Embora Lindir estivesse sentado ao lado de Gimli, ele sentia a vista levemente embaçada, uma dor escorria-lhe pelas têmporas e sua cabeça parecia latejar, mas o elfo não se entregara e resistia como um guerreiro corajoso. Ele permitiu olhar lateralmente aquele anão, sorriu-lhe gentil, embora Gimli nem houvesse dado conta que estava sendo observado. Como que quisesse chamar a atenção para si, tocou-lhe a face gentilmente e o anão, finalmente olhou-o comentando:

– Como está se sentindo?

Mal eles sabiam que o lustre havia caído do teto devido à força da batida, minutos depois da partida de ambos.

– Normal...

E o elfo respirou profundamente, embora ainda escorresse uma considerável lasca de sangue de sua testa, a mesma descia brilhantemente pela lateral do rosto, seguindo pelo pescoço. De repente, o elfo começou a sentir frio, mas engoliu em seco e não reclamou.

– Falta muito?

Comentou baixo, com uma voz fraca. Suas pupilas encontravam-se encarando o caminho à frente e foi, neste exato momento, que o anão viu que o outro não estava tão bem assim, os elfos costumavam sentir a proximidade e a localização exata deles, por isso raramente se perdiam, mas aquele ali estava perguntando se estavam longe? Pensou o anão acelerando o galope dos cavalos.

– Calma, meu bem... estamos perto.

Lindir sorriu e fechou os olhos, deixando a cabeça tombar para frente. Gimli sentia o coração apertar e ansiava pela chegada deles.

– Eu previ cada coisa... você... Aragorn... toda aquela confusão do castelo... eu poderia fugir disso, ignorar os sinais da minha visão... mas... realmente, eu desejava estar aqui... passando por isso... só não sabia que doeria tanto. – Sorriu sentindo uma sutil falta de ar, levou uma das mãos ao peito. – Eu só... quero um pouco de licor... que eu ficarei bem.

– Licor... deveria tomar um xarope cheio de gororoba. – Brincou o anão para distrair o outro.

– Hehe... – Lindir olhou para o céu, agora, sem formas, apenas um brilho indecifrável, sua visão estava piorando. – Sabe, Gimli... eu me guardei para isso... – Voltou a olhar o anão – Nunca tive outro homem, nunca... queria que fosse apenas contigo... – O elfo soltou uma risada dolorida, levando a mão à cabeça, sentiu a ponta de seus dedos quentes, encharcados pelo sangue que brotava dali. – Ficarei bem... – Sua visão turvara-se, enegrecera-se. – Já estou melhor...

– “Puta que pariu, ele está entrando em delírio!” – Pensou o pequeno finalmente respirando aliviado ao ver os muros de Gondor. –“ Tomara que Aragorn, Legolas ou alguém possa me ajudar!” – Refletiu consigo.

Ao aproximar do portão, dois cavaleiros vieram de encontro e, neste momento, Lindir caiu dali, já completamente sem forças, um dos cavaleiros se precipitou e segurou-o nos braços, evitando que tocasse o chão. O anão saltou dali e foi ate o cavaleiro, pegando seu elfo de volta para si.

– Obrigado, por favor, guardem a carroça para mim, tá bem?

– Sim, senhor.

– Aragorn ainda está no castelo?

– Sim, senhor.

– Obrigado.

Gimli ia perguntar de Legolas, mas achou que aqueles homens nem saberiam disso, eles eram um tanto limitados, pensou o anão, seguindo a passos apressados na direção do castelo.

– Aguente amor, aguente. – Retrucou baixo, agonizando ao ver a face pálida do elfo. – Puta que pariu! Lindir, não vá para as terras imortais, cacete! Fica comigo! – O anão apertou os passos, já estava ofegante, ele mesmo, já estava quase infartando.- Porra, Lindir, aquelas palavras não foram uma despedida, não né?

E finalmente chegaram ao castelo, alguns cavaleiros vieram recepcioná-lo.

– Por favor, me ajuda a levá-lo.

E um deles o auxiliou.

– Me acompanhe, onde está Aragorn?

– Na sala de reuniões, senhor.

– Obrigado!

E o anão apertou os passos, iria pedir ajuda ou para Legolas ou Arwen, já que provavelmente Elrond já tinha partido dali, isso se não levara Gandalf consigo, mas o anão encheu-se de esperança ao ver o Senhor de Valfenda, sentado numa enorme biblioteca e parecia concentrado em sua leitura. Assim que o anão apareceu na entrada, ele levantou-se franzindo as sobrancelhas, o olhando desconfiado, desconfiança que foi logo confirmada ao ver Lindir, ali, desmaiado num dos braços de um cavaleiro qualquer.

