Lembre: Nada É Verdade.
10 Leandros
Notas iniciais
A manifestação, outrora pacífica, agora estava uma confusão. A barricada improvisada não adiantaria de nada se a Tropa de Choque resolvesse avançar. Muitas pessoas estavam passando mal, reclamavam de formigamento na pele e falta de ar. O frasco com a mistura de antiácido e água já estava no fim e as máscaras cirúrgicas que Annie levara já haviam acabado.
— Annie, já são quase 3 da manhã. — Diz Connor enquanto a garota borrifa as últimas gotas da solução de antiácido em uma manifestante com asma.
— E daí?
— Daí que a gente tem que ir, porque...
— Annie! Olha só o que trouxeram. — Ezio interrompe balançando uma sacola com antiácidos.
— Ótimo!
Algumas pessoas ajudam Annie a preparar o líquido e saem para ajudar os manifestantes que estavam piores.
— Ei, menina. — Alguém chama Annie.
— Oi. — Ela sorri e estende a mão. O garoto parece surpreso com a atitude e encara a mão da garota. — Annie.
— Marcelo. — Ele parece sorrir e aperta a mão dela mais relaxado. — Acho que nós podemos nos retirar, o pessoal está exausto e passando mal. Você poderia falar isso no alto falante e anunciar a manifestação de quinta?
— Claro.
Marcelo faz sinal para um amigo que chega com um alto falante. Ezio parece desanimado com a ideia de ir embora, enquanto Connor suspira aliviado ao saber que vão se retirar.
— Pessoal! Um minuto. — Pede Annie pelo alto falante. — Vamos nos retirar agora, mas não esqueçam: quinta-feira, amanhã, às 18:30 aqui. Convidem todo mundo, tragam quem vocês conseguirem, porque essa violência não pode continuar! Poder para o povo! — Annie ergue o punho fechado, todos repetem a última frase e erguem os punhos. — E o poder do povo! — Ela faz uma pausa para todos repetirem. — Vai fazer um mundo novo!
A massa repete e começa a gritar “Amanhã vai ser maior!”. Annie deixa o local sendo aplaudida e o homem a quem havia ajudado a agradeceu calorosamente. Ezio foi logo atrás acenando para a multidão como se ele estivesse sendo aplaudido, e Connor logo atrás de cabeça baixa, ele estava contagiado com aquele otimismo também, mas nunca iria admitir.
— Viu, não foi tão ruim. Certo Connor? — Fala Annie ao sentarem no ônibus e tirar a máscara.
— Nós vamos vir amanhã? — Pergunta Ezio.
— Sim.
— A menos que tenha uma missão. — Lembra Connor.
— Bee sempre libera para ir nesses atos, porque a gente tem que proteger o pessoal, não podemos deixar a polícia fazer aquilo.
— Concordo, pensei que seu ódio por esses policiais fosse exagero, mas eles realmente abusam da autoridade.
— Viu? Ezio me entende. — Annie fala em um tom implicante abraçando o italiano.
— Mas isso não vai mudar nada. — Connor fala um pouco mais alto do que queria e todos os manifestantes olham para trás com as máscaras no rosto, de modo sincronizado fazendo o mohawk se encolher no acento.
No outro dia de manhã Bee deu uma missão para os três: procurar por um garoto que estava sendo usado como mensageiro entre traficantes de diferentes vilas.
— Alguma descrição? O lugar onde ele é visto com mais frequência? — Pergunta Annie.
— Ele é pardo, cabelo black power... Não tem muito o que falar, e eu recebi informações de que ele mora na Restinga.
— Bee, uma curiosidade: por que a gente vai atrás dele?
— Porque os traficantes que ele está se comunicando são os mercenários de Leandros.
— Leandros? — Ezio praticamente grita quando escuta o nome.
— Sim, conhece?
— Impossível não conhecer. Ele era um Templário, mas cansou de ser capacho do grão-mestre e perder seus melhores homens para os Assassinos e se separou. Agora ele comenda uma guilda mercenária. Eu soube que ele tem um espião entre os Templários, então onde quando eles armam algo grande Leandros vai atrás os perseguindo como um coiote. — Explica Ezio com desprezo evidente.
