Lindir encontrava-se ainda, mesmo depois de um considerável tempo, a observar a paisagem que dava para o vale mais abaixo, caminho seguido pelo anão e pelo outro elfo, poucos instantes antes. Ele soltou um longo suspiro, levando de encontro ao peito, a pequena oferenda de metal forjado dado devido à sua amizade e gentileza.

– Gimli...

O jovem pensou em como seria conhecer aquele outro reino, um reino que agora, ecoava aos quatro ventos. Todos os demais, mencionavam que o rei Aragorn era justo, que todos, em suas terras, tinham total liberdade para que vivessem como desejassem, fator que estava gerando a migração em massa de variados grupos, de variadas raças.

A maioria buscava um canto, um pedaço de terra ou uma casa para morar, elfos do oeste, consistiam na grande maioria. O rei, bondoso, nunca recusou moradia a nenhum deles, isto incluía também hobbits e anões. O espadachim observava sentado a uma enorme mesa, uma jovem que veio visitá-lo. Como Aragorn ainda não anunciara uma esposa, era comum receber visitar de mulheres, uma mais bonita que a outra, mas em seu coração, ele parecia sentir que Arwen ainda vivia, sentia-a longe, até pensou em comentar isso com seu amigo elfo, mas interpretou que a meia-elfa se tornara um obstáculo que só traria tristezas a Legolas, por isso, preferiu guardar para si, estas intuições.

– Espero que estejam gostando do banquete. — Mencionou o lord sorrindo amigável para todos ali presentes.

– Sim, my lord, está muito saboroso. — Comentou uma dama loira, filha de algum duque.

Aragorn não deixou de notar que ela tinha um baita decote no vestido, fato que o fez encarar os seios volumosos e alvos e sentir um certo incômodo nas suas áreas baixas. Há tempos ele não tinha uma mulher, Arwen era como uma deusa para si, nunca tivera relações com ela, até por respeito a Elrond. Pretendia se carsar com ela antes, de "desonrá-la", mas agora, ele pensava no que aquela recente relação com seu fiel amigo se tornaria.

– "Aquilo que fizemos, foi sexo, não?" — Pensou o espadachim se ajeitando desconfortavelmente na cadeira. — "Se bem que.. foi sexo ou só uma troca? Não gera filhos... como aquilo pode ser considerado?"

Todos comiam animadamente, alguns bardos tocavam gaitas ao fundo. Aragorn, continuava com os pensamentos longe, distantes dali.

– "Legolas é um herdeiro ao trono também, tento imaginar a guerra em família que gerará quando descobrir que... o que fizemos... porque afinal de contas, eu nunca poderia assumir uma relação frente ao meu povo com ele, não é?"

O moreno tentava chegar a uma conclusão, mas perdia-se mais e mais em suas observações. Uma dama lhe perguntou algo e ele consentiu, sem muita paciência, mesmo que nem tenha prestado atenção ao que ela dissera.

– "Com quem poderia conversar sobre isso? Sou um rei, Legolas um herdeiro ao trono, o príncipe das Florestas Negras a oeste. Droga...."

O rei soltou um longo suspiro dolorido, apoiou sua testa numa das mãos.

– "E eu estou prendendo-o aqui... o pai dele, já deve ter desconfiado que algo está acontecendo..."

Agora, não só sua cabeça, mas o coração também doía. De repente, um cavaleiro adentrou ali, posicionou-se diante da enorme mesa falando alto, fazendo um anúncio:

– Senhor rei e convidados, venho lhes notificar a chegada de dois conhecidos do rei!

– Conhecidos? — retrucou Aragorn, empurrando a cadeira para trás e levantando-se.

Seus olhos esverdeados se arregalaram e sua face tornara uma felicidade só quando os viu, ele correra para os dois, abraçando-os.

– Gimli! Legolas!

– Estava entediado? — Comentou o elfo sorrindo amigavelmente.

– Deixe de ser rude, orelhudo! — Reclamou o anão comentando animadamente: — Pelo jeito, sentiu nossa falta!

– Sempre! sempre! Estão com fome?

– Nada como um bom Reino humano para ofertar carne da boa! — Disse o anão pedindo licença e sentando-se, arrancando um pedaço da perna do peru, ali servido. — ótimo banquete, meu amável rei! Fenomenal! — E dito isso, o anão abocanhou sem mais delongas a farta coxa.

– Ei... — Aragorn se dirigiu a um serviçal. — Por favor, traga-lhe cerveja.

– Isso que é reino, que delícia, não é mesmo?!

Todos os convidados riam daquele pequeno tão espontâneo, e , aparentemente, esfomeado. Aragorn sorria abertamente, até sentir a mão de Legolas tocar-lhe um dos braços.

– ... ?

Aragorn o olhou curioso, Legolas encarava o chão, comentou baixinho:

– Precisamos conversar, meu rei.

– Claro, claro. Por favor... — Disse Aragorn se dirigindo aos convidados. — Sirvam-se à vontade, retirarei-me por agora.

E todos continuaram comendo, o anão acabara por esquecer a cesta e o machado próximo da entrada dali, um serviçal lhe trouxe suas coisas.

