Notas iniciais
"Mesmo que se vá, ficarão as marcas e as lembranças." -Mylena Sales

Sentada à mesa, avoada demais para reparar que meu café esfriava diante de mim, sinto um ar terrivelmente gélido e cruel invadir minha casa, através das janelas, fazendo as cortinas dançarem, sem sincronia, loucamente.

Rapidamente, saindo de meu estado de inércia, corri até as janelas, na pressa de fechá-las, ouvindo os estalos e rangidos que a casa insistia em fazer para protestar, ao nada, que o vento não lhe agradava nem um pouco.

Por algum motivo inexplicável, talvez até por algum milagre, me consumiu uma vontade inevitável de sair de casa... Você sabe, para ”ver gente”.

Vestida e já fora, a rua solitária me decepcionava tanto quanto o clima. Sozinha, no meio daquele ar medonho e melancólico que cada esquina insistia em produzir, eu procurava, em vão, alguma alma viva.

O dia recém-amanhecido, agora, apresentava várias nuvens em um céu cinza que ia escurecendo cada vez mais. Uma tempestade selvagem anunciava sua chegada com raios e trovões. Mas como poderia o clima, mudar-se tão rapidamente?

Andando mais um pouco, reparando bem nas construções e nas escolas vazias, naquele dia de Domingo, vi um vulto passar, rapidamente, carregando um tipo de saco. Seria, o vulto, um homem trabalhando de plantão para algo urgente, talvez? Seria uma mulher, carregando seu filhinho ou sabe-se lá mais o que, saindo apressada de algum canto insignificante? Sei lá...Mas como algo assim podia me deixar tão curiosa? Por que a sensação de que aquilo era, relativamente, importante me consumia?

Sabe-se lá o motivo que me levou a andar na mesma direção em que vi o vulto ir, mas eu andei. O caminho pelo qual ele passara estava manchado pelo rastro de uma tinta vermelha, estranhamente, familiar... algo como sangue.

A percepção me veio como um alerta:

“Pare, agora.”

No entanto, meu subconsciente, teimoso demais, lutou, bravamente, contra o medo e a noção e, vencendo, deu forças às minhas pernas para que as mesmas continuassem a trilhar aquele caminho macabro.

Um “fim da linha” foi indicado, claramente, por um beco sem saída. Merda! Como eu conseguira errar? Apesar do caminho fechado, as manchas de sangue ali se extinguiam. Talvez, o vulto estivesse, na verdade, carregando uma galinha ou um porco para alguma entrega local do açougue. Isto, aliás, soava muito mais sensato do que me perder em pensamentos assassinos e violentos para justificar o que eu vira.

Acalmando meu pobre coração acelerado, me sentei no meio fio, observando a rua nada movimentada.

–Atire. –disse uma voz que se encontrava dentro de alguma das casas atrás de mim. –Vamos, logo! Atire! É só um jogo, atire! –a voz continuou a encorajar.

Sem achar justificativas plausíveis, meus pensamentos voltaram a sua parte obscura, procurando uma resposta criminal para tudo aquilo.

De esguelha, procurei observar, escondida, à janela de onde as vozes iam e vinham.

Eu via dois homens de meia idade, sentados um perante o outro, com uma expressão de horror na face, amarrados a cadeiras de madeira desgastada, localizadas em lados opostos de uma mesa de mesmo material. Em vossa frente, um revólver jazia parado.

Aproximando-me mais da janela, no fundo daquela pequena sala, pude observar um garoto com seus 13 anos de idade, certamente, consumidos pelo medo de estar ali, segurando outro revólver, este mais atual, apontado para a cabeça de um dos homens de meia idade preso.

Nervoso, o homem suplicava, em vão, ao garoto. E o garoto, sem coragem, era mandado e desmandado por um homem bem mais velho, do tipo “armário”, que usava uma máscara para cobrir suas feições e ameaçava o moleque com uma espingarda “Trident Trap 76”.

Captar qual era o “jogo” não foi a parte mais difícil. Difícil foi pensar se, aquela pobre criança, teria coragem de apertar o gatilho. Mas, surpreendentemente, ele o fez, fazendo, assim, a arma dar somente um pequeno “estalo” que significou o alívio temporário do homem e do garoto que atirara sem bala. Assim, o jogo se seguia.

O “patrão” parecia divertir-se com a alternância da arma para a cabeça de um e de outro, mostrando-se, claramente, satisfeito com seu jogo de “tortura psicológica”, a roleta-russa.

Sem perceber, lágrimas silenciosas já escorriam pelo meu rosto até suicidarem-se no final de meu queixo. Um dos homens morreria e eu estava de mãos atadas quanto a isso.

Em um breve momento de distração, não reparei que minha figura, provavelmente, estava muito visível na janela para o lado de dentro daquela “casa do horror”.

Senti um calafrio percorrer meu corpo, quando pude jurar que o tal “patrão” havia sorrido, não mais para roleta-russa, e sim, pra mim. Um barulho de tiro fez a atenção do “patrão” voltar a mudar. Agora, ele olhava, vitoriosamente, para o homem morto que jazia com sangue escorrendo pelo buraco de tiro no meio de sua testa, em um dos lados da mesa de madeira.

O jogo acabara. Eu estava apática, talvez até em choque. No entanto, eu não tinha tempo para estar nenhuma das duas coisas, de modo que, a única coisa que fiz, foi voltar correndo, covardemente, para a segurança de minha casa gélida e silenciosa.