O tempo passava bem devagar dentro da caverna. O elfo escolhido para administrar o ritual observava atentamente a dinâmica que ocorria ali. Frodo fora o primeiro a acordar, o hobbit, sentou-se e olhava para os lados sentindo sua cabeça dolorida, sua visão também encontrava-se comprometida, embaçada, mas logo virou-se para o lado e pôde observar o mago, que parecia ainda adormecido. O pequenino levantou-se devagar sentindo as pernas dormentes, o elfo veio de encontro, comentando baixo.

– Acho melhor conversamos lá fora.

– Cer..certo.

O hobbit o acompanhou e sentou-se num pedaço de rocha ali perto, a noite imperava no horizonte e o pequenino sentia frio, fato que fez com que o outro lhe entregasse uma espécie de manta para aquecer-se.

– Sinto-me estranho. — Comentou Frodo. — Passou quanto tempo?

– Seis dias.

– Legolas voltou aqui?

– Não. Ele não pôde fazer isso... parece que... não querem levantar suspeitas, mas não se preocupe. Cuidarei de vocês.

– Te deixaram sozinho cuidando de nós dois?

– Sim, mas sou um elfo forte.

Comentou o jovem elfo sorrindo, Frodo também sorriu.

– Entendo. — Comentou o hobbit. — Gandalf deve acordar logo.

– Ele apresentou uma aura diferente da sua dias atrás.

– Como assim?

– A aura dele é prateada, já a sua, tem tom alaranjado.

– Deve variar com a raça... eu acho. — Frodo encolheu-se, achava melhor pensar isso do que algo pior. Cor prateada lhe lembrava os espíritos que o cercaram quando estava com a posse do anel. — "Gandalf não pode morrer..." — Pensou o pequeno.

– Vou buscar mais água, se ele acordar, tente cuidar dele.

– Sim. Obrigado.

E o elfo se desceu dali a passos rápidos.

– Para não levantar suspeitas... o que está acontecendo?

O Hobbit se levantou bisbilhotando dentro da caverna, curioso.

– Acordo logo, Gandalf. O clima na terra média está realmente estranho, só você consegue entender essa confusão toda...

E o pequeno ajoelhou-se ao lado do seu mais fiel amigo, logo após Sam, claro. Frodo lembrou-se do outro hobbit que tanto o ajudara, da despedida de ambos, dele chorando abertamente.

– Sam...

O hobbit deixou um sorriso ameno brotar-lhe na face, voltando a olhar o mago.

– Parece que... todos nós estamos carentes, meu amigo. Prevejo... mudanças...

O hobbit levantou-se olhando para o mago por cima de um dos ombros.

– Levantar suspeitas... o que ele quis dizer?

Frodo saiu dali e viu o elfo voltar com um cantil.

– Tome.

– Ei, me esclareça... que suspeita é essa? Ameaça de uma nova guerra?

Eles sentaram-se ao redor de uma lareira que o elfo acendia devido ao tempo esfriar, o elfo deu de ombros e uma voz, interrompeu o diálogo.

– Não, meu amigo.

– Gandalf!

O pequeno correu na direção do mago, sem se importar com o fato de deixar cair ao chão a manta. O mago segurava-lhe os ombros, olhando para baixo.

– Pequeno, mas forte, Frodo. Acordaste antes de mim, meu amigo?

– Si..sim!

– Haha... sabia que são mais fortes do que pensava... cof cof!

Gandalf teve que se sentar num tronco ali perto, o ar era difícil de sugar, como se seus pulmões estivessem adormecidos e gelados, ele tossia compulsivamente, mas logo parou tomando um longo gole de ar.

– Eu também senti isso, já irá passar. Toda as costas formigam, não?

O Elfo levantou-se parando ao lado dos dois.

– Ficaram mortos por aproximadamente três dias, normal a respiração ser difícil. Eu observei cada gesto, cada sinal... e foi exatamente três dias sem respirarem.

– Ainda bem que Elrond não estava aqui, ele teria tido um filho.

O elfo levantou uma das sobrancelhas sem entender, Gandalf apenas balançou uma das mãos no ar, como se dizesse, "Não se preocupe em entender o que eu disse". Elfos, pensou o mago, nunca entendem o que dizemos nas entrelinhas.

– Então, meus amigos... podemos ir? — Perguntou o mago.