E foi, neste instante, que Elrond permitiu que seus olhos arregalassem, logo se colocando a seguir até eles, parando ao lado do elfo, tocando-lhe a testa.

– Isso é muito grave, devemos cuidar disso imediatamente!

Gandalf conversava com Aragorn numa sala ao lado e se surpreenderam quando ouviram a voz de Elrond ecoar pelo corredor, pelo fato disso nunca ter acontecido com aquele elfo, ou seja, exaltar-se, eles deduziram que só poderia ser algo realmente grave.

– O que aconteceu aqui? – Perguntou o rei se aproximando, acompanhado de Gandalf.

– Meu rei, permita que cuide desse elfo. – Disse Elrond gentilmente, embora tivesse uma voz levemente afobada.

– Sim, claro, temos um setor de enfermaria.

– Preciso que Gandalf recolha algumas ervas para mim.

Disse Elrond seguindo ao lado do cavaleiro, entraram numa grande sala e logo Lindir fora colocado sobre uma cama.

– Gandalf, são estes os itens...

E o meio-elfo se aproximou de um móvel, começando a escrever num pedaço de papel, logo o entregando ao mago.

– Eu pude ver que nos fundos do castelo existem bastante dessa erva, traga uns três chumaços para mim, com uns cinco galhos cada um. – Ordenou gentilmente o meio-elfo.

– Perfeitamente, meu caro, já já estarei de volta.

E o mago saiu, Elrond voltou-se para Aragorn:

– Meu rei, traga ou peça que tragam duas bacias com água fervente, mas não tão quente ao ponto de ferir a mão, mas quero mais quentes do que mornas...

– Perfeito, eu mesmo as trarei. – Disse o rei logo saindo dali.

Elrond voltou-se para o anão, ficou um tempo encarando-o nem um pouco amigável, mas logo voltou sua face para o cavaleiro que trouxera Lindir.

– E você, me traga umas três toalhas limpas e bem felpudas.

O cavaleiro consentiu e logo saiu. Gimli encontrava-se sentado ao lado de Lindir, segurava-lhe uma das mãos, era impressionante como o elfo estava pálido, suas orbes estavam abertas, porém, suas pupilas não estavam ali, seus olhos encontravam-se completamente brancos, sua respiração estava quase parada.

Elrond seguiu a passos lentos na direção de Gimli, parou diante dele, olhava-o com a face mais ingrata de toda terra-média.

– O que você aprontou, Gimli? Lindir não faria mal a uma mosca. – Disse o Senhor calmamente, mas uma voz inebriada de ódio e fervor.

– Ele esbarrou no lustre da minha casa, eu tentei trazê-lo o mais rápido que consegui. – E o anão mantinha uma face de dor, agonizante, seus olhos já estavam lacrimejando e seu nariz fungava ostensivamente.

– Não foi você que lhe fez isso? – Perguntou o Senhor, cruzando os braços. – Soube como tratou o elfo na Cidade das Alegrias, Gandalf me disse... e me alertou que eu prestasse atenção em vocês dois.

O anão levantou-se e se distanciou um pouco da cama, gesticulava afobado.

– Está dizendo que Eu fiz isso? EU O AMO! EU AMO UM ELFO, PUTA QUE PARIU!- E Gimli voltou-se ficando de costas para Elrond, este o encarava imóvel, parecia examinar e avaliar cada atitude do pequeno. Gimli puxou num solavanco o ar, tomando um gole e tentou relaxar- Eu o apresentei aos meus pais... – O anão levou uma das mãos aos olhos, apertando a ponta dos dedos ali, sentindo-os umedecerem pelas lágrimas, que agora escorriam nitidamente. – Eu o amo...

Gimli voltou-se para Lindir, mantendo uma face agonizada, dolorida.

– Ele até se fez de fêmea, para facilitar as coisas, ele viu como é muito forte o preconceito dos anões... snif, snif...

– Você o apresentou aos seus pais? – Elrond deixou um sorriso gentil brotar-lhe na face.

– Sim! Porra! Não foi o que acabei de dizer?! – Disse o anão completamente alterado, mas ao ver que havia sido rude, voltou-se para o meio-elfo e encarava-o receoso – Desculpe... é que... ele não vai morrer, não é?

– Penso no porquê agrediu o elfo na Cidade das Alegrias... – Retrucou Elrond calmamente, ainda com os braços cruzados.

