Legolas e Aragorn / Elrond e Gandalf
15 O resgate.
Gandalf, Frodo e o elfo, até então desconhecido, desciam a ladeira que dava para a montanha na qual havia ocorrido o ritual. Ela ficava no topo de uma serra que crescia literalmente para cima, se afunilando no final.
Eles seguiam a passos lentos, pois tanto o mago quanto o hobbit, sentiam as pernas pesadas e conservavam a respiração pesada e lentificada. O sol, agora, encontrava-se em seu pico, contrastando com as sombras causadas pela densa floresta que cercava o local, fator que dificultava mais ainda o “caminhar” dos renascidos.
– Nossa, esta mata é bem densa. – Comentou o hobbit olhando ao seu redor.
– Sim, é a parte não “assumida” pelo Rei das Florestas Negras...
– Por que ele não assumiu este terreno como extensão do reino, Gandalf?
– Acredito que seja pelas constantes invasões, ela se localiza entre o Reino de Aragorn e as Florestas Negras, funciona como um corredor de passagem que conecta ambas as fronteiras. Por isso, Legolas achou melhor que o ritual ocorresse aqui.
Dito essas palavras com tamanha dificuldade, o mago acabou por sentar-se para tomar um gole de ar. Frodo o seguiu, enquanto que o elfo ofertava-lhes água e mantinha uma expressão preocupada ao olhar para os outros dois.
– Estão muito cansados?
– Sinto como se carregasse alguns quilos nas costas... peso maior que o do anel. – Disse Frodo coçando o pescoço.
– Sim, deveríamos descansar mais, mas como o rapaz disse... – Comentou o velho olhando para o elfo – Tem orcs a caminho... só me surpreendo de não virem nos buscar. – retrucou baixo.
– Provavelmente, nosso Senhor Elrond tem coisas mais...
Antes do elfo terminar, Gandalf comentou rude:
– Importantes, meu caro?
– Er... bem... não era isso que ia dizer... é só que... bem, pelo que sei, Nosso Senhor Elrond e o elfo Legolas tinham algo a acertar, parecia ser um acordo... já que ambos são de reinos distintos.
Gandalf soltou uma risada seca, Frodo acompanhou sua atitude com seus olhos claros.
– Gandalf? – Retrucou o pequeno inseguro.
– Agora entendes?
– Si...sim.
Falou o hobbit se encolhendo ao lado do mago, tocando a lateral da cabeça num de seus ombros, Gandalf levantou um dos braços, de forma a abraçar parcialmente o pequeno, o puxando para si. O elfo levantou e se afastou dali parecendo observar se no horizonte havia alguma ameaça se aproximando.
– Agora tô surpreso, Legolas e... ?
Gandalf “deu de ombros”, movimentando bem de leve o pequeno que estava encostado a si.
– Essa eu não esperava... bem, às vezes, boatos se confirmam.
– Prefiro nem pensar nas hipóteses.
– Mas se Legolas deveria “ter” alguém, não seria Aragorn?
Comentou o pequeno destacando a palavra, pronunciando-a num outro tom, de modo que ficasse com significado ambíguo. O mago soltou umas risadinhas baixas olhando para o pequeno com as fartas sobrancelhas levantadas.
– Eu não sei de nada, meu pequeno amigo... melhor nem refletir sobre esta dura realidade.
– Vulgarizam tudo, né? Bem que você disse antes.
– Nem todos são como os hobbits, Frodo... nem todos...
– Eu sou contra este tipo de coisa.
Comentou o pequeno levantando-se e parando a um passo do mago, este segurava com ambas as mãos, um pedaço de tronco que usava como apoio.
– Eu... se você permitir, gostaria de conversar com o Senhor Elrond.
– Frodo... não se meta aonde não deve, esqueça... brigar para quê? Dar murro em ponta de faca? Eles se conhecem há milênios... elfos convivem harmonicamente há tantos e tantos anos... para quer se estressar? É assim e sempre será assim.
– Mas é errado!
– Para nós, amigo... para nós... eu sempre fui fã de ter uma companhia somente, de qualidade mais importante que quantidade, mas nem todos conseguem levar isso tão a sério... e também, sou um velho acabado... chega a ser covardia me comparar ao supremo Legolas, filho legítimo de Thranduil.
– Mas que isso, Gandalf, e daí se ele é belo, formoso ou sei lá mais o quê, se o Lord Elrond...
O mago sinalizou para que o pequeno abaixasse mais a voz, Frodo nem percebera que estava berrando alvoraçadamente.
– Ah! – Se surpreendeu o pequeno tapando a boca, mas logo continuou mais baixinho – Bem...
O hobbit voltou a sentar-se próximo do mago, tocando-lhe um dos joelhos, olhando-o devotadamente.
