Legados do Fogo

3 II — Chuva


Notas iniciais
Olá, meus queridos leitores, os melhores do Nyah! Aqui estou eu com mais um capítulo, e amei mais uma vez os comentários de todos vocês na fanfic. E mais, recebi não uma, não duas, e nem quatro, mas SEIS recomendações em apenas o prólogo e o primeiro capítulo. Sabem a emoção que senti? Vocês querem me matar de emoção, não é? Meu deus, se preparem, porque as surpresas de vocês já estão sendo guardadas e feitas, e vou entregar para cada um que recomendou! Me deixaram muito felizes e um simples "obrigada" não parece agradecimento suficiente. Mas esse capítulo é dedicado a vocês: Santana, Gus, Helderheid, Queen Panda, A R Ferreira, e Maria Jane da Holanda! Obrigada, obrigada, obrigada! Agora, ao capítulo, me desculpem a demora, era pra postar dia 1, mas acabei atrasando. Fim de ano e o começo é meio complicado, né? Não estou em casa, então a demora também foi por conta disso. Ah, antes de qualquer coisa, eu criei um grupo no facebook para interação dos leitores, e vocês podem entrar acessando esse link: https://www.facebook.com/groups/832928456746049/ Seria uma honra conversar com vocês lá e ficar interagindo! Até os fantasminhas, estão todos convidados! Sem mais amores, boa leitura!

Manteve-se inquieta até então, roendo a unha, brincando com a ponta do cabelo e chutando pedras no meio do caminho para o único lugar que poderia pensar sozinha. Assim que avistou "aquilo" – chamava assim pois não sabia como apelidar o que viu – seu interior ficou tão perturbado emocionalmente, que ela teve que descer mais rápido do que previu e deixar Baldo no estábulo. Mas, mesmo após estar em solo firme, ela já não tinha mais tanta certeza se estava mesmo em segurança ali. Quer dizer, aquele era um campo de treinamento de um exército treinado para matar dragões. Não que todos ali tivessem a arma certa para fazê-lo – já que somente os oficiais e os de cargos superiores possuíam habilidade suficiente para matar um animal grande e poderoso como um dragão, isso se tivesse chances. Mas era que... Há tempos não se via um dragão.

Embora todos soubessem que Amerys – a capital de Sactrum e da aliança das outras províncias – estava em constante luta contra eles, era difícil e muito raro ver um. Não havia nenhum relato sobre seres daquela espécie em Dormex – província de Lisara – e qualquer outra. Então, como ela poderia acreditar que tinha visto um dragão branco nos céus, tão perto de um campo de treinamento justamente para matá-los? Chegava a ser até tolice acreditar naquilo.

Mas ela viu! Tinha certeza que "aquilo" definitivamente não era uma nuvem.

— Eu não sei nem mais o que eu vi ou não vi! — reclamava consigo mesma, quase bagunçando os cabelos.

Os pensamentos formaram-se em um turbilhão em sua mente, e imagem alva permanecia ali, enigmática, sombria, presa no mais profundo âmbar de sua alma. Por que aquilo a tinha afetado tanto? Por que os calafrios permaneciam em sua pele, mesmo tendo passado uma hora desde que vira aquilo?

Ficou aliviada em finalmente ter chegado ao lugar que se sentia mais "segura" desde que o descobriu. Um lugar que apenas ela e mais outro alguém conhecia e, como este alguém era bem confiável, ela não precisava se preocupar. Era um campo aberto rodeado por árvores, e se você se aventurasse nelas, chegava a um ponto alto, onde via-se toda a floresta de Mantary, mais conhecida como floresta negra. Além dela, você poderia ver um pico mais alto e rochoso.

Mas ela tinha pouco tempo para refletir. Todos deveriam estar no campo sul em menos de meia hora para que o teste, enfim, começasse.

Virou rapidamente o corpo trêmulo e assustado quando sentiu uma presença atrás de si, mas aliviou-se ao notar que era apenas Andrean, provavelmente fugindo dos guardas por ter roubado uma maçã da horta. Deu um suspiro pesado, acalmando as batidas do coração pelo semi-susto.