O Senhor de Valfenda sabia que aquele tipo de comportamento apresentado por Lindir era bem comum aos elfos, quando estes se encontravam profundamente feridos, eles costumavam “hibernar” como que para conter o máximo de energia e combater a ferida, por isso, assim que eram acertados em campo e apresentavam os sintomas de “hibernação”, os elfos eram levados até uma caverna para “hibernar”, não necessariamente aquilo significava que morreriam, mas ficariam parecendo como se estivessem mortos, era sua típica forma de sobreviver, tal fato já acontecera com Elrond, uma vez, numa batalha, ele ficara cinco dias “hibernando”. No entanto, a ferida precisava ser fechada, por isso, ele pedira as ervas, a água quente e as toalhas, ele limparia a ferida, e de resto, acreditava que Lindir logo despertaria de seu sono forçado imposto pela sua própria raça.

Elrond também sabia que os elfos podiam muito bem ouvir o que se passava ao seu redor, mesmo estando praticamente “mortos”, e por isso, ele continuou tirando suas dúvidas, mesmo sabendo que Lindir provavelmente os ouvia, o Senhor de Valfenda não perderia a chance de avaliar se não deveria intervir naquela relação, que antes nunca ocorrera na terra-media e que até aquele momento, era considerada impossível de acontecer.

O Senhor de Valfenda sabia também que pelo fato de Lindir nunca ter ido a campo ou ter participado de uma batalha, que ele mesmo tivesse se mostrado tenso e inseguro quanto a esta característica élfica, logo, por ele mesmo não conhecê-la, ele não alertara Gimli, pois também havia sido pego desprevenidamente.

Elrond soltou um longo suspiro ao olhar Lindir, mas como iria prever que ele seria sabotado pelo destino e entraria em contato com aquele tipo de particularidade élfica? Foi neste instante que ele reforçou a pergunta, ao ver que o anão o olhava receoso, inseguro.

– Por que agredira o elfo, Gimli?

– Antes, me diga, Senhor adorável de Valfenda – Disse irônico, levemente raivoso- Ele irá morrer?

– Provavelmente não.

– Como sabe?!

– Os elfos costumam hibernar quando se machucam, eles costumam parecer mortos, é a forma peculiar de se recuperarem. Diferente dos humanos, nós não agonizamos e gastamos nossas energias até o fim, simplesmente nossos corpos “desligam”, adormecem num sono forçado...

– Obrigado por me tranquilizar agora, finalmente, não é? Affe...

E o anão aproximou-se da cama, sorrindo gentilmente, doidinho para afagar os cabelos negros de seu elfo, mas não o faria, visto que Elrond ainda os olhava e pôde confirmar isso ao vê-lo parcialmente por cima de um dos ombros.

– Bem... eu o maltratei... porque eu... senti raiva de mim mesmo... – O anão voltou seu olhar para Lindir – Queria negar o que estava sentindo, não queria ver que o amo... mas agora... – Os olhos do anão fixaram-se naquela pele alva e o baixinho permitiu-se entoar baixinho, numa voz melodiosa — Vossa presença me faz querer descobrir mais sobre outros mundos... – retrucou baixo, deixando um sorriso afagar-lhe a boca.

Elrond andou até o anão, tocou-lhe um dos ombros. Gimli o olhou, o Senhor comentou baixo:

– Ele sobreviverá e assim que ele acordar... compre uma casa para vocês... acredite, serão muito felizes juntos.

– Co..como sabe? Vo...você viu? Te..teve uma visão? – O anão arregalou os olhos- Teremos quantos filhos? — Disse zombeteiro, fato que fez o Senhor de Valfenda sorrir.

– Ele me disse... – Elrond olhou para Lindir, o sorriso ainda se manteve- Ele foi o elfo mais gentil que conheci... o mais especial, fiel aos seus sonhos... às suas previsões...

– Como Lindir foi parar em Valfenda?

Elrond distanciou a mão do ombro do anão e andou até uma janela, soltou um longo suspiro.

– Pronto para ouvir uma longa história? – Sorriu o meio-elfo, o anão consentiu com a cabeça, Elrond resolveu continuar- Lindir fazia parte de um grupo de elfos que viviam a leste, eram conhecidos pela sua riqueza cultural. Suas músicas e poemas percorreram por toda terra-media. O hino dos anões e da idolatria ao lar dos hobbits foram criados por eles. Eram talentosos no manuseio das palavras, no convencer e dialogar, nas negociações. Eram famosos por conseguir penetrar na cabeça dos seres, colocando-lhes valores diferentes, fazendo-os refletir sobre suas realidades... – Elrond deu uma sutil pausa, parecia relembrar aquele momento.- Eram um povo nômade, passeavam pelos reinos, faziam alianças... mas um belo dia resolveram criar seu próprio mundo e espaço, resolveram alojar-se numa floresta específica, a qual não existe mais... – Elrond voltou-se para o anão, cruzando os braços, continuando com uma voz mais séria, astuta- Eles ficaram por lá um bom tempo, até que orcs invadiram, eles não sabiam que aquela floresta era constantemente invadida. –Elrond encostou-se no patamar da janela, olhava a paisagem lá fora – As mulheres foram violentadas e os homens mortos, até onde sei, algumas foram levadas com eles... eu costumo fazer a ronda e achei a vila que eles criaram completamente devastada. Lindir estava sentado, ali, no meio de toda aquela destruição, ele era pequeno, uma criança... e o resgatei. Perguntei para onde os orcs haviam ido, ele me disse e eu os matei, infelizmente as elfas já estava mortas... tinham seus ventres rasgados... algumas haviam sido decapitadas.

