Lembre: Nada É Verdade.
11 Missão de Connor
Notas iniciais
A missão de Connor era mais simples e menos perigosa, mas havia um problema: ele não conhecia o lugar. Na verdade ninguém conhecia a Restinga muito bem, as ruelas e becos formavam um verdadeiro labirinto, mesmo quem nascia naquele lugar nunca o conheceria por completo.
Connor andava olhando do papel em sua mão para os lados, procurando qualquer placa com o nome da rua. As pessoas passavam por ele rindo, pois todos ali já sabiam que não haviam placas com o nome das ruas.
— Quer ajuda? — Connor sente um puxão de leve na roupa, a voz era infantil, provavelmente de um garotinho.
— Sim... Eu queria achar... — Nesse momento Connor pousa os olhos sobre o garoto, era magro, por volta dos dez anos, vestia um calção muito maior que ele completamente rasgado e encardido.
— Achar...? — O garoto pergunta.
— É que eu não moro aqui... Estou procurando a rua Juqui... Ju... — Connor tenta pronunciar o nome da rua sem sucesso.
— Juquitiba? Ih, tá muito longe nego. Fica lá no Mote Castelo.
— Como eu faço pra chegar lá? Você conhece um gringo que anda vindo para cá? — Connor pergunta com um ar de desinteressado.
— Sim! O Leandros! Ele é mó gente fina! — O garotinho sorri.
— É mesmo? — Connor falava do modo mais animado e simpático possível, provavelmente seu jeito normal assustaria o garoto.
— Sim! Ele tá ajudando a mãe do meu amigo, e também tá cuidando dos ‘meus irmão’ tudo. Sabe como é, né? Pai foi pra cadeia e ‘nóis’ ficou sem casa, aí o Leandros tá cuidando de ‘nóis’.
— Que legal. Ele deve ser uma ótima pessoa. — Connor sorri, por um momento ele vê que aquela animação e ingenuidade do garotinho o contagiaram.
— Ele é. Tinha uns trafi que queriam tirar eu e ‘meus irmão’ daqui, mas o Leandros expulsou eles. — O garoto fez uma pausa e fitou Connor com seus grandes olhos redondos brilhando. — Você quer conhece-los?
— Conhecer quem?
— Os homens do Leandros. — Ele falou baixinho. Foi aí que Connor percebeu que ele era o garoto que estava procurando.
— Eu não sei... — Ele precisava inventar algo logo antes que o garoto achasse estranho. — Está quente né? Tem alguma sorveteria por aqui?
— Tem o sorvete caseiro da Vó Betinha. Ali na esquina. — O garoto aponta.
— Quer ir lá comigo? Eu pago.
— Sério? Não vai cobrar depois, né?
— Claro que não. Estou te oferecendo.
— Hum... Então vamos.
Connor precisava conquistar a confiança do garoto, precisava levá-lo até Bee. Era incrível, para Connor, ver como aquela criança conseguia ser feliz em um ambiente como aquele. O esgoto corria a céu aberto, e o cheiro era insuportável, as casas sequer tinham água encanada.
— Vó Betinha! — O garotinho berra em frente à um casebre de madeira. — Esqueci de perguntar seu nome. — O garoto olha para Connor.
— É Connor. E o seu?
— William.
Os dois são interrompidos pelo barulho da porta de madeira rangendo. Uma senhora negra com um longo vestido florido sai da casa.
— William! Olá, querido. Quem é o cara? — Ela olha para Connor.
— É o Connor, meu amigo. — Connor sorri ao escutar ‘amigo’ — Ele tava perdido tentando achar o nome das ruas. — O garoto fala rindo para a mulher enquanto ela abre o portão de madeira.
— Você não é daqui, né? — Diz ela rindo.
— Não. Um amigo meu disse que tinha um parente na Restinga, e eu resolvi ajudar a procurar. — Inventa o mohawk. — O nome é Marcos, conhecem?
