Acordei hoje com uma dor absurda na minha bunda, parecia que havia parasitas me comendo viva, foi horrível. Minha médica como sempre veio me examinar e as enfermeiras me darem banho.

– Oh meu deus, você está com uma escara Elisa — Ela diz com cara de preocupada.

Que ótimo, eu estava com uma ferida no traseiro e não podia nem gritar de dor ou chorar, nem sair correndo e sentar em uma bacia de gelo. Escaras ocorrem em pacientes internados em um hospital, que é o meu caso, ou que ficam acamados dentro de casa, sendo muito comum também nos paraplégicos, que passam muito tempo sentados na mesma posição, a dor é de matar. Minha mãe chegou e as enfermeiras lhe informaram sobre a ferida.

– Deus! Coitada da minha filhinha! — Minha mãe diz boquiaberta, eu sentia pela cara das pessoas que aquilo era nojento.

A médica tratou da Sheila (que é o nome que eu dei pra minha escara) e me virou de lado, fiquei aliviada mas a dor não sumiu apenas diminuiu. No fim da tarde a Ana veio me ver.

– Oi Éli, trouxe suas flores favoritas — Ela coloca as flores no Criado-mudo e senta do meu lado na cama. — Eu preciso te contar uma coisa, quero que seja a primeira pessoa a saber.

As Orquídeas estavam lindas e minha curiosidade enorme.

– Estou grávida! — Ela conta empolgada mas fala baixo. — De três meses.

O quê? Eu vou ser tia? Oh meu deus! Estou tão feliz, eu te amo tanto minha irmã! Quero sair logo dessa cama ridícula e cuidar do meu sobrinho(a)! Mamãe vai ficar tão feliz, talvez ela tenha achado que seu primeiro neto viria de mim. Depois dessa notícia maravilhosa eu parei de pensar um pouco na Sheila e voltei para o meu passado, isso ocorre na maioria das vezes minutos antes de eu cair no sono.

Tuti e eu já tínhamos dezoito anos. Eu queria ser diferente fazendo uma surpresa para ele, trabalhei nela durante alguns meses para ficar tudo perfeito. Eu fui até a casa dele e bati na porta, ele abriu e eu fui completamente direta.

– Vem Tuti, quero te mostrar uma coisa — Puxo ele pelos braços e vendo seus olhos.

– Aonde você está me levando Elisa? — Pergunta Tuti meio desnorteado sem enxergar nada.

– Mais para direita, cuidado com o degrau... isso! Tenha calma, já estamos chegando. — Eu respondo o guiando pela rua.

Nós andamos razoavelmente de sua casa até a surpresa.

– Espera, só mais um pouco... Thanran! — Tiro suas vendas.

Estávamos no porão da casa dos meus avós, eles não usavam então disseram que eu poderia fazer o que bem entendia com ele. Eu quis fazer um cantinho só nosso, um lugar "Tuti e Elisa" onde nós poderíamos ser nós mesmos. Mandei revelar todas as nossas fotos e cobri uma das paredes do porão que não era grande com elas. Com spray's escrevi algumas frases como "Besourinhos", "Para sempre", "5,90" e desenhei alguns coqueiros e o mar. Cloquei pisca-pisca em todas as paredes para ficar mais confortável. A vovó me deu seu sofá velho que não usava a anos e seu Toca Disco para podermos ouvir alguns discos dos Beatles.

– Elisa! O qu...Espera! Isso é demais! Eu te amo tanto! — Ele diz com cara de bobo admirando minha obra de arte.

– Eu quis fazer um lugar só para nós — Eu digo com um sorriso bobo no rosto vendo ele tocar em tudo.

– Você é a pessoa mais inusitada que eu poderia conhecer, você é tão perfeita, obrigado — Ele diz acariciando meu rosto.

Nós no sentamos no sofá que mesmo velho era muito confortável e ficamos lá, juntinhos, ouvindo nossa banda favorita e jogando conversa fora. Íamos para lá sempre, era nosso refúgio.

Eu e Tuti vivemos momentos lindos como esse muitas vezes durante nossos cinco anos de namoro, eu me apaixonava por ele todos dias. Nós crescemos juntos, evoluímos juntos e fazíamos planos juntos. Eu não conseguia me imaginar sem ele.

Mas tive que aprender.