Legados do Fogo
2 I — Nuvens
Notas iniciais

Agosto de ζ724
Algo lhe dizia que era hora de acordar, mas não eram os raios solares, já que o cômodo em questão não possuía janelas, e sim apenas algumas brechas para que o oxigênio entrasse. Como sempre, o dia começava com o barulho dos soldados gritando, além da algazarra feita pelos mais novos, e a arrumação típica de quando se acorda. O costume, por outro lado, fazia com que o cobertor permanecesse sobre seu corpo, desejando mais dez minutos para descansar.
Quando pensou em entrar para o exército de Sactrum, imaginava que o lugar pelo menos fosse higienizado. Bobagem. Os campos de guerra eram ainda mais sujos, e caso quisesse lutar, teria que estar acostumada à poeira e imundice, afinal, matar não era nada além disso. A prioridade tinha que ser dada às vontades da aliança do reinado.
Não queria levantar. O frio logo pela manhã fazia seu corpo pedir por ficar ali o máximo possível. Mas caso não o fizesse, os castigos eram bem piores. Teria que se esforçar se quisesse chegar ao nível dos paladinos oficiais da capital. Logo, Lisara teve a força necessária para empurrar os cobertores pesados para o canto e colocar os pés no chão, com uma expressão cansada e extremamente sonolenta, não tão diferente de todos ali.
— Cinco minutos para o café da manhã! Andem logo, seus pirralhos preguiçosos! — gritava um dos oficiais.
As vestes de treinamentos eram clássicas e extremamente eficientes. Como era época de inverno e a neve logo poderia chegar, as roupas ainda que quentes, eram finas para que o corpo ganhasse mais agilidade. Calça de couro longa, blusa preta, e pequenos coletes de aço para a proteção corporal, além de luvas próprias para assegurar a melhor desenvoltura das armas. Era seu uniforme diário enquanto estivesse ali. E esperava que isso não durasse muito tempo.
— Que saco, eu não aguento mais a comida deste lugar! — comentava um garoto ao lado dela, bagunçando o cabelo loiro escuro. Era normal, já que ele não costumava penteá-los. — Não me diga que você vai sair assim? — ponderou, apontando para o cabelo ruivo de sua amiga, totalmente desarrumado.
— Olha quem fala — bufou —, se eu quiser ir desse jeito, qual o problema?
O incômodo vinha a partir do momento em que Lisara era a única a possuir cabelos acobreados como o fogo. E durante todos os anos que passara ali, nunca viu um único ser semelhante. Isso, de algum jeito, era motivo de chacota. O incentivo não partia dela, e não se importava em sair arrumada. Aquele lugar era escasso de beleza, e ela não seria uma exceção.
— Eu sou homem, não preciso pentear o cabelo. Ele é assim por natureza — Deu de ombros, olhando para a amiga com seus olhos verdes oliva —, mas já que insiste... — Passou a mão uma vez no cabelo loiro escuro, o empurrando para trás. Porém, estes ficaram do mesmo jeito. — Pronto. Sua vez.
As bochechas da garota comprimiram-se, formando um bico irritado, e um revirar de olhos. Andrean sempre fazia aquelas piadas, tentando animá-la de algum jeito. Ao perceber os olhos ainda a encarando, esperando qualquer movimento, e ainda contra sua vontade, tentou arrumar seus fios. Andrean riu pelo desajeitamento da amiga, colocando a mão na frente da boca, mas sem sucesso ao tentar conter o riso.
— Desculpe — disse, ainda tentando segurar a risada. Lisara acabou por desistir depois disso. — Você tem que parar de se incomodar com essa coisa que chama de cabelo.
— Chega de falar disso. — Suspirou, olhando pra ele com a mão na cintura, mudando de assunto. — O que temos para o café da manhã?
— Nada muito diferente de ontem. De qualquer jeito, a intolerância à lactose me impede de tomar qualquer coisa daquele cardápio maravilhoso — comentou, enfatizando a última palavra.
— Se você não vai comer, tudo bem, mas eu vou. Tenho que me alimentar... Você sabe, o teste final começa hoje.
O baque de realidade se fez presente em Andrean, quando ele arregalou os olhos e olhou vibrante para a amiga, que ergueu uma sobrancelha e cerrou os olhos. Os testes finais eram extremamente importantes porque designavam, após cinco anos treinando, quem teria chances de ir para as linhas de frente servindo como paladino – o cargo mais alto de um cavaleiro – ou continuar naquele local, que era mais uma das forjas de treinamento que compunham a aliança de Sactrum.
