Cedrico e seus amigos. Agora, seus colegas, de todas as Casas, a paravam no corredor e depois das aulas para perguntarem como fora ficar refém no lago. Mas depois de uma ou duas semanas recebendo as mesmas respostas, logo decidiram que a versão de Weasley, que começara a incluir uma luta com sereianos, era mais interessante.

Era um dia ainda frio de março quando Cordélia estava dentro do castelo, sentada no parapeito de uma janela com vista para os jardins depois do almoço, revisando a matéria de Transfiguração para não fazer um trabalho terrível na aula mais tarde, quando Cedrico entrou no corredor em forma de arco, as mãos nos bolsos, um sorriso despreocupado no rosto, na companhia de Cho Chang, carregando duas mochilas sobre os ombros; a dela e a sua.

Uma surpreendente massa quente de raiva surgiu em seu estômago, ameaçando subir pela sua garganta sem que Cordélia esperasse. Eles ainda não a tinham visto, mas uma rápida análise ao redor a fez perceber que não havia modo de escapar sem que eles a vissem: o corredor estava vazio e cruzava com outro corredor apenas a uns bons três metros de distância, que ela não poderia transpassar discretamente.

Também não havia um modo de ela fingir que não os vira, a não ser que fingisse ser muito sonsa e a imagem de sonsa não combinava com ela. Percebendo-se encurralada, a sonserina suspirou e se virou, jogando as pernas para fora da janela, o que chamou a atenção dos outros dois imediatamente.

—‘Délia! –Cedrico disse, despretensioso, sem se apressar, apenas andando até que ele e Chang estivessem parados ao lado dela. –Você conhece Cho.

O olhar no rosto da corvinal era mais inteligente e perceptivo.

—Olá, Chang. –Cordélia respondeu seca, ao que a menina sorriu, pegou sua mochila com Cedrico e se apressou pelo corredor para longe dos dois com um aceno amigável.

O namorado sorria absolutamente tranquilo. Cordélia sabia perfeitamente que estava sendo irracional; ela sentia como se assistisse seus atos de longe, incapaz de aprova-los ou de pará-los. Esperou até que a outra menina dobrasse na esquina do corredor em direção a alguma aula para levantar as sobrancelhas para Diggory com cinismo.

—Não sabia que vocês eram amigos. –Ela podia sentir o quão mesquinha era a frase e ainda assim não fez nada para evitar dizê-la.

As sobrancelhas cheias de Cedrico se uniram no centro de sua testa.

—Somos amigos.

—Não vi vocês sendo muito amigos nesses últimos tempos.

—Eu tenho estado ocupado. –Ele deu de ombros. –Com o Torneio, com você... e ela também. É ano de NOM’s.

Cordélia poderia ter perdoado a si mesma mais tarde se tivesse aceitado aquela explicação e seguido em frente. Porém, era ruim o suficiente que toda a escola gostasse de Cedrico, enquanto dela, nem tanto. Desconfiava de que, se eles terminassem, Cedrico seguiria com o apoio de seu grande séquito de amigos e admiradoras enquanto ela passaria o resto do ano se escondendo no salão comunal da Sonserina, evitando o lago, a biblioteca, até o banheiro dos monitores, desconfiada mesmo de seus amigos, que gostavam tanto do lufano.

—Não mais, eu vejo. –Ela continuou, venenosa. Então pulou de seu lugar na janela para seguir andando no corredor. Já que parecia incapaz de parar de falar besteiras, decidira sair andando para longe da discussão antes que se arrependesse.

Ele se pôs em seu caminho imediatamente. Parecia incapaz de perceber o duelo que Cordélia travava consigo mesma; que corria de si e de suas próprias escolhas equivocadas, não dele.

—Isso é sobre termos namorado ano passado? –Ele perguntou, astuto. –Porque... isso foi ano passado.

—Quando você a chamou para Hogsmead. –Cordélia apontou. –E não a mim, embora eu estivesse disponível.

Incrédulo, ele deu um passo para trás, bufando.

—Não tinha percebido que você se importava com amizade com ex-namoradas. –A voz dele agora era bastante seca. –Já que ainda é amiga dos seus.

—Davies? –Ela perguntou confusa. –Não sou amiga de Davies.

