Notas iniciais
"O tempo não comprou passagem de volta. Tenho lembranças e não saudades." - Mário Lago

Um súbito sussurro me fez acordar. Era uma voz arrastada que eu ouvia há vários dias, repetindo as mesmas coisas macabras, como um alerta. Uma voz, porém, feminina.

A janela ainda apresentava o degrade da noite transformando-se em dia e o ar melancólico habitual de todo início de manhã em Seattle. Os pássaros ousavam cantar uns para os outros, alegrando-se com um nada que, de certa forma, os mostrava tudo. Nunca os iria compreender...

Chequei o relógio que estava marcando 05:20. Levantei-me, calçando as pantufas que protegiam meus pés do frio que o chão oferecia, e vesti meu robe. Olhando no espelho, pude confirmar que as marcas profundas das olheiras, de noites repetitivas e mal-dormidas, ainda permaneciam lá.

Minha aparência, realmente, não apresentava melhoras. O meu cabelo, em seu tom de cobre, escorria melancolicamente até minha cintura e exigia ser penteado com mais frequência. Meus olhos, de um tom azul-esverdeado, pesava, querendo se fechar e voltar a dormir. Negá-lo era quase uma ofensa para meu próprio corpo de 16 anos que, certamente, reclamava mais do que o corpo de uma mulher de 100.

Irritada, até mesmo com o barulho de meus próprios passos, desci as escadas, indo à cozinha, a fim de preparar algo para tapear a fome até o dia amanhecer. No entanto, antes de colocar meus pés no cômodo, observei meu irmão Arcam, com seus 24 anos consumidos por drogas e sexo, de esguelha.

Em seu celular, ele parecia brigar com alguém e, andando de um lado para o outro, incrivelmente, ele aparentava estar mais irritado do que eu.

Talvez ele não tivesse dormido, pois, abaixo dos seus olhos de mesmo tom dos meus, olheiras também se pronunciavam. Era impossível saber se era devido às drogas ou às suas constantes “viradas de noite”.

Em silêncio, ignorando-o, comecei a preparar meu café, até ouvi-lo dizer pra quem quer que fosse:

–Então, não feche esse preço, foda-se. Isso é um problema seu. Tenho que desligar, Samantha acordou.

Mesmo sem encará-lo, pude sentir seu olhar frio e impenetrável focar-se em mim.

–O que houve? –perguntei-lhe com uma coragem que, logo, arrependeu-se de se manifestar.

–Isso lá é da sua conta? –senti sua respiração pesar contra meu pescoço e seu cheiro de drogado me envolver. –Não se meta em meus assuntos, Sam. –ele alertou.

–E deixar você se matar por aí? –que merda de coragem! Eu queria me suicidar, no entanto, meu irmão, em breve,me mataria por mim.

Senti algo atingir meu rosto, com força, antes mesmo que eu pudesse me virar.

Caída no chão, percebi lenta demais, que eu havia levado uma porrada.

–Qual o seu problema, imbecil? –ousei pergunta-lo, colocando a mão no rosto, onde eu havia levado o soco.

Sem responder, ele saiu da cozinha, deixando-me só.

Não precisei pensar muito para concluir que ele estava indo se drogar por aí, barganhando aqueles preços mesquinhos das drogas e torrando suas poucas economias nelas.

Suspirei e me levantei do chão, ignorando a dor que se manifestava em meu rosto.

“Isso vai deixar uma marca.”, comentei comigo mesma, considerando o sentido literal e metafórico da coisa, enquanto batia um longo papo sem nexo com meus "botões".

Notas finais
Pois é, gente. Esse foi o primeiro capítulo da minha trama. Sinceramente, espero que gostem. Comentários serão sempre bem-vindos, bem como críticas (sem ofensas, claro). Bjks. ^^