– Senhor?

Gimli quase se engasgou, mas logo puxou pra dentro da boca, o pedaço de ave que tinha no canto dela.

– Sim?

– Suas coisas.

– Ah! Obrigado, meu caro!

O anão puxou a cesta para debaixo da mesa, empurrando-a com um dos pés, e só agora viu que uma carta pareceu cair dali de dentro dela. Ele inclinou-se, mas não tempo suficiente para que uma donzela, a qual estava ao seu lado, a pegasse olhando-a.

– És de Valfenda. Este símbolo... Elfo... Lindir.

O anão arregalou os olhos e pegou a carta afobadamente, arrancando-a da mão da jovem que olhou-o temerosa.

– Será que foi expulso por minha causa?

Todos os olhavam e só agora, Gimli pareceu notar que sua atitude um tanto suspeita e se tornara o assunto da mesa.

– Com...com licença.

O anão levantou-se carregando suas coisas, embora ainda levasse o pedaço de cocha numa das mãos e outra enrrolada num guardanapo de linho, ele sorriu pedindo licença e comentou baixo quando guardou o "mantimento" dentro do bolso da calça.

– Meu café da tarde... haha...

E saiu dali, direcionando-se até uma varanda. Colocou a coxa num parapeito da varanda e a cesta também, voltando-se à carta, a abrindo ansioso.

– Hum...

O anão limpou os olhos com a palma suja de uma das mãos, lamentou marcar a limpa carta com a gordura de seus dedos, mas a curiosidade era grande. Nela, estava escrito:

"Quando nos reencontrarmos, espero que seja de maneira menos apressada..."

– É verdade, isso foi culpa do orelhudo loiro, háhá!

Resmungava o anão como se conversasse com a carta.

– Eu gostei desse elfo, gostei mesmo! Hahaha...

E ele depois de balançar a carta para os lados algumas vezes e gargalhar um pouco, continuou lendo-a:

"Realmente, gostei de vosso presente, ele me faz querer arriscar a ida a terras remotas, diferentes daqui. Cavalos são seres livres, que viajam pelo mundo, conhecem as mais diferentes cidades e florestas..."

– Nossa, ele realmente conseguiu escrever essa porra toda naquele rápido intervalo de tempo? Quando foi buscar a cesta para mim? Como ele previu que iria dar-lhe o cavalo?

Conversava consigo e continuou a ler:

"Espero um dia, realmente, reencontrá-lo e você poder apagar minhas rudes lembranças de seu avô. Ele viera a Valfenda e eu acabei por me impressionar negativamente, mas vós... me desperta a vontade de saber melhor sobre outros mundos..."

– Isso é um convite? Que esse elfo ta planejando? Porra, Legolas nem está aqui... que porra esse elfo tá fazendo, me cantando? Isso é possível, um elfo cantando um anão? HAHAHA! Porra... cadê aquele orelhudo loiro?

Novamente o anão voltou a ler a carta.

"Aguardo ansiosamente nosso reencontro.

De seu, Lindir."

– Hum, meu Lindir... estranho, estranho.

O anão colocou a carta num bolso de sua calça, amassando-a ali de forma a caber. Voltou a pegar a coxa e dar-lhe uma mordida, observava o horizonte dali, as casas, as pessoas, de repente, o sorriso gentil do elfo preencheu-lhe os pensamentos, fato que fez o anão balançar a cabeça variadas vezes.

– Gosto de uma buceta... buceta... seu elfinho efeminado... você não?

Deu outra mordida na coxa chegando-lhe até a morder o osso, sentia-se agitado, tenso. Voltou-se para a direção da porta e jogou o osso dali de cima, sem se importar se acertaria alguém lá embaixo do castelo. Legolas passou com Aragorn, ficando ambos numa varanda ali perto. O anão olhou para os lados, o castelo tinha muitas varandas, mas só aquelas duas estavam ocupadas.

– O que está pegando? O orelhudo está estranho...

Legolas e Aragorn pareceram conversar algo realmente importante, até que ocorreu uma cena que o anão quase caiu para trás: Aragorn afagou a face do elfo, que pareceu se tranquilizar com a atitude. Gimli rapidamente correu até aquela varanda, falando em alto e bom tom:

– Que porra tá acontecendo aqui?

– Gimli. — Aragorn olhou-o calmo.

O elfo levantou uma das sobrancelhas, olhando para o anão como se fosse realmente alguma coisa incômoda e desnecessária ao momento.

– Não faça essa cara de cú pra mim, elfo! Para mim essa careta é fome! pelo jeito como é magro, nem me surpreenderia!

Aragorn tocou um dos punhos do loiro, segurando-o levemente.

– Tudo bem, Legolas. Gimli é nosso amigo.

– Não está parecendo.

– Mais uma vez... o que está rolando aqui?

A varanda era bem espaçosa, fato que fazia o vento abafar o que eles conversavam ali, uma ventania mais forte anunciava mudança de tempo e servia como um isolante acústico ótimo para a ocasião, Legolas sabia disso, por isso, permitiu que a conversa continuasse, afinal de contas, Gimli deveria ser um dos primeiros a saber o que estava se passando ali.