— Finalmente consegui algo que preste para comer! — Mordiscou a maçã verde, falando de boca cheia. — Muito injusto que isso aqui só seja servido para os generais e para o pessoal da alta patente, não acha?

— Sim, muito injusto — concordou, mesmo não dando a mínima importância para o que ele dizia.

— Quer? — Estendeu-lhe a maçã. — Está bem gostosa.

Ela olhou para a fruta na mão dele, mas negou com a cabeça.

— Estou meio mal do estômago, mas obrigada, Andy. — Deu a desculpa e tentou sorrir, mas fracassou no ato. Seu sorriso saiu muito amarelo e logo se desfez.

Andrean engoliu mais uma vez sua comida, e depois olhou atentamente para Lisara. Levou a mão até o queixo o coçou, meio sem graça. Ela estava muito estranha, mais do que o habitual. E, depois de alguns segundos até ele chegar a conclusão de que ela estava mesmo diferente, fez questão de opinar sobre.

— Você está quieta — comentou Andrean, dando uma pausa para dar uma mordida na maçã que segurava. — Que raridade.

Sequer virou o rosto para encarar o amigo pelo comentário. Olhava o horizonte, reparando em como as nuvens se moviam de uma maneira graciosa, rápida. Comprimiu os lábios e respirou fundo. Não podia negar e nem havia resposta para aquele tipo de comentário. Ela não estava com a mínima vontade de rebater nada.

O silêncio começou a incomodar o garoto, que deixou o olhar vagar sobre o rosto da amiga, até notar o quão diferente do comum sua expressão estava. Foi então que Andrean ergueu uma sobrancelha e entrou no campo de visão de Lisara, bem em sua frente.

— Já chega. Você nem ao menos me deu um tapa pelo que falei. O que aconteceu, Lisa? — questionou, deixando seu alimento de lado para olhar nos olhos mel amarelados da companheira.

— Só estava lembrando do meu pai — mentiu. Era mais simples do que explicar tudo o que tinha na cabeça. E ela não queria colocar aquilo em palavras. Parecia que iria atrair para si todo aquele mau de novo.

Odiava mentir para seu melhor amigo, mas como poderia dizer o que viu nos céus? Andrean provavelmente riria e até tiraria sarro dela. E se tivesse sido apenas uma alucinação, coisa de sua cabeça? Não poderia contar.

— Pelos céus, Lisara. — Bufou, passando a mão na testa. — Eu joguei uma maçã fora por você, sabia? Você deveria parar de se comparar ao seu pai. Está certo, eu não conheci ele, embora todo mundo fale, mas... você é a herdeira dele, não tem que se menosprezar.

— A herdeira de Rheyn, O Corajoso — repetiu o apelido do pai, apoiando a cabeça nas mãos e suspirando. — Queria ser mais do que isso.

Antes que Andrean pudesse responder, ouviram um alarme soar ao longe. Era o sinal de que deveriam estar no pátio para que a avaliação começasse. Lisara lambeu os lábios pelo nervosismo, olhando para o loiro ao seu lado. Ele levantou-se e espreguiçou-se, dando um sorriso de canto para a amiga.

— Bem, é sua chance de provar que é bem mais do que isso, certo? — Piscou, fazendo um sinal de despedida para a amiga e já se levantando. — Ah, não se atrase. Sabe que eles detestam atrasos.

Ela concordou com a cabeça, ainda pensativa com tudo. Andrean, satisfeito com o que tinha dito, volveu o corpo e começou a entrar na mata. Lisara mordeu forte o lábio inferior.

— Andrean! — Chamou-o, e esperou ele se virar. E então abriu um sorriso tímido. — Devo-lhe uma.

Ele retribuiu o sorriso, feliz de ver a amiga melhor.

— Mas lembre-se: nada de carne. — Lembrou-a, pois ele era um vegetariano. Quer dizer, ele achava que era.

— Nada de carne — repetiu, dando a entender que tinha compreendido a mensagem. E então o corpo alto de Andrean sumiu pela mata.