– Acho melhor esperarmos amanhecer. Senti cheiro de orcs próximo do riacho que peguei a água.

Disse o elfo oferecendo um copo com a bebida ao mago que engoliu um pouco, mas logo o líquido escorreu-lhe pelos cantos da boca, por esta estar dormente ainda. Gandalf a secou prontamente.

– Eles devem nos alcançar se passarmos pelo riacho, eram uns quinze... não sei se conseguirei dar conta de todos eles, sozinho. Eles estão ainda a uma distância considerável... não devem chegar até amanhã.

– Entendo, meu jovem elfo. Descansaremos por hoje então...

Gandalf levantou uma das mãos, alguma luz branca parecia brotar-lhe na palma.

– Realmente, preciso descansar mais um pouco, minha magia ainda está... fraca para ser invocada.

– Gandalf, eu ficaria alguns dias sem usar magia, se fosse você. — Comentou Frodo.

O mago afagou a cabeça do hobbit que estava sentado ao lado de si e o olhava, dizendo com uma voz gentil:

– Mas temos orcs a encarar, meu amigo... e pelo que vejo, não virão nos buscar.

– Posso fazer o seguinte... ir à Valfenda e buscar reforços.

– Não, meu caro, demoraria dias e tempo é o que menos temos agora.

– ...mas eu correria, acho que chegaria em algumas horas.

– Acredite, amável jovem... nunca conseguiria fazer o percurso apenas com horas, mas em dias. E eu tenho percebido que o número de orcs têm aumentado novamente...

O mago levou uma das mãos ao próprio queixo, parecia pensativo.

– Será que forças das trevas estão novamente planejando...

– Como assim? — Perguntou o hobbit.

– Nada, meu amigo, confirmarei antes de preocupá-lo. Bem...

O mago levantou-se cambaleando, fato que o elfo ali presente teve que socorrê-lo. Gandalf empurrou-o bem de leve.

– Estou bem, deixe esse velho andar, meu jovem.

E o mago deu uns passos com as mãos detrás do corpo, ele desceu um pouco a serra depositando seus frágeis pés na relva. Levantou os olhos e pôde observar a lua, com as estrelas, o céu estava limpo, não iria chover. Lembrou-se de seu amado, soltando um longo suspiro. Depois de um tempo, virou-se olhando para os outros dois.

– Hora de dormir, crianças... vamos, vamos. Amanhã será um longo dia.

E todos entraram na caverna para descansar, agora, como seres vivos realmente. Os dois deitaram-se com exceção do elfo que permaneceu de pé, próximo da entrada da caverna, se acaso algum problema aparecesse, ele logo despertaria e seria o primeiro a sofrer o ataque, protegendo os dois renascidos.

– Elrond escolheu você a dedo, não?

O elfo virou-se olhando-o levemente surpreso.

– Por que diz isso? Temos muitos guerreiros notáveis... não sou o único.

– Sim, claro... não quis dizer exatamente isso.

O mago quase resmungou algo, mas conteve-se. Depois de uma pausa, continuou:

– Foi um elogio, meu caro.

– Hum... obrigado.

Frodo sorriu para Gandalf, este levantou as sobrancelhas e balançou a cabeça brincalhão, no melhor estilo, eles nunca entendem nada mesmo, o hobbit entendeu e sorriu, comentou baixo:

– Penso se Sam está bem... deve estar realmente preocupado.

– Sim...

O mago estava deitado agora e o pequeno encontrava-se ao seu lado, observava-o vendo que também parecia lembrar-se de algo.

– Pensando em alguém específico, Gandalf?

O mago olhou na direção do elfo, suspirou, finalmente comentou calmamente:

– Ninguém em particular.

Frodo olhou para o elfo, voltou-se para Gandalf e sorriu-lhe:

– Entendi o que quis dizer.

– Sim, meu amigo, disso, tenho a certeza.

– A saudade deve ser tamanha...

– Os dias não foram exatamente bem aproveitados, meu pequeno amigo.

– Nem eu os aproveitei...

O hobbit deitara-se de frente para o teto, assim como o mago, olhava aquelas estalactites de rocha e pôde ver que aquela caverna deveria já ter sido fonte de águas ou ficado submersa em algum momento.

– Era torturante... ver o Sam e...

– Não poder interagir com ele.

