Ambos ficaram se encarando durante um bom tempo. Uma brisa amena, mas invasora, adentrou o recinto causando um ruído típico de movimento inesperado do ar, a friagem se tornou mais espessa, o tempo logo mudaria. Fato que fez com que Legolas e Aragorn adentrassem encabulados e comentassem que estavam indo descansar.

Elrond consentiu a partida de ambos dali, Gandalf sorriu calmamente, esta era sua forma de dizer que estava tudo bem e que lhes desejava bons sonhos.

O silêncio imperou no recinto onde a antiga aliança sentimental ainda conectava aquele elfo e humano.

Eles voltaram a se encarar, o silêncio era como uma sombra, algo que se enfiava sem pedir permissão. Águas de um passado de honrarias e convívio, às vezes tenso, às vezes calmo, mas a situação, não importa qual fosse, nunca desunia aqueles dois e isto permaneceu durante anos e ainda permanecia forte entre eles.

O senhor soltou um longo suspiro, apoiando a face num dos pulsos cerrados, ainda olhava para o mago em silêncio, como que se o outro que tivesse que se esforçar para que algo além daquele tédio se fizesse presente. Já o mago, não sabia como dizer que agradararia-lhe que em tudo aquilo fosse posto um fim, que não tinha mais forças para continuar, que sempre se culpara e considerara um erro que finalmente seria corrigido. Em sua sábia cabeça ecoava que a união de elfos e humanos nunca acabava num resultado positivo, mais cedo ou mais tarde, o humano morreria e para o outro, lhe restaria viver anos, talvez séculos de solidão e agonia.

E, Gandalf, amava demais aquele elfo para lhe causar tamanha dor. Ele já estava decidido a por um fim naquela relação, a seu ver, mostruosa, e que provavelmente envergonhava Elrond diante de seus semelhantes élficos. Ele era um imperador, o Senhor de Valfenda, e para o mago, não havia nada mais decadente do que ter um velho como amante. Sim, a palavra amante doeu-lhe nos pensamentos, logo ele, que nem sequer se esforçava para manter-se belo ou perfumado. O mago encarava aquele ser, a seu ver, perfeito, lindo, limpo, impecável, e sem perceber, soltou uma risadinha seca, a qual incomodou o Senhor de Valfenda.

– Vejo que parece que está se divertindo, ao menos alguém aqui, está fazendo isso.

Elrond permitiu que um sorriso gentil escapasse de sua boca, ele calmamente retirou a coroa de sua cabeça, colocou-a sobre seu próprio colo, ficando e olhá-la por um tempo. Gandalf pareceu sentir o peso dos grilhões que aquele símbolo de prata carregava, talvez um fardo tão pesado quanto ao do anel amaldiçoado.

O velho comprimiu os olhos, aquela face tão familiar e ele foi-se lembrando de um acontecimento de muitos anos atrás.

Gandalf era um menino, o qual trabalhava numa loja de venda de produtos mágicos, ele tinha preparação como carpinteiro, fazia cajados e trabalhada dia e noite para o dono da loja. Este recinto localizava-se numa cidade de humanos, cercada por comércio medieval: Espadas, escudos, armaduras, roupagens, comida, cajados, etc. Praticamente tudo se poderia encontrar naquela cidade.

O Cinzento, tinha seus 12 anos.

Possuía uma estrutura magra, baixa, era órfão de seus pais, fora abandonado ainda pequeno nas ruas da cidade de Handrix, quando menor, aos seus 4 anos, costumava esmolar nas ruas, pedindo pedaços de pão para comer, ou alguma moeda, e foi nesta situação, que um comerciante ganancioso o viu e resolveu cobrar-lhe trabalho, em troca de roupas, comida e moradia. Sem alternativas, o futuro aprendiz de magia aceitou sem pestamejar.