—Marlon Beauvale diz algo a você? –Ele sorriu, talvez um pouco cínico. Era um sorriso que havia aprendido com ela, podia dizer, porque era muito familiar, mas ele não escondia a mágoa tão bem quanto Cordélia, então o efeito era diminuído. –E você nunca nem me contou. Fleur contou.

Cordélia abriu e fechou a boca sem resposta. Não achava que Fleur havia feito de propósito; ela simplesmente não tinha filtro. Também provavelmente não sabia que Cordélia nunca havia falado para Cedrico sobre ela a Marlon, mas desde que a francesa contara, ele parecera tranquilo com a informação. Cedrico havia cruzado os braços e levantado as sobrancelhas, quase sorrindo. Parecia achar que ela cederia e as coisas voltariam ao normal agora que estavam quites. Talvez ele não conhecesse Cordélia tão bem assim ainda.

A sonserina o lançou um olhar muito frio e saiu andando, sem responder. Ele não a seguiu dessa vez.

Ele não a procurou o resto do dia tampouco. Era uma coisa boa que não tivessem aulas juntos mais naquela tarde, porque assim ela não cedia à tentação ir atrás dele. Porém, no dia seguinte, ele seguiu sem procurar por ela. Não a ignorava, exatamente. Acenou para ela quando se encontraram em poções, mas fez dupla com Hugh, enquanto ela se virava com Lana. No tempo livre que tinham depois das aulas, deixou que ela saísse com seus amigos sem protestos. Mary e Edmundo pareciam muito interessados no que havia acontecido, mas Cordélia era muito orgulhosa para contar e deixar que eles apontassem o seu erro, então apenas seguiu construindo torres de kransekake improvisadas durante as refeições, até o ponto que chamara a atenção de sua irmã mais nova o suficiente para a fazer criar coragem e andar até a mesa das serpentes.

—O que está errado? –Lucy se sentou ao lado dela num dia frio, durante o café, observando enquanto ela diminuía uma rosquinha com um feitiço para deixá-la em cima da torre.

Cordélia olhou ao redor para ver se algum de seus amigos estava por perto. Quando confirmou que não, voltou-se à irmã.

—Briguei com Diggory.

—O que você fez? –Cordélia a lançou um olhar magoado diante da insinuação, mas não havia como negar que a irmã estava certa. –Apenas converse com ele. Você nunca vai atrás da mamãe quando brigam e é por isso que nunca se falam. –Disse a pequena corvina e saiu antes que algum sonserino desconfiado a azarasse dali.

Cordélia fez uma careta para as costas da caçula. Achava que ela era muito pequena para ser tão mandona.

Cedrico, que havia sido deixado em paz depois que o frisson das suas primeiras tarefas passara, voltou a ser assediado assim que as garotas de Hogwarts notaram a sua distância da namorada. A única coisa boa foi Cordélia notar que seus amigos sonserinos tomaram seu lado lealmente; mesmo Mary não passava mais tanto tempo com Susana para apoiar Cordélia.

Ela sequer sabia se eles haviam terminado. Essa era a pior parte; o que era suposta a fazer? Seguir em frente ou esperar que a poeira baixasse? E então o quê? Ele a procuraria? Ela era muito orgulhosa para ir atrás dele a essa altura.

Uma semana se passou nesse ritmo. Vinha estudando com Krum na biblioteca, e nos primeiros dias esperava que Cedrico a fosse procurar lá, mas agora nem levantava a cabeça esperançosa quando alguém chegava em sua seção. Quando não estava na biblioteca ou com os amigos, trancava-se no laboratório de Poções, onde seu padrinho não fazia perguntas ou comentários sobre suas horas-extras. Não era uma coisa completamente ruim. A maioria de seus colegas parecia exausto com a aproximação dos NIEM’s, mas ela, que agora, sem os treinos e sessões de amassos, tinha muito tempo livre, estava descansada e bem-dormida.

Numa tarde, estava indo ao corujal da escola pelo corredor do quarto andar para mandar uma carta aos seus pais, subindo as escadas em espirais com um grande cachecol da Sonserina ao redor do pescoço e a capa com o brasão da serpente ao redor dos ombros. Embora a neve houvesse derretido, o frio não dava nem um sinal de que ia embora em qualquer momento próximo; dali de cima, ela podia ver o salgueiro lutador, ainda completamente sem folhas, o céu cinza sobre o Lago Negro, onde ela havia estado submersa não muito tempo atrás, e as estufas com os vidros embaçados por causa da diferença de temperatura dentro e fora.

