O afago que estava sendo realizado fez o velho fechar os olhos. Sentia o toque de veludo de Elrond a cobrir-lhe a pele, o mesmo era feito lentamente, com toda cautela. A pele, consequentemente, reagia ao carinho, aquecendo-se com o toque, acostumando-se ao contato, porém, não reagindo a ponto de defesa, mas aderindo-se de certa forma àquela parte estranha a si, aceitando-a, trocando um calor morno e gentil entre as partes.

Gandalf respirou profundamente e soltou o ar devagar elevando as pupilas na direção da face do outro. Seus lábios emudeceram e a seu aspecto rotineiramente zangado e rabugento, deu lugar a uma feição feliz, amena, passiva. Sim, entregara-se de corpo e alma àquele outro homem, seu coração fora prontamente fisgado desde a primeira vez que se conheceram.

– Cavalos...

Sussurrou o mago ainda se deliciando com o contato, as nuvens do passado lhe rodearam os pensamentos, e, ele mesmo, parecia transportado para anos atrás.

– Belos cavalos obedientes...

Elrond deixara que o outro distanciara-se do momento, era como se conseguisse ver que o outro, na verdade, "sonhava acordado". O Senhor sorriu e pensou que talvez anos de convivência, fez com que Gandalf aprendesse a maneira diferente de dormir élfico, de olhos abertos.

– Está sonhando, meu caro?

Ao ouvir a voz, o mago levantou a face olhando para um dos lados, agitado soltou uma frase tão rápida como uma bufada:

– Bem diferente daquela lhama que está do lado de fora devorando cada plantinha minha! Ora, vê se mereço isso! Francamente!

– Lhama?

– Sei lá que nomenclatura tem aquele bicho... nunca vi um alce ou veado com chifres tão grandes.

Gandalf tomou um pouco de café, feito isso, prontamente secou os lábios com um guardanapo.

– Interessante, está criando animais agora, meu amigo?

– Cruzes! Como aquele, jamais!

Elrond sorria espontaneamente, pois sabia que se referia ao animal daquele outro elfo, que estava ali, adormecido, como que num processo de hibernação. Quando o mago percebeu que seu amor estava brincando consigo, comentou baixo, olhando desconfiado para o outro que dormia como uma estátua imóvel.

– Ei... shiu...

Disse o velho se inclinando para um dos lados, O outro aproximou-se também ouvindo-lhe obediente.

– Sim?

– Será que você poderia ordenar aque aquele veado desse... hum...

O mago gesticulou rodando uma das mãos no ar, fazendo círculos, era sua maneira peculiar de indicar que pensava numa maneira de falar melhor.

– Ordená-lo que desse uma volta por aí e se perdesse para nunca mais voltar?

Ao ouvir o mago, Elrond voltou-se a sentar direito, ereto, como um verdadeiro elfo e retrucou baixo:

– Que cruel, Gandalf, mesmo vindo de você....

Disse tomando um gole de água, depois continuou:

– Até posso, mas o rei ali... como iria embora para sua morada?

– Cruzes! É mesmo...

Elrond tocou-lhe uma das mãos e o olhava com um brilho gentil, disse meigo, consolador:

– Podemos ver o estrago que ele causou... dar-lhe alimento e pedir-lhe que descanse.

O mago arregalou os olhos consentindo variadas vezes com a cabeça, fato que fez o elfo sorrir, por achar graça daquela atitude.

– Sim, sim, concordo, Lord Elrond... ordene e peça que leve o senhor dele pra bem long...

– Shiu... não queremos que ele desperte antes disso, não?

– .... !!!

Gandalf consentiu com a cabeça, levantando-se, logo sendo seguido pelo seu melhor amigo.

– Veremos... onde ele está?

– Me acompanhe.

– Perfeitamente.

E lá estavam eles, nos fundos da casa, o animal acabara adormecendo sobre uma relva verde e jovem, o Senhor olhou-o retucando baixo:

– Problema resolvido.

– Hum, por enquanto.

Elrond não deixou de notar que tinham algumas plantas específicas as quais o animal havia degludido, agachou-se ali.

– Não é por menos, esta planta causa sonolência.

– Animal sábio esse. — Disse o mago ironicamente — Sempre puxam o dono.

Elrond levantou-se reprimindo o que o mago disse:

– Não queira ter Thranduil como inimigo, Gandalf.

– Eu não fiz nada, ele veio atrás de mim como uma raposa doida para se alimentar... raposa burra porque minha carne não é das melhores....

– ... que tipo de planta é essa?

O Senhor de Valfenda examinava uma folha, arrancou a amaçando na palma da mão, sentia-lhe o cheiro. O mago engoliu em seco.

– É uma planta especial.

– Para magia sinistra.

Elrond jogou a folha amaçada ao chão com certa raiva, seu olhar tornara-se reprovador.

– Quando pretendia me contar? Usando magia obscura, negra, Gandalf?

– Acha que consegui voltar como, meu lord? O importante é que...

– Gandalf. Quero que me conte... esperei tempo demais visando que se recuperasse completamente, não queria estressá-lo ou incomodá-lo, mas preciso saber como fez para voltar, dizem que havia morrido.

– É... é uma longa história...

– Voltou a ser o Cinzento que conheço... me disseram que se tornara um mago Branco... e que partira com Frodo...

Elrond se aproximou do velho parando diante dele, continuou com uma voz calma, mas assertiva e objetiva como uma excelente mira.

– Depois de longos dias, você me aparece com Frodo... deixando-o no Condado e em outra campanha junto com Legolas e Aragorn.

Elrond cruzou os braços mantendo o olhar fixado no mago.

