Legolas e Aragorn / Elrond e Gandalf - PARTE II
26 Atrás da Felicidade. – Éomer.
Notas iniciais
O cavaleiro e recém-nomeado rei andava pelas ruas quase inabitadas da cidade, as mesmas intercalavam entre ruas cheias de cegos, tanto de nascença quanto da guerra, mutilados, mendigos, os quais agora consistiam na população em geral, crianças, estropiados, mulheres miseráveis, que antes eram mães dedicadas, agricultoras, mas que agora se prostituíam por um prato de comida.
Quando o rei passou pelas ruas, tamanha deveria ser sua força ao ver seu povo naquele estado terrível e lamentável, praticamente todos tocavam suas pernas, agarravam seus sapatos, seguravam em sua armadura. Ele apenas sentia apenas a vibração dos dedos escorrendo pelas suas vestimentas, dedos magros, frágeis, como se fossem de esqueletos.
Ele seguia seguro, embora por dentro seu coração agoniasse e lembrasse da fala de sua irmã, de que o povo nem conseguia pôr-se de pé e ele agora podia ver que se tratava realmente da mais pura e dura realidade. Não houve em seu trajeto até o portão de entrada da cidade, um homem ou mulher que tivesse se levantado para recepcioná-lo ou apenas cumprimentá-lo simplesmente faltava espaço no chão e alguns cidadãos dividiam o espaço com os cadáveres, alguns até mesmo se deitavam sobre eles como se tivessem já aceitado seu inevitável destino, a morte.
O cavaleiro seguia por aquele enorme corredor, o qual parecia eterno e sem fim, mas finalmente, depois de muitas lágrimas escorridas pela sua própria face, inúmeras fungadas e gemidos doloridos de si mesmo, que consistiam no único som que ouvira além dos lamúrios de todos que eram encontrados e praticamente ultrapassados em seu caminho, ele atingira a entrada da cidade.
Suas mãos abriram aquele enorme portão gerando a entrada do sol, da luz da tarde, do calor desértico, um ar seco e morto que lhe enchia as narinas e secava-lhes. Éomer teve que fechar parcialmente os olhos e logo um aroma fétido de decomposição preenchia todo o ar. Havia montanhas de orcs mortos, cavaleiros decapitados, cortados ao meio, mãos, pés e todo tipo de coisa macabra que floreava todo redor da cidade como se fosse uma floresta de corpos.
Ele deu exatamente cinco passos para depois cair de joelhos. Suas mãos tocaram o solo árido e desértico, quente como a mais fervente brasa, que logo lhe queimou as palmas das mãos gerando bolhas, mas ele permitiu que elas continuassem praticamente coladas àquele solo de argila seca, quase arenoso. Sua face comprimia-se em dor, seus lábios abertos não emitiam um suspiro ou respiração, seus olhos encontravam-se vendados, cheios de lágrimas e um berro ele entoou aos quatro cantos, jogando seu tronco para trás e abrindo os braços, berrando mais uma vez, para logo sentir o sol escaldante torrar-lhe a face, mas ele não reclamou ou se moveu e tomou para si a força do sol, sua luz, seu calor e levantou-se com uma face guerreira, restaurada como uma fênix que renascera das cinzas.
– Realmente... – Engoliu em seco se pondo de pé, mantendo as mãos na própria cintura. – Não tenho alternativas. Minha cidade... – Sua face adoecera manchando-se em dor novamente. – Meu povo... – Fechou os olhos e puxou o ar devagar, soltando-o lentamente, voltou a olhar para frente. O solo encontrava-se numa tonalidade rosada, devido à mistura do sangue dos mortos com a terra.
Ele foi descendo aquela planície, tamanha força usava para seguir adiante, deixando para trás seus melhores guerreiros misturados àquela podridão mórbida. A lealdade, estava ali, derramada naquelas terras, lembrara-se de Thranduil e pensou que aquele rei não era tão louco assim, ele seguiu mais adiante e encontrou um cavalo magro, mas que resistia fortemente mastigando alguns capins secos, que pareciam palha.
Tocou-lhe a crina e o animal balançou a cabeça, parecendo reconhecer que pertencia àquele rei.
– Tsc...
Éomer olhou para os lados e viu alguma amostra de água, a mesma encontrava-se acinzentada, andou até ela com o bichano, segurando-lhe as amarras, agachou-se ali cavando um pouco e vendo que parecia verter uma água mais clara, encheu as mãos com aquele líquido e ofertou àquele animal que tomou tudo rapidamente, repetira essa ação algumas vezes e ao ver que o animal ainda parecia sedento, retirou seu elmo e encheu-o com o líquido ofertando ao bicho que tomou tudo rapidamente, feito isso, o animal balançava o rabo animado, batendo as patas no chão, fazendo com que o rapaz sorrisse.