– Exato. Sentiu-se assim também, Gandalf?

– São os novos tempos, meu amigo... os novos tempos.

– Agora poderemos... interagir. Ansioso?

– Sim... — disse o mago com ar ainda distante. — Mas acho que ele se virou muito bem sem mim.

– Co..como assim?

– Sam abriu mão de outras coisas ou pessoas por sua causa, Frodo. Nem todos fazem isso.

A imagem de Thranduil veio-lhe à mente, o mago agitou-se e deitou-se de lado, de costas para o pequeno.

– Gandalf.

– Sim?

– Não fique assim, tenho a certeza que cada um mostra o que sente de uma forma diferente, mas no fundo... todos sentem igualmente. E...

O elfo saiu dali observando a paisagem, tentava verificar que não havia ameaça externa. Ao Frodo perceber a saída dele, comentou mais relaxado:

– Tenho a certeza que o Senhor Elrond sente tanto por você, quanto o Sam sente por mim.

Gandalf ainda permanecia de costas, tinha uma expressão abatida, apática.

– Tem mesmo, meu amigo?

– Desde quando errei, Gandalf?

– Penso se deveria ter permanecido morto... ou ao menos resgatado apenas meu pequeno amigo.

– Gandalf, não fale esse tipo de coisa!

O hobbit se sentou acanhado, tocando um dos ombros do velho, apertou ali, o balançando devagar.

– O que o senhor Elrond o fez?

– Escute, Frodo, nem tudo é um mar de rosas como é com os hobbits, nem todos têm pensamentos puros e humildes... são sinceros e dão valor às coisas pequenas da vida.

– Gandalf... falando assim, só está confirmando a velha crença que eu tinha em relação a elfos...

O mago sentou-se olhando-o curioso.

– Qual?

– Que no fundo se consideram melhores que os outros, que sempre procuram se destacar do restante do mundo, que não se importam com nada a não ser beber licor e comer frutas. Se consideram tão acima que simplesmente respondem com "sim" ou "não" quando lhe pedem conselhos... Bilbo me disse.

– Desculpe, pequeno... não queria que pensasse essas coisas... — Comentou o mago com uma voz opaca, tocando-lhe um dos ombros.

– Mas pelo que está me dizendo...

– Esqueça o que disse... o mundo não é perfeito e ponto final.

– Se está realmente incomodado com o Senhor Elrond, deveria dizer-lhe... mesmo ele sendo um elfo.

– Vou ouvir seu sábio conselho, meu amado pequeno.

– Sim.

– Vamos dormir, amanhã será um longo dia... verás o Sam e... eu...

O mago apertava a grossa barba numa das mãos, pensaroso. Frodo continuava olhando-o curioso e interessado no que dizia:

– E você?

– Hum... nada, nada.

– Hahaha... é, meu amigo... desejo boa sorte.

– Co...como assim?

– Ora, você sabe... que "eles" têm muita disposição.

– Ora... Frodo... obrigado por lembrar. — Disse o mago ironicamente.

– Hahaha.. ao menos eu e Sam temos a mesma sintonia.

– Sorte sua, meu amigo pequeno, agora... vamos dormir.

– Eu acho que vocês dois... ficam muito bem juntos. Tô sendo sincero.

Gandalf respirou o ar profundamente e soltou um longo suspiro.

– Pena que nem todos concordam com você.

– Porque...pensa, Gandalf, Elrond já teve os filhos, tem herdeiros... fora deixado pela esposa... quem seria contra que ele se envolvesse com uma pessoa que tanto ama e fosse feliz ao menos uma vez durante milênios?

– Como acha que ele foi triste durante tanto tempo?

– Basta reparar-lhe em sua moradia, uma coisa que hobbits percebem, é o calor de um doce lar e o dele só demonstra sua extrema solidão. Acho que fazes um favor ao Lord Elrond ficando com ele, sendo-lhe um "amigo" leal.

– Bem posto, meu caro...

O mago olhou para os lados, lamentou não ter um cachimbo para fumar um pouco.

– Agora, dormimos?

– Sim.

E logo se deitaram, mas se deram as mãos e sorriam amigavelmente.

– Obrigado por tudo, Gandalf.

– Eu que agradeço meu amigo bolseiro.

E a noite passara bem. O elfo acabara dormindo do lado de fora da caverna.