Legendary
2 Ele voltou.
Notas iniciais
Fiquei sabendo que ele está novamente na cidade.
Depois disso, todo o resto do meu dia foi um desastre, não me concentrei no ensaio do musical, vesti a blusa do lado errado após o ensaio, não consegui comer nada o dia inteiro e ainda por cima havia esquecido de comprar o presente de meu pai, que fez aniversário ontem.
Eu sempre soube que ele embaralhava minha cabeça, por isso havia ficado aliviada quando ele foi embora, dois anos atrás. Mas agora, que soube por boatos que ele voltara, senti novamente algo inquieto dentro de mim.
Algo grande e perturbador, uma mistura de felicidade, ansiedade e medo.
Fechei a porta de meu carro assim que entrei no mesmo. O estacionamento da Oxford estava quase vazio, o que era um alivio, já que assim que cheguei ao local havia gritado com todas as minhas cordas vocais e depois socado uma placa indicando a vaga de deficiente físico (o que rendeu uma dor insuportável na minha mão esquerda).
Dei partida no carro e saiu da vaga, querendo sair do campus o mais rápido possível. Todo o meu material escolar estava no banco do carona, indicando que só voltaria a colocar os pés naquele lugar na segunda-feira. Graças a deus! Dois dias inteiros para relaxar e fugir de curiosos perguntando sobre minha mudança de humor.
Meus dedos apertavam o botão next do rádio de maneira insistente, buscando algo decente para eu ouvir. Nada que realmente fosse bom, até que eu me estressei com todas as estações de rádio e soquei o rádio. Eu não esperava que o aparelho saltasse de seu lugar e caísse no chão, o que me deu um baita susto e me desconcentrasse um pouco do transito.
Quando olhei novamente para frente vi um garoto andando tranquilamente enquanto mexia no celular (que criança imprudente mexe no celular atravessando a rua, ein?!) e eu tive que frear o carro subitamente. Meu corpo foi lançado para frente e eu me segurei no volante para não bater a testa no mesmo. Eu mesma estava assustada com minha própria falta de atenção. Não costumava ser tão avoada, ainda mais quando dirigia.
Relutante, tirei meus fios louros que se jogaram em minha visão, sai do carro e fechei a porta, indo conferir se o garoto estava bem. Por sorte, sim. Muito bem para dizer a verdade. Bem até demais, mas eu preferia que ele estivesse morto. Não tenho vergonha de admitir isso.
Percy Jackson, em carne, osso e tudo que se tem direito estava bem ali, parado em frente ao carro me encarando como se fosse louca, agora sem o celular na mão. Olhei para baixo e fiz uma careta quando vi o aparelho no chão, possivelmente quebrado.
Me recompus, ignorando o descompasso de meu coração e engoli em seco. Ele estava muito mais gostoso do que dois anos atrás; os músculos se salientavam por baixo da blusa de mangas, o porte atlético gritava por minha atenção... ele parecia o próprio pecado e não o caminho.
– Você está bem? – perguntei, mas continuei ali parada ao lado da porta de meu carro.
Um carro buzinou atrás de mim e depois continuou seu caminho pela contramão. O ignorei completamente, pois meus olhos só estavam fixos no mar verde a minha frente.
Percy estava ótimo, diferente também. Mais alto, forte, musculoso, o cabelo não estava mais volumosos e ondulados, ele havia cortado bem baixo, dando-o um aspecto mais maduro. Se eu não o conhecesse bem, simplesmente não conseguiria o reconhecer. Ele estava muito diferente.
– Annbeth? – ele franziu o cenho – E-Estou – ele havia percebido agora que eu havia feito uma pergunta.
Senti uma dor forte no peito ao sentir a intensidade verde de seus olhos sobre mim. Nenhum de nós dois conseguia se mexer, parecia que nossos músculos foram paralisados, congelados, derretidos, sei lá, qualquer coisa que o impedisse de se mover!
Eu sabia que isso iria acontecer assim que eu colocasse meus olhos nos deles. Assim que aquele mar revolto cobrisse minha tempestade. Todo aquele sentimento que eu não soube lidar por dois anos iria voltar de uma vez só. Como um maremoto, tragando tudo que ver pela frente. Todos os sentimentos.