— Está brincando? Esqueceu do teste? — enfatizou Lisara, se segurando para não avançar no amigo.
— Completamente — disse ele, bagunçando os cabelos novamente pelo desespero.
— Você treinou todos esses anos, você tem que passar! Não pode me deixar sozinha! — ameaçou Lisara, batendo nas costas do amigo.
— Dá pra parar? Seus tapas doem — reclamou, enquanto caminhavam em fileira até o refeitório. — Eu não vou deixar, espero.
Mais um berro dos oficiais foi ouvido e os dois entenderam que deveriam ir tomar o café da manhã naquele exato momento, caso contrário, passariam fome pelo resto do dia. Seguiram para o refeitório com todos os outros aprendizes.
As mesas eram enfileiradas de forma organizada, de modo que cada uma estivesse, no mínimo, há dois metros de distância uma da outra tanto verticalmente, quanto horizontalmente. Haviam lustres presos às paredes que, àquela hora do dia, permaneciam apagados. O lugar era relativamente grande, e abrigava cerca de trezentas pessoas. Um número pequeno, já que as outras sedes dos outros quinze estados eram bem maiores.
Não havia chance de escolha para a comida: era um prato específico por dia, e, normalmente, os alimentos que disponibilizavam nutrientes e músculos não eram nada gostosos. Porém, de uma forma ou de outra, Lisara aprendeu a gostar daquela comida.
Naquele dia em específico, o refeitório dispôs purê de batata com arroz, e alguma coisa parecida com frango. Enquanto a bebida era nada mais, nada menos, do que água pura. Levaram em bandejas até suas respectivas mesas separadas por números. Por sorte, o número vinte e nove de Andrean ficava um abaixo do de Lisara.
— Olha só essa gororoba... — Fez cara de nojo, tocando com o garfo no purê duro. — Nessas horas eu sinto saudades da comida do meu pai. — Suspirou Andrean, brincando com os alimentos em seu prato. — E olha que eu passava mal toda vez que comia.
Ao escutar a frase, Lisara automaticamente parou de comer, lembrando-se de sua mãe. Não deveria ter aquele tipo de pensamento àquela altura do campeonato, mas às vezes se arrependia da forma como se despediu dela, e de como os gritos se tornaram frequentes naquela casa, por conta da sua mãe não aprovar sua entrada no exército. Mesmo ela tendo se esforçado tanto para seguir seu desejo.
— Manter os fracos aqui é uma perda de tempo, espaço, e dinheiro — resmungou um dos guardas para outro, que estava próximo da mesa. — Só porque algumas crianças são filhos de paladinos famosos, por exemplo, e achamos que herdariam algum talento dos pais. Pura besteira. É só olhar para a...
Ela sabia que estavam se referindo a sua fraqueza.
Como reflexo de sua irritação, Lisara acabou por comprimir a mão, apertando o copo de água com força, enquanto seu olhar enraivecido era direcionado aos guardas. Era uma blasfêmia dizer que estavam gastando dinheiro treinando adolescentes já que, não era necessário conhecer muito sobre economia para notar que há tempos não investiam naquele local.
Estava pronta para levantar e encarar os homens que estavam zombando de si. Era alguém que não levava desaforos, e dessa vez não seria diferente.
Até sentir uma mão tocar-lhe o pulso.
— Lisa, fique calma. — Andrean tentava impedi-la. — Você sabe que não vai dar em nada.
Mesmo não querendo admitir, sabia que seu amigo estava certo. Das outras vezes que desafiou um superior, acabou com duas buchas na mão, limpando o chão e os banheiros. E como não queria estar ocupada com esse tipo de serviço logo no momento mais importante de sua vida, acabou relaxando os músculos.
— Eu vou mostrar pra eles — almejou, com fúria na voz. — Vou mostrar quem são os fracos aqui.
— Sei que vai. — Abriu um sorriso.
Lisara se manteve quieta, mas concordou com a cabeça.
— Eu preciso tomar um ar, te encontro mais tarde — disse e levantou-se, indo em direção a saída com rapidez.
Andrean tentou levantar-se para ir atrás da amiga, mas um braço o segurou, impedindo que prosseguisse.
— Você não terminou sua comida, senhor Ostwald — comentou um dos guardas, deixando claro o motivo pelo qual ele não deveria sair de lá.
Andrean suspirou pesadamente, e ainda meio inconformado, voltou a sentar-se na mesa e olhar profundamente para aquela comida, que estava indo parar no topo da sua lista de piores inimigos.
