Notas iniciais
É... eu acho que eu não sirvo pra ser escoteira. TAT *É acertada por uma pedra* Sim, sim, eu sei! Eu mereço ser atirada de um prédio, devorada por um zumbi, levar um tiro na testa, reviver, depois ser comida por um dragão, voltar, e levar mais tiros, pra ver se levo jeito com esses meus atrasos. Peço mais uma vez desculpas. Eu estou com tanta vergonha que não sei nem como compensar vocês. Já comecei a escrever um spin-off sobre o Rheyn, pai da Lisara, e espero que isso compense um pouco as coisas. Eu entrei de revisora em uma editora, e ainda arrumarei outro emprego essa semana, então, imaginem como vai ficar corrido pra mim. Abandonar a história? Jamais. Tenho os melhores leitores desse mundo, e, por mais que eu atrase, não vou abandoná-los! Vocês são meus preciosos *voz do Sméagol marota*, portanto, não vão se livrar de mim tão cedo. Há! Queria mostrar duas coisas pra vocês, a primeira, é o teaser que uma das leitores (Anna Carolina, linda!!) fez pra LDF! Gente, olha, eu morri duplamente. Sério, está perfeito o teaser! Vocês podem acessá-lo por esse link: https://youtu.be/et-WUIwqHLY E a segunda coisa maravilhosa que recebi foi uma fanart. Eu juro que fiquei incapacitada de falar por mais de meia hora depois que vi o desenho. Eu quase chorei. Eu esperneei, eu sai cantando Happy na chuva, enfim! Imaginem só a felicidade da criança após ver isto, um desenho da Lisara e do Baldo (ele desenhou o Baldo, genteee!!!), feito pelo João Emanuel: http://i.imgur.com/faOfJ39.jpg Então, entendem do que falo? Além de ótimos leitores, há uns bem criativos e com ótimos talentos! Deus do céu, quase me mataram com essas obras! Felicidade demais! Me desculpem ser essa autora horrível que demora pra atualizar. Me perdoem! T^T Além disso, tem mais!! Eu queria agradecer aos lindos, maravilhosos e gostosos que recomendaram a história! J Emanuel (duplamente, porque foi esse lindo que fez o desenho), G Swizzle, Duki, O esquecido (sempre vou lembrar de ti hahaha), e Loly! Eu amei cada palavra das suas recomendações. É por vocês que vale a pena escrever! Obrigada, obrigada, mil vezes obrigada! Agradeço a todos que tiveram o trabalho de comentar, que usaram o seu tempo pra me fazer sorrir. Obrigada. Vocês são uns amores. As perguntas e as respostas que eu escolhi estão nas notas finais! Agora vou parar de enrolar, e vocês podem ler o capítulo! Eu estou doida pra ver a reação de vocês quanto a esse capítulo. Boa leitura!

Fadadas àquele lugar, as chamas envolviam as rochas do solo, como se saísse fogo pelas suas frestas. Da lateral até o topo, pedras deixavam todo o ambiente escuro e com um ar fúnebre. A única passagem que trazia seres ali era grandiosa e com várias armadilhas feitas pela própria natureza. Animais que só sobreviviam na escuridão habitavam aquela caverna, e isso incluía até mesmo dragões. E foi ali que um deles formou sua toca, e fez dela um esconderijo.

O salão principal estaria vazio, como de costume, se não fosse duas presenças marcantes. Os outros lacaios estavam efetuando seu dever, já que cada um tinha uma função dentro daquela colônia. Alguns, protegiam. E outros, por sua vez, investigavam, pesquisavam formas de atacar. E ainda havia aqueles que exploravam e matavam, para que o alimento fosse servido. Mas diferente de outras colônias, naquela era um rei quem dava as ordens.

No topo de um pedestal, erguido por pedras e mais pedras, lá estava ele. Sempre em sua forma original, cercado pela calamidade das labaredas, acendidas pelo seu fulgor. Ninguém ousava chegar ali – a menos que fosse chamado. O caminho era árduo e tenebroso, e parecia que toda sua coragem era sugada por aqueles olhos vermelhos e dentes afiados, que lhe encarava a cada passo, chamando a morte para perto de si.

Era, talvez, a descrição do próprio demônio.

— Dei a ele três dias para que cumprisse com o objetivo que lhe foi dado — disse o ser, com uma voz grave e rouca, assemelhando com o sibilar de uma cobra, assustando até mesmo os maiores animais que ali habitavam. — Me pergunto se não foi o suficiente.

Tudo o que ele falava era dito com tamanha impaciência. E não poderia ser de outro modo; pelos incontáveis dias que se seguiram após Zyra aceitar servi-lo, logo percebeu como ele gostava das coisas rápidas e eficientes. Acima de tudo, gostava de servos úteis, que lhe seguissem sem pestanejar, além de se tornar óbvio que lealdade era uma característica essencial. Isto é, se não quisessem ser mortos. Ninguém ousava desafiá-lo; sabiam o tamanho de sua crueldade. Ela, assim como os outros tinham um enorme respeito por ele e seguiam seus ideais a todo custo, acreditando ser o correto para eles. Ora pois, se estavam naquele mundo e eram fisicamente mais fortes e mentalmente mais evoluídos, por que aquelas terras ainda não eram deles?