Corri até ele, conseguindo por fim mover minhas pernas, e o envolvi com meus braços. Ele me abraçou forte e fiquei inundada de felicidade por novamente sentir seu cheiro, seu calor, sua pele na minha, seu coração descompassado em meu peito.
– Annabeth... me perdoe, eu sou um idiota – ele sussurrou em meu ouvido. Antes que qualquer coisa pudesse ser dita ele me beijou e tudo dentro de mim explodiu.
Eu nunca havia cogitado sua volta e agora que ele estava aqui... eu não sabia o que fazer. Eu só queria senti-lo novamente. Correspondi o seu beijo depositando tudo que eu sentia naquele momento: todo o desejo, a saudade, toda a dor, solidão, amor, felicidade. Principalmente, felicidade.
As lágrimas já percorriam o meu rosto e assim que abri os olhos após o beijo vi que seus olhos verdes estavam marejados, mas nenhuma lágrimas escorria.
– Eu senti tanto sua falta, Cabeça de Alga – eu disse, abraçando novamente. Outro carro buzinou e eu dei uma risada nervosa, não por que o carro buzinando era engraçado, mas porque ali estava Percy Jackson comigo, no meio da rua em frente a universidade.
– Eu também... senti muito sua falta. Você está tão linda... quer dizer, mais. Não consegui mais ficar sem você, era um vazio em tudo – ele sussurrou, me abraçando novamente. Ele afagou meu cabelo, inalando profundamente meu cheiro. Sua mão me apertava com força, e a minha não era diferente; eu me agarrava a ele para ter certeza de que aquilo não era um sonho e que ele não iria desaparecer como névoa. – Assim que fui liberado, me transferi para cá. Ir para Havard e te deixar aqui foi a pior decisão de minha vida.
Balancei a cabeça, afirmando, um pouco desnorteada com a avalanche de sentimentos. Não o culpei por ir para outro país, porque eu sei que eu faria o mesmo.
– Ah, me desculpe por ter te beijado, espero que...
Ele não terminou a frase. Me desprendi de seu braço o suficiente para ver sua expressão, que passou a ser pensativa. Logo entendi do que ele estava supondo.
– Ah... não, não... eu não estou namorando – dou uma risadinha histérica. Eu disse aquilo, mas não sabia que aquilo era verdade, quer dizer... tinha o Nico e o Scott, mas não acho que nenhum dos dois estivesse categorizados no tópico ‘namoro’.
Estava tão nervosa que todo o meu corpo tremia de frio, embora a temperatura estivesse quente.
– Que bom, lady, não gostaria de ser um motivo para a senhorita ser infiel – ele deu um sorriso de derreter corações e, sendo bem sincera, molhar calcinhas.
– Como sempre, um verdadeiro gentleman.
Percy deu uma risadinha anasalada e me beijou novamente, agora com suavidade. Seus lábios roçaram no meu com delicadeza, mas isso não impediu que meu estomago dançasse todos os estilos de dança em alguns segundos. Minhas pernas pareciam feitas de gelatinas e eu não queria nem saber sobre tudo que havia ocorrido a dois anos atrás, todas aquelas confusões, brigas e lágrimas. Eu só queria a boca dele na minha e ele na minha cama. Apenas.
– Onde você está morando? – perguntei, separando nossos lábios por alguns segundos; depois que disse a frase eu os selos novamente.
– Com meus pais por enquanto, mas Luke me convidou para dividirmos o apartamento com Nico.
Tento não fazer uma careta quando ele diz o nome de Nico, eles são primos e melhores amigos e estava ficando com ele. Eu gostava de Nico, mas ainda amava Percy. Era errado, eu sei, mas o garoto sabia de toda a situação quando aceitou ficar comigo.
– Luke... Grande Luke! Ele está namorando a Thalia – eu disse com um sorriso bobo nos lábios. Eu ficava feliz por saber que minha melhor amiga finalmente achara alguém que a fazia feliz, mesmo que a maior parte do tempo eles fiquem brigando. Bem, pelo menos me garantia uma boa diversão.
– Thalia namorando? Thalia Grace? Minha prima? – perguntou Percy, incrédulo. E sim, metade do mundo em Oxford parecia ter parentesco Percy, uma vez que toda a linhagem de sua família se formara naquele lugar. Os Jackson, Grace e Di Angelos são praticamente as famílias fundadoras de Oxford.