Seu destino era o mesmo quando ficava nervosa: os estábulos. Lá Lisara encontrava a paz e a tranquilidade que almejava quando seu sangue quente ficava à flor da pele. Era normal se irritar, e o problema não era ser ruim na maioria das coisas que fazia, era não ser boa o suficiente em guerrilhar; em ser alguém competente.
Seu pai era o paladino mais poderoso de toda Sactrum, então porque ela não conseguia ser tão boa quanto? Era uma decepção para todos que esperavam demais dela, e isso foi deixado claro anos atrás, a partir do momento que entrou para o exército da aliança. Uma decepção.
— Ei Baldo, como vai? Pronto para abrir as asas? — chamou, passando a mão carinhosamente na crina do companheiro.
Durante sua estadia no local, Baldo, seu pégaso de montaria, era um de seus melhores amigos. O momento que mais se sentia livre era quando cavalgava nos céus. Logo, acabou pegando um carinho muito grande por aquele equino, e lhe deu até um nome. O companheirismo era retribuído de ambos os lados, embora Baldo não deixasse mais ninguém subir sobre si, com exceção da garota, e ficava animado toda vez que ela lhe fazia uma visita.
Após colocar todos os objetos de montaria para que se adequasse ao voar, abriu a cela, terminando de fazer os ajustes e conferindo se estava tudo em seu devido lugar. Colocou um pé após o outro e montou, deixando a rédea de lado, já que não gostava de amarrar animais que eram para ser livres. Segurou firme na crina marrom do pégaso.
— Vamos lá, você sabe o que fazer.
Após o dito, o equino começou a movimentar-se, galopando o suficiente para que suas asas desdobrassem-se aos poucos, tomando cuidado para não encostar em nada. À medida que alcançou uma velocidade constante para que seus cascos não mais tocassem o chão, começou a abrir as asas.
— Lisara?! Onde você está indo?! Os testes começam daqui a duas horas! — gritou um dos guardas, mas já era tarde demais.
A liberdade do azul do céu já tinha alcançado seu coração.
Enquanto sentia o ar em seus cabelos e o Sol queimando sua pele, a consciência tratou de recordá-la sobre o dia que perdera seu pai. Era noite quando um soldado bateu na porta de sua casa, e não deveria ter mais de cinco anos quando aconteceu. Pensar no fato lhe dava calafrios. Ela era filha do homem mais corajoso e destemido. O cavaleiro mais admirado por todos da capital de Sactrum, Amerys.
— Eu só queria ser metade do que ele era, Baldo... — sussurrou e deu um suspiro longo, tocando em seu colar, uma herança deixada por seu pai, que nunca tirava do pescoço.
Sabia que ninguém ia responder, mas as nuvens lhe confortavam. Eram brancas, plenas, e lembrava-lhe até a fumaça que saia quando sua mãe cozinhava. Fazia-a recordar do riso feliz de seu pai. Ela gostava daquela sensação. Voar sob aquela brancura lhe trazia uma nostalgia de que não teria mais obrigações; que poderia fazer o que quisesse.
Fechou os olhos para que pudesse visualizar melhor sua casa, antes de fugir. Sua mãe gritando, lhe proibindo de ir se alistar, e o aconchego de sua cama, que provavelmente nunca mais sentiria. Podia quase jurar que ouviu a voz de sua mãe lhe dizer, pela milésima vez, que ela era uma garotinha muito encrenqueira, e que seu pai tinha orgulho dela, por mais que se aventurasse ao ponto de correr risco de vida. Um sentimento bom aflorou em seu interior.
Até olhar para o horizonte e se deparar com aquilo.
Arregalou os olhos para tirar a conclusão de que o que viu não foi uma nuvem. Era branco, sim, mas não tinha o formato de uma. Eram... Asas? Pôde jurar que viu algo passar em sua frente, mas foi tão rápido que até mesmo Baldo não se manifestou. Mas ela viu. Tinha certeza que algo moveu-se sobre si.
Por um segundo, sentiu o coração acelerar. A única coisa que poderia chegar àquela altura, e ainda ser veloz o suficiente era...
Não podia ser.
Começou a duvidar do significado de paz que a cor branca trazia, pois no momento, seu coração era um turbilhão de caos. Era mais uma peça pregada pelo destino naquele teatro sem fim. Mais uma vez, os laços de sangue iriam se chocar, mas desta vez de uma maneira bem diferente. Morrer para testemunhar as presas que devoraram a vida de seu pai, ou sobreviver para agarrar a chance e provar ser digna?
Lisara entrou em um dilema profundo durante as duas horas seguintes, até o teste final começar.
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