— Hum, interessante... Obrigado pelas informações Auditore. Agora peguem suas lâminas e ocultas e só voltem quando pegarem o garoto.
Assim que Bee termina de falar seu celular toca. Os três Assassinos vão pegar suas lâminas no armário do escritório de Bee.
— Alô? Hulk, amigo! E aí, o que me conta? — Bee fala sorrindo girando a cadeira. — Puts... Sério?
Os três estavam se retirando da sala, mas o Mestre estalou os dedos fazendo-os parar.
— Tá. Ok, obrigado. A gente se fala outra hora. — Bee desliga e dá um longo suspiro passando a mão na cabeça.
— “Mudança de planos”. — Annie antecipa a fala de Bee o imitando.
— Exato. Connor, pode ir. Ezio e Annie, vocês vão fazer outra coisa.
Connor se retira afivelando a lâmina oculta no pulso e testando o mecanismo. Ele ficava admirando a beleza dos adornos da lâmina, o brilho fosco cativante e a ardilosa discrição do objeto. Era realmente uma bela lâmina oculta.
— Quanto a vocês dois, — Bee continua quando o mohawk sai de sua vista. — há um terreno abandonado na Lomba do Pinheiro, com uma casa antiga que está para ser demolida. Os mercenários de Leandros e os Templários vão se encontrar lá e combinar alguma coisa. Eles sabem que nós vamos nos infiltrar lá de alguma jeito, então limpem todo o perímetro para não correrem riscos. Depois que fizerem isso escutem a conversa atentamente e peguem a maleta que Leandros vai entregar. Não fiquem para lutar, fujam de lá o mais rápido possível. E não se preocupem com tiros e coisas do gênero, porque eles têm a intenção de capturá-los vivos.
— Só? — Diz Annie irônica.
— Só. Agora vão que o encontro é daqui — Ele confere o relógio. — meia hora.
Annie faz uma cara péssima e sai as pressas da sala com Ezio na sua cola.
— É muito longe?
— Vamos pegar um atalho. Preparado?
— Eu já nasci preparado. — Ezio estufa o peito e aponta para si com o polegar de olhos fechados. Annie ri e sai correndo na frente. — Ei! Isso não vale!
Os dois correm em uma velocidade que, para eles, é normal e nada cansativa. Ezio tem um pouco de dificuldade para acompanhar a garota pela mata cheia de trepadeiras espinhentas. Annie corria facilmente entre os espaços das árvores devido a seu tamanho.
— É aqui. — Ela para repentinamente colocando o braço de forma a parar Ezio.
Ele olha uma casa de tijolos a vista, o seu terreno é mais baixo que os demais e a grama molhada dificultaria uma subida rápida, mas saindo dali seria fácil despistá-los na mata densa.
— O plano é o seguinte: você fica de tocaia naquele buraco na parede que sai nessa direção e eu dou a volta. Quando ele terminarem de falar e estenderem a mão para entregar a maleta eu passo correndo e pego, eles vão me segurar com certeza, então eu vou atirar para você. — Annie não sugere, ela fala como vai ser.
— E como você pretende sair se eles te segurarem?
— Eles não vão me segurar por muito tempo, no máximo vão conseguir me atrasar. Por isso eu preciso que você fique atento quando eu lançar a maleta, e só corra, não olhe para trás. — Ezio faz uma cara de ‘ok’, confiando em Annie que aquele plano louco irá dar certo. — Eu cuido dos guardas da esquerda e você dos da direita.
— Que guardas?
— Está vendo aquele brilho lá? — Annie cola seu corpo em Ezio e aponta. — É um cano de arma.
— Que olho. — Ezio fala virando o rosto para Annie, eles ficam a centímetros um do outro. Só então a garota percebe que ele estava se referindo a cor de seus olhos, não à distância que ela enxergou o cano da arma.
— Então vamos. — Ela se levanta e deixa Ezio plantado ali, a expressão confusa do italiano revelou suas intenções. — Você não pensou que...
— Claro que não. — Ezio levanta limpando a roupa que nunca esteve suja para se distrair com algo e não ter que olhar para Annie.