– Me digam.

Legolas cruzou os braços encostando-se ali perto, numa mureta.

– Não vai responder à cartinha?

– Co..como sabe?

– Esse pedaço de papel élfico em sua calça imunda. A única coisa limpa em você.

Aragorn segurava-lhe ainda uma das mãos, comentou baixo.

– Calma, Legolas, calma.

– Olha aqui, eu não sei o que aquele elfo boiola quer...

Legolas arrancou o pulso da mão de Aragorn e mirou seu arco bem no meio da cabeça do anão.

– Pare com esse julgamento infeliz!

Berrou o elfo sentindo as mãos tremendo, estava realmente prestes a atirar a flecha. Aragorn se colocou diante do anão.

– Não vamos deixar que nos igualemos aos ignorantes do passado! Pare com isso, Legolas!

O elfo abaixou o arco, Aragorn se virou para o anão, tocando-lhe os ombros.

– Gimli, escute, pare de fazer julgamentos racistas.

– Hum...

– Eu e Legolas pretendemos unir os reinos.

O anão arregalou os olhos, e ao sentir as pernas fracas, caiu sentado ali, não parecia acreditar no que suas orelhas ensebadas e cheias de cera ouviram. Ele só conseguiu remoer entre os dentes:

– O...o quê?

– Isso mesmo que ouviu.

– Mas.. mas e a Arwen?

– Arwen?

– Si..sim!

– Ela está morta.

O anão parecia atordoado.

– Achei que tivesse sobrevivido.

– Não que eu saiba, Legolas até procurou se informar com Elrond, não foi?

Disse o moreno voltando-se para o elfo, este concordou com a cabeça.

– Foi isso mesmo.

– Hum... vo...vocês dois?

– Sim, só não sei ainda quando anunciaremos.

O anão levantou-se, dava sutis tapas na bunda as limpando por tocarem o chão.

– Isso vai causar uma revolução. Poderias se casar e... manter isso em segredo.

Legolas deu dois passos parando ao lado do rei e do anão.

– É isso que fará com o elfo?

– Como?

– O enganará...

O anão tinha as grossas sobrancelhas franzidas, parecia reflexivo, mas finalmente falou:

– Mas.. vocês não entendem? Isso será como romper com tudo que a terra-média pregou e construiu até agora.

Legolas continuou com uma voz firme, segura.

– Nossa ousadia e coragem libertará outros, a tradição já está rompida há muitos séculos. Nem sei como ainda segue se mantendo a duras penas e muita dor.

– Legolas tem razão. Conseguiremos mudar isso também, já temos as variadas raças convivendo harmonicamente nas minhas terras, isso já foi uma tremenda inovação.

O elfo sorriu consentindo com a cabeça.

– Gandalf quando voltar, ficará feliz ao ver o que está acontecendo.

O anão olhou para um, depois para o outro.

– Então, por favor, escutem-me ao menos uma vez... esperem só mais um pouco. Deixem a poeira baixar.

– Não é má ideia. — Comentou Aragorn olhando para o elfo.

– Entendo. — Retrucou o loiro pensaroso, logo voltou-se para o anão — Não irá magoar o elfo, não é? Está casado, Gimli? Soube que arranjou uma anã.

– Já disse e repetirei variadas vezes, gosto de uma buceta.

Legolas fez uma careta comentando com certo nojo.

– Por favor, dá para ser menos asqueroso?

Aragorn apenas riu dos dois, encostando-se numa parede ali perto, cruzando os braços.

– Se quer tanto uma... enfim... por que não jogou simplesmente a carta fora?

– Fiquei com pena.

– Ahm... sei...

O elfo olhava-o curioso, mantendo uma postura levemente arrogante.

– Ele vive naquela Valfenda, nem conhece o mundo.

– Normal, Lindir é um menestrel, faz cantos e poesias, e recentemente tem-se portado como o secretário oficial de Elrond. Ele nunca pegou em uma espada, nunca lutou... até onde sei, só sabe acertar algumas flechas.

– Ideal para Gimli. — Comentou Aragorn se reaproximando.

– Ué, porquê disse isso, meu amigo?

– Ele não correrá o risco de matá-lo quando sentir seu terrível bafo.

– Ha, ha, ha... muito engraçado.

– Acredite, ele já sentiu até o chulé desse anão. Ele fede a quilômetros de distância.

– É meu perfume especial, quer um pouco?

– Jamais, nunca! — Retrucou prontamente o elfo.

– Hahaha... senti falta de vocês, meus amigos.

Disse animado Aragorn tocando os ombros dos dois.

– Gimli, convide seu mais recente amigo. Legolas, sinta-se em casa.

– ôh anão. — comentou o elfo.

– Quem me incomoda? — Retrucou o baixinho troncudo.

– Ao menos mostre que tem coração e responda à carta.

– Ah, porra... tá querendo demais.

– Eu te ajudo, vamos.

– Vocês podem ir, tenho uma reunião com Boromir daqui a pouco.

– Certo, até mais amigo.

– Até.

E Aragorn saiu dali a passos apressados, a reunião, na verdade, já havia começado.