De uma forma ou de outra, sabia que não poderia ficar presa ao que aquele ser branco significava, e nem ao que ele estaria fazendo em uma área perigosa como aquela. Sabia que os dragões eram a escória que veio para destruir a raça humana. Eram criaturas que, como o fogo, devastavam tudo que era próximo. Era isso que havia sido ensinado a Lisara durante toda a sua vida.

E, se existia mesmo um pelas redondezas, matar era o que precisava fazer.

Ergueu-se de onde estava sentada e voltou com pressa até os campos de treinamento, correndo até não ter mais fôlego para chegar ao pátio. Muitos jovens já podiam ser vistos enfileirados, com suas devidas armaduras. Eram em torno de trezentos, e apenas um sairia de lá vitorioso, pronto para entrar no grupo de melhores guerreiros de Sactrum, e o único que teria a honra de ir para a capital, Amerys.

— Um dos melhores comandantes de Amerys está aqui hoje... Você viu? — Ouviu um garoto murmurar para outro enquanto Lisara passava por todos, em busca de Andrean.

Pensar que aquele seria o dia pelo qual ela treinou cinco anos era assustador, e ao mesmo tempo calmante. O que ela faria se não passasse? Voltaria para a casa? Nem pensar. Não poderia encarar sua mãe sendo uma fracassada após fugir de casa e decepcioná-la. Continuaria treinando até precisarem das tropas de Dormex? Não era uma hipótese ruim, mas ela não gostava. A ideia de agir sozinha talvez lhe fosse mais conveniente. Havia sete províncias em Sactrum, e Dormex era apenas mais um, localizado ao sul do continente. Não conseguia similar passar o resto da sua vida naquele lugar.

Os vários murmúrios e sussurros continuaram, e eram tantos que todos começaram a elevar a voz e falar em um tom normal, como se os representantes do teste não estivessem bem a frente. Eram cerca de 30 aprendizes naquele campo; e sim, este era o total. Dormex era uma província que ficava muito próxima à floresta de Mantery, e as pessoas achavam que ela trazia má sorte e energias ruins e, por isso, poucas pessoas viviam ali. A Terra não era muito boa para cultivo, e talvez o único atrativo fosse, realmente, aquela floresta. E poucos jovens também se alistaram ou foram convocados para participarem do treinamento. Os outros campos das outras províncias, além de serem mais "evoluídos", abrangiam mais pessoas. Mas é claro que o número não era proporcional a tamanha algazarra que eles poderiam fazer, e a prova disso era que todos ali não conseguiam se aquietar ou até mesmo abaixar a voz. Nem mesmo quando o cavaleiro de maior cargo dentro daquele campo pisou no palanque.

— Calem a boca, seus pivetes! — gritou em bom som um dos cavaleiros em cima do palanque.

No segundo seguinte, as vozes de todos calaram-se. Não pelo que o homem dizia, mas ao se voltarem para o palanque, viram um homem com uma armadura belíssima, que mostrava imponência só pelo jeito de andar. Não havia dúvidas de que ele era o comandante enviado pela capital Amerys para ordenar o teste final. Lisara ficou estática, e virou-se para frente, e mesmo que não tivesse achado Andrean, sabia que ele deveria estar igualmente inspirado pela figura.

— Salvem Lorde Sehent, um dos oito comandantes de Amerys que veio nos conceder a honra de sua presença para o teste que tornará um de vocês paladino. Apesar de vocês, pirralhos inúteis, não merecerem. — O guarda impôs, impaciente. Sehent tocou em seu ombro, como se pedisse licença para falar assim que viu os rostos com sobrancelhas cerradas de todos os aprendizes ali, inclusive da ruiva.

Lisara revirou os olhos. Aguentava aquele tipo de tratamento vindo daquela escória de cavaleiros há cinco anos, e eles nunca mudavam. Mesmo alguns jovens sendo bem mais fortes que eles, tais abusavam do poderio que tinham. Mas Sehent parecia ser diferente. A figura imponente tinha um puxar de lábios espontâneo estampado em sua face jovial. Ele tinha o cabelo castanho escuro curto, e uma barba rala da mesma cor. As vestes pesadas davam a sensação de que ele era muito forte.

