Legendary
4 Quase curada.
"The way he makes me feel like, the way he makes me feel
I never seemed to act so stupid"
O lugar mais próximo do Starbucks que consegui estacionar foi a duas ruas de distância, de modo que tive que andar por cinco minutos até chegar ao local. Mesmo sendo um sábado de manhã eu não me importava de acordar cedo, era uma rotina e quase um ritual tomar café no famoso estabelecimento.
Trajava uma saia branca longa e esvoaçante, uma blusa com estampa listras e sapatilhas brancas. Os colares dourados estavam pendurados em meu pescoço e junto com minhas pulseiras e o óculos eu ficava parecendo uma socialite. Hoje eu estava de bom humor o suficiente para deixar Silena escolher minhas roupas. Não me arrependia, pois até que fiquei bem diferente.
Abri a porta do estabelecimento e, como era de se esperar, ele estava cheio. Tirei os óculos de meu rosto e o pus em cima da cabeça, atrás das orelhas. Varri o local com os olhos até o mesmo se pousar nas costas de Nico. Sorri e caminhei até ele e coloquei as mãos cobrindo seus olhos.
– Não sei porque ainda tenta isso, Anns – resmungou Nico, com o típico mal humor matinal que não me atingia muito. Dei uma risadinha e beijei sua bochecha, ocupando o lugar ao seu lado. Nunca fui o tipo de garota que gosta de se sentar na frente das pessoas, do lado é melhor.
– Bom dia, Nicolas – eu disse, quase que cantarolando.
– Bom dia, Annie. Seu humor está muito bom a ponto de deixar Silena te vestir?
– Está tão na cara assim?
– Nem sabe como.
– Então, como está indo o estágio? – perguntei, pegando o cardápio e escolhendo o que iria pedir.
– Difícil, eles não entendem que eu sou um simples aprendiz e me escravizam – murmurou Nico, passando os braços na minha cintura e me arrastando para perto dele.
– Comece a levar café e muffin para eles, vão te dar até aumento – eu disse num tom brincalhão, mas Nico pareceu não achar nenhuma graça. Geralmente Nico nunca ri das coisas que eu falo, o que é um saco.
– O que o senhor e a senhorita vão querer? – perguntou uma atendente brotando do nada ao lado de nossa mesa.
– Frappuccino de morango o maior que tiver, bastante creme, por favor. Dois pães de queijo e um brownie de chocolate – respondi por fim e deixei o cardápio descansar em cima da mesa.
– Café gelado e um toast, de queijo, por favor – Nico respondeu, casualmente.
A garçonete anotou o pedido e disse que já iria traze-lo antes de se virar e sair. Endireitei-me no acento, tentando deixar o aperto da mão de Nico em minha cintura mais frouxo. Tentei fazer isso de forma discreta, mas acho que não funcionou.
Inclinei-me sobre a mesa, colocando o cotovelo na mesa e o queixo na palma da mão. Girei levemente a cabeça para o lado para poder encarar o moreno; ele estava bonito, com um ar de universitário misterioso extremamente sexy, embora eu ache que já passou da época de ficar se vestindo de maneira gótica. Estamos na universidade, não tem mais aquele lance de patricinhas usarem saia mostrando o útero e salto 15 cm e nem de nerds, góticos e etc.
– Se continuar a comer assim acho que não conseguirei te sustentar – ele comentou, repuxando os lábios para o lado num sorriso. Do um risinho e dou de ombros.
– Não jantei ontem, então estou morrendo de fome – me justifiquei.
– Falando em jantar... Você esqueceu – acusou Nico. Fiz uma careta. Droga, porque eu fui falar sobre jantar? Nico suspirou e encarou a janela do outro lado do estabelecimento. Por falta de vergonha na cara eu continuei a encara-lo.
– Eu não esqueci! Me desculpe mesmo Nico, podemos marcar outro dia.
– Não, tudo bem. Espero que isso não tenha nada a ver com a volta de Percy, sabe, uma recaída de bebidas... – o tom de Nico não foi acusado; sua calma e conforto sempre foi uma das qualidades que eu mais admirava no garoto.
– Não, claro que não. Por que todo mundo fica achando que o que eu faço tem a ver com ele? A volta dele não significa nada! Que saco! – menti na cara dura e ainda fiz um drama no final. Eu não tive muito tempo para pensar sobre como seria com Nico a partir de agora, não sabia se contava para ele de ter encontrado Percy, não sabia se me abria e falava meus medos para ele... O punk era um ótimo amigo e ouvinte, mas ele gosta de mim e não quero deixa-lo magoado. Os dedos de Nico afagaram minha mão em cima da mesa e eu sorri, me controlando. – Eu passei mal a tarde e acabei dormindo até a noite, desculpe por não ter avisado... Silena disse que você havia ligado, mas já era tarde.
Antes que Nico respondesse a atendente apareceu com a bandeja com nossos pedidos. Ataquei meu frapê prontamente, sentindo o gostinho de morango e creme na minha boca; eu era viciada naquela bebida. Nico permanecia sério, bebericando o café apenas quando a atendente se fora. Ele era tão sério, tão comportadinho... parecia Percy, mas o moreno de olhos verdes era melhor. E por que diabos eu estou comparando os dois?
– Annie, sei que a Pink Histeria deve ter enchido sua cabeça sobre Percy, mas saiba que nós somos amigos e você pode falar comigo sobre tudo – ele largou seu café por um momento e voltou a acariciar minha mão, me fitando.