Era uma pergunta que tinha resposta. E a resposta estava justamente no que mandaram seu amante buscar na Floresta Negra. Por isso que ele não admitiria falhas nem decepções. Mas a demora estava realmente preocupando Zyra. Ela tinha vontade de sair em busca dele, mas se o fizesse, seria uma declaração de que achava que ele falhou, e isso era a última coisa que gostaria que seu senhor pensasse porque, sabia que se ele sequer sentisse o medo que ela tanto tentava esconder, ele mesmo iria atrás dele e o mataria. Ou faria ela o matar. Não gostava nem de pensar sobre isso.

Logo, simplesmente tentava convencer a si mesma e a ele de suas palavras.

­­­— Ele já deve estar finalizando, senhor da escuridão — respondeu uma serva, na melhor das intenções de acalmar o seu senhor.

— Já era para estar finalizada — aclamou de forma ríspida. Seu tom de voz ficando cada vez mais assustador e grave.

— Peço-lhe paciência, meu senhor. Tenho certeza que ao tardar ele estará aqui.

— A morte não espera. Por que comigo seria diferente, Zyra? — questionou de forma autoritária, voltando seus olhos para encarar a mulher.

O silêncio se formou naquele momento. Zyra estava com a língua entre os dentes, mas preferiu se calar. Não sabia quando seu senhor poderia ter um ataque de nervos e em hipótese alguma gostaria de vê-lo naquele estado. Só de pensar em deixá-lo nervoso fazia seu corpo inteiro tremer. A ideia não era nada convidativa e ela tinha que tomar cuidado com cada palavra que dirigia a ele.

— Queira me perdoar. — Fez uma reverência curta, e só se levantou quando o seu senhor relaxou o olhar sobre ela. Não que ela soubesse que ele realmente tornou sua expressão mais "agradável", já que era inadmissível encarar aqueles olhos diretamente, mas ela podia sentir sua aura. E por mais que ela sempre estivesse emanando caos e trazendo energias negativas, ela reconhecia quando ela se tranquilizava um pouco. — Ele provará seu valor.

— Pois bem, pois não é de meu feitio dar segundas chances. — Mostrou ar de indiferença enquanto falava. — Porque normalmente, eu apenas acabo com a vida de quem não me é útil e fracassou em uma missão tão simples como me trazer uma simples comida. — E então se corrigiu, já que sabia que simplesmente não poderia devorá-la como fazia com as outras escravas que lhe traziam. — Nesse caso, uma escória humana.

Em resposta, Zyra assentiu com a cabeça. Estava claro que não haveria uma redenção, caso seu suposto amado falhasse. Mas ele era o único que conhecia aquela floresta ao ponto de encontrar o que estavam buscando.

— Caso ele nos traia, irei buscá-lo — sibilou calmamente, enquanto com suas garras puxou um crânio dos amontoados que estavam a sua direita. Ele gostava de colecionar os crânios dos humanos que matava, era como se a alma deles ficassem presas a si para sempre, e era uma tortura extremamente agradável para seres tão asquerosos que não mereciam nada além do sofrimento. Mas, às vezes, ele gostava de juntar um membro de um dragão à sua coleção. — Nem que seja somente a sua cabeça.

Zyra engoliu seco, e respirou fundo, juntando toda a paciência que poderia ter no momento. Pensar naquilo lhe dava calafrios. Ela já sentia alguns pingos frios descerem pelo seu rosto, alertando-a que estava nervosa demais. Normalmente ela não ficava assim na frente dele. Era uma das poucas das quais ele tinha confiança suficiente para deixar chegar tão perto de si. Era sua comandante; seu melhor peão naquele jogo de poder.

Ela verdadeiramente nunca esperou que chegasse naquele patamar. Desde que, há muito tempo, preferiu se juntar a ele do que lutar a favor de humanos – ideia que lhe parecia absurda demais e não sabia como ela sequer pensou em considerá-la – nunca se imaginou naquela posição de extrema confiança. É claro que lhe trazia proveitos, sim. Mas também muitas responsabilidades. Ela era severa e dura demais com os outros, mas com ele... Tanto com ele quanto com Thar-kiel, ela se tornava um ser totalmente distinto do que se mostrava; ela deixava claro para eles que possuía fraquezas. Já que o medo e o amor em si, para ela, eram as maiores fraquezas que alguém poderia ter pelos simples fato de serem sentimentos humanos.

— Possui toda razão, meu senhor. Mas há certeza no que digo. Ele irá cumprir com a missão que lhe foi dada. — Tentou deixar a voz mais firme para passar confiança no que dizia, mas sentiu que falhou miseravelmente. Não falou mais nada, e nem falaria. Não ousaria desafiá-lo sem ser chamada.

Um barulho alto foi ouvido em seguida. Ele acabara de detonar o crânio que estava em sua pata, com sua própria força bruta. Pelo visto, a insegurança de Zyra o tinha deixado mais impaciente. De seus olhos pareciam estar saindo chamas, e assim ele soprou vapor quente pelas narinas, antes de finalmente dizer:

— É bom que esteja certa, Zyra.

* * *

Cada segundo que se passava parecia séculos para Lisara. Ao abrir os olhos e sentir o peso de sua existência em suas mãos, em formato de uma pedra que não fazia a mínima ideia de tamanha importância, foi como se uma neblina se formasse diante de si. Em vez de pensar no que fazer, começou a orar para todos os deuses conhecidos por sua vida, e mais: pela vida de seus entes.

