Então de repente nós estávamos com 21 anos, trabalhando e logicamente mais maduros, mas nada mudou na nossa rotina. Julio não trabalhava mais na padaria a muito tempo mas eu gostava de ir lá só para relembrar de quando o conheci. Nossas idas ao "Rock Bar" continuaram, mas como qualquer adulto as vezes falhávamos. Nossa promessa de nunca mais brigarmos continuava de pé, claro que de vez em quando um desentendimento aparecia para nos dar um oi, mas logo ia embora. Íamos a praia mas não com tanta frequência, pude perceber depois que o tempo foi passando, que os adultos deixam de fazer muitas coisas e seu tempo cada dia que passa fica mais escasso, eu tenho repulsa de envelhecer.

Eu e Tuti fomos para o porão depois de um dia de trabalho cansativo, tudo o que eu queria era ficar deitada com ele e esquecer dos problemas que a fase adulta nos fornece. Nunca mexemos em nada naquele porão, definitivamente era nosso lugar favorito.

– Como foi seu dia querido? — Eu pergunto reparando que Tuti estava um pouco cabisbaixo, diferente daquele Tuti brincalhão que conhecia.

Tudo na mesma — Ele responde bagunçando meu cabelo. Mas reparo que ele estava realmente diferente, como se estivesse acontecendo alguma coisa, no andar da carruagem eu o conhecia mais do que ninguém.

– Você está diferente — Eu jogo um verde.

– Você acha? — Ele pergunta.

– Absolutamente — Respondo.

Tuti então fica em silêncio, começo a me preocupar. Ele coloca as mãos no rosto e começa a chorar como uma criança.

– O que foi meu amor? — Eu pergunto com o coração doendo por vê-lo daquele jeito e beijo seu rosto.

– Éli, você um dia já duvidou do amor que sinto por você? — Ele pergunta mas sem olhar para os meus olhos.

– Mas é claro que não Tuti! Porque está me perguntando isso? — Eu realmente começo ficar preocupada.

– Antes de te contar qualquer coisa eu preciso te dizer algumas palavras — Ele levanta a cabeça e segura minhas mãos — Você é a pessoa mais importante para mim, tudo o que faço na vida eu penso em você e em como vai encaixar naquilo, desde quando te vi entrando na padaria eu fiquei tão apaixonado e pensei em como você era linda, como podia me deixar tão bobo. Depois de te conhecer eu percebi que você é a minha vida, eu fico sem ar só de pensar em te perder, você sabe disso não sabe?

Eu respondo que sim com a cabeça e começo a chorar junto com ele, porque todos nós sabemos que quando a pessoa começa falando "Você sabe que é a pessoa mais importante para mim" Não será boa coisa.

– Não chore meu amor, isso dói tanto. Eu faria de tudo pra não ver você chorar assim — Ele diz segurando meu queixo mas chorando ainda mais.

– Vamos Tuti, me diz o que está acontecendo — Eu digo.

Tuti para, olha para o chão e começa.

– Eu não queria Éli, eu não queria! — Ele diz com as mãos cobrindo o rosto.

– Não queria o que Tuti pelo amor de deus! — Eu falo.

– Eu fiz uma coisa terrível — Ele para e respira fundo. — Eu tinha bebido um pouco com alguns colegas de trabalho e a Amanda estava lá e...

– Amanda? Aquela sua namoradinha de quando tinha 15 anos? — Eu pergunto.

– Sim, Amanda Medeiros. Eu sempre quis ter algo com ela mas ela sempre me rejeitou, e depois que comecei a namorar você ela me mandou mensagens algumas vezes. Nessa noite ela estava lá e ficou dançando para mim e... — Ele para.

– E... — Eu tento fazer ele continuar.

– Eu não resisti e aconteceu, eu juro que não imaginava mas foi maior do que eu Elisa, eu te amo! — Ele diz pegando nos meu braços mas eu me afasto.

Fiquei paralisada olhando para um novo Tuti, alguém que eu não conhecia mais, alguém completamente estranho. Meu olhar era de indignação misturado com negação. Daí então passou pela minha cabeça várias coisas do tipo "Oque vou fazer agora?", "Ele sempre a amou", "Eu te odeio", mas não disse nada disso, apenas fiquei calada.

– Diz alguma coisa meu amor, esse silêncio está me destruindo — Ele diz aos prantos.

Eu apenas levanto respiro fundo e saio. Ele corri atrás de mim mas continuo andando, ele insiste e eu paro.

– Por favor Julio, nós permanecemos sem brigas e vamos acabar sem brigas — Eu digo em um tom confiante mas me segurando para não desabar.

– Por favor eu sei que você tem todo o direito do mundo de terminar comigo mas deixe eu te mostrar que você é muito mais importante do que tudo isso meu amor. — Ele tenta me abraçar e eu recuso novamente.

Eu parei, pensei um pouco e comecei a lembrar de todos os momentos lindos que vivemos juntos, não podia deixar que uma pessoa qualquer acabasse com tudo mesmo odiando Tuti naquele momento.

– Espera — deixo ele me abraçar — Quero que seja franco comigo, mas não estou em condições de conversar agora, amanhã quando estivermos mais calmos nos falamos.

Ele me puxa pelos braços.

– Éli, mas ainda não acabou — Ele começa a chorar como se alguém estivesse morrido, aquilo até me deixou apavorada. — Ela me mandou um e-mail dizendo que está grávida.

Meu mundo cai e começo a perder o ar. Me sento na guia e fico imóvel, sem demonstrar nenhum sentimento, apenas imóvel. Depois sinto uma dor no peito tão forte como se alguém estivesse enfiando uma faca afiada no meu coração, a dor era tanta que eu me contorcia na frente dele. Ele fica desesperado tentando me ajudar.

– Não toque em mim! — Eu digo totalmente desnorteada.

Ele chora mais ainda e se afasta. Eu me levando e começo a andar sem olhar para trás, sem saber que aquela seria última vez que veria meu Tuti. Quando chego em casa um mar de lágrimas me dominava. Todos os meus planos, tudo o que imaginava para mim acabou. Só sabia pensar na criança que estava por vir, um Tutizinho que não viria de mim, eu não era mais a Elisa, era o que restou dela.

O que estou sofrendo hoje não é nem metade de um grão de areia que eu senti naquela noite. Mas o pior ainda estava por vir.