Legolas resolvera ajudar Gmili a escrever e responder adequadamente para o outro elfo, Lindir, nome identificado na carta dada, um dos seguidores de Elrond.

Gmili entrou num recinto, junto ao amigo élfico e logo, o anão estava debruçado sobre uma mesa e tinha numa das mãos uma pena com tinta e na mesa, uma espécie de folha de papel medieval, amarronzada e suavemente fedorenta. Somente os elfos detinham o conhecimento para fabricar folhas brancas, límpidas e sutilmente brilhantes.

Já Legolas estava sentado numa cadeira ali perto, folheava um livro de poemas que pegara ao passarem por uma pequena estante no caminho para ali.

– Por que tá lendo essa merda de livro, elfo?
– Se não sabes... — Legolas ainda continuava folheando, parecia tentar achar algo que valesse a pena. — Lindir é um menestrel, ama músicas, cantigas, rimas...

O elfo levantou as orbes esverdeadas, mantendo um sorriso cínico e dobochado nos lábios. O anão batia ansioso a ponta da pena na folha.

– Que merda... um fresco mais fresco que você.

O livro foi jogado na direção do anão, que abaixou a cabeça na direção da mesa saindo da frente.

– Ei!
– Se continuar com as gracinhas, eu não vou ajudá-lo. Pegue o livro de volta.
– Ora, que porra é essa, acha que manda em mim, orelhudo?
– Joguei pelo seu comentário infeliz. Anda.

Legolas chegou a se levantar, o anão também e ficaram se encarando numa animosidade só.

– Veja se tenho culpa da sua consciência ter pesado!
– Fala de mim, mas vejo... — O elfo cruzou os braços mantendo um sorriso discreto na boca. — que está realmente caidinho pelo Lindir.... ôh....

Legolas chocalhou os braços para os lados, debochando do anão, este voltou a sentar-se expremendo uma das mãos em sua face suada.

– Tá... chega, chega...

Depois de um tempo, Gmili pegou o livro e deu a Legolas que agradeceu o feito.

– Só vou agradecer devido à educação recebida pelo meu amável pai.
– Aham, tá bom, vamos escrever logo essa merda. Sabe que tenho vontade de fazer? Escrever uma cantiga de sacanagem! Hã? O que acha? Olha... escute só...

E o anão subiu num banquinho ali perto, levantou as mãos no ar e começou a narrar uma espécie de poesia anárquica.

– Lindir... — Antes de começar, falava em tom preocupado — Por favor, hein elfo, não vá se ofender, pense que és um humano... hein porra... anões brincam, por favor, não leve tão literalmente... heim...?
– Vou tentar. Tento imaginar a grande bosta que vai sair daí, mas tudo bem, vamos lá.
– Éééé... bosta de passarinho, elfo, bosta de passarinho. Não tens conhecimento sobre isso? Haha... então... começaria assim...

E o anão, por estar acima do peso e por medo de cair dali, desceu e resolveu recitar no chão mesmo.

– Lindir, meu caro Lindir, estou cantando esta poesia para homenagear sua grande pica élfica... pica porque eu... anão macho...

Depois de uma longa pausa, reclamou baixo:

– Puta que pariu, ele é macho...

E o anão voltou a sentar-se e ficar encabulado, coçava a própria nuca com uma das mãos ansioso.

– E pensar que deixei a gorducha Matilda na minha terra. Uma buceta tão gorda e peluda... para... para um pênis élfico magro, fino, sem graça... e tento imaginar o cú dele... pequeno, qualquer coisa sangra... a Matilda, já veio rodada... já veio experiente, basta colocar-lhe na boca que já se mela tudo!

Legolas permitiu-se voar um pouco para longe dali, ele olhava o pequeno e pensava que seria também a primeira vez de Aragorn, pensou se doeria já que consigo, doera bastante e ele era um elfo, tinha uma recuperação sobrenatural, imagina um humano. Ele pareceu imaginar Aragorn sentando-se com dificuldade, sentindo dor ao ir ao banheiro. Não conseguiu evitar, soltou um longo suspiro.

