Lembranças de Nós Dois
21 Lover
Notas iniciais
🌙 Capítulo 21 — Lover
A luz de junho em Forks era diferente de qualquer outra; era uma claridade lavada, como se o céu tivesse sido limpo por meses de chuva apenas para testemunhar aquele momento. O ginásio da Forks High School estava transformado em um mar de becas azuis e bonés quadrados. O som da marcha pomposa ecoava, mas para Edward Cullen, o único som que importava era a respiração compassada de Bella ao seu lado na fila.
Quando o nome de Edward foi anunciado, o aplauso de Carlisle e o soluço audível de Esme preencheram o espaço. Ele caminhou até o palco com uma postura que ninguém reconheceria no garoto que, meses antes, parecia destinado ao abismo. Ao receber o diploma, Edward não olhou para os professores ou para a plateia; seus olhos buscaram Bella. Ele era o garoto que quase fora expulso, que usava a rebeldia como escudo e a autodestruição como combustível, mas ali, segurando o papel que simbolizava seu futuro, ele sabia que cada letra daquele diploma pertencia à garota que não desistira dele quando nem ele mesmo se suportava.
A comemoração que se seguiu na casa dos Cullen foi o ápice de meses de ansiedade. O momento em que os envelopes de admissão foram abertos foi digno de um filme. Bella gritou ao ver a confirmação para Medicina na Universidade de Washington, em Seattle. Segundos depois, Edward a pegou pela cintura, girando-a no ar enquanto exibia a carta de aceitação para o curso de Direito na mesma instituição.
— Nós conseguimos, Bella! — ele exclamou contra o pescoço dela, enquanto Alice saltava ao redor deles planejando a logística da mudança e Charlie, com um copo de ponche na mão, trocava um olhar cúmplice com Carlisle. O xerife não via mais em Edward o "problema", mas o porto seguro de sua filha. A amizade entre os dois florescera de forma orgânica; Charlie agora ligava para Edward para comentar os jogos de beisebol, e Edward retribuía com visitas semanais para ajudar com reparos na casa dos Swan. Eram, finalmente, uma família.
A mudança para Seattle em agosto trouxe a sensação revigorante de uma página em branco. O apartamento era pequeno, localizado em um prédio antigo com janelas que rangiam, mas para eles, era um palácio. A cozinha era minúscula, o sofá fora comprado em um brechó e havia caixas de livros de anatomia e códigos civis espalhadas por todos os cantos.
— Falta uma coisa — Edward disse um mês após a mudança, escondendo algo atrás das costas enquanto Bella tentava organizar a estante.
Ele revelou uma bolinha de pelos branca e caramelo, de olhos grandes e cauda frenética. Bella soltou um grito de alegria, pegando o pequeno Shih-tzu no colo.
— Edward! Ele é perfeito! Qual o nome?
Edward deu um sorriso travesso.
— Eu pensei em Jacob.
Bella gargalhou, beijando o topo da cabeça do cachorrinho. — Você quer colocar o nome do cachorro em homenagem ao seu rival imaginário de Forks?
— Exatamente. Assim eu posso dar ordens para o Jacob o dia inteiro — ele brincou, enquanto o cãozinho lambia o rosto de Bella.
O Natal chegou trazendo a primeira neve sobre Seattle. O apartamento estava um caos organizado de alegria. Charlie, Esme e Carlisle haviam subido de Forks para ajudar na decoração. A cena na sala era um retrato de paz: Charlie e Edward estavam sentados no chão, rodeados por peças de uma estante da IKEA, travando uma batalha épica com o manual de instruções.
— Eu estou te dizendo, Cullen, esse parafuso é o 'B', não o 'C' — Charlie resmungou, ajustando os óculos.
— O manual está em sueco, Charlie! E o desenho parece um labirinto — Edward rebateu, mas havia um brilho de felicidade genuína em seus olhos enquanto passava a chave de fenda para o sogro.
Esme e Bella, na cozinha preparando o chocolate quente, observavam os dois com sorrisos idênticos.
— Quem diria, não é? — Esme sussurrou, tocando o braço de Bella. — Eles se tornaram o apoio um do outro.
No final da noite, após os pais partirem para o hotel, o apartamento ficou mergulhado no silêncio acolhedor das luzes de Natal. A árvore brilhava em tons de dourado e vermelho, refletindo-se na janela que mostrava os flocos de neve caindo sobre a cidade. Bella estava sentada no chão, encostada no sofá, com Edward entre suas pernas e Jacob dormindo pesadamente sobre os pés deles.
Edward puxou a mão de Bella, beijando o anel de noivado que agora brilhava sob as luzes pisca-pisca.
