Legolas e Aragorn / Elrond e Gandalf
2 Gandalf.
Ambos ficaram se encarando durante um bom tempo. Uma brisa amena, mas invasora, adentrou o recinto causando um ruído típico de movimento inesperado do ar, a friagem se tornou mais espessa, o tempo logo mudaria. Fato que fez com que Legolas e Aragorn adentrassem encabulados e comentassem que estavam indo descansar.
Elrond consentiu a partida de ambos dali, Gandalf sorriu calmamente, esta era sua forma de dizer que estava tudo bem e que lhes desejava bons sonhos.O silêncio imperou no recinto onde a antiga aliança sentimental ainda conectava aquele elfo e humano.Eles voltaram a se encarar, o silêncio era como uma sombra, algo que se enfiava sem pedir permissão. Águas de um passado de honrarias e convívio, às vezes tenso, às vezes calmo, mas a situação, não importa qual fosse, nunca desunia aqueles dois e isto permaneceu durante anos e ainda permanecia forte entre eles.O senhor soltou um longo suspiro, apoiando a face num dos pulsos cerrados, ainda olhava para o mago em silêncio, como que se o outro que tivesse que se esforçar para que algo além daquele tédio se fizesse presente. Já o mago, não sabia como dizer que agradararia-lhe que em tudo aquilo fosse posto um fim, que não tinha mais forças para continuar, que sempre se culpara e considerara um erro que finalmente seria corrigido. Em sua sábia cabeça ecoava que a união de elfos e humanos nunca acabava num resultado positivo, mais cedo ou mais tarde, o humano morreria e para o outro, lhe restaria viver anos, talvez séculos de solidão e agonia.E, Gandalf, amava demais aquele elfo para lhe causar tamanha dor. Ele já estava decidido a por um fim naquela relação, a seu ver, mostruosa, e que provavelmente envergonhava Elrond diante de seus semelhantes élficos. Ele era um imperador, o Senhor de Valfenda, e para o mago, não havia nada mais decadente do que ter um velho como amante. Sim, a palavra amante doeu-lhe nos pensamentos, logo ele, que nem sequer se esforçava para manter-se belo ou perfumado. O mago encarava aquele ser, a seu ver, perfeito, lindo, limpo, impecável, e sem perceber, soltou uma risadinha seca, a qual incomodou o Senhor de Valfenda.– Vejo que parece que está se divertindo, ao menos alguém aqui, está fazendo isso.Elrond permitiu que um sorriso gentil escapasse de sua boca, ele calmamente retirou a coroa de sua cabeça, colocou-a sobre seu próprio colo, ficando e olhá-la por um tempo. Gandalf pareceu sentir o peso dos grilhões que aquele símbolo de prata carregava, talvez um fardo tão pesado quanto ao do anel amaldiçoado. O velho comprimiu os olhos, aquela face tão familiar e ele foi-se lembrando de um acontecimento de muitos anos atrás.Gandalf era um menino, o qual trabalhava numa loja de venda de produtos mágicos, ele tinha preparação como carpinteiro, fazia cajados e trabalhada dia e noite para o dono da loja. Este recinto localizava-se numa cidade de humanos, cercada por comércio medieval: Espadas, escudos, armaduras, roupagens, comida, cajados, etc. Praticamente tudo se poderia encontrar naquela cidade.O Cinzento, tinha seus 12 anos.Possuía uma estrutura magra, baixa, era órfão de seus pais, fora abandonado ainda pequeno nas ruas da cidade de Handrix, quando menor, aos seus 4 anos, costumava esmolar nas ruas, pedindo pedaços de pão para comer, ou alguma moeda, e foi nesta situação, que um comerciante ganancioso o viu e resolveu cobrar-lhe trabalho, em troca de roupas, comida e moradia. Sem alternativas, o futuro aprendiz de magia aceitou sem