O corujal não era o lugar mais limpo da escola; o chão tinha palha e excrementos, que o zelador limpava diariamente, mas que se acumulavam ao longo da noite, deixando o lugar malcheiroso e manchado. Era uma sala circular, com uma janela sem vidro com vista para o pátio e vários poleiros onde corujas de diferentes tamanhos e cores se amontoavam, as cabeças baixas no sono restaurador após provavelmente terem pego algum roedor incauto pelo castelo na noite anterior.

Cordélia estava escolhendo uma das corujas do castelo para pegar emprestada, quando vozes familiares foram ouvidas das escadas em espiral. Desistindo de acordar um grande espécime de coruja das montanhas, a sonserina se virou para os recém-chegados.

Primeiro ela reconheceu um cachecol da Lufa-Lufa e outro da Corvinal, ambos bem enrolados ao redor dos pescoços dos alunos que os usavam, antes de assimilar a diferença de tamanho entre os dois e reconhecer seu namorado e sua irmã, subindo à torre, cada um com suas cartas na mão, rindo e balançando a cabeça em concordância.

Ambos pararam de supetão quando colocaram os olhos nela; os olhos cinzentos de Cedrico eram ilegíveis, mas os grandes olhos azuis de Lucy se desviaram logo para longe, em culpa. Cordélia estreitou os próprios olhos para ela com acusação.

Cedrico pigarreou depois de um momento.

—Oh, olá. –Ele disse como que distraído.

A sonserina fez um aceno de cabeça em sua direção e esperou que a irmã entrasse na sala circular, os pés se arrastando no chão sujo como se ela estivesse considerando dar meia-volta.

—Você vai mandar carta para o papai? –Perguntou a caçula, fazendo um esforço para que sua voz saísse normal. –Use minha coruja, estou mandando carta para eles também.

Enquanto a caçula tomava dela a carta que vinha tentando amarrar a uma coruja das escolas e se virava para a sua própria coruja-das-torres, um exemplar branco e caramelo de nome Cocoon e extremamente simpático e de sentimentos simples, Cordélia ficou imaginando o cenário de colocar sua irmã contra a parede assim que Cedrico saísse dali, as deixando sozinha. Ao invés disso, quando a irmã se virou para ela, a boca se abrindo para pedir desculpas, a mais velha sorriu grandemente.

—Obrigada. –Apontou a coruja das torres que já alçava voo no céu cinza, na direção Norte. Seu tom foi tão alegre que Cedrico, que pegava a própria coruja, um exemplar grande das montanhas, se virou curioso, os olhos traindo uma mágoa, como se ele esperasse que ela estivesse prestes a pedi-lo desculpas e houvesse perdido as esperanças. –Bem, nos vemos por aí.

Cordélia fez um aceno vago para ambos e deu meia volta, a capa rodopiando ao redor do corpo, voltando-se para a escada com alguma pressa e sumindo no corredor do quarto andar antes mesmo que os dois descessem, encontrando Lana no caminho para o salão comunal da Sonserina e carregando a amiga consigo.

De longe, o pior dia foi quando o professor Snape decidiu levar para sua aula aquelas poções que o mundo bruxo considerava algumas das mais perigosas. O Elixir da Honra, apesar do nome, fazia as pessoas reviverem todos os seus erros e arrependimentos. Era a versão mental de uma cruciatus, explicou seu padrinho para a turma, trazendo à tona todas as dores mentais de seu passado, e uma Magia Antiga perigosa, cujo preparo Cordélia conhecia bem. Também lá estava a Felix Felicis, ou Sorte Líquida, perigosa por ser viciante. Alguns venenos foram apresentados, inclusive o Veneno Luciferino, que fez Snape acenar para ela, ao trazer sua versão modificada.

—A Srta. Bloxam aqui, sua colega, esteve trabalhando no laboratório nos últimos meses para fazer desse perigoso veneno ainda mais perigoso. –Anunciou o professor para toda a turma. –O trabalho dela consistia em tirar algumas das características que denunciariam o veneno a uma vítima em potencial; como o cheiro característico de enxofre que dá nome à poção e o tom vermelho intenso que vocês veem aqui.

—Me lembre de nunca beber nada preparado por você. –Mary se inclinou para falar em sua orelha. Susana as lançou um tipo de olhar do lado de Cedrico.