Annie revira os olhos e vai ‘limpar o perímetro’, como Bee havia dito.
O primeiro alvo estava muito concentrado olhando ao redor da casa esperando a aparição dos Assassinos, e nem cogitou que eles viriam por trás. Annie o acertou entre a coluna e a nuca, com a outra mão na boca do homem sem fazer ruído algum. O segundo alvo estava concentrado, porém mais descontraído que o falecido comparsa. A Assassina se aproxima silenciosamente com a lâmina já ativada, cravando fundo nas costas do alvo, exatamente na altura do coração. Para sua surpresa só havia dois homens do seu lado.
Ela volta para o ponto de encontro para se reunir a Ezio.
— Só tinha dois no meu lado. — Diz o italiano frustrado esperando mais ação.
— No meu também. Melhor assim, eles devem ter reforçado a segurança lá dentro.
Annie e Ezio se esgueiram como sombras até suas devidas posições. O italiano não estava acostumado a esse tipo de plano, era muito arriscado. Nos Estados Unidos era tudo planejado com antecedência e sempre havia um plano B e C. Mas ele tinha de admitir que amou o jeito aventureiro da garota, ele nunca vira Annie se irritar, mesmo diante da atitude chata de Connor na manifestação do dia anterior.
Não havia muitas pessoas na casa, apenas dois homens de preto com um broche da cruz templária no terno, e outros dois segurando armas, estavam aguardando os mercenários chegarem. Ezio quase engasga quando reconhece o homem que estava com a maleta: era Adewale.
— Traidor desgraçado. — Sussurra Ezio com os dentes cerrados.
O Assassino também reconheceu Haytham, ele estava trabalhando de guarda costas com um rifle na mão.
Os carros rebaixados, com luzes led nos pneus, dos mercenários chegaram, Ezio e Annie se encolheram em seus esconderijos. Os homens passaram rindo preparando suas armas, no caso de qualquer trapassa da parte dos Templários.
— Vocês tem algum tipo de problema mental? — Perguntou um dos Templários irritado.
— Foi mal ai, chefia. — O mercenário dá um longo trago no cigarro e solta toda a fumaça no homem que acabara de reclamar. — Cadê a mercadoria?
O Templário fez um sinal com a cabeça e Adewale abriu a caixa de longe. Os Assassinos não viram o conteúdo, mas o objeto brilhou de modo cativante, parece que tudo ao redor deles escureceu, como se só houvesse a luz do objeto no mundo. Os mercenários ficaram bestificados com o poder que a 'coisa' emanava. Um deles deu um passo a frente, completamente hipnotizado.
— Só depois do serviço. — Adewale fecha a maleta, só então todos descobriram que estavam completamente obcecados pelo objeto.
— Fala ai, estou todos a ouvido. — Disse o homem procurando algo para se recostar.
— Você já está sabendo dos nossos planos, garanto. — Fala Adewale.
— Impossível não saber, Templários são tão previsíveis. Mas quero saber onde fica.
— Mato Grosso, Parque Nacional do Xingu.
— Está falando sério?
— Estou.
— Nem a pau.
— Você vai ganhar isso. — Adewale abre a maleta. Novamente todos parecem entrar em transe, mas logo o a maleta foi fechada. — Os riscos são altos, mas o prêmio é irrefutável.
— Combinado. Agora me dê isso. — Leandros estende a mão e um de seus homens se prontifica. Os guardas Templários apontaram suas armas. O líder mercenário ergue a mão para que seu homem recue.
— Fica como garantia que vocês vão fazer o serviço.
— Só faço se me derem isso agora. Eu conheço seus métodos, vão me matar quando eu vier buscar essa joça.
O clima ficou tenso. Se Leandros quisesse poderia matar todos na hora, ele tinha seis homens sob seus comandos. Enquanto dois Templários seguravam rifles e outros guardavam pistolas no cinto. Ezio estava apreensivo observando tudo quando Annie surge como um raio pelo buraco na parede. Ela dispara entre os dois seguranças e agarra a maleta enquanto dá uma joelhada nas costelas de Adewale. Todos demoraram a entender o que estava acontecendo, a Assassina realmente os pegou de surpresa.