Elrond colocou-se a andar até Lindir, encarando sua face.

– Ele disse que sentiu medo e por isso... se escondeu... que nunca iria querer guerrilhar, que acreditava na paz, no poder das palavras em vez de na força das armas.

– Entendo. – Gimli também o olhava.

– Ele, como seu clã, acreditava que o mundo poderia viver harmonicamente e que todos poderiam ser felizes, bastando dialogar. Sempre chegar a um acordo que trouxesse vantagem para ambos os lados. – Elrond soltou um longo suspiro – Por isso, o elegi como meu representante... ele é tão diplomático quanto eu.

– Um filho adotivo. – Retrucou o anão sorrindo para Elrond, este correspondeu.

– Sim. – E o Senhor soltou um sorriso gentil.- nenhum dos meus filhos se parecem tanto comigo quanto ele.

– Agora faz sentindo quando disse que Lindir não faria mal a uma mosca.

– Sim, é verdade.

Neste instante, Aragorn adentrara ali com as bacias, ele chegara acompanhado do cavaleiro com as toalhas. Elrond os recebeu e ajeitou os itens próximos da cama.

– Onde está Gandalf?

– Eu não sei... – Disse Aragorn olhando na direção da porta – Vou lá ver, já venho.

E saiu dali, Elrond umedeceu uma pontinha da toalha na água e começou a higienizar a ferida. Gimli o olhava, parecendo admirá-lo, a sutileza de seu movimento, a delicadeza que tocava aquele outro elfo. O anão se surpreendeu um pouco quando as pupilas de Lindir começaram a aparecer, fortalecendo suas cores, bem aos poucos, sua face de pálida, começava a ter uma cor rosada e o anão agradeceu a todos em silêncio pela ajuda, Gimli ainda mantinha a face na direção de Elrond, sorrindo-lhe gentil, este finalmente percebeu e sorriu-lhe também.

– Os novos tempos, meu senhor, os novos tempos.

Elrond apenas sorriu-lhe e viu Gandalf adentrar ali, com Aragorn.

– Desculpe a demora, embora houvesse muitas, a maioria não tinha flores, então trouxe galhos mesmo.

– Derrame-os na outra bacia. Obrigado.

A cor da água aonde foram colocadas as ervas começou a tornar-se turva, levemente amarronzada com sutis toques de verde.

– Traga essa bacia para mim, Gandalf.

– Sim, meu Elrond.

E assim que o elfo pegou uma toalha limpa e molhou-a ali, levou-a até a testa do outro elfo. Logo ao tocar ali, a ferida pareceu diminuir drasticamente de tamanho, a recuperação era notável.

– Ser um elfo puro tem suas vantagens. – Comentou Elrond vendo a ferida fechar-se rapidamente.

Gimli e Aragorn mantinham as faces atordoadas, os olhos arregalados, já Gandalf apenas soltou umas risadinhas secas.

– Puta que pariu, que coisa macabra, bizarra! Né, meu rei?

– É realmente estranho, Gimli. – Retrucou Aragorn ainda olhando notadamente surpreso para aquela situação.

– Onde está Arwen? – Comentou o anão finalmente lembrando-se da rainha.

– Está ligeiramente enjoada, preferiu nem levantar da cama hoje.

O anão permitiu que um sorriso escancarado brotasse-lhe na boca, deu sutis batidinhas com um dos cotovelos no rei.

– Ahhhh moleque bom! Já acertou o alvo é... Legolas lhe ensinou direitinho!

Aragorn olhou para Gimli com os olhos arregalados, o anão olhou para Elrond que os olhava sério, com uma das sobrancelhas levantadas, com sua pior cara e Gandalf quando percebeu o alvoroço interno do senhor de Valfenda, tocou-lhe um dos ombros, comentando baixo num dos ouvidos.

– Os novos tempos que ti falei, meu lorde.

Elrond finalmente sorriu, e agora, todos agora puderam ver Lindir piscar os olhos.