Comigo era diferente, vim de Londres para cursar o segundo ano do ensino médio, pois minha mãe tinha que fazer longas viagens. Meu pai mora aqui desde que se separou de minha mãe, então eu vi estudar aqui e acabei conseguindo entrar na Oxford University. É claro que foi bem fácil, já que meu pai faz parte do corpo docente do local.
– Sim, milagres acontecem, como você aqui... – sussurrei a última parte, encostando nossas testas.
– Não chore – ele pediu para mim, passando o polegar em baixo de meus olhos, tirando o rastro das lágrimas que escapavam.
– É de felicidade, juro – eu disse. Era uma meia verdade que não poderia ser considerada meia mentira. Era de felicidade sim, eu estava tão feliz que parecia que ia flutuar ou que o mundo era pequeno demais, mas eu também tinha uma carga emocional esmagando minha mente.
Foram dois anos difíceis e sombrios para mim, e agora Percy estava aqui e eu não sabia como ele iria lidar com as coisas que andei fazendo.
Percy deu uma risada e afagou meus cabelos uma última vez antes de se separar de mim.
– Eu tenho que terminar de assinar os papéis da transferência e tudo o mais. Depois meu pai marcou uma reunião comigo...
– E depois você vai passar no apartamento de uma certa loira? – supus antes que ele pudesse adicionar mais algo na lista. Eu estava com saudades de mais para esperar. Brinquei com a barra da camisa dele com os dedos e o olhei com olhos pidões. Ele estava tão aparentemente maduro, sério, elegante que estava até com medo de ele não gostar de meu jeito.
– Desde quando você aprendeu a seduzir deste jeito? – ele perguntou, segurando meu rosto com uma mão.
– Desde quando foi necessário. Então por que você não larga o velho reitor te esperando um pouquinho enquanto damos um pulinho no meu quarto?
Percy deu um sorriso quebra-corações, molha calcinhas e tudo que causa um efeito histérico na pessoa.
– Tudo bem, já que insiste tanto – ele revira os olhos de um jeito melodramático. Ele nunca fora cínico, e isso foi a primeira mudança que eu captei.
O garoto se abaixou e pegou o celular do chão, que por azar estava com um trinco enorme no meio. Droga.
– Me desculpe, eu posso pagar por isso – apressei a me dizer, me sentindo culpada.
– Não precisa, isso não é nada – ele guardou o celular no bolso e se virou para mim, sorrindo.
– Nossa, você literalmente apareceu do nada. Por que você não me procurou quando chegou? Não ligou, não mandou e-mail, não fez nada. Eu tive que saber por terceiros. Eu fiquei bem chateada.
– Está brigando comigo, mas já? – ele perguntou, um sorriso brincalhão nos lábios.
– Sim estou, claro!
– Me desculpe, bem, eu queria te fazer uma surpresa. E, primeiro, saber se você estava namorando. É bem difícil saber das novidades em outro país, ainda mais quando não se tem tempo nem de escrever uma carta. Espero que tenha gostado de meus presentes pelo menos...
– Poderia ter me avisado, sabe quanta coisa passou pela minha cabeça? Mas então, para sua informação, eu não estou namorando com ninguém. E eu gostei de seus presentes, embora nunca irei usar um casaco de Havard, sabe que é um símbolo de traição a minha universidade e mandou de propósito.
– Mandei sim, gostaria de ter visto sua cara.
– Foi de “Ah, não preciso de lenha para a fogueira quando eu acampar!” – eu disse e ele riu de um jeito extremamente sexy. Parecia que nunca ficamos separados, e isso era encantador. De qualquer forma, eu e Percy sempre fomos acostumados a ficar meses sem nos ver. Quando eramos crianças e eu o conheci, eu vinha pra Oxford ficar com meu pai apenas um mês por ano.
– Então não vamos perder tempo com isso... – ele disse, sorrindo de um jeito safado.
Peguei a mão de Percy e o conduzi até o carro que ainda estava parado no meio da rua enquanto batíamos papo. Os outros motoristas não pareciam gostar muito e desviam de mal grado, pareciam que eles não entendiam que eu estava num momento sério, num momento único e extraordinário.
O momento que encontrei o garoto que eu amo, ou que eu amava. Tudo que eu queria sentir era a verdadeira felicidade e segurança que Percy me fornecia. Não podia me preocupar com nada. Percy estava ao meu lado.
Fale com o autor