Ao invés de pensar no que fazer, raciocinou o que seu pai provavelmente faria naquela situação. Quando ele te contava histórias, sempre pareceu mais fácil erguer a espada diante de um dragão. Mas aqueles olhos amarelos ainda a estavam incomodando. Diante de tudo, ela largou a pedra, e levou as mãos até sua cabeça, novamente bagunçando seus cabelos.

— Pai, me ajude, me ajude! Eu quero sua ajuda... — clamou para os céus, mas a única coisa que recebeu foram pingos de água.

A chuva começou já grossa, investindo rápido contra as copas das árvores, os troncos e o solo.

Por um lado, isso seria bom, pensou. Com a chuva, os rastros e o cheiro poderiam ser um pouco camuflados. Pela primeira vez, a floresta estava a ajudando. Talvez a “intriga” com os dragões fosse mais antiga do que com os humanos, visto que aquela floresta era verde e a mais bonita do reino, antes da terceira era, que foi quando os dragões chegaram ao mundo. Por outro, se sentia desanimada e triste. Se seu pai, o maior guerreiro que aquela terra já vira teve a vida perdida por um dragão, o que seria dela?

Suas mãos passaram de seu cabelo para seu rosto, quando por fim sentiu a água quente descer por sua pele. A respiração aumentou e começou a ofegar a medida que as lágrimas aumentaram. Não aceitava estar perdendo tempo chorando em uma situação como aquela, mas era quase impossível. Seus amigos quase perderam a vida, e ela não fazia ideia do porquê aquela pedra ser tão importante.

Em um momento, conseguiu olhar para seu colar, aquele que seu pai lhe deu há muito tempo. Ele brilhou, e o sorriso do pai passou por sua cabeça. Quase pode sentir suas mãos afagarem sua cabeça, como sempre fazia quando ela errava um golpe, ou fazia uma de suas travessuras. Tocou com a ponta do dedo o colar.

— Vai desistir tão fácil? — Rheyn cutucou, enquanto rodou a espada na mão e a cravou na grama fértil da colina em que estava.

O bico estava estampado na cara repleta de sardas da garota, que acabara de levantar do chão e passar a mão no seu cabelo curto, levando-o para trás junto com o suor. Com dificuldade, ela ergueu sua pequena espada de ferro para frente.

— Quem está desistindo, seu velho gordo?! — berrou, ameaçando com a espada.

Seu pai ouviu bem o que ela tinha dito e deu um riso longo e animado, em seguida voltando a olhar para sua filha, que mantinha o rosto tão vermelho quanto a cor de seus cabelos.

— Me ofendendo, é? Acho que vou ter que te ensinar mais uma lição.

Foi tudo rápido demais depois de Rheyn dar o primeiro passo, e quando Lisara conseguiu se posicionar para uma defesa mais justa, sua espada já estava no chão, a um metro longe de si, estirada no chão. Ela encarou suas mãos vazias e depois olhou para o pai, que fincou novamente a espada no chão e sentou-se na grama.

A pequena menina sardenta estava com o queixo caído e com o seu pequeno corpo paralisado. Demorou alguns segundos para que ela voltasse a si e fosse em direção ao pai, eufórica.

— Como fez isso?! — perguntou, animada com o movimento que ele acabara de mostrar. Mas, quando ela ficava animada daquele jeito, simplesmente não parava de falar. — Me conta! Você aprendeu isso com algum paladino? Com um superior? Você tem outro aluno? Você já matou um dragão com isso? Ou talvez... uma pessoa?! Foi isso? Foi, não foi? Eu sempre acerto!

Rheyn riu. É claro que ela pensava que sempre acertava: Lisara falava todas as opções que lhe vinham a cabeça – até mesmo as mais absurdas, e ele se perguntava como uma criança de nove anos poderia saber – até ele se deixar parecer vencido e escolher uma delas. E é claro que ela acreditava. Mas, na maioria das vezes, ela realmente acertava algumas coisinhas.

— Bom, eu vou te falar então. — Ele chamou ela para mais perto, e se agachou um pouco quando ela veio, toda animada. E então deu um sorriso enquanto sussurrou: — É segredo.

Ela ficou tão frustrada que se afastou na hora. E agora era o momento dela deixar o orgulho vencer, cruzar os braços, e falar:

— Ah, é? Mas eu nem queria saber mesmo! Nem foi tão incrível assim. — Deu de ombros, fazendo um bico enorme.

Rheyn apenas parou ao lado da filha, segurando-a pela cintura e a colocando sentada do seu lado, como uma boneca. Em seguida, deu um suspiro e a olhou.

— Comece segurando essa espada direito. Você está segurando mais peso do que o necessário — comentou.

Lisara curvou os lábios, cansada daquilo. Embora ela não admitisse, iria se esforçar muito para seguir o que seu pai falara.

— Bom, enquanto a mamãe termina a comida, vou te falar outro segredo. — E os olhos da garota voltaram a brilhar, e ela até chegou a encará-lo, mas lembrou-se que deveria estar brava e voltou a cruzar os braços e empinar o nariz. — Leve isso para a sua vida, Lisara. Um dia, quando você enfrentar um inimigo muito poderoso, saberá do que falo.

Ela assentiu com a cabeça, prestando muita atenção nas palavras sábias do pai.