Era um tarde quente, ensolarada e o menino limpava o balcão da loja, seu chefe havia saído para levar mercadorias compradas por algum freguês. E foi que quase num passe de mágica, surgiu, de repente, homens montados em cavalos e os mesmos passavam diante da loja.

Era um grupo de elfos, sendo que um deles o chamara atenção. Seu cavalo era branco, adornado com metais reluzentes e ricos, o metal era ligeiramente trabalhado, forjado com pedras preciosas e estas brilhavam refletindo luzes para todos os lados. O menino percebeu que o homem em questão tinha orelhas pontudas, logo ele deduziu que tratavam de elfos.

Num ato rápido, o elfo olhou-o, fato que fez o menino cair sentado ao chão assustado. Gandalf, era só um garoto que tinha um breve conhecimento sobre aquela espécie, ouvira falar sobre eles algumas vezes, mas somente o suficiente para pensar que não passavam de apenas um mito, mas ele agora, via que eram reais.

– Nossa...

O magro menino tinha os olhos azuis arregalados e agachou-se escondendo-se detrás do balcão sujo e de madeira rústica. O elfo pareceu ordenar algo e o menino, ainda escondido detrás do balcão, finalmente respirou aliviado quando ouviu que os cavalos começaram a fazer barulho de cavalgadas e este som parecia diminuir.

– Ufa.

Gandalf menino levou uma das mãos ao próprio peito, sentia seu coração ainda aos pulos e quando pensou em se levantar, eis que ouviu alguém bater-lhe à porta da loja.

– Deve ser um freguês.

Comentou sentindo-se aliviado, ele mesmo não conseguia explicar a afobação que aquela visão o causara, nem o porquê de seu coração ainda estar aos pulos por ter ficado tão agitado. Porém, quando ele abriu a porta, eis que lá estava o tal elfo sorrindo-lhe gentil, ele segurava seu elmo num dos braços e o cavalo, encontrava-se obedientemente parado ao seu lado.

– Bom dia, meu jovem.

– Hã... er... bom dia, senhor.

O menino sentiu as pernas fraquejarem e não só elas, mas sua voz estava trêmula, insegura. O elfo se deliciava com aquela situação, mas não demonstrava isso.

– Posso entrar?

– Mas...

O menino deu uma volta com a face olhando alguns instrumentos detrás de si, via apenas cajados, botas e coletes de algodão. Ele pensou no que interessaria àquele elfo, já que ele parecia ter uma espada em sua cintura. E pior, o que ele ouvira daquela raça foi que eles eram limpos, exigentes com organização, gostavam de coisas naturais, da natureza em si, e ali, só tinha muita sujeira e coisas artificiais moldadas no carvão mais fedorento da cidade. Gandalf menino, sabia também que os elfos tinham visões, audição e olfato apurados, logo, o jovem deduziu que se para si, já estava um tanto fedorento, imagina para aquele ser tão perfeito e aparentemente intocável.

– ... er...

Quando ele voltou-se para Elrond, este estava agachado, na sua altura e sorria-lhe gentil.

– Está sozinho? Crianças não deveriam...

– Não sou uma criança!

O elfo se surpreendeu um pouco com a resposta ousada do menino, mas logo voltou a sorrir-lhe.

– Entendo, perdoe o terrível erro. Então...

O garoto observou a insistência daquele ser, deu de ombros e abriu a porta para que o outro entrasse. Antes que isso ocorresse, o elfo pareceu ordenar algo ao cavalo que pareceu balançar a cabeça.

– Fique aqui amigo, não demorarei.

– ...

O menino apenas o observou entrar, o pequeno correu até uma cadeira, pegou apressado uma manta, a chocalhou e cobriu a cadeira ofertando-a ao inusitado visitante. Elrond não planejava sentar-se, mas não fez a desfeita e se ajeitou ali.

– Vejo que parece cuidar muito bem deste recinto.

– É uma loja, senhor.

– Sim... é verdade.