Os mercenários apontaram suas armas para a garota, mas Adewale falou aos berros que era para capturá-la viva. Os onze homens presentes demoraram para agir, um deles finalmente avançou contra Annie, ela desviou sem dificuldade. Os outros também avançaram, quando eles começaram a fechar demais a saída Annie lança a maleta para Ezio. Todos seguem o objeto com os olhos, em parte pela chance de roubá-lo e sair correndo e em parte pela confusão, já que nem desconfiavam que houvesse outro Assassino a espreita.
Ezio pegou a maleta no ar e, como Annie havia mandado, correu sem olhar para trás. A garota já havia driblado nove dos onze homens, estava a três passos da saída quando um deles chegou pelo lado rapidamente, Annie conseguiu defender o rosto antes de o punho fechado do homem a atingir. Ela desviou um passo para o lado e acertou o homem com o pé, quase como se desse um coice. Ao sair da casa Annie teve tempo de ver Ezio se embrenhando na mata, a garota suspira aliviada e corre o mais rápido que consegue para encontrá-lo.
— Ezio. — Annie chama baixinho depois de certificar-se que não estava sendo seguida.
— Ainda bem que você conseguiu! — Ezio sai de trás de uma árvore e abraça Annie, tirando os pés da garota do chão.
— Shhh! Quieto! Ainda pode ter alguém por perto. — Ela sussurra olhando nervosamente a sua volta. — Vamos.
Ela pega a mão de Ezio e o conduz entre as árvores, passando por galhos baixos de propósito para baterem na cara do italiano.
— Parados. — A voz firme e grave vem do lado esquerdo. Annie e Ezio congelam. O homem começa a caminhar em direção aos Assassinos, um erro fatal. Annie solta a mão de Ezio e libera a lâmina oculta avançando contra o Templário em uma velocidade que surpreende tanto o parceiro quanto o alvo. — Não, não! Espera!
— Annie não! — Ezio grita atrás dela.
Annie sobre o homem com a lâmina a centímetros de sua garganta, ele estava com os olhos fechados, aguardando o a lâmina atravessar seu pescoço.
— Você está trabalhando para os Templários? — Diz Ezio empurrando a Annie para o lado e acertando um soco na cara do homem.
— Deixa eu explicar, merda! — O homem ruge segurando o nariz.
— Seja rápido. — Annie fala escutando passos vindos de todas as direções.
— Eu estou trabalhando disfarçado!
— Você ia entregar a maleta aos mercenários Adewale!
— Não, eu não ia!
— Ah é? Ia fazer o que então?
— Fugir com essa merda! — Adewale aponta para a mão de Annie.
— Explica isso para os teus amigos. — Ezio fala ao perceber que um Templário estava escondido escutando a conversa inteira. O homem sai do esconderijo revelando o rosto.
— De novo você? — Bufa Ezio ao reconhecer Haytham.
— Digo o mesmo. — Ele encara Annie. — Treinou uma de suas namoradinhas? — Haytham caminha em direção a garota, achando que era uma menininha indefesa, mas assim que ela libera a lâmina oculta o Templário trava. — Vocês distribuem essas coisas para qualquer um agora?
— O que você quer? — Pergunta Ezio.
— A maleta e o traidor.
— Pode pegar. — Ezio empurra Adewale com força para as garras de Haytham, ele aproveita o embalo e acerta o Templário com o cabo da arma.
— Filho da...
Haytham dá dois passos para trás, o Assassino não espera ele terminar a frase e avança novamente. O Templário consegue defender com dificuldade (Adewale era muito forte até mesmo para os padrões dos Assassinos) e é mandado cambaleante para trás, até uma árvore evitar sua queda. O Assassino investe com a lâmina oculta, até então encoberta, ativada, pronta para acertar o alvo.
— Vamos. — Annie puxa Ezio, obrigando-o a sair dali.
Depois de correrem até não aguentarem mais para despistar os Templários e Mercenários, os Assassinos chegaram na sede ofegantes. Ezio se atira no primeiro acento que ele enxerga, enquanto Annie leva maleta até Bee, se agarrando nas paredes para não cair. Os dois estavam realmente exaustos.
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