Me concentro em ficar encarando minha bebida, sem coragem para olhar suas órbitas negras. Ele me conhecia muito bem e eu confiava minha vida nele, faria qualquer coisa por ele, mas me sentia desconfortável falando sobre o que sinto por Percy, ainda mais sabendo que Nico me ama.
– Acho que ele não vai gostar muito de eu estar ficando com o melhor amigo dele – dei um risinho sem humor e peguei um pão de queijo, dando uma mordida.
– Talvez não. Mas não temos nada sério.
– Eu sei, mas... – não terminei a frase, estava sem palavras. Se eu começasse a falar poderia deixar algo escapar sobre ontem.
Comemos em silêncio por um tempo, mas me sentia incomodada por não falar a verdade pra Nico. Ele sempre me acolheu, sempre me apoiou. Eu não podia passar a ignora-lo só porque ele me amava de um jeito diferente.
– Tipo, é estranho sabe. Já me sentia quase curada, quase liberta e ele volta. Depois de tanto tempo – digo, tentando ficar descontraída comendo meu pão de queijo.
– Anns, sabemos que você estava longe de ser curada, na verdade, achei que você estava piorando cada vez mais.
– Claro que não, Nico – rebati, o encarando um pouco ameaçadora.
– Sim, Silena me contou que achou mais bebidas no seu quarto e mais Ritalina.
– Desde quando virou amiguinho da Pink Histeria?
– Desde que você vem se drogando, Annabeth! Acho que não percebo suas mudanças de humor? Seu comportamento agressivo? Você parada sozinha na quadra de basquete? Acha isso normal?
– Isso não tem nada a ver com o Percy! Isso tem a ver com eu não está dando conta de tanta coisa, não tem nada a ver com Percy.
– Isso começou após ele ir embora – ele fez uma pausa, soltando o ar com força. Conferiu o relógio e se levantou, pegando a mochila no banco da frente – Vou para o estágio agora, fique bem.
– Nico, espere... – segurei seu pulso, fazendo-o parar.
O garoto depositou um beijo na minha testa e eu fechei os olhos por hábito, sentindo sua boca macia contra minha pele. Ele me passava uma sensação de paz e segurança; ele sempre falava que iria me ajudar a combater meus medos, e eu confiava nele para isso.
– Acho até bom ele ter voltado, talvez você volte a ter a cabeça no lugar e pare com essa auto-destruição.
– Nico, não fala isso...
– Tudo bem, Anns, se ele for te fazer bem eu não me importo.
– Nico... – sussurrei, sentindo meus olhos marejarem. Meu peito se apertou, e minha garganta fechou em um nó. Estava péssima, realmente péssima. Eu podia ver a dor que Nico sentia a dizer aquilo, era quase que palpável. Eu era realmente uma pessoa horrível. Fiz uma pessoa me amar tanto a ponto de me deixar livre para eu ser feliz com outra pessoa, mesmo nem tendo a certeza.
– Eu realmente não me importo, Anns.
Nico deixou uma nota de vinte dólares na mesa e saiu, deixando-me com meu vazio. Ele falou a frase tão dura e de forma tão robótica que eu tive certeza de que ele estava repetindo-a diversas vezes em sua mente, para que saísse de forma convincente.
Eu sabia que era mentira, que Nico se importava mais que qualquer um. Mas ele estava abrindo mão de mim para que eu pudesse ficar com a pessoa que ele sabia que eu amava. Eu admirava tanto aquele garoto, gostava tanto dele. Sou apaixonada por ele, e é com ele que quero ficar. Nico é uma parte de mim a qual eu sou extremamente apegada. Mesmo sendo tão filha da puta com aquele garoto, eu não podia abrir mão dele dessa forma.
Mas, realmente eu obtive certos comportamentos estranhos depois que Percy partiu. Cada sonho que eu tinha era com ele, cada momento de solidão era dele que eu lembrava. Eu o amava, e depois de tanto tempo acho que nunca serei capaz de deixar de fazer tal coisa.
Entre os soluços eu peguei o celular, indo até a caixa de sms.
“Percy, vamos esperar um pouco para que as coisas se resolvam, enquanto isso, acho melhor não repetimos o que aconteceu ontem. Não foi um erro, mas estou confusa. É muito cedo para tudo, vamos nos re-conhecer, se é que isso existe. Até o almoço. Annabeth C.”
Apertei a tecla de enviar depois de reler a mensagem sete vezes.
Terminei meu café da manhã com lentidão, sem aquela vontade de comer de antes. O brownie parecia azedo e o frapê estragado. Talvez seja apenas a minha boca, remoendo todas as palavras de Nico.
“OK. Terei que almoçar com meu pai hoje. Me desculpe. P. S. Aliais, sou Percy Jackson, prazer em te conhecer.”
Sorriu involuntariamente, embora não tivesse que fazer tal coisa. Devia xinga-lo e obriga-lo a me levar a sério, mas era impossível quando se tratava de Percy Jackson. Ele sempre conseguia arrancar um sorriso meu e eu sempre conseguia arrancar um sorriso dele.
Pedi a conta e entreguei a nota de vinte para a atendente, logo saindo do estabelecimento para fazer o percurso de volta ao meu carro. No meio do caminho encontrei uma relojoaria e comprei um relógio para meu pai, mesmo tendo passado dois dias do seu aniversário; como compensação eu comprei também uma miniatura de um avião de guerra que tinha certeza que ele não tinha.
Minha cabeça estava prestes a explodir, mas ela tinha que aguentar pelo longo dia que eu teria pela frente com minha madrasta e os dois pirralhos dela.
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