— Isso se eu conseguir enfrentar alguém... — comentou baixinho, e recebeu um peteleco de leve na cabeça. — Ai!

— Não fale isso! Nunca deve se menosprezar. Você tem potencial, pode se tornar melhor do que qualquer um, até mesmo eu. — Pela primeira vez, pareceu sério.

Ela fez força para não rir.

— Pai, só o senhor acredita nisso. — Bufou.

— E não é o suficiente? — Ergueu uma sobrancelha para ela, ameaçando ficar bravo. — E não sou só eu. Sua mãe também acredita.

Lisara torceu a sobrancelha e se calou. Não adiantava discutir com o pai, ele chegava a ser mais teimoso que ela quando queria. Apenas assentiu com a cabeça. Então, seu pai voltou a ficar sério e olhou com seus olhos azuis – que possuíam uma pequena heterocromia central castanha – no fundo dos olhos dela, com toda sinceridade e bondade que existia em si.

— Quando cada golpe pode ser o último, cada oportunidade torna-se a única opção — afirmou por fim, olhando firme nos olhos da filha. — Por isso, você deve treinar, e ser boa em cada coisa que faz. Ninguém irá te tirar isso, filha.

A garota encarou-o com um sorriso terno. Dobrou as pernas e as envolveu com o braço, apoiando a cabeça em cima dos joelhos. Seu pai sempre lhe dizia sábias palavras, e ela sempre guardava cada uma, pois achava que seria útil em certas oportunidades. Como quando ele lhe falou que “a palavra é prata, e o silêncio é ouro”, e ela passou semanas se negando a falar uma palavra, porque pensava que em baixo da sua cama apareceriam moedas e moedas, e ela se tornaria rica. Foi uma decepção quando, após a quarta semana, sua mãe a desafiou a falar uma palavra, e com seu temperamento forte, ela perdeu a aposta que fez consigo mesma e desistiu de tentar ser rica novamente.

— Você só precisa de coragem para enfrentá-los. — Sorriu e bagunçou os cabelos de Lisara. — Agora, que tal mais uma partida antes da minha longa viagem até Amerys?

A memória sumiu, e ela voltou ao seu presente. Seu pai lhe disse para não desistir, e era exatamente isso que faria. Só a lembrança daquele olhar que tanto lhe fazia falta foi o suficiente para lhe despertar forças. Sua lâmina não estava apta para matar um dragão – e ela também não sabia muito sobre como identificar os pontos mortais de um dragão – mas pelo menos poderia sobreviver. Fugir não seria uma opção, mas foi única que lhe restou naquele momento.

Levantou de onde estava e bebeu um gole de água. A neblina a impedia de ver por onde andava, mas por algum motivo, ela sabia para onde deveria ir. Primeiramente, tinha que averiguar se estava tudo bem com Andrean e Alina, mas ficou com a dúvida na cabeça. Tinha medo de atrair o dragão para lá e acabar matando seus próprios amigos por um capricho seu. Por outro lado, eles precisavam de sua ajuda. Coisa pela qual ela não serviu muito nos últimos dias.

Optou por ir. A neblina e a chuva, além da floresta em si impediria o dragão de vê-la ou saber onde ela está. Porém, até esta se dissipar, ela teria que arrumar um plano. O lugar não era muito longe, embora os galhos e as copas das árvores a atrapalhassem um pouco. Parecia muito mais além em seu sonho, mas caminhando daquele jeito, chegou ao lugar específico em menos de dez minutos. As árvores estavam trocando de lugar.

Aos pés de uma árvore, protegidos da chuva pelas folhas, Lisara viu duas sombras. Se aproximou um pouco, até perceber quem eram, e pareceu que um banho de alivio tomou todo o seu corpo; uma sensação maravilhosa. Não segurou a ansiedade e correu até eles, abrindo um sorriso ao ver Andrean e Alina. Por um momento, a ruiva esqueceu tudo e tornou a ajoelhar do lado de seu amigo, que se encontrava desmaiado. Alina estava do outro lado, com um pano que colocava e tirava de sua testa, molhando com água da chuva e torcendo. Ela parou o que estava fazendo assim que viu Lisara.

— Ele está bem?! Algum ferimento grave?! — perguntou o mais depressa que podia.

Assim que virou-se para ver como estava Alina, percebeu que ela situava-se sem sua tiara – que se encontrava do seu lado, totalmente manchada e destruída. Seu rosto parecia manchado de sangue, assim como suas roupas. Era um sangue mais escuro, e Lisara percebeu que aquele não era o sangue dela, e sim o do dragão. As roupas estavam rasgadas, e o cabelo... Não estava nos seus melhores dias. Ela parecia sofrer com todos os machucados ainda, mas se recuperou rápido. Muito rápido. De um jeito que até Lisara estranhou.

— O que está fazendo aqui? Como... — Alina começou. — E sim. Ele está melhor, depois da reanimação cardiorrespiratória.

— Eu os vi em um sonho. Eu precisava saber se estavam bem, então eu vim. — Lisara suspirou e olhou para Alina, só então notando o que ela tinha falado e o que de fato tinha feito. — Parada... O quê? Você fez o quê?

Lisara acabou ficando vermelha em pensar na cena. De algum modo, imaginou que seu amigo estava só fingindo estar desmaiado para ganhar um beijo, mas tirou aquela hipótese da cabeça diante da situação que estava.