— Conheço não. — Diz a velha mulher. Connor não pode deixar de reparar na aparência judiada dela, as mãos calejadas e as rugas de expressão a faziam parecer muito mais velha do que realmente era. — Vão querer de que? Tem de melancia hoje.
— Eu quero um de melancia! — William falou animado.
— Pode ser de melancia pra mim também. — Connor falou tirando o dinheiro do bolso e entregando à Vó Betinha.
Depois de saírem dali, William e Connor ficaram conversando. O garoto contava sobre a vida ali, às vezes deixava escapar algo sobre Leandros e os traficantes. Foram horas de conversa fiada, até Connor perceber que estava escurecendo e ele tinha que ir pra casa.
— Eu tenho que ir, William. — Connor levanta do banco da praça.
— Já? Você vai voltar?
— Eu... — Connor se preparou para dizer um não, mas simplesmente travou ao ver a cara do garoto. — acho que sim.
— Legal!
— Aonde você quer ir na próxima? Que tal dar uma volta fora da Restinga?
— Pode ser. Vamos na Redenção.
— Boa ideia. Agora eu vou indo, senão vou perder o ônibus.
Connor quase perde o ônibus, ele chega à parada quando o último passageiro está subindo o primeiro degrau. Para Ezio isso seria chegar adiantado, mas Connor era neurótico demais com horários para ser tão tranquilo como o amigo nessas situações.
Ele pega um lugar na janela, para saber onde tinha de descer. O mohawk está distraído olhando vagamente para a rua quando seu celular toca. Somente os Assassinos dos Estados Unidos tinham aquele número.
— Sim? — Connor disfarça a voz. — Ah, oi. — Ele fala desanimado, mas ao mesmo tempo se sente feliz por entrar em contato com alguém de lá, ele estava com saudades de casa. — De onde você está ligando? Ah sim... Sempre inventando. — Ele sorri vagamente. — Nós encontramos. Sim. Estamos hospedados com ela. Sim, uma garota. Você? Mas por que você? E Altaïr? Sim, claro, o favorito do Al Mualim. Malik e Kadar também estaõ ocupados? O que? — Connor fica pálido. — Mas... como isso...? Como eu vou falar isso para o Ezio? Ok. — Ele desliga, engolindo em seco. A notícia não era nada boa, o mohawk só conseguia pensar como iria falar com Ezio.
Connor chega à sede. Ele respira pesadamente olhando para o lugar com o coração apertado. Depois de quase dez minutos parado em frente ao lugar com a mente longe Connor cria coragem para entrar, indo direto a sala de Bee.
— Você demorou. Aconteceu algo?
— Não. Eu consegui conquistar a confiança do garoto, logo ele vai me contar algumas coisas.
— Ótimo. Como é o nome dele?
— William. É uma ótima criança. E Leandros está conquistando todos da vila, e de modo justo.
— É mesmo? Interessante. Nunca imaginei que ele tivesse capacidade de fazer algo bom.
— Onde está Ezio?
— Deve estar assistindo TV com Annie, eles estão te esperando para ir à manifestação.
— Obrigada. — Connor se retira com uma breve reverência.
Ele caminha respirando pesadamente até a sala. O corredor parecia ter se alongado, Connor tinha a impressão de não sair do lugar, por mais que andasse. Aqueles poucos segundos pareceram uma eternidade, bilhões de lembranças passaram por sua cabeça.
— Ezio. — Connor não consegue falar mais que isso para chamar o amigo.
— Chegou! Aleluia a gente estava te esperando.
— Preciso falar com você. — O tom sério do mohawk faz o italiano desmanchar aquele sorriso.
— Ok. — Ele empurra Annie gentilmente para o lado, já que a menina havia apagado de tanto esperar Connor. Ezio e o amigo se afastam um pouco da sala. — O que foi?
— É que... — As palavras não saem.
— Fala Connor. — O tom de Ezio é quase uma súplica.
— Abbas ligou.
— E o que ele disse?
— Ele está vindo para cá, a mando de Al Mualim.