pestamejar. Era um tarde quente, ensolarada e o menino limpava o balcão da loja, seu chefe havia saído para levar mercadorias compradas por algum freguês. E foi que quase num passe de mágica, surgiu, de repente, homens montados em cavalos e os mesmos passavam diante da loja. Era um grupo de elfos, sendo que um deles o chamara atenção. Seu cavalo era branco, adornado com metais reluzentes e ricos, o metal era ligeiramente trabalhado, forjado com pedras preciosas e estas brilhavam refletindo luzes para todos os lados. O menino percebeu que o homem em questão tinha orelhas pontudas, logo ele deduziu que tratavam de elfos. Num ato rápido, o elfo olhou-o, fato que fez o menino cair sentado ao chão assustado. Gandalf, era só um garoto que tinha um breve conhecimento sobre aquela espécie, ouvira falar sobre eles algumas vezes, mas somente o suficiente para pensar que não passavam de apenas um mito, mas ele agora, via que eram reais.– Nossa...O magro menino tinha os olhos azuis arregalados e agachou-se escondendo-se detrás do balcão sujo e de madeira rústica. O elfo pareceu ordenar algo e o menino, ainda escondido detrás do balcão, finalmente respirou aliviado quando ouviu que os cavalos começaram a fazer barulho de cavalgadas e este som parecia diminuir.– Ufa.Gandalf menino levou uma das mãos ao próprio peito, sentia seu coração ainda aos pulos e quando pensou em se levantar, eis que ouviu alguém bater-lhe à porta da loja.– Deve ser um freguês.Comentou sentindo-se aliviado, ele mesmo não conseguia explicar a afobação que aquela visão o causara, nem o porquê de seu coração ainda estar aos pulos por ter ficado tão agitado. Porém, quando ele abriu a porta, eis que lá estava o tal elfo sorrindo-lhe gentil, ele segurava seu elmo num dos braços e o cavalo, encontrava-se obedientemente parado ao seu lado.
– Bom dia, meu jovem.– Hã... er... bom dia, senhor.O menino sentiu as pernas fraquejarem e não só elas, mas sua voz estava trêmula, insegura. O elfo se deliciava com aquela situação, mas não demonstrava isso.– Posso entrar?– Mas...O menino deu uma volta com a face olhando alguns instrumentos detrás de si, via apenas cajados, botas e coletes de algodão. Ele pensou no que interessaria àquele elfo, já que ele parecia ter uma espada em sua cintura. E pior, o que ele ouvira daquela raça foi que eles eram limpos, exigentes com organização, gostavam de coisas naturais, da natureza em si, e ali, só tinha muita sujeira e coisas artificiais moldadas no carvão mais fedorento da cidade. Gandalf menino, sabia também que os elfos tinham visões, audição e olfato apurados, logo, o jovem deduziu que se para si, já estava um tanto fedorento, imagina para aquele ser tão perfeito e aparentemente intocável.– ... er...Quando ele voltou-se para Elrond, este estava agachado, na sua altura e sorria-lhe gentil.– Está sozinho? Crianças não deveriam...– Não sou uma criança!O elfo se surpreendeu um pouco com a resposta ousada do menino, mas logo voltou a sorrir-lhe.– Entendo, perdoe o terrível erro. Então... O garoto observou a insistência daquele ser, deu de ombros e abriu a porta para que o outro entrasse. Antes que isso ocorresse, o elfo pareceu ordenar algo ao cavalo que pareceu balançar a cabeça. – Fique aqui amigo, não demorarei.– ...O menino apenas o observou entrar, o pequeno correu até uma cadeira, pegou apressado uma manta, a chocalhou e cobriu a cadeira ofertando-a ao inusitado visitante. Elrond não planejava sentar-se, mas não fez a desfeita e se ajeitou ali.– Vejo que parece cuidar muito bem deste recinto.