— Ele estava te procurando, não é? Sabe o motivo? — Alina torceu o pano, colocando na testa de Andrean, e voltou a dizer, ignorando a surpresa de Lisara.

— Gostaria de saber. Mas acho que é por causa disso. — Lisara tirou de sua bolsa a pedra.

Viu os olhos da garota ao seu lado se estamparem, quase brilhando ao olhar para a pedra. E por um segundo pensou que ela ergueria a mão para tentar pegar a Zoltan, mas Alina apenas olhou para Lisara e deu um sorriso imperceptível, se desfazendo tão rápido como se fez.

— O que está esperando para entregá-la? — questionou o mais óbvio. Mas Lisara nem tinha pensado naquilo, e só quando a loira falou que ela notou que, se quisesse, poderia voltar correndo e virar uma paladina.

Mas era isso mesmo que ela queria?

— O quê? Eu não... — A princípio ficou sem reação, olhando para a pedra. Não havia pensado em entregá-la e se tornar uma paladina, algo que sempre sonhou. Mas tornou-se óbvio que aquilo estava fora de questão no momento. — Isso não importa mais.

Alina não expressou reação. Talvez fosse o jeito dela; Lisara não sabia. Não convivia com a garota todos os dias, já que seu único amigo era o Andrean. Mas de algum modo, percebeu que eles já tinham uma certa intimidade que jamais notara. Questionou-se se Andrean havia lhe contado tudo sobre sua vida, ou se escondeu que era de Alina que ele gostava. Desejava dar um soco na cabeça dele até lhe contar, mas novamente, não podia.

— Eu tenho que buscar algumas ervas para colocar nos machucados dele... — Alina franziu o cenho. — Cuide dele por enquanto.

Lisara assentiu.

Recordou-se que seu tempo ali era limitado, e que antes de mais nada teria que ser vaga. Não sabia quando a névoa e a chuva iriam dissipar, mas tinha que ser rápida. O que tinha em mente necessitava de uma boa caminhada e esforço físico. Pensou se poderia levar Andrean consigo, mas era uma ideia absurda e logo se desfez em sua mente. Ela suspirou enquanto deixou o pano umedecido na cabeça do amigo e olhou para a bolsa dele. Em um movimento sorrateiro, ela abriu e viu que seu cristal ainda estava ali. Ignorou-o e olhou mais afundo, onde estava uma corda.

— Desculpe — disse ela, em um sussurro —, depois eu te devolvo.

Em seguida, pegou a corda de Alina e também colocou em sua bolsa. As duas seriam o suficiente para o que ela estava prestes a fazer.

Olhou novamente para o garoto loiro do seu lado, de uma forma terna. Não da forma que se olha quando se está apaixonado, mas do mesmo modo de como você olha para um irmão.

— Fique bem. Prometo que depois vou roubar maçãs com você — disse e sorriu, revirando os olhos. — E nada de carne, eu sei.

Levantou-se, tomando cuidado para não fazer barulho. Até sentir uma mão segurar em seu braço, e quando virou-se, deparou-se com os olhos verdes meio sonolentos de seu amigo a encarando.

— Custa pedir? — disse, sem mais nem menos.

— Você... — Lisara começou, tentando segurar sua frustação. — Você estava acordado todo esse tempo?

Andrean deixou um sorriso escapar, mas logo lembrou-se da situação e o desfez. Apertou o braço de Lisara.

— Lisa. Por que você está fazendo isso? Você enlouqueceu? — questionou-a.

Lisara o ignorou por completo, pensando apenas noque estava preso em sua garganta.

— Você, seu canalha safado, fingiu-se de morto para Alina te beijar... — fechou os olhos e curvou a sobrancelha, já fechando o punho. — Eu vou te dar um soco tão forte, tão forte que...

— O quê?! Eu jamais...! Alina fez o quê? — Ficou surpreso, mas balançou a cabeça para não se desviar do que realmente queria falar. — Lisara Arkaryan! — Andrean sacudiu seu braço, fazendo-a prestar atenção em suas palavras. — Quem você pensa que é para ir nessa perigosa aventura sozinha, sem nem ao menos pensar em me levar?

Lisara deixou a frustração de lado e ficou abismada com a observação do amigo. Como poderia levá-lo? Depois de tudo, depois dele quase morrer por sua causa, ele ainda queria ir enfrentar um dragão? Não, não permitia que ele participasse de suas loucuras. Ainda mais quando tinha alto risco de morte no que iria fazer. Jamais se perdoaria se acontecesse algo com ele por sua causa.

— Primeiro: você já olhou para si mesmo? Você está todo machucado! Se eu for procurar alguma coisa que me machuque, não vou levar um amigo. E... Eu preciso fazer isso sozinha.

— Mas amigos servem para isso. Estar do lado da pessoa, na alegria ou na tristeza — comentou, e depois ergueu a sobrancelha —, ou são os namorados que devem fazer isso?

Lisara deu um pequeno tapa na cabeça do amigo, com sua mão livre. E depois deu um longo suspiro, colocando a mão na cabeça.

— Me diga que você não comeu cogumelos nesse tempo todo. Porque, pelas coisas que está dizendo... — Era um comentário que não precisava ser respondido, assim como a pergunta retórica, mas é claro que a lerdeza de Andrean não entenderia isso.