— E isso é ruim? — Pergunta Ezio, ainda tentando entender o motivo de Connor estar com aquela expressão melancólica.
— Não, mas... — Ele respira fundo. — Al Mualim enviou Malik, Altaïr e Kadar em uma missão perigosa.
— E como eles estão?
— Altaïr e Malik estão se recuperando bem, mas Kadar... — Connor baixa a cabeça.
Ezio parece travar. Ele olha para o amigo, esperando um sorriso para dizer que era brincadeira. O choque é grande, o italiano não consegue processar a ideia, a ficha não cai.
— Como? — A voz dele sai falhada.
— Abbas disse que foi tudo culpa de Altaïr.
— O que?
— Estava tudo correndo bem, até Altaïr atirar contra um dos homens inimigos. Eram Templários dos Borgia, e eram muitos. E...
— O que vocês estão fazendo aí? — Diz Annie aparecendo na porta da sala. Os dois param de conversar imediatamente. — Aconteceu alguma coisa? — Pergunta a garota olhando para a expressão arrasada dos garotos.
— Não. Nada.
— Você quer que eu acredite nesse ‘nada’? — Annie imita a voz falhada de Ezio.
— Problemas nos EUA. — O italiano abre um sorriso forçado, Annie se deixa enganar, ela percebe que é melhor não perguntar.
— Então vamos? — Ela joga a mochila nas costas, o barulho dos objetos faz Connor voltar ao normal.
— O que tem aí? — Ele fala pausadamente de modo sombrio.
— Sprays. Vinagre, umas toalhinhas, aquele antiácido... e é isso.
— Sprays, Annie?
— Claro que sim. Como você espera divulgar suas ideias? Gritando no alto falante?
— Você já vai esperando uma brecha pra quebrar tudo, né? — Connor fala decepcionado.
— Não. Mas se eles derem um motivo não tem porque não ir pra cima, certo? — Annie não perdia o ânimo nem quando discutia com o mohawk.
— Esquece, eu não vou. Até porque da última vez você chamou muita atenção.
— Algum problema? — Annie cruza os braços de baixo do peito e levanta a cabeça, Ezio não contém uma olhadinha para o decote da regata.
— Annie, você é uma Assassina. Deve se manter anônima.
— Eu estou anônima, eles não sabem quem eu sou.
— Mas vão te caçar.
— Não se preocupe, eles não vão me pegar tão fácil.
— Claro que eu me preocupo! Você está colocado todos em risco!
— Eu sempre fiz isso e nunca coloquei ninguém em risco. E eu não vou começar a quebrar nem a ir pra cima dos policiais, só vou fazer isso se eles agredirem as pessoas que eles deveriam proteger.
— Quero ver se for que nem ontem, que você virou o foco de todas as câmeras.
— E o que mais eu poderia fazer? Deixar o cara ser espancado e preso por nada?
— Podia não ter se metido. — Nem Connor acreditou no que ele acabara de falar.
— Não ter me metido? Que tipo de Assassino você é?
— Do tipo que faz o que tem que fazer sem chamar atenção.
— Connor, essa época de se manter omisso já passou. Agora o negócio é fazer alarde, é mostrar pra esses parasitas que estão no poder quem manda. Nós lutamos pela liberdade do povo a milênios e nunca deu certo, e essa luta nunca vai dar certo sem o apoio da massa. Não existe mais essa coisa de ‘não chamar atenção’. Se você matar os poderosos outros vão substituí-los e pior: vão conseguir colocar quem mais deveria de apoiar contra a sua causa, mas com a pressão da massa e o nosso trabalho nós vamos conseguir.
Os garotos não puderam deixar de notar o brilho intenso nos olhos da garota, enquanto ela falava empolgada, cheia de esperanças. Com um discurso desses qualquer pessoa acreditaria que é possível mudar o mundo.
— Então vamos, quero ver se consegue colocar isso em prática. — Diz Connor só para não ferir o próprio orgulho.
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