Legados do Fogo
1 Prólogo

Os ventos antigos traziam consigo o odor de carnificina. Os tempos de paz haviam sido levados pelos rios repletos de sangue, assim como centenas de almas perdidas nas lâminas que dançavam nas mãos dos guerreiros. A noite, ao término da batalha, era cálida, silenciosa. Por trás do véu de escuridão, havia a desgraça: uma besta escamada e dotada de asas rápidas, herdeira de poderes sombrios.
Mas eles deveriam estar extintos, certo? Eram apenas lendas contadas para assustar as crianças de um tempo que nunca existiu, não eram?
Pensar nisso trazia calafrios ao homem que fora mandado revistar um território na província de Dormex, após uma denúncia de que algo estranho fora visto por aquelas redondezas. A aliança da capital não se preocupava mais: quase sempre as declarações eram falsas ou, quando chegavam ao lugar específico, não havia mais nada, apenas rastros.
Eles estavam extintos, afinal.
O procedimento era apenas para manter as aparências de que o exército estava cumprindo sua promessa de vasculhar cada domínio de Sactrum, para que não houvesse mais ameaças de nenhuma espécie contra os humanos. Já que, aparentemente, estava tudo sob controle há muito tempo. Por isso, ele foi o grande “sortudo” — nas palavras dos oficiais — que escolheram para ir até a fronteira de Dormex, delimitada pela floresta negra, seu destino final.
— Sortudo, eles dizem... — reclamava, enquanto descia de seu cavalo.
Um passo atrás do outro, seguiu adiante, prontificado para qualquer ataque, observando todos os cantos. Entretanto, o primeiro sentido a aguçar-se foi a audição. Ao longe, pode ouvir um som estranho, acompanhado de um eco que com certeza não fazia parte da melodia natural da floresta. Parecia um arfar cansado, um pedido de ajuda.
O barulho que ouviu viera de um lugar estreito e teve que abaixar e rastejar no chão para conseguir entrar pela fenda que a rocha em questão possuía. Por fim, quando encontrou do outro lado apenas escuridão, levantou-se, sem nenhuma surpresa aparente. Todavia, algo estava errado. A caverna não era fria, nem úmida, pelo contrário: era quente. Tinha um cheiro esquisito de algo queimando, e um odor que nunca antes sentira.
Mesmo com a certeza de que nada iria encontrar em um lugar agourento como aquele, teria que ir mais ao fundo. A aliança não o perdoaria se soubesse que fazia o trabalho pela metade. À medida que caminhou, entretanto, sentiu uma textura diferente, como se pisasse em algo viscoso. Curioso, olhou sob sua bota marrom, encontrando o rastro de um líquido escarlate, quase negro. Sangue. E se a falta de iluminação na caverna não atrapalhasse sua visão, poderia jurar que não era sangue humano.
Sentiu um arrepio fúnebre passar pelo corpo. Se não fosse um cavaleiro, não pensaria duas vezes em dar meia volta e sair do local. Contudo, seu cargo e sua curiosidade falavam mais alto. Suas pernas quase que automaticamente andaram sozinhas para frente, enquanto todos os seus sentimentos o alertavam do perigo à frente.
Seguiu o rastro, até a parte onde a escuridão ocupou todo o espaço; nenhum fio de luz ousava chegar até ali. E mesmo assim, o calor pareceu aumentar naquele ponto, enquanto sua audição foi aguçada por algo grave: uma respiração.
Seu andar ficou mais firme, seu peito subia e descia descompassadamente. O corpo curvado tentava não movimentar tanto os músculos, enquanto empunhava firmemente o cabo de sua espada. Não sabia o porquê, mas tinha uma sensação ruim de que, se fosse além, sua vida estaria perdida.
Não queria arriscar. Dessa vez, seu título de paladino não seria o suficiente. Virou-se com a intenção de retornar. Sentia as mãos levemente instáveis, tremendo, e o sentimento de medo aflorou pela primeira vez em sua vida. Assim que começou a caminhar para a saída, sentiu uma brisa quente e forte bater nas suas costas. Pensou ser apenas sua mente lhe enganando, mas ventos fortes não passavam por cavernas isoladas.
E então, quando virou o corpo para trás, suas pupilas dilataram-se.
— O quê...? — Sua voz saiu mais baixa que o normal, repleta de medo.
Queria gritar, correr, e sair logo daquele lugar, mas nenhum ruído escapava de sua boca, e suas pernas recusavam-se a obedecer qualquer ordem de seu cérebro. Mesmo misturado às sombras, as grandes fendas negras e finas como a de um lagarto à espreita o estavam encarando, refletindo toda a sua imagem assustada, como um espelho. Seu olhar instintivamente parou para vislumbrar o corpo escamado totalmente branco da criatura. Seus chifres ainda eram pequenos, embora afiados, como a arcada dentária.
Um dragão.
O que seria do cavaleiro se fosse morto por aquela criatura? Mas se tantos outros tiveram que fazer o sacrifício, porque ele haveria de fugir? Era uma honra lutar pela aliança da capital. Não poderia voltar. Pela primeira vez na vida, seu cargo tinha um propósito.
Então por que maldição não tinha forças para tirar sua espada e completar o ato pelo qual tanto foi treinado?
Dragões costumavam ser lembrados com expressões impiedosas e com raiva, mas aquele em especial, era justamente o contrário. Seu olhar era de piedade, e mais: de dor. As órbitas do paladino foram direcionadas para um ponto fixo no pescoço do grande lagarto, onde havia sangue. Muito sangue. Era um corte largo, que provavelmente fora provocado por algum civil. Como poderia erguer sua arma e matar alguém abatido daquele jeito? Como poderia extinguir a vida de uma fera tão magnífica como aquela?
— Está machucado... — sussurrou para si mesmo, pensando como aquele animal pôde se deslocar para um lugar tão fechado.
Tentou ir em frente devagar, tomando o maior cuidado para não assustar o dragão, pois, caso o fizesse, seria um homem morto. Em seguida esticou a mão, tentando tocar o lugar onde o ferimento se abria. Assim que os olhos selvagens do animal notaram o que o humano estava prestes a fazer, rangeu os dentes em símbolo de repulsão.
O sentimento de culpa afetou o homem. Estava dedicando a vida para destruir uma criatura como aquela, sendo que, assim como os humanos, eles já foram bebês, crianças, e adultos. Por que estava fazendo isso? Porque esses seres eram condenados daquela forma?
Um sorriso mínimo escapou dos lábios do homem. Não poderia fazer aquilo, poderia? Agora que aquelas perguntas perduravam em seus pensamentos, não conseguia ter certeza que aquilo era a coisa certa a se fazer.
Olhou uma última vez para a besta, e em seu interior, sentiu uma pontada. Estava na hora de voltar para casa, e dedicar-se apenas para sua mulher e filha. Relataria que nada encontrou, até que a informação de que eles estivessem vivos fosse de conhecimento geral. Era o certo a se fazer.
Cabisbaixo, fez o mesmo caminho de volta, dando uma última olhada para o animal ferido. Conscientizou-se de que estava fazendo o certo, até rastejar de volta para a saída, encontrando a paisagem florestal novamente, e montando em seu cavalo.
Comprimiu os lábios, fitando atentamente a caverna que havia explorado.
— Viva, dragão. — Acenou para o inimigo natural, finalmente desaparecendo.
Naquele dia, presenciou a criatura mais linda e majestosa já vista por ele. Entretanto, tudo mudou. O destino é cruel e age a sangue frio. Quem imaginaria que um ato de piedade traria tantas consequências?
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