— Cogumelos? Eu até encontrei alguns, mas não deu tempo... Então, não. Não comi. — Vendo a expressão de desacreditada de Lisara, ele ficou levemente chateado. — Poxa, eu passo tanto a impressão que sou um esfomeado que come a primeira coisa que vê pela frente?

Lisara preferiu não responder.

— Andrean, é sério. Você precisa descansar... Já fez demais por mim hoje. — Voltou ao assunto, notando que estava perdendo tempo com conversas desnecessárias.

— Está certo. — Andrean se ajeitou, olhando para Lisara e soltando o seu braço e deitando-se, mesmo a contra-gosto. — Eu te deixarei ir, mas com uma condição.

Sua amiga esperou a resposta, assentindo uma vez com a cabeça.

— Traz uma maçã pra mim.

Ela entendeu o pedido subtendido naquela frase e sorriu, sentindo uma sensação de choro em sua garganta, e então tratou de responder logo antes que começasse a derramar lágrimas ali mesmo.

— Trarei.

Lisara olhou seriamente para ele, suspirou, e voltou o corpo para frente, disposta a continuar sua caminhada e deixar Andrean pra trás. Não iria se despedir dele. Odiava despedidas e tudo que as envolvia. Porém, não hesitou em olhar para trás e vê-lo sorrir, fazendo um sinal para que ela lembrasse da maçã.

Ele confiava que sua amiga voltaria para casa. Não era necessário nenhuma palavra para entender aquilo, apenas um pedido de volta subtendido no desejo dele. Lisara nunca descumpria uma promessa, e aquela era a forma dele dizer: “Volte e não morra”. Era o suficiente para que ela se lembrasse que devia-lhe uma maçã, e voltaria custe o que custasse.

O astro rei já estava desaparecendo e, por sorte, a neblina estava ficando mais densa, embora a chuva estivesse ficando cada vez mais fraca. Ao olhar para o norte, Lisara avistou seu destino, camuflado pela densa fumaça branca que o envolvia. Quando olhava aquela montanha junto com Andrean, sentados em uma pedra em um local onde só eles conheciam, pensava que ela era muito mais longe do que realmente era. Olhando no chão, a certa de alguns quilômetros dela, parecia muito mais assustadora.

Tudo estava calmo demais. Começou a imaginar se o dragão não estava a sua espreita, seguindo seus passos e jogando com ela; como um gato faz com um rato antes de devorá-lo. Isso fez seus pés movimentarem-se mais rápido à medida que caminhava, até começar a correr. Estava com medo, e não poderia negar isso a si própria, por mais que tentasse esconder. O peso de suas duas espadas dificultava a locomoção e a deixava mais cansada. Se não fosse por seus treinamentos naquele campo, provavelmente já estaria cheia de dores e mal conseguiria levantar a perna do chão. Naqueles momentos agradecia pelas flexões e pelos combates, logo depois de tomar banho de balde de água fria.

Não estava longe. Chegou a essa conclusão pois notava que a névoa cada vez mais desaparecia. Faltavam menos de um metro, e estava quase convencendo a si mesma de que iria conseguir. Jogou tudo o que não era necessário ao pé da colina para que a gravidade não fizesse tanto efeito em si e esfregou as mãos em sua roupa. A escalada seria longa e árdua, e após alguns metros se agarrando e subindo com muita dificuldade e já sem fôlego, ela parou. Era hora de usar as cordas.

Pegou as três cordas em sua bolsa – sendo a terceira dela mesma – e amarrou e uma de suas espadas. Como o lugar em que estava tinha dava-lhe uma boa visão sobre as pedras que estavam acima de si, apenas pegou sua espada e focalizou toda a sua força e energia no braço. Jogou com tudo o que podia a espada para cima e puxou a corda. Por sorte, ela tinha fincado na primeira tentativa. Escalou novamente com a ajuda da corda, lenta e cuidadosamente.

Até um arfar tocar o seu ouvido.

“Coragem, coragem. Não tenha medo”, mentalizou Lisara.

— O cheiro de vocês é tão podre e nojento — disse em um sibilar rouco —, mas a carne é tão saborosa...

Lisara sentiu seus pés hesitarem, e tornou a pegar uma de suas espadas, virando o corpo e a apontando para o ser em questão. Era ele. A expressão dela não era de alguém assustada; pelo contrário. Lembrar das palavras do pai lhe davam coragem para enfrentar quem quer que fosse. Passou alguns segundos parada e percebeu que a forma humana de um dragão era realmente parecida com a de um humano – de certo ela imaginava que eles tivessem chifres, ou algo relacionado a um lagarto. Talvez a única coisa que chamasse mais atenção que seus olhos amarelos eram os seus dentes, que permaneciam mais afiados.

Ele situava-se em uma rocha do lado, onde tinha espaço suficiente para que ficasse de pé. O coração de Lisara desesperou-se ao vê-lo.

— O mesmo olhar do seu pai — comentou sádico. — Mesmo morto, ainda tinha esse olhar irritante.

Ele avançou um passo quando disse, e Lisara, ao invés de recuar, manteve o olhar firme. Estava pronta para enfiar a espada na garganta daquele desgraçado. Mesmo que ele não morresse, seria gratificante vê-lo sentir dor. No entanto, percebeu que poderia tirar algum proveito daquilo.

— O que sabe sobre Rheyn? — questionou, desafiando-o com o olhar.