– E ainda por cima, não posso dar-lhe filhos... — Retrucou desanimado o loiro.
– Mas hein? — Comentou o anão indo até Legolas, tocando-lhe um dos ombros. — O que foi, meu amigo?
– Nada...
– Como nada?
– Eu receio perder... Aragorn.
– Mas por quê?
– Ele é um Rei... deverá ter herdeiros e...
– Torça para que Arwen esteja viva, ela aceitará vocês dois e de quebra o dará filhos!
– Mas... o lord Elrond...
– Realmente, não creio que ela esteja morta, ele poderá muito bem estar enganando vocês dois...

Comentou o anão voltando a sentar-se à mesa.

– Acredite, meu amigo orelhudo... sinto essa intuíção, essa garota ainda irá aparecer.
– Será que ela aceitaria mesmo?
– A Arwen ama o Aragorn... tudo que ele a pedir, ela aceitará.
– Hum...
– Relaxe, vamos me ajuda... deixe que o futuro cuide dele mesmo, curta o momento, meu amigo, curta o momento.
– Está bem, então escreva o que eu ditar.
– Mas perae, eu tenho que participar também, não é?
– Sim... então, faremos da seguinte forma.

O elfo levantou-se colocando-se ao lado do anão, segurava as costas da cadeira do pequeno, enquanto que a outra mão encontrava-se apoiada sobre a mesa.

– Eu comento alguma frase e você a escreve como quiser.
– Sabe... eu ainda não tô acreditando... um elfo me dando mole?
– Você não me deixou ler a carta... deixe-me ver se é isso mesmo.
– Ih, é mesmo! Olha aí.

E a carta foi entregue, Legolas a leu em segundos.

– É... a coisa tá ficando séria.
– É?
– Sim, Lindir realmente...
– Realmente?

O anão voltou-se para o loiro, olhava-o atenciosamente.

– Está interessado em cheirar seu chulé.
– Caramba! Então... então... é isso mesmo! E agora?

O anão se debruçara sobre a mesa com ambas mãos apoiadas na própria cabeça, parecia desnorteado e nitidamente desesperado.

– Calma, calma... primeiro, Gmili, o que você espera ou quer ter do Lindir?
– Er...

O anão mexia na própria barba, parecendo pensar a respeito.

– Bem... conhecê-lo e...

De repente, lembrou-se de sua face pálida, seu olhar gentil, amoroso, atento e suavemente brilhante.

– E...
– E... me aproximar e... dizer que.. ele é bonito e... sei lá... eu... me aproximar, levá-lo a conhecer a cidade... agradá-lo, sabe... dizer que gostaria de ler poemas... ditar poemas para ele.
– Sabe ler, Gmili?
– Claro que sei! Acha que anões são o quê, analfabetos?! Mas que porra!
– Calma... é que pelo que sei, o índice de analfabetismo é bem elevado entre anões.
– Bem... isso em relação a mulheres.
– Ah... sim... vocês separam bem os papéis... masculinos e femininos, agora faz sentido... por isso está tão ansioso e tenso por se manifestar sentimentalmente para outro... macho.
– Como?
– Sua cultura é centrada no machismo, normal você estranhar sentir-se atraído por outro macho, isso se contrapõe à sua cultura machista, entendeu? Que tem que ter uma anã, que tem que ser macho, viril e etc... Lindir põe todas essas crendices idiotas dos anões por água abaixo.

Gmili ainda afagava sua farta barba, olhava na direção do chão, parecia refletir sobre que o outro dizia, realmente, sentiu uma pontada dolorida no peito, Legolas tinha razão, desde pequeno fora criado numa realidade que delimitava muito bem o papel dos sexos na comunidade anã. Os homens tinham que mostrar sempre corajosos, portarem-se como machos dominadores, sua roupas tinham que ser exageradamente viris, barbas e pêlos eram exigidos e nunca poderiam ser aparados ou cortados, exceto em casos extremos.

– É, meu caro amigo orelhudo... é...
– Mas deves ir com calma, afinal de contas, ainda está se acostumando.

O anão soltou uma risada de satisfação e alívio.