– Se ele apenas considera a beleza aparente frente a outras coisas, como o interior... então, Gandalf, com todo respeito... ele não o merece.
O elfo que vigiava a paisagem se surpreendeu ao ver Seu Senhor ali, parado diante dele. Elrond tinha manchas de sangue pela vestimenta élfica, sinal nítido de batalha, e ele se encontrava sobre um cavalo de tonalidade acinzentada. O Lorde havia chegado com mais vinte e cinco elfos, só que o restante havia ficado num patamar da serra mais abaixo, descendo do cavalo, aproximou-se do elfo que mais que depressa se ajoelhou o cumprimentando.
– Meu senhor.
– Onde estão os dois?
O elfo mantinha os olhos arregalados e olhava fixadamente para o chão, sentia a testa suada e sua respiração estava um tanto comprometida devido ao seu nervosismo. Elrond franziu os celhos, entrando por entre algumas árvores, acabando por vê-los mais ao fundo da densa vegetação, sua poderosa audição conseguiu identificar que conversavam e, ele até conseguia entender alguma coisa, quando finalmente ia fazer-se notar sua presença, ouviu algo que o desnorteou:
– Meu amigo, como disse, sempre foi assim e sempre será. Nossas existências são tão breves... porque raios elfos se prenderiam àqueles que duram um “piscar de olhos”?
– Hum... mas mesmo assim, Gandalf... é tão injusto... tão cruel... ele ter os amantes dele, sasaricar até não poder mais e depois vir conversar contigo com a maior cara de pau! Posando de Senhor mais respeitável da terra-média!
– Frodo... acalme-se, já lhe disse para falar mais baixo.
O hobbit só agora se dera conta que estava novamente de pé e que gesticulava afobadamente.
– Ops... desculpe denovo.
– Por isso, gosto de vocês... tão sinceros e amigos... fiéis a propósitos tão nobres...
– E aquele elfo dizer que o senhor Elrond tinha coisas mais importantes para resolver com o Legolas... imagino o que deve estar rolando em Valfenda neste exato momento! Imladris...
E o hobbit dançava, gesticulando de forma ridícula, comentando baixo, brincalhão:
– Óh, senhor Elrond... eu tenho que resolver umas coisas.... – E Frodo pareceu imitar outro elfo, adotando uma postura mais astuta e séria – Pois não, Legolas... vamos resolver tudo no meu quart...
Neste instante Elrond permitiu-se aparecer, surgindo entre duas enormes árvores. Sua face era amigável, gentil, parecendo que não havia ouvido uma palavra sequer do discurso animado do hobbit, de sua representação quase teatral. Frodo mantinha os olhos arregalados e agachou-se lateralmente à Gandalf, parecendo receoso, ao contrário do mago que sorria expressando quase uma careta animada e jocosa.
– Vejo que se recuperaram muito bem. – Comentou Elrond parando diante deles.
– É só impressão, meu amigo... eu e o pequeno, temos dificuldade para andar.
– Entendo.
Elrond encarava fixadamente o hobbit, logo olhando para seus pés, mantinha uma face astuta, desconfiada, pois havia acabado de ver o pequeno “dançando”, representando a si mesmo e a Legolas, mas não comentou nada a respeito, mantendo um sorriso de satisfação por ver que ambos estavam vivos. O elfo finalmente fixou-se na face do mago, seu olhar tinha um brilho tênue, escondendo a explosão de alegria que sentia e fazia seu coração, mesmo que o corpo estivesse parado, pulsasse rapidamente.
– Aguardem um pouco... irei buscar mais alguém para ajudá-los a andar.
O mago levantou-se apoiando no galho seco que tinha numa das mãos.
– Eu não preciso... ajude o pequeno.
E só agora, Gandalf, ao dar alguns passos e encontrar-se mais perto do Senhor de Valfenda, pôde ver sutis arranhados em sua armadura e algum sangue que parecia escorrer pelos elos de metal da mesma, o mago franziu a testa e tocou um dos braços do elfo. Frodo apenas os observava e pôde verificar, quantas vezes quisesse, que aqueles dois pareciam realmente terem nascido para ficar juntos, o amor mútuo era bem nítido ao hobbit, fato que fez o pequeno reprimir suas críticas e deixá-las esvaziarem dentro de si a ponto de sumirem.
– Veio de uma batalha? – Comentou o mago.
O elfo correspondeu com um olhar, mostrando uma face consideravelmente ingrata e cínica.
– Sim.
O Senhor olhou na direção do hobbit, comentou baixo:
– Embora Legolas tenha me ocupado bastante ontem.
Gandalf engoliu em seco, seu Lord havia escutado alguma coisa, isso se não tivesse sido tudo.
– Levantei-me cedo, estava preocupado com vocês...