— Sei que ele tinha o sangue delicioso. — Mostrou os dentes em um sorriso irônico e doentio.

Deveria ganhar tempo. Ainda estava acuada por pendurar-se ainda na corda, e caso o dragão a atacasse naquele momento, não sobraria ninguém para contar história. Estava com medo, mas de algum modo, tentava o afastar de si e preencher seus pensamentos.

— Quem é você? — Lisara ignorou a fala dele, embora uma raiva descomunal e nojo daquele ser crescessem dentro de si.

— Ousa falar comigo, sem nem mesmo saber quem sou? — Ele ergueu a sobrancelha, e Lisara notou uma mudança em seu porte.

Ela então olhou pra cima. A espada estava escorregando e a corda não iria aguentar muito seu peso. Foi então que a ideia surgiu em sua mente e deveria colocá-la em prática naquele minuto, antes que fosse tarde demais. Não conseguia esperar e agarrou-se a sua primeira opção. Olhou para o dragen e voltou a subir, mas não sem antes gritar:

— Não preciso saber quem você é pra te matar! — ela pegou um pequeno pedaço de pedra com suas mãos trêmulas de medo e atirou com força na direção do dragen.

E isso certamente o deixou furioso, como o esperado.

Lisara não olhou para trás, tentando livrar-se da cena. Colocou toda a força que ainda lhe restava nos seus pés e mãos e continuou a subir, já que não faltava muito. Mesmo visando apenas a sua frente, pode sentir um calor imenso emanar logo abaixo de si, e um rugir alto como um trovão fluir por toda a floresta. Sentia seu peso dobrar à medida que se esforçava. Suas gotas de suor desciam pelo seu rosto, não só pela adrenalina, mas também pelo lugar estar ficando muito quente. O dragão estava repleto de fúria, e o calor provinha de seu corpo escamado.

Uma garra enorme prendeu-se nas pedras bem ao lado de Lisara, fazendo com que ela quase se desequilibrasse e caísse. Involuntariamente, seu rosto tombou para baixo e ela viu-o em sua forma original. O que mais chamou-lhe a atenção é que havia quatro asas – normalmente se tem duas, mas alguns dragões tem suas singularidades – em sua pele escamada, e os olhos amarelos, tão profundos como a primeira vez que os viu estavam a encarando, com sede de sangue. Ele não era tão grande – não para um dragão, se assim pode-se dizer –, mas quando um dragão está indo atrás de você para devorá-lo, o tamanho deste é o que menos importa.

Vendo que não haveria chances se não fizesse alguma coisa rápido, prendeu-se nas pedras e puxou a corda, fazendo com que esta viesse abaixo junto com sua espada. Além de ambos objetos, a retirada da espada fez com que algumas pedras deslizassem e levasse outras, provocando um tipo de avalanche, só que não era exatamente neve, e sim, pedras.

Sem ressentimento e sem pensar duas vezes, ela pegou no cabo de sua lâmina e a arremessou em direção a pata do dragão antes que as pedras a acertassem, perfurando no meio de uma de suas garras. Lisara encostou o máximo que podia nas rochas, em meio a um buraco que tinha exatamente o seu tamanho, a tempo das pedras descerem e alcançarem o dragão sem feri-la. Ainda houve tempo dela ouvir um rugir forte, como se ele estivesse profanando sua morte enquanto caía, antes das pedras o levarem abaixo.

O objetivo não era matá-lo – afinal, era impossível fazê-lo com pedras –, mas sim, ferir suas asas. Sem elas, o dragão já não podia fazer muita coisa, e seria mais fácil provocar um ferimento para que ele não pudesse se mover.

Mesmo com alguns machucados e pela poeira que dificultou sua respiração, ela usou o restante de suas forças para agarrar nas rochas e subir mais um pouco, chegando ao topo da colina. Um lugar plano, com algumas poucas árvore e vegetação rasa. Algumas pedras pendiam e tampavam a visão para o horizonte.

Ali estaria salva por alguns minutos, até tentar fazer uma sinalização para que algum oficial do campo de Dormex viesse e interferisse na prova.

— Pensou que escaparia tão fácil?! — Ouviu o sibilar de uma cobra vindo de baixo do precipício, uma voz tão rouca e grave que fez todos os seus pelos eriçarem.

Em um súbito de desespero, tropeçou em seu próprio pé e veio ao chão. O dragão subiu rápido, como se as pedras nada tivessem feito nele. Chegou ao topo e deixou suas duas garras fixas ali. Em sua garganta via-se o fogo se formar, pronto para expelir e transformar qualquer coisa que tocasse em cinzas. Ele inspirou o ar pelo nariz e abriu a boca. Lisara rapidamente ficou em alerta, jogando-se para trás bem a tempo de se proteger atrás de uma rocha mais alta. Sentia em sua superfície o calor, até o dragão parar de expelir chamas e voltar a persegui-la.

Sem alternativas, ela segurou na única espada que lhe restava, já que a outra fora abaixo junto com as pedras. Desejava possuir um arco e flecha naquele momento, embora fosse horrível com arcos e estes não fizessem muito efeito em um dragão – a menos com as flechas certas, coisa que os campos de treinamento não possuíam –, ela se sentiria mais segura se, pelo menos, pudesse ter a chance de acertar um ponto específico a longa distância, para que não tenha que se aproximar da besta. Não dava para fazer esse movimento com uma espada de curto alcance como a dela. Tomou fôlego e saiu de trás da pedra, encarando o dragão frente a frente com uma expressão firme, evitando que suas pernas tremessem diante dos olhos da criatura. Por dentro, estava um turbilhão de sentimentos ruins.