Quando passou para a próxima poção, Cordélia a reconheceu imediatamente. Tinha uma superfície branco-perolada e espirais específicas se desprendiam do líquido. Nunca havia se dado de cara com uma Amortentia pessoalmente e se viu inclinando-se à frente com curiosidade.

O cheiro a atingiu como um soco.

Era incrível que pudesse separar todos individualmente. Em teoria, deviam se misturar e criar algo estranho. Na prática, seu cérebro os separava. Havia o cheiro da brisa marítima que entrava em seu quarto virado para o mar em casa; que era familiar desde seu nascimento. Também havia o cheiro de panquecas ainda quentes com mel e as peônias de seu dormitório em Beauxbatons. Por último, tinha cheiro de lavanda e sabonete de limão; ambos cheiros que ela podia encontrar ali mesmo naquela masmorra, se houvesse se sentado ao lado de Cedrico, perto de sua pele e de seu suéter amarelo da Lufa-Lufa.

Olhou para ele de lado, de forma que pensava ser discreta. A maioria de seus colegas estava muito inebriado para prestar atenção nela, então se aproveitou disso. Cedrico, porém, tinha as sobrancelhas franzidas e observava as espirais da poção como se elas o ofendessem pessoalmente. Quando virou os olhos cinzentos para ela, Cordélia virou a cabeça de volta para as poções, pegando sua pena para anotar as características, fingindo que ele não a flagrara encarando.

Ele não a procurou no fim daquela aula, porém ela encontrou outra pessoa no caminho para a aula de Transfiguração.

Cho Chang estava placidamente encostada sozinha numa parede no corredor da sala e Cordélia tinha toda a intenção de passar fingindo não a ter notado, mas a garota corvina se destacou de onde estava e aproximou-se do grupo em que ela estava, com Mary e Edmundo e pediu um momento para falar. Cordélia disse aos amigos que fossem na frente a ficou no corredor, onde apertou as mãos uma contra a outra desconfortavelmente.

—O que posso fazer por você, Chang? –Perguntou casual.

—Olha, Bloxam, naquele dia.... Não há nada entre mim e Cedrico, nem um flerte. Nem eu, nem ele, gostaria disso. Ele anda bastante chateado ultimamente, desde que você anda distante.

Cordélia teve uma visão de suas sobrancelhas franzidas na última aula de Poções.

—Não é o que você está pensando. –Garantiu à outra garota. –Não é sobre você.

—Você tem que dizer a ele sobre o que é. –Cho insistiu. –É ele que quer saber o que está acontecendo.

Surpreendentemente, Cordélia achou que ela estava sendo intrometida, mas também achou que não o fazia por mal. Percebeu que a garota era amiga de Cedrico. Ela faria o mesmo por Edmundo, por exemplo. Agradeceu à corvina pelo conselho e correu à aula antes que perdesse pontos pela sua casa, mas ainda sem saber o que faria.

O próximo da lista a abordá-la foi Hugh.

—Somos todos amigos. –Apontou o lufano enquanto eles saíam de uma aula de Herbologia. –E sua briga com Cedrico está distorcendo o grupo. Você está sempre com Mary e Krum, então Mary nunca fica com Susana, o que a chateia. E Ivan está sempre com Krum e com você, não comigo. Eu gostaria de passar mais tempo com ele agora que estamos juntos, então seja boazinha e fale com Cedrico.

Edmundo era uma de suas companhias mais constantes, especialmente depois que ela insistiu com Mary para que a amiga passasse mais tempo com Susana. Como Claire passava o dia estudando na carruagem de Beauxbatons, o amigo sonserino tinha muito tempo livre para matar a fazendo companhia; Cordélia tinha a impressão de que, como ela, ele não tinha muita paciência com as brincadeiras de Peter e Cassius.

Numa terça-feira, ela e Edmundo estavam caminhando para o salão principal, depois de uma tarde tendo aula de História da Magia, e discutindo a morte do professor fantasma; Edmundo falava enquanto Cordélia jogava a cabeça para trás e ria, lágrimas se acumulando em seus olhos:

—Eu estou te dizendo. –Ele insistia. –Ele teve um ataque cardíaco quando Juliana Shafiq levantou a blusa e mostrou a ele os peitos.

Cordélia passou a mão pelo rosto para afastar as lágrimas.

—Ei, essa não é a mãe daquele garoto quartanista?