— Crianças — começou —, hoje vocês irão passar por uma etapa difícil, mas que acrescentará muito em suas vidas. Que o coração de vocês seja repleto de coragem, e não de sorte. É tudo que necessitarão ao entrarem na floresta negra.

Todos piscaram. Uma, duas, três vezes, sem acreditar no que ele estava dizendo.

"Como é?" pensou Lisara, com a expressão totalmente abalada, como se uma carruagem tivesse passado por cima de seus ossos e esmagado todas as suas esperanças. "Vão nos mandar para a floresta de Mantary?"

Após alguns poucos segundos de um silêncio perturbador, os murmúrios começaram a rondar novamente. Até Lisara que se manteve quieta até então arregalou os olhos. Eles eram loucos? A floresta negra era um dos lugares mais perigosos de toda Sactrum. E o teste final seria lá? Os outros oficiais levantaram-se de onde estavam sentados, e só então Sehent percebeu que falou demais.

— Silêncio! — O outro guarda tornou a falar. — Ouçam atentamente as explicações! Lorde Sehent, agradecemos por suas palavras.

Murmúrios eram ouvidos por todos os lados. Mesmo assim, todos se comportavam e voltaram às suas posições de sentido, um do lado do outro, olhando para o mesmo ponto, e com a mesma preocupação em mente: muitos perderiam a vida naquele dia.

— O que buscam não pode ser encontrado com facilidade. É uma joia rara, denominada de Zoltan — acrescentou o cavaleiro.

Era impossível não conhecer aquele objeto. Mas era estranho, porque a pedra celestial de Zoltan era apenas uma lenda antiga, e diziam que foi a muito tempo guardada por um dragão feroz. E havia mitos ainda mais sombrios que afirmavam que apenas um cavaleiro, o mais corajoso e poderoso do reino, havia conseguido derrotar o dragão e pegado a pedra.

O nome dele era Rheyn Arkaryan.

— A pedra celestial só é vista por quem mais precisa dela, e muda constantemente de lugar. Mas, quem conseguir achá-la e trazer até a entrada da base de treinamento de Dormex, será concedido com o título de paladino. — O homem sorriu, vendo o rosto assustado de todos. Era uma missão quase impossível, e todos sabiam disso. Era como simplesmente quisessem que todos morressem. — Consigo levarão um artefato especial, um cristal de cor avermelhada. Porquê, vocês questionam? É simples: Não adiantará de nada achar a pedra de Zoltan se o cristal de vocês for quebrado ou perdido. Vocês tem oito dias para completarem essa missão, caso contrário... — Seu sorriso se tornou ainda mais largo, como se sentisse prazer no que dizia. — Continuação treinando aqui até que a capital decida fazer outro teste.

Era uma explicação simples para uma tarefa mil vezes mais complicada: Além de achar Zoltan, devia-se proteger o cristal, pois vários outros adolescentes irão querer destruí-lo ou roubá-lo para que haja mais chances de vitória. Isso enquanto se foge dos animais e luta contra pessoas que foram treinadas com você desde que entrou no lugar. Ah, é claro. Não pode-se esquecer que a Floresta Negra não tem esse nome por acaso. Provoca ilusões a quem adentra nesta, e as árvores costumam se mexer. Ou seja, é um verdadeiro labirinto. E caso ninguém conseguisse achá-la... Continuariam ali, e ninguém seria escolhido para representar Dormex para ser um paladino.

— Isso é impossível! Vocês querem nos matar! — gritou um dos jovens ao longe, tornando em palavras todos realmente estavam pensando naquele momento.

O desespero alcançou Lisara, mas não a tempo dela protestar como o garoto fizera. Antes disso, sentiu algo tocar seu pescoço. Aos poucos, sua visão começou a ficar embaçada e percebeu que seu corpo havia caído no chão. Do mesmo jeito estavam todos os outros ao seu lado. Os músculos ficaram duros e a pele, gélida. E sua última sensação foi a de ser apanhada por outrem.