– Sim, obrigado.
– Bem, vamos começar?
– Sim, claro.

Mas mal eles sabiam que Lindir já estava na cidade, andava pelas casas, comércios, parecia observar cada pessoa, cada anão, cada elfo ali presente. Todos pareciam viver em harmonia, ele seguia com sua bolsa de seda e levava uma harpa pequena num dos braços. Ele pretendia comprar uma discreta residência ali, ele seguiu durante a maior parte das ruas, pôde ver que haviam espécies de bairros, certas regiões do Reino tinham elfos convivendo e bastava andar numa ruela mais à frente, haviam anões, mais adiante, alguns hobbits. O elfo pôde observar também que na "área" onde se habitavam elfos, havia predominância de verde, fator que não era observado nas proximidades das casas anãs, estas tinham apenas madeira sendo cortada e carvão queimando sempre.

– Sou amigo de Aragorn e Legolas. — Comentou o elfo lembrando-se da fala de Gmili. — No que esse conhecimento irá me ajudar?

Andava já ansioso, sentia um pouco de sede e acabou por adentrar uma taberna ali perto, lamentou não conhecer ninguém, pediu um copo de água e lhe trouxeram cerveja por engano. Ele ficou encarando aquela caneca com aquele líquido amarelho, chegou a aproximar a caneca do nariz, cheirou e logo a recolocou sobre a mesa.

– Que horrível. Ei... por gentileza, eu queria água...

E lhe trouxeram finalmente o que pedira, ele tomou num gole só, tamanha era sua sede.

– Por favor...

Disse chamando uma elfa que servia ali.

– Conheces Legolas e Aragorn? Onde os encontro?

A elfa abafou uma risada com as palmas da mãos.

– Todos querem encontrá-los, Aragorn é o rei daqui e Legolas seu amigo, um príncipe... ai ai... — A elfa pareceu perder-se em pensamentos, ela se auto abraçou soltando um gemidinho agoniado. — Um Príncipe!

Lindir franziu os celhos e tocou a boca com uma das mãos.

– Então... imagino que... eles se encontrem no castelo.
– Sim, mas é guardado a sete chaves, só entram conhecidos. Se você for lá, não passará da porta.
– Vamos ver. Obrigado. — Comentou o elfo deixando algumas moedas na mesa.

Lindir começou a pegar um direcionamento nas ruelas, finalmente chegando aos fundos do castelo, lá tinham dois soldados.

– Boa tarde, gostaria de falar com o senhor Aragorn.

O soldado humano olhou-o de cima abaixo.

– Sou... — O elfo ia dizer que era primo de Legolas, mas será que os soldados não saberiam que ele deveria ser loiro? Resolveu arriscar. — Sou parente do Senhor Legolas... quer dizer, Legolas apenas... ele me chamou, me aguarda.

O soldado comentou com o outro, eles deram de ombros.

– Qual seu nome? — Disse o soldado rudemente.
– Lindir.
– Vou verificar, aguarde aqui.
– "Poxa... será que Legolas vai lembrar do meu nome? Tomara! Poxa... senão, não vejo como entrar... droga.. ele nunca sequer falou direito comigo... nem deve lembrar ou saber." — Pensou o elfo agoniado, olhando ansioso pelo longo corredor para onde o soldado seguira.

Neste momento, Gmili havia escrito grande parte da carta e foi neste instante que um soldado aproximou-se dali:

– Senhor Legolas?
– Sim?
– Tem um elfo, Lindir.

O anão caiu da cadeira, o soldado o olhou surpreso, Legolas puxou o homem para fora dali.

– O que tem?
– Ele está dizendo que o senhor o aguarda.
– Sim, é verdade, deixe-o entrar.
– Certo, com licença.

Legolas seguiu até o anão, que ainda estava esticado no chão, ajudou-o a sentar-se.

– Ele disse Lindir?
– Sim.
– Legolas!!!
– O quê? — Perguntou o elfo com os olhos arregalados, surpreso com o berro do anão.
– Segure-o, o recepcione, vou tomar um banho, trocar de roupa... vamos...

E o pequeno levantou-se.