— Se alguém me mostrasse essa cena dois anos atrás... eu ia rir da cara dele — Edward murmurou, a voz carregada de uma ternura profunda. — Eu ia achar que era um sonho impossível para alguém como eu.
— E agora? — Bella perguntou, acariciando o cabelo dele.
— Agora eu acho que essa é a única vida que eu quero viver. Cada prova difícil na faculdade, cada café frio de manhã, cada briga com o Jacob por ele comer meus sapatos... se for com você, é o paraíso.
Ele se virou, olhando fixamente para ela. — Promete que, não importa o que aconteça na estrada de volta para Forks ou nas curvas da vida, você sempre vai me esperar aqui?
— Eu sempre vou te esperar, Edward — ela respondeu, selando a promessa com um beijo calmo. — Promete que sempre vai voltar para casa?
— Sempre — ele jurou.
Eles ficaram ali, mergulhados na energia de final feliz, acreditando piamente que haviam vencido todas as tempestades. O futuro era um caminho aberto, iluminado e seguro. Eles tinham o apartamento, as carreiras, o cachorro e o amor. Eles tinham tudo o que o destino precisava para tornar a queda, quando chegasse, algo absolutamente devastador.
O calor do peito de Edward contra as costas de Bella era a âncora que a mantinha no presente, uma segurança sólida que afastava qualquer fantasma do passado. Eles ficaram ali por horas, assistindo às luzes da árvore de Natal pulsarem lentamente, como o batimento cardíaco daquele novo lar. Jacob soltou um pequeno suspiro canino em seu sono, e Edward apertou os braços ao redor de Bella, inspirando o perfume de lavanda do cabelo dela.
— Eu nunca soube que o silêncio podia ser tão barulhento — ele sussurrou, a voz já embargada pelo sono. — É como se eu pudesse ouvir a nossa vida inteira acontecendo daqui para frente.
— É a paz, Edward — ela respondeu baixinho, fechando os olhos. — É assim que a paz soa.
Eventualmente, o cansaço da mudança e da celebração os venceu. Eles se arrastaram para a cama de casal, onde os lençóis novos ainda tinham o cheiro de loja, e se entrelaçaram sob o edredom pesado. Edward adormeceu em segundos, com o rosto escondido na curva do pescoço de Bella, sentindo-se, pela primeira vez, invencível.
Mas, na escuridão da mente, a paz começou a se decompor.
O sonho começou com o som de pneus cantando no asfalto molhado. Edward não estava no apartamento; ele estava no banco do motorista do Volvo, e a estrada à sua frente não era uma rua de Seattle, mas a rodovia sinuosa e escura que levava de volta a Forks. A névoa era tão densa que os faróis pareciam inúteis, cortando o branco como facas cegas.
No banco do passageiro, Bella ria de algo que ele não conseguia ouvir. Ela estava linda, usando o vestido azul do baile, mas a expressão dela mudou de repente. O riso desapareceu, substituído por um pânico mudo enquanto ela apontava para algo à frente.
Edward pisou no freio.
O tempo desacelerou de forma agonizante. Ele sentiu o volante perder a resistência, as rodas deslizando sobre uma camada invisível de gelo preto. O som era ensurdecedor: o metal se retorcendo, o vidro estilhaçando como se fossem diamantes caindo no escuro, e o grito de Bella sendo abafado pelo estrondo do impacto.
Ele viu o para-brisa explodir em mil pedaços, um deles voando em direção ao rosto dela. Ele tentou alcançá-la, esticar o braço para protegê-la, mas seu corpo estava preso, esmagado contra o painel. O cheiro de pinho e chuva foi substituído pelo odor metálico de sangue e gasolina.
— Bella! — ele tentou gritar no sonho, mas seus pulmões estavam cheios de fumaça.
A última imagem antes da escuridão total foi o anel de diamante no dedo de Bella, brilhando intensamente em meio aos destroços, antes de ser engolido pelas sombras.
Edward deu um solavanco na cama, o corpo coberto de suor frio e o coração martelando contra as costelas como um animal enjaulado. Ele tateou o escuro do quarto, respirando de forma errática, até sentir o calor da mão de Bella tocando a sua. Ela ainda dormia, a respiração calma e profunda, o anel brilhando debilmente com a luz que vinha da rua.
Ele ficou sentado, observando-a no escuro, a sensação de presságio colada à sua pele como uma segunda pele. O sonho fora apenas um pesadelo, ele tentava dizer a si mesmo, mas o calafrio que percorria sua espinha dizia o contrário. O destino, silencioso e paciente, acabara de enviar o seu primeiro aviso.
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