– Pronto para mais uma batalha?
E afagava a crina daquele animal que parecia sorrir-lhe. Éomer olhou para si, retirou o elmo jogando-o ali, retirou sua própria armadura, pois seria um peso extra para aquele animal, a seu ver, bastante debilitado. Sim, todos os cavaleiros de Rohan sabiam muito bem como reconhecer a situação de um equino, sua saúde, conheciam a melhor mistura de ração, sabiam cruzar as melhores raças e gerar assim, cavalos de sangue puro, assim como aquele, fortes e resistentes.
Só agora ele pôde ver que havia alguns cavalos espalhados por ali e a maioria encontrava-se ao lado de seus donos, obedientes, embora provavelmente já se encontrassem ali por um considerável tempo. No entanto, eles ainda permaneciam ali, protegendo seus donos, aguardando que logo subissem em si mesmos.
Éomer respirou profundamente e recolheu cada um deles, entregou-os a um soldado que estava próximo da entrada.
– Guarde-os no estábulo, ao menos o que restou dele.
Eram cinco cavalos puro-sangue.
– Espera...
O rei parecia pensar e resolvera que o cavaleiro o acompanharia com aqueles animais.
– Tem uma cidade mercante, ao menos podemos conseguir algum alimento ou sementes.
– Qual meu senhor?
– Ouvi dizer uma tal de Cidade do Lago. Espere aqui.
E Éomer foi procurar a irmã, comentou com ela que ela deveria seguir para a Cidade do Lago e vendesse aqueles cavalos, em troca de comida, alguns mantimentos e alguns itens de cura, como bandagens, remédios e ervas.
– Acho uma brilhante idéia! – Disse animada Eowyn.
– Eu seguirei para as Florestas das Trevas, não sei se demorarei, se conseguirei achar o castelo, pois aquela floresta é macabra, mas se eu não voltar... – Ele segurou ambos os ombros da irmã, colocando as mãos ali, olhava-a fixadamente sem ao menos piscar. – Mudem-se para Gondor, todos vocês, aceitem Aragorn como rei, ao menos terão alimento e alguma moradia.
– Irmão... tem certeza que será tão terrível assim?
– Você nem imagina, mas me deseje sorte. Eowyn, me escute, arranje mantimentos de viagem, itens de cura e simplesmente, se eu não voltar em uns cinco dias, por favor... sigam para Gondor.
– Entendo. – A jovem tinha lágrimas nos olhos e os piscavam bastante.
– Não é bom que fiquem numa cidade como essa sem proteção, aqui está bem pior que Gondor... – Éomer olhou para os lados, engoliu em seco e voltou a pressionar os lábios. – Bem pior, acredito que se conseguir juntar umas cinquenta pessoas será muito. – Ele deixou a cabeça tombar para frente, transparecendo muita dor, respirou profundamente tomando coragem e finalmente deu um passo para trás distanciando-se de sua irmã. – Cinco dias e se mandem, não é bom ficarem aqui... não sabemos se poderá aparecer orcs... ou algum outro animal, esses cadáveres poderão atrair animais desprezíveis e perigosos. – Voltou a encará-la. – Me prometa.
– Sim, prometo! – E tocou a face de seu irmão, fazendo uma face de choro, logo ambos se abraçaram. – Boa viagem. – E ela se encolheu no peito do irmão chorando abertamente, o abraçando mais apertado.
– Tudo ficará bem, lutarei para isso, lhe dou minha palavra... tudo acabará bem. – Disse gentil o cavaleiro afagando-lhe os fios dourados. – Tenho que ir. — Se distanciou e consentiu com a cabeça, para logo subir no cavalo. – Até mais, irmã.
E a jovem acenava com um lenço branco numa das mãos, mas antes que Éomer se distanciasse ou começasse a cavalgar, ela correu até ele e entregou-lhe o lenço.
– Esforce-se para trazê-lo de volta para mim!
Éomer sorriu, guardando-o num bolso anexado ao seu cinto.
– Eu o trarei, me esforçarei para isso. Até!
E finalmente começou a cavalgar na direção da cidade dos elfos da floresta, antes conhecida como Floresta Verde.
O clima não facilitava, estava muito quente e quase impossível de manter-se exposto a ele, o Sol encontrava-se a pico, no céu não havia uma nuvem sequer, mas ele prosseguiu corajosamente e o cavalo pareceu retomar forças de onde não se sabia que tinha, logo chegando ao destino.
À macabra casa arbórea de Thranduil.
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