“Firme, firme! Se for para morrer, que morra sem medo!”

Sem esperar, ele começou a se movimentar em sua direção.

Depois de anos de treinamento, ela empunhou a espada com força e correu em direção ao dragão. Estava machucada, com dores no corpo e visivelmente abalada, mas tinha prometido que traria uma maçã para seu amigo, e não poderia falhar. Quando chegou próximo dele, ao invés de fincar sua espada em uma de suas patas, ela deu uma cambalhota arrastada pelo chão, fazendo com que o dragão tivesse um reflexo imediato de ir para frente e deixasse ela para trás.

Levantou-se antes de dar a chance do dragão virar-se e jogou a espada até a asa dele. Era sua última tentativa, e tinha de dar certo. Para a sua infelicidade e desespero, este apenas desviou a espada com as escamas da cauda, e prolongou o movimento até ela, fazendo com que Lisara, após ser atingida na região do tronco com toda força que aquela causa possuía, fosse jogada até uma árvore, batesse de costas, e viesse ao chão. No caminho, sua bolsa, onde estava seu cristal, foi perdida.

Sentiu uma dor enorme percorrer o seu corpo, enquanto suas costas latejavam. Tossiu várias vezes para expelir o sangue que impregnou em sua garganta e em seguida grunhiu e tentou se mexer, sem sucesso. Pela dor, acreditou ter quebrado algumas costelas. Tentou se levantar, mas a dor descomunal não permitia. Estava acabada, era isso. Nada do que planejou deu certo, e seria sempre um fracasso. Seu pai nem ninguém nunca lhe orgulhariam de si, e ela nunca conseguiria encontrar uma maçã e levá-la para seu único amigo. Involuntariamente, lágrimas de dor e desespero começaram a brotar de seus olhos. Doía tanto, tanto... Ela só queria que aquilo parasse. Só queria morrer logo.

— E agora — começou o dragão —, pra onde você vai correr?

Desejou pela milésima vez que Baldo estivesse com ela. Com ele pelo menos teria mais chances de sucesso e menos probabilidade de morrer. Mas àquela altura, aquilo não importava mais. Havia razão em suas palavras: não tinha para onde correr.

“Eu vou morrer? Aqui?”

Desculpou-se mentalmente por não conseguir trazer a maçã de Andrean enquanto o dragão se aproximava para dar seu golpe final. Lembrou-se de seu pai, e foi a única coisa que lhe deu alivio naquele momento: encontrá-lo novamente. Sua mãe veio em sua mente, e ela também desejou poder ter pedido desculpas enquanto teve a chance. Queria poder ter sua família reunida novamente, e que aqueles animais não atrapalhassem sua convivência. Queria, acima de tudo, que seu pai estivesse consigo e que pudesse dar o mínimo de orgulho para ele em sua vida.

Desejou do fundo do coração que ele estivesse ali.

Suas pálpebras começaram a cair e sua visão ficou turva e embaçada antes que o dragão chegasse perto de si. Antes de tudo tornar-se escuridão, conseguiu ver outra coisa se aproximando. Um barulho alto e ao mesmo tempo abafado alcançou seus ouvidos, e um corpo enorme parou em sua frente, fazendo poeira se espalhar para todos os lados pelo choque do corpo pesado contra o solo da região.

Os sentidos aos poucos desapareceram de si, e a esperança retornou quando, a sua frente, querendo lhe proteger, surgiu uma criatura majestosa e bela, com o corpo branco e escamado. Podia estar errada, mas sentiu a mesma segurança naquela criatura que sentia com o pai. Antes da sua visão escurecer completamente, ela pôde ver os olhos azuis daquela criatura, como o mais vasto oceano. Era uma visão bonita e que lhe deu certo conforto. Poderia morrer em paz após ver brilho tão lindo como os olhos daquela criatura; mais belos do que a própria lua cheia que iluminava o céu aquela noite.

Talvez ainda pudesse levar uma maçã para Andrean.

Faltam cinco dias para o fim do teste.

Notas finais
Chegamos ao final, e bem, eu prefiro não falar muito, já que vocês provavelmente devem estar querendo me matar por esse final. Asuhsauhasuhsa Bem, expressem-se nos comentários! O que acharam? Bom? Ruim? Faltou alguma coisa? O que acontecerá no próximo? Quero saber as apostas de vocês. Obrigada a quem leu, obrigada mesmo! Espero vocês nos comentários, anjos. Pergunta da diva da A R Ferreira: O pai de Lisara tem alguma coisa, ou teve, a ver com o Zoltan? R: Quanto a resposta, eu vou deixar isso claro no spin-off, mas pra ser mais direta possível sem dar spoilers, tem. Ele teve sua participação na história da Zoltan. Pergunta do lindo Insano Insone: Lisa conseguiu a pedra, isso quer dizer que acabou ela ganhou, ela virou a paladina? R: Sim, você está certo! Ela conseguiu a pedra, mas ainda não terminou. E se ela não conseguir sobreviver ao que tem nesse capítulo? Ai fica a dúvida...