—Dizem que ela matou sete maridos pelas suas heranças. –Edmundo confidenciou, com um ar de riso.

Balançando a cabeça, a sonserina abriu um largo sorriso.

—Quem me dera ser assim tão bonita.

—Ou convincente.

—Ou talentosa em Poções do Amor.

Os dois amigos compartilharam mais uma risada, mas pararam na porta do salão principal, os rostos já sendo iluminados pelas velas lá dentro e o barulho de conversas chegando a eles, ao darem de cara com Cedrico Diggory e Gregor Abbott saindo da área de jantar. Gregor estava falando, e Cedrico tinha um sorriso discreto nos lábios, mas estava distraído, os olhos no chão. Quando pousou o olhar em Cordélia, ele também parou de supetão e o sorriso largo que ela tinha aberto escorregou do rosto.

—E aí? –Edmundo cumprimentou, tranquilo.

—Ei, olá! –Cedrico respondeu, com a cabeça inclinada na direção do sonserino, mas sem tirar os olhos cinzentos da namorada.

—Ah, cara, você fez o trabalho de Defesa Contra as Artes das Trevas? –Gregor se inclinou para Edmundo, balançando a cabeça como se só agora o assunto houvesse ocorrido a ele. –Não consegui achar o livro indicado na biblioteca.

—Isso é porque todo mundo correu para pegar o seu antes que todos os exemplares se acabassem. –Cedrico apontou, ainda encarando Cordélia, que o encarava de volta, as bochechas ficando vermelhas quando ela se lembrava de seu comportamento questionável. O olhar dele, entretanto, era um tanto ilegível.

Edmundo, ao seu lado, tirou a mochila de cima dos ombros e começou a futucar lá dentro até achar um exemplar gasto de Ascenção e Queda das Artes das Trevas para entregar ao colega, com uma sugestão das páginas e capítulos mais úteis.

—A parte sobre Maledictus é realmente interessante. –Cedrico finalmente desviou o olhar dela ao dizer isso. –Terrível, mas interessante. São muito raros e poucos bruxos conseguem lançar maldições de sangue.

—Aposto em alguém que poderia. –Edmundo a lançou um olhar de lado.

Depois disso, o sonserino acenou para os dois lufanos e colocou um braço pelas costas da amiga, guiando-a, sob o olhar consternado de Cedrico, para a mesa de sua casa. Edmundo a guiou para o exato lugar da mesa onde estavam as rosquinhas e Cordélia deu um largo sorriso cheio de covinhas bem na cara dele, antes de separar algumas delas para fazer uma torre de kransekake.

Logo após o jantar, Cordélia notou Marlon na mesa da Corvinal a encarando. Quando ela o olhou de volta, ele fez um aceno para que ela o seguisse para fora do salão. Cordélia hesitou; Marlon não vinha sendo exatamente presente nas últimas semanas e, desde que a briga dela com Cedrico tivera o nome dele citado, talvez se aproximar naquele momento não fosse a melhor pedida. Ainda assim, quando ele se levantou, olhando para trás para ver se ela o seguia, ela deu uma desculpa para Edmundo ao seu lado e saiu da mesa da Sonserina para o saguão.

Marlon a esperava nas escadas de pedra, com as mãos afundadas no bolso da calça de algodão azul-caneta do uniforme de Beauxbatons. Cordélia desceu as escadas devagar, olhando bem o rosto dele.

—Oi. –Disse, surpreendentemente tímida. Os dois se olharam por um segundo e riram da própria estranheza. –Quero dizer; ei, faz tempo que não conversamos.

—Faz, não é? –Ele começou a andar para os jardins escuros, fazendo um gesto para que ela o seguisse, ao que Cordélia respondeu se emparelhando com ele. –Como você está?

—Bem. –Mentiu, sem titubear. –E você? Como vai com Jones?

Jones era, é claro, Amy Jones, a garota da Corvinal com quem ele vinha saindo desde o baile. Como Cordélia, Jones havia estudado já em outra escola de magia, no caso, Ilvermorny, porque era americana e seus pais haviam se mudado para a Inglaterra há apenas alguns anos. Cordélia não a conhecia bem, mas ouvira dizer que ela era realmente muito inteligente, embora, por ser americana, sempre tivesse seus hábitos como alvo de risos.