Elrond queria e muito abraçar Gandalf, tocar-lhe a face e dizer-lhe como estava preocupado, que nem dormira noite passada.
– Está tudo bem, Senhor Elrond?
– Sim. – Sorriu o elfo. – Melhor que vocês.
Comentou agachando-se diante de Frodo, colocando-o sobre suas costas. Seguiu até o mago, parando ao seu lado.
– Realmente consegue andar?
– Sim.
Estes sorriam mutuamente.
– Entendo, ande devagar, Gandalf.
– Certo... certo... papai.
Elrond deixou que Gandalf seguisse na frente, Frodo comentou baixo:
– Não entendo como deve haver mais que dois. Duplas funcionam melhor.
O elfo respirou profundamente, sentiu certo ódio do pequeno, mas ele tinha razão, a vida diplomática dos elfos era um tanto... complexa, o Lorde nem sempre concordava com suas regras ou leis, mas em prol de um bem estar maior, acabava seguindo-as rigorosamente. Saídos dali, Elrond colocou cuidadosamente Frodo sobre o cavalo de algum subordinado.
– Cavalgue mais devagar – Ordenou a um elfo.
– Sim, senhor.
Feito isso, ele mesmo subiu em um cavalo e auxiliou Gandalf a fazer o mesmo, somente começou a cavalgar, depois que sentiu aquelas mãos que tanto amava tocaram-lhe a cintura e finalmente rodeá-la com os braços.
– Prontos?
Todos consentiram, Gandalf resmungou baixo:
– Tem orcs perto do rio.
– Tinham, meu amigo.
– Ah... entendi.
O elfo permitiu-se soltar uma risada discreta.
– Segure-se bem.
– Sim, Meu Senhor.
E logo começaram a seguir para Valfenda.
Ao chegarem lá, O Senhor, ordenou que os dois fossem encaminhados para quartos específicos, onde receberiam um tratamento complementar, regado a boa bebida e bons alimentos, além de ervas medicinais.
Lindir aguardou que Elrond houvesse tomado banho e trocado de roupas, para encontrá-lo em seu quarto e comentar que pretendia visitar uma cidade. Elrond se surpreendeu, já que o menestrel nunca saíra de Valfenda.
– Você está falando sério? – Retrucou o Lorde, realmente surpreso.
Comentou o Senhor de Valfenda vestindo uma roupa nobre élfica, a qual tinha abotoaduras brilhantes na altura do peito e desciam-lhe em duas abas pelas laterais das pernas, o mesmo vestia botas de couro legítimo.
– Sim, meu senhor.
– Mas Lindir, o que causou tamanha mudança? Soube que receberam visitas enquanto tive fora...
O elfo acolheu-se dentro de si mesmo, sem encarar o seu lorde, tinha receio de magoá-lo ou que Elrond pensasse algo ruim a seu respeito.
– Si...sim.
– Anão Gimli se não me engano...
Lindir corou na mesma hora, ainda focalizava o chão.
– E... exato, meu senhor.
Elrond levantou uma das sobrancelhas voltando a se olhar em sua penteadeira, esfregava uma escova nos fios negros, quando Lindir colocou-se detrás de si tomando a ação para si.
– Eu decidi superar meus limites e conhecer outros reinos...
Comentou com uma voz amável, levemente passiva e acolhedora, enquanto escovava os fios de seu Senhor.
– Ele me deu uma miniatura de cavalo... é perfeita.
Sorriu o dócil elfo, terminando de escovar e amarrando cuidadosamente alguns fios detrás da cabeça de seu rei. Feito isso, algumas amarras com os fios foram dadas para dar um aspecto de leveza e formar sutis cachos.
– Obrigado.
Comentou Elrond levantando-se e virando-se para o outro.
– Leve o que quiser, precisa de guardas?
– Não senhor.
– Tem certeza? O caminho pode ser demasiado longo e... sei que nunca saiu daqui, não teme que perder-se?
– Eu decorei cada trecho que eles seguiram... é só descer a serra de Valfenda... entrar duas entradas à esquerda,seguir um riacho e descê-lo até chegar aos muros.
– Co...como soube disso tudo?
Lindir abafou uma risada com a palma de uma das mãos, continuou meigamente.
– Um mapa em sua biblioteca, meu senhor.
– Ah... sim...
Elrond sorriu discretamente, tocou-lhe um dos ombros.
– Sempre que desejar voltar, Valfenda estará de portas abertas.
– O...obrigado.
E o jovem elfo saiu dali, foi até seu quarto, pegou a sua bolsa de seda, esta já estava pronta com tudo que precisaria, colocou-a e desceu dali, a fim de pegar um cavalo. Feito isso, subiu sem dificuldades no animal e colocou-se a seguir para o reino que tanto aspirava.
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