– É uma loja, senhor.– Sim... é verdade.O elfo sorriu sentindo graça da tamanha ousadia do garoto e reparava-lhe o quanto estava atortoado com sua presença. O garoto puxou uma cadeira e sentou ali, perto de seu primeiro e mais recente freguês.– Faz cajados?– Sim.– Ah, me desculpe, meu nome é Elrond. O seu, é?– Gandalf.E ambos apertaram-se as mãos, sendo que o elfo apenas fez isso proque o menino o fez, para Elrond, apenas um concordar com a cabeça era suficiente, mas resolveu acompanhar a etiqueta humana. – Bem, Gandalf... pretende um dia ser mago?– Sim. Eu acho.Respondeu o pequeno encabulado, perguntava-se o que realmente aquele ser mitológico queria, e o que ele estava fazendo ali, depois de dispensar quase uma frota de quinze homens.– Acho que será um bom mago, Gandalf.Disse o Senhor de Valfenda encarando-o fixadamente. Ele continuou calmamente, com uma voz ligeiramente rouca.– Sei reconhecer um talento nato, quando vejo um.– Mesmo?A voz do menino carregava certo tom de ironia, aquela afirmação era justamente o oposto que costumava ouvir. Geralmente lhe diziam: "És um inútil! Um Doente! Não faz nada direito! Não serve nem para lavar o chão!". O elfo parecia ler-lhe os pensamentos e mantinha uma expressão séria, levemente angustiada.– Sim. Tenho certeza. Pegue para mim aquele cajado, por favor.O menino olhou na direção que o elfo apontava, se levantou cambaleando devido ao pulo que deu e trouxe às mãos de Elrond o cajado pedido. O elfo o pegou e parecia examiná-lo tranquilamente, sem a mínima pressa.– Sim. Este é o melhor que tens aqui, quero comprá-lo.O menino consentiu com a cabeça e quando foi confirmar o preço, o elfo se precipitou e entregou-lhe um saco de moedas.– Aqui está, deve ser o suficiente.– Nossa! Uau!O menino nunca tinha visto tanto dinheiro, o garoto colocou próximo da caixa onde ficavam os pagamentos, o menor pensava que aquele dinheiro poderia até comprar a loja, se aquele "Ser" quizesse.– Gandalf.– Sim?Elrond se aproximou dele, entregando-o o cajado.– É seu.– Mas.. mas...!!– Escute, meu jovem. Deverás procurar um mago.Elrond pegou um pedaço de papel e parecia escrever algo, feito isso, entregou ao menino.– Ele fica ao noroeste de Valfenda, devem ter guias aqui na cidade que possam levá-lo. Infelizmente estou numa missão, mas peça que o levem e que o pagarão ao chegar. Tome, leve esse papel com você.No papel estava escrito: "Ensine".O menino pareceu ler várias vezes a pequena palavra, até soletrou-a para certificar-se que a estava lendo direito.– Não se esqueça, a noroeste de Valfenda, todos conhecem o mago que vive lá... o acharão sem problemas, isso se ele não achar-lhes antes.– ...!!!Foi neste instante, que bateram à porta. Elrond a abriu, era um subordinado.– Já estou indo, só me dê um segundo.O elfo voltou-se para Gandalf. Agachou-se tocando-lhe os ombros.– Você tem talento, meu jovem. Nunca deves desistir de seu sonho, mesmo que lhe digam o contrário.– O.. obrigado.O menino estava completamente sem jeito devido à proximidade do outro, o elfo o encarava sem ao menos piscar, seus lábios esboçaram um sorriso alegre mostrando parte dos dentes tão brancos como se fossem de marfim.– Disponha, um dia, gostaria que me visitasse. Não esqueça este nome, Valfenda. Promete?– Si..sim, senhor.Com a afirmação sincera, os olhos de Elrond pareciam brotar a mais sincera alegria, uma satisfação sem tamanho. Sim, ele realmente gostara daquele outro homem, bem no fundo de sua alma.
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