* * *

Despertou com a descrença de uma vencida.

A dor fazia-se presente como sua companheira inseparável, latejando principalmente sua cabeça. Não abriu os olhos; primeiro sentiu a repugnância que aquele lugar lhe provocara, depois, quando suas pupilas dilataram-se, sentiu o desespero tomar conta de si. As árvores possuíam o tronco contorcido de um marrom muito escuro, quase preto. Suas folhagens pareciam estar mortas há muito tempo. Vermes rastejavam pela grama rala, assim como podia-se ouvir barulhos de animais rastejantes e consideravelmente nojentos.

Estava na Floresta Negra.

Levou a mão até o pescoço, como reflexo do que havia sentido. Quanto tempo ficou desacordada? Olhou devagar para o lado, percebendo que suas duas espadas estavam ali, assim como uma pequena bolsa, que provavelmente penduraria na cintura ou no ombro, e dentro, estava seu cristal. Aquele que deveria proteger, não importando como.

A respiração estava abafada, e ao mesmo tempo frenética, rápida. Tentou aliviar seus ânimos, fechando os olhos e declarando a si mesma:

“Eu vou vencer.”

Repetiu isso várias vezes até convencer-se a si mesma. Apoiou seu peso em sua perna e levantou-se, tateando o tronco da árvore em que estava encostada. Respirou fundo, e olhou a sua volta. Não tinha medo dos vermes nem das criaturas rastejantes, e sim das ilusões que aquela floresta poderia lhe causar. Então lembrou-se das palavras de Sehent.

— Coragem — repetiu baixo e apenas para si mesma. — É apenas disso que eu preciso.

Certificou-se que o cristal estava seguro em um de seus bolsos, e colocou suas espadas apoiadas em sua cintura. A primeira coisa que deveria fazer era buscar água para preencher um dos recipientes que estava na bolsa. A comida que ofereceram era escassa: apenas dois pedaços de pão. Ela revirou os olhos, pensando em como Andrean deveria estar se remoendo pela precariedade de comida que forneceram ali.

— Deveria ter pegado um pedaço daquela maçã — reclamou para si mesma, colocando a bolsa em seu ombro.

Deveria ser rápida e tomar cuidado com os lugares que andava. Tinha certeza que havia pelo menos trinta pessoas ali, buscando a mesma coisa que ela. Ao longe, podia-se ouvir o som de espadas chocando-se, e tentou afastar-se o máximo de onde a melodia vinha. A mata era densa, e só poderia enxergar 10 a 30 metros à frente. De qualquer jeito, tentaria seguir um curso de água, pois eles dariam para um rio maior e assim poderia encontrar um caminho seguro para um abrigo.

Isto é, o faria, se não começasse a sentir, aos poucos, pingos sobre sua pele.

— Ah, era só o que faltava. — Torceu os lábios, percebendo que a chuva, mesmo que fraca, tornou-se presente.

As copas das árvores faziam com que poucas gotículas pingassem, mas era o suficiente para que a pele, assim como as roupas, tornassem-se úmidas. Isso provavelmente lhe traria problemas ao anoitecer, mas no momento era bom. Parou de vasculhar a floresta e foi até um dos troncos das árvores, encostando a garrafa que lhes dispuseram e esperou que a água escorresse do tronco. Aprendera que a água de toda floresta era potável, era apenas filtrá-la com uma peça de roupa, caso fosse necessário.

Virou-se e encarou a imensidão verde que a aguardava para a exploração. Uma perna atrás da outra, caminhou, com a mão na bainha da espada, para qualquer empecilho que viesse a aparecer em seu caminho. Até que parou os movimentos pelo que seus olhos viram.

— Mas o que diabos...? — indagou, curvando a sobrancelha.

Ergueu a mão esquerda para que pudesse ter certeza de que não era uma confusão causada por uma ilusão, mas assim que viu claramente o líquido escarlate preencher toda a sua mão à medida que os pingos caíam, segurou o grito preso em sua garganta.

Chovia sangue.