O elfo sorriu sentindo graça da tamanha ousadia do garoto e reparava-lhe o quanto estava atortoado com sua presença. O garoto puxou uma cadeira e sentou ali, perto de seu primeiro e mais recente freguês.

– Faz cajados?

– Sim.

– Ah, me desculpe, meu nome é Elrond. O seu, é?

– Gandalf.

E ambos apertaram-se as mãos, sendo que o elfo apenas fez isso proque o menino o fez, para Elrond, apenas um concordar com a cabeça era suficiente, mas resolveu acompanhar a etiqueta humana.

– Bem, Gandalf... pretende um dia ser mago?

– Sim. Eu acho.

Respondeu o pequeno encabulado, perguntava-se o que realmente aquele ser mitológico queria, e o que ele estava fazendo ali, depois de dispensar quase uma frota de quinze homens.

– Acho que será um bom mago, Gandalf.

Disse o Senhor de Valfenda encarando-o fixadamente. Ele continuou calmamente, com uma voz ligeiramente rouca.

– Sei reconhecer um talento nato, quando vejo um.

– Mesmo?

A voz do menino carregava certo tom de ironia, aquela afirmação era justamente o oposto que costumava ouvir. Geralmente lhe diziam: "És um inútil! Um Doente! Não faz nada direito! Não serve nem para lavar o chão!". O elfo parecia ler-lhe os pensamentos e mantinha uma expressão séria, levemente angustiada.

– Sim. Tenho certeza. Pegue para mim aquele cajado, por favor.

O menino olhou na direção que o elfo apontava, se levantou cambaleando devido ao pulo que deu e trouxe às mãos de Elrond o cajado pedido. O elfo o pegou e parecia examiná-lo tranquilamente, sem a mínima pressa.

– Sim. Este é o melhor que tens aqui, quero comprá-lo.

O menino consentiu com a cabeça e quando foi confirmar o preço, o elfo se precipitou e entregou-lhe um saco de moedas.

– Aqui está, deve ser o suficiente.

– Nossa! Uau!

O menino nunca tinha visto tanto dinheiro, o garoto colocou próximo da caixa onde ficavam os pagamentos, o menor pensava que aquele dinheiro poderia até comprar a loja, se aquele "Ser" quizesse.

– Gandalf.

– Sim?

Elrond se aproximou dele, entregando-o o cajado.

– É seu.

– Mas.. mas...!!

– Escute, meu jovem. Deverás procurar um mago.

Elrond pegou um pedaço de papel e parecia escrever algo, feito isso, entregou ao menino.

– Ele fica ao noroeste de Valfenda, devem ter guias aqui na cidade que possam levá-lo. Infelizmente estou numa missão, mas peça que o levem e que o pagarão ao chegar. Tome, leve esse papel com você.

No papel estava escrito: "Ensine".

O menino pareceu ler várias vezes a pequena palavra, até soletrou-a para certificar-se que a estava lendo direito.

– Não se esqueça, a noroeste de Valfenda, todos conhecem o mago que vive lá... o acharão sem problemas, isso se ele não achar-lhes antes.

– ...!!!

Foi neste instante, que bateram à porta. Elrond a abriu, era um subordinado.

– Já estou indo, só me dê um segundo.

O elfo voltou-se para Gandalf. Agachou-se tocando-lhe os ombros.

– Você tem talento, meu jovem. Nunca deves desistir de seu sonho, mesmo que lhe digam o contrário.

– O.. obrigado.

O menino estava completamente sem jeito devido à proximidade do outro, o elfo o encarava sem ao menos piscar, seus lábios esboçaram um sorriso alegre mostrando parte dos dentes tão brancos como se fossem de marfim.

– Disponha, um dia, gostaria que me visitasse. Não esqueça este nome, Valfenda. Promete?

– Si..sim, senhor.

Com a afirmação sincera, os olhos de Elrond pareciam brotar a mais sincera alegria, uma satisfação sem tamanho. Sim, ele realmente gostara daquele outro homem, bem no fundo de sua alma.