– Não quero que ele me veja assim, é deprimente... vocês gostam de coisas cheirosas, né?
– Sim, coisas que preservam uma certa higiene.
– Faça esse favor então...
– Tá bem. Vai lá, fico aqui mesmo com ele aguardando-o?
– Sim, por favor.
– Eita, a coisa é séria... está até educado!
– Calado, orelhudo, calado!

E quando o anão foi sair dali, estava de frente para Legolas, cosequentemente de costas para a entrada, eis que inesperadamente, ele esbarrou em Lindir.

– Gmili?

O anão arregalou os olhos engolindo em seco, Legolas apenas olhava atenciosamente cada ação do anão, mantendo um sorriso escondido detrás de uma das mãos.

– Lin...

O anão finalmente voltou-se para o outro, por influência do elfo moreno já que o anão nem se movera ficando encostado com as costas em si, em suas pernas, Lindir tocou-lhe os ombros induzindo-o a virar-se.

– Dir...
– Sente-se mal? Ou...

O elfo agachou-se próximo a Gmili, ainda mantinha as mãos em seus ombros.

– Errei ao vir procurá-lo?

O anão o encarava com os olhos arregalados, sentia-se encabulado, aquela face, alva, gentil, aquela voz levemente suave como uma cerveja fraca, levemente aguada, pensou o anão e foi ao observar a agonia do pequeno, que Legolas aproximou-se cumprimentando o outro.

– Seja bem vindo, Lindir.

Este levantou-se cumprimentando Legolas.

– Obrigado por deixar que entrasse.
– Não foi nada.

Lindir ao se levantar, consequentemente afastou-se um pouco de Gmili que finalmente pareceu respirar aliviado e, só agora, pôde sentir o sutil cheiro de flores que provinha do elfo de Valfenda, o pequeno continuava o encarando, observando sua face, sua pele lisinha, aparentemente macia.

– Gmili... — Resoou baixo Lindir.

– "Ele está tendo o quê, um orgasmo?" — Pensou Legolas olhando para o anão e levantando uma das sobrancelhas.

– Oi, Lindir, seja bem vindo! — Finalmente o anão sorriu completamente sem jeito. — Estava indo banhar-me. Malhei muito hoje e...
– Eu desejaria também! Foi uma longa viagem, podemos ir juntos?

Legolas olhou para um dos lados, segurando uma risada, chegando a morder os próprios lábios para que não a soltasse, o loiro mantinha as mãos na cintura, chegando até a ranger de leve os dentes. Finalmente voltou-se para o anão e pôde perceber que este encarava sua face com os olhos esbugalhados, como se pedisse ajuda.

– Lindir.
– Sim?
– Acho que o Gmili prefira tomar banho sozinho, afinal... elfos tem suas particularidades e este anão gosta mesmo é de um latão de cerveja cheio de água com detergente e sendo esquentada por uma fogueira colocada em sua base.

Gmili pareceu querer matar Legolas, este correspondeu-lhe com um leve acenar com a cabeça, no melhor sentido: "Foi o melhor que consegui". Aragorn andava até eles, mantendo um sorriso gentil.

– Meninos, melhor se apressarem, daqui a pouco terá o jantar. — O rei olhou na direção do elfo moreno comentando baixo — Olá.
– Meu rei. — Lindir ajoelhou-se ali. — Me chamo Lindir. Sou amigo de Gmili.
– Eu o conheço, moras em Valfenda. Vamos, levante-se.
– Sim.

E Aragorn manteve um sorriso gentil.

– Extremamente confiável, braço direito de Elrond.
– É o que dizem, meu rei.
– Fico feliz de recebê-lo em meus aposentos. Todos de Valfenda são-me grandes amigos.
– Obrigado. Muito gentil, meu rei.
– Disponha. Legolas..
– Sim?
– Preciso de um conselho numa escolha que tenho que fazer, poderia me acompanhar?
– Sim, meu rei.

E saíram dali, Lindir acompanhou-lhes com o olhar até que sumiram de vista. Surpresa para o elfo moreno que quando voltou-se não achara mais Gmili. Onde o anão havia ido?