– Como conseguiu? Usando magia sinistra? Apelando para as Florestas Negras?

– Bem.. às vezes nem eu mesmo acredito, meu amigo... mas digamos que tive que improvisar certa magia arcana de necromancer.

– E isso significa que...

Antes que o elfo completasse, Gandalf continuou:

– Que devo me vigiar. Sam está cuidado de Frodo e o bservando também...

– Literalmente estão mortos, é isso?

– Escute, meu Senhor... como disse, é uma longa história...

– Tempo é o que não me falta, Gandalf. Me conte... sabe que me preocupo com você.

O Senhor não parecia ceder, o velho finalmente resolveu contar-lhe tudo, depois de dar uma espiadinha para ver se o outro ainda dormia. Elrond disse rudemente:

– Ele está dormindo, quando acordar eu saberei, me conte.

– Aguardou todos esses dias... por isso não me tocou como... antes...

– Sim, temia que fosse exatamente isso que está me dizendo... que estivesse morto e tivesse dado um jeito de voltar através de magia necromântica. Sim, tive medo de quando abraçá-lo, desmontasse algo em você... como seu joelho que se desfez e tive que... curá-lo. O que o fez arriscar tanto assim, ama tanto a Terra média para viver como um morto vivo?!

Gandalf soltou um longo suspiro, Elrond continuou:

– Gandalf, eu adorei realmente que esteja aqui, mas não com um corpo que não tem prazo nem validade e que pode virar...

O Senhor iria dizer "fertilizante", mas preferiu dizer de outra forma:

– Um nada de maneira imprevisível... podemos estar conversando e você, de repente, se desfazer!

– Eu sei... eu sei...

– Gandalf! Por favor!

Thranduil saiu da sala e deu a volta pela casa, encontrando Elrond sentado num tronco cortado e Gandalf tocando-lhe um dos ombros. Quando o elfo loiro se tornou percetível, o mago logo olhou-o, fato que não fora acompanhado por Elrond que estava muito debilitado com as informações que parecia ter-se prendido dentro de si mesmo.

– Eu posso ajudá-lo, Gandalf.

– Rei Sindarin...

Elrond levantou a face encarando o outro com curiosidade.

– Meus caros, posso realmente ajudar esse... — deu uma pausa.

– Diga logo, Thranduil. — retrucou Elrond.

– Mas, com uma condição...

O Elfo loiro tocou a cabeça do alce afagando-lhe, este despertou e o mago reclamou baixinho, xingando tanto o bicho quanto o dono.

– Que Gandalf se torne apenas seu amigo, Elrond.

– Como?!

O Elfo moreno levantou-se encarando com uma face atortoada, como se tivesse levado um grande golpe.

– Exatamente o que disse, meu caro.

Gandalf respirou profundamente e engoliu a saliva com dificuldade.

– Se por acaso...

Thranduil foi se aproximando dos dois, cruzou os braços os olhando "de cima", mantendo um ar prepotente e superior.

– Desconfiar que estão furando o acordo, o mago morre. Conheço uma erva que cura mortos.

– Como assim?

– Ela regenera as células, a pessoa morre novamente, mas apenas sua parte já falecida, para depois renascer. Nem todos sobrevivem ao renascimento.

Gandalf olhou Elrond, este correspondeu-lhe e disse dolorosamente.

– Eu aceito. Eu e Gandalf... voltaremos a ser apenas... amigos.

– Entendo. Voltará a me visitar?

O Elfo loiro segurava com força o queixo de Elrond que o encarava sem piscar.

– Sim. Toda semana, três vezes.

– Ótimo. Gandalf me aguarde em cinco dias, coletarei cada raiz da composição...

Thranduil subiu no seu animal e colocou-se a sair dali.

– Ele não perde a mania de tratar os outros como sua propriedade.

– Certas coisas.. não mudam nunca, meu caro. Ao menos eu e Frodo poderemos ter uma vida normal...

– Ou não.

– Embora... nós dois não possamos mais... você sabe... segundo o acordo.

Elrond levou uma das mãos ao próprio queixo, pensava.

– Espere...

– O que é?

– Será que Legolas conhece essa receita?

– Você não acha que se ele soubesse, já não teria nos contado?

– Mas ele sabe que estás usando magia necromântica?

– Não.

– Se Legolas nos dizer, não precisamos enganar Thranduil...

– Enganar?

– Gandalf, eu nunca conseguiria cumprir essa promessa... desde a primeira vez que o vi, sempre o desejei. Enlouqueceria se... enfim...

– Mas isso não causaria uma briga em família?

– Esta família já está rompida há muitos séculos, e além do mais, só iríamos agilizar o processo, ou acha mesmo que Thranduil permitiria que seu filho primogênito namorasse um espadachim humano?

– O quê?

– Acredite... o quarto deles... no dia que foram embora... fedia e muito a... você sabe.

– Nossa! Nunca pensei que...

– Se atualize, Gandalf. Se atualize. Irei encontrar Legolas, você fique aqui e siga com o plano. Não queremos que Thranduil perceba o que planejamos.

– Perfeitamente, meu Elrond.

O Senhor abraçou forte o mago, ficando um tempo assim.

– Não se preocupe, meu amigo... irás sobreviver.

– Sim, com certeza.

– Por isso, nada de acordo.

Elrond segurou-lhe forte pelo queixo o olhando provocador.

– Quero ter você...e o terei tantas vezes quanto puder. Me aguarde.

Dito isso, o elfo andou até seu cavalo, fato acompanhado pelos olhos do mago que acenou quando este subiu no cavalo e começou a cavalgar.