—Estamos bem. –Ele disse, parando no caminho de pedra entre o castelo e a floresta proibida, onde a carruagem de Beauxbatons estava parada à orla. Cordélia estreitou os olhos para a resposta; como ela era antes de Cedrico, Marlon não costumava levar seus relacionamentos muito a sério.

—Você a leva a sério? –Perguntou com ironia, imitando as palavras que ele havia usado quando a questionara sobre Cedrico na primeira semana dele no castelo.

Ele riu, balançando a cabeça, sabendo que merecia a provocação. Quando levantou os olhos azuis para ela, a encarou por um segundo, então levantou a mão e tirou uma mecha de cabelo do seu rosto com naturalidade, como sem nem houvesse pensado nisso. Cordélia se sentiu tensa, mas, logo depois, pensou que eles já haviam dormido no mesmo dormitório; ele no sofá aos pés de sua cama, então talvez não houvesse nada demais que ele a tocasse daquela forma um tanto íntima.

—Claire me contou sobre você e Diggory. –Ele disse, finalmente, colocando as mãos de volta no bolso e olhando o rosto dela com cuidado. –Lembra nas suas primeiras semanas em Beauxbatons? Eu lembro que você sentia falta de suas amigas aqui de Hogwarts. Chalotte Millefeuille achava que você era esnobe e por isso não falava conosco, mas você estava apenas triste e tímida e eu e Fleur tivemos que praticamente intimar você a sair conosco. Mas, honestamente, o quinto ano foi um dos nossos melhores anos em Beauxbatons e parte disso foi porque você estava lá.

—Você está me dizendo para falar com Cedrico. –Ela notou, com um suspiro.

Marlon sorriu, com ironia. Sua pele continuava dourada, embora eles tivessem tido longos três meses de inverno e, como ela, ele tinha covinhas na bochecha, fazendo seu sorriso ser adorável.

—Você que disse que o levava a sério. –Provocou-a. Ela sorriu, sabendo que merecia.

Estava prestes a pedir a Mary que pedisse a Susana que perguntasse a Cedrico se haviam mesmo terminado quando, numa noite de terça-feira, após fazer uma ronda no castelo –um dia tranquilo, nenhum espertinho fora da cama –encontrou o lufano bem no fim de seu turno, sozinho no saguão de Hogwarts. Como pensou que ele talvez estivesse esperando alguém –e essa ideia embrulhou seu estômago por mais de um segundo –ficou escondida nas sombras do corredor, se perguntando se valeria a pena dar a volta no castelo para voltas às masmorras pelo caminho mais longo.

A levou um momento para que se lembrasse de que era a Monitora-Chefe e devia manda-lo para a cama, porque não era a noite dele de ronda.

Ele não se virou quando ela saiu no saguão, embora seus passos ecoassem no lugar vazio, o som batendo no teto alto e voltando abafado pelas gotas de chuva. Chovia torrencialmente do lado de fora, um aguaceiro que deixava o céu num tom fosco e encobria as estrelas. Cordélia se aproximou decidida, pigarreando para fazer sua voz soar normal, não magoada.

—Diggory, há um motivo para estar fora da cama fora de hora? –Chamou sua atenção. Ele ainda não se virou. –Porque, se não, vou ter de notificar à Professora Sprout.

—Está falando comigo, então? –Ele perguntou, os olhos ainda na chuva lá fora, apenas um movimento de cabeça em sua direção indicando que falava com ela. Não parecia surpreso por ter sido ela a pegá-lo, mas então ele tinha acesso aos horários de rondas e sabia que aquele era o horário da sonserina.

Cordélia decidiu que não poderia ter um diálogo com a sua nuca, então andou para mais perto, colocando-se ao seu lado, mas sem se sentar nos degraus de pedra.

—Não. –Cordélia respondeu, tentando evitar um sorriso. –Estou o mandando embora antes que Filch o pegue. Ele não vai ser tão gentil.

Ele se virou para ela sem parecer registrar a brincadeira. Seus olhos cinzas eram tão tempestuosos quanto o céu lá fora.

—Eu tive ciúmes de Marlon quando Fleur me disse que vocês namoraram. –Ele disse, a voz lenta e paciente. –Mas decidi que confiava em você e não voltei a pensar no assunto. Gostaria que você houvesse feito o mesmo por mim.

Ela assentiu.