Desesperada, voltou a olhar a garrafa em que tinha colocado a água, e a ilusão se desfez. Quando piscou os olhos, o líquido voltou a ser incolor; era apenas água.

Em poucos minutos, percebeu que teria que encontrar um lugar para passar a noite, e por conta do frio, buscar um jeito de se aquecer, e não poderia ser o fogo, já que este era mais chamativo do que necessitava. Seguiu o curso de um rio, cortando alguns galhos com sua lâmina, por conta da imensidão florestal. Até que ouviu um grito. Um grito muito alto.

Era de Andrean.

Não precisou pensar nem duas vezes para que suas pernas agissem sozinhas e fossem na direção da voz. Sua respiração ficou abafada e o peito descia e subia descompassadamente enquanto corria o mais rápido que seu corpo permitia e cortava os galhos que ficavam no caminho. No momento, não sentia medo, e sim aflição e preocupação. Se acontecesse algo com Andrean, nunca se perdoaria.

De instantâneo, não se importou com torneio, nem com teste nenhum, queria apenas ver se seu amigo estava bem. Queria vê-lo reclamar da comida por mais inúmeras vezes e se negar a comer carne.

Não queria pensar na hipótese de perdê-lo.

— Andrean! Andrean! Por favor, me responda... eu estou indo…!

Parou quando o viu deitado no chão, estirado, próximo a um imenso lago.

Mas aquele não era seu amigo.

Aproximou-se e percebeu que era, na realidade, uma garota. Possuía os cabelos loiros, e o corpo atlético, embora coberto por camadas de roupa e armadura de metal. Lisara sentiu um alivio e uma tensão inexplicável, embora a adrenalina ainda fizesse seu sangue ferver. Mais uma vez, a floresta não enganou seus olhos, e sim seus ouvidos.

Afinal, não era possível que o grito de Andrean fosse tão fino...

Conhecia aquela garota. A reconhecia, mas, por algum motivo, não se recordava de seu nome. Ela possuía uma tiara que tinha chifres de um veado, bem pequenos. Era impossível confundi-la com qualquer outra pessoa. E era uma das melhores cavaleiras daquele lugar. Era estranho que estivesse tão abatida e ferida, já que ninguém em treinamento conseguia atingi-la.

Lisara aproximou-se da menina, e colocou o dedo indicador na frente do nariz dela, averiguando a entrada e saída do ar. Ela ainda respirava.

Assim que aproximou a orelha do peito da garota para que pudesse checar os batimentos cardíacos, levou um susto e segurou o grito na garganta quando foi tomada por mãos que agarraram seu colarinho.

— Não chegue perto! Ele está aqui, ele está aqui! Ele...! Ele vai matar a todos! — avisou, desesperada, com sua íris castanha tão enigmática e desesperada que Lisara sentiu suas artérias voltarem a pulsar rápido.

No momento seguinte, ela caiu, exausta, provavelmente sentindo o fardo dos seus machucados aumentarem.

— Ele? — questionou Lisara, curvado o cenho. — Mas... quem...

E então lembrou-se do amontoado branco que viu mais cedo e sentiu sua espinha gelar.

Diziam as lendas que os dragões evoluíram, e por conta da magia nesse mundo ser inexistente, tiveram que se suprimir a uma forma mais habitável, para que guardassem o máximo de magia possível proveniente do mundo que vieram e para diminuir o número de mortes. Eles se transformaram em humanos.

E um deles estava ali, pronto para beber o sangue vindo das carnificinas e à vida em geral declarar guerra.

Faltam oito dias para o fim do teste.

Notas finais
Aeee, chegaram até o final! O que acharam? Gostaram, não gostaram? Muito ruim? No próximo começará a ação de verdade! Várias surpresas. 8) Que tal comentários? Vocês notaram que não fui eu quem respondeu vocês, certo? Coloquei o Andrean pra trabalhar, e agora não darei folga a Lisara. Sim, será ela que responderá vocês, então, podem mandar bala nas perguntas destinadas a ela! Obrigada a todos que estão me apoiando e comentando, nutro um amor por cada um de vocês. Obrigada. Até os comentários, seus lindos!