—Eu não tive ciúmes de você com Cho. Não apenas isso. –Acrescentou quando ele pareceu incrédulo ao olhar para ela. –Tive ciúmes do quanto as pessoas gostam de você. Você nunca está sozinho! É tão difícil encontrar você sozinho para fazermos algo. Já eu... eu fiquei muito só nessa semana sem você.

O olhar que ele a deu era pensativo e ele suspirou pesadamente, balançando a cabeça como se ela fosse inacreditável.

—Estou sozinho agora. –Disse após alguns minutos de silêncio. Seus olhos estavam um pouco cerrados e ele parecia muito intenso. –O que quer fazer?

Naquela noite, eles sobrevoaram o castelo na vassoura dele, não por ideia sua. Cedrico a levara para o campo de quadribol, onde levantara as sobrancelhas para ela; “Onde está a sua coragem?”, perguntara. E ela subira na vassoura ao ter seu orgulho questionado. Pingos gelados de chuva entravam em suas vestes, mas eles se encontravam numa bolha de calor confortável. Ele colocou as roupas de quadribol no vestiário e ela teve que aceitar sua capa de quadribol preta e amarela com várias reclamações. O castelo era ainda maior de cima, quando eles passavam torre após torre debaixo da chuva e, quando pousaram no campo de quadribol, Cordélia se deixou cair na grama com as pernas bambas do voo.

—Nunca mais. –Ela afirmou depois de cair de bunda no gramado. Era bem a décima vez que ela dizia aquilo; eles sempre voavam e ela sempre se arrependia, mas, quando ele sugeria mais uma vez, ela sempre aceitava.

Cedrico riu dela, mas a sonserina não se importou, e deixou que ele deitasse ao seu lado, logo rolando com seu peso e calor para cima dela, a protegendo da chuva enquanto beijava seu pescoço e colo, deixando um rastro quente em sua pele. Então ele se apoiou, ainda meio por cima dela, sobre um braço, distanciando-se para olhar em seu rosto.

—Sabe qual o cheiro da minha Amortentia? –Ele perguntou, o hálito dele contra sua pele.

Ela não tinha certeza de que queria saber. Lembrava-se bem do franzido de suas sobrancelhas e da expressão ofendida em seu rosto. Mas ele não deixou que ela negasse.

—Tinha cheiro de brisa marítima. Sabia que você tem esse cheiro? Sempre achei engraçado, levando em conta o quanto Hogwarts é longe do mar. –Ele comentou, pegando uma das mexas úmidas de seu cabelo castanho e cheirando, entretido. –Brisa marítima e flores silvestres.

—Você não parecia feliz. –Cordélia testou, olhando bem a reação no rosto dele. Ele parecia apenas curioso. –Lá na aula de poções.

—Bem, claro que não. –Ele respondeu. –Estava preocupado que você não fosse mais olhar na minha cara.

Ele a beijou novamente, dessa vez mordendo de forma suave seu lábio inferior e sugando, enquanto se movia com o corpo pesado para cima dela. Cordélia estava com as pernas já moles naquele momento, mas fez um esforço para passa-las ao redor da cintura dele, enganchando seus tornozelos um no outro para prendê-lo junto a ela, entre suas pernas.

—O campo de quadribol é um pouco público. –Ele murmurou contra a pele sensível do seu pescoço, mas deslizou as mãos para dentro de sua camisa mesmo assim e se movimentou de forma que ela sentia bem todo o corpo dele contra o seu.

—Eu sou monitora. –Cordélia murmurou, já além de qualquer pensamento sensato, como a preocupação em ser pega naquela situação constrangedora.

—Praticamente Merlim, não é? –Ele se afastou dela com um riso que era um pouco um suspiro, ambos a contragosto.

Ele estendeu uma mão para que ela se levantasse e os dois, ensopados e felizes, fizeram seu caminho de volta para o castelo trocando beijos enquanto ele a empurrava contra as paredes de pedra dos corredores até as masmorras, onde Cedrico a deixou, se despedindo com um beijo em sua testa.

Seus amigos não perguntaram o que houve quando os viram juntos novamente na manhã seguinte, mas Mary e Susana pareceram inegavelmente satisfeitas com o andar das coisas, assim como Ivan e Hugh, uma vez que eles andavam todos juntos novamente.

Notas finais
Que tal o capítulo? Cordélia exagerou ou agiu como uma garota de dezessete anos normal? Os motivos dela são válidos? Que tal a vida dela sem Ced? Nos vemos semana que vem! XOXO