Era noite. Tereza ficou raiva de seu pai até cair no sono. Ela já dormia serenamente, enquanto Jonathan lia um livro na sala. Entre uma página e outra, ele ficava pensativo. Talvez devesse ter ido ajudar seu pai, afinal, Daniel não era mais jovem e não tinha a mesma habilidade de quando o manto de caçador foi passado para ele. E se a ameaça fosse muito forte?... Seu pai poderia não dar conta?

Porém, Jonathan não teria tempo de ajuda-lo. Não dessa vez.

Tereza acorda com barulhos vindos da sala. Ela saiu de seu quarto lentamente, um passo de cada vez. Armada com um taco de baseball e a típica coragem dos Van Helsing. No entanto, o que ela viu a deixou congelada de medo. Por mais que quisesse, não conseguia se mexer.

— Ah, caçador!... Que pena!... Você não cobriu seus rastros muito bem. Acho que depois que se sai do ramo a pessoa perde o jeito, não é?

— Pode me matar. – disse Jonathan com o ar faltando enquanto sua garganta era pressionada pelo vampiro. – Mas deixe-a em paz.

— Um Van Helsing implorando pela vida de um dos seus. Que patético! Disseram-me que eram uma família de guerreiros, estou muito desapontado.

Jonathan, com seu último fôlego, tenta golpear o vampiro com uma de suas adagas de prata, mas o monstro segura sua mão e lhe quebra o punho em um único movimento. Jonathan urra de dor.

— Sabe, eu estava pensando em, simplesmente te matar. Te estripar e te deixar sangrando feito um porco, mas... Que graça isso teria? – o vampiro sussurra no ouvido de Jonathan com suas presas amostra.

Tereza não conseguiu fazer nada, a não ser agachar, tapar seus ouvidos por causa dos gritos de seu pai e fechar seus olhos. Queria sair dali. Queria que aquilo acabasse.

Momento atual...

Tereza abre os olhos de uma vez só e levanta com um grito, como se estivesse em um pesadelo lutando para acordar e escapar de seu tormento.

— Calma. Está tudo bem, Tess. – disse Daniel.

— Você estava sonhando, Tess. – disse Mike.

— Sim. Um sonho. Era só um sonho. – ela respirava ofegante. – O lobisomem! Cadê ele?!

— Ele foi embora, Tess. – disse Sam.

Tereza não era famosa por sua abordagem diplomática. Pelo contrário, ela batia primeiro, batia mais ainda, e depois, só depois, é que começava a fazer as perguntas. E agora não seria diferente. Ela pula da maca e parte para cima de Sam, dando-lhe um soco certeiro e em seguida colocando duas adagas cruzadas sobre o pescoço do mesmo.

— Eu quero uma boa razão, Sam. Ou então vou arrancar sua cabeça!

— Ele salvou sua vida, Tereza. – disse Daniel.

Tereza e Sam olham nos olhos um do outro. Ela pôde perceber que Sam não era como os outros lobisomens. Ele não tinha o instinto no olhar. Ela sai de cima dele lentamente, mas não baixa a guarda.

— Muito bem. – disse ela. – Quem é que vai me contar o que está acontecendo aqui?

***

— Sede dos Guardiões de São Cristóvão_

Marcos estava furioso, e com razão. Detestava que seus comandados fizessem as coisas por conta própria.

— Você perdeu o juízo, Sônia?!

— Foi a Blue Moon. Ela quis ir até o esconderijo e eliminar os Van Helsing. – disse Sônia.

— Corta essa, Sônia. – disse Julius. – Esse golpe de "colocar a culpa no cachorro" não cola.

— Você mesmo disse, Julius, que a serventia deles havia acabado depois que destruímos o ninho de vampiros.

— Mas sempre há outra ameaça, Sônia. E agora, por causa da sua crise de ciúmes, ele precisou se expor pra eles. – disse Julius. – E se colocou em risco.

— Ciúme?... Do que estão falando? – disse Marcos.

— P*** Marcos! Você como líder numa batalha, eu não tenho o que dizer. Mas em relação a emoções, você não presta atenção em nada mesmo, né?... A Sônia aqui tem uma queda pelo Sam. Aliás, a Blue Moon parece ter uma atração animalesca com fins reprodutivos pelo Silver Fang também.

— Como é?!... Vocês dois estão de caso, Sônia?! Sabe, muito bem que isso é proibido!

— O quê?!... Não! – disse Sônia.

— Relaxa, grande líder. Não queremos o Grave Hart aqui fazendo um estrago porque você não controla seus nervos. Eles não têm nada. Parece que o nosso amigo Sam não pode ou não quer corresponder aos sentimentos da Sônia. – disse Julius.

— Vocês não entendem, não tem nada a ver comigo e o Sam. Blue Moon sentiu alguma coisa. Por isso foi atrás dos Van Helsing. Existe algo maligno naquela família. – disse Sônia.

— Como assim, maligno? – disse Marcos.

— Quando eu a agarrei eu pude sentir. Blue Moon também.

— Está falando de quem, Sônia?

— Estou falando da Tereza. Ela tem algo de maligno. E talvez, nem ela mesma saiba disso.

***

_ De volta ao esconderijo_

Sam se encontrava dentro de um círculo de runas. Ele tinha muitas explicações a dar.

— O que é esse círculo, Denny? – perguntou Mike.

— É um círculo de proteção, garoto. Depois de feito, nada pode entrar...

—... Ou sair. – disse Tereza.

— Bem que me avisaram. Uma vez caçador sempre caçador. – disse Sam.

— O que acha que vamos fazer com você, Sam? – perguntou Daniel. – Te torturar?

— É o que caçadores fazem, não?

— Do que ele está falando? – disse Mike.

— Caçadores torturam lobisomens, novato. – disse Sam. – Isso, eles não te contaram, não é?

— Nem todos os caçadores são iguais, Sam. Você está conosco há um ano, deveria saber. – disse Tereza.

— Eu vi o que você fez com aquele vampiro, pra tentar conseguir informações sobre o ninho. – disse Sam.

— Olha!... Parece que a Melôsa tinha razão enfim.

— O que aquela feiticeira tem a ver com tudo isso? – perguntou Daniel.

— Fui procura-la pra que me ajudasse a encontrar o ninho. Ela me alertou que nós estávamos sendo vigiados. Mas eu não imaginava que alguém que eu considerava um amigo faria isso. E pra sua informação, Sam, eu torturei sim aquele vampiro porque ele era escória. Fiz e não me arrependo. Mas nós, nunca fizemos isso com outras criaturas. É contra os nossos princípios. Somos os Van Helsing, e não um bando de bárbaros.

Sam sentiu-se mal. Um traidor.

— Você recorreu a uma feiticeira, Tereza?...Nós já conversamos sobre isso. – disse Daniel.

— Precisávamos de ajuda e estávamos sem tempo, Denny. Foi meu último recurso. – disse Tereza. – E esse círculo não é pra torturar você, Sam, e sim para nossa proteção, caso o seu amiguinho resolva querer nos dar um "oi".

— Não funciona desse jeito. Silver Fang e eu temos um acordo.

— A criatura tem um nome! Que original! – disse Tereza sarcasticamente.

— Ele não se manifesta sem que eu permita.

— Me desculpe por não querer ariscar. Eu confiei uma vez e olha onde estamos agora?

— Então, quer dizer que é verdade? – disse Daniel. – Os Guardiões criam um vínculo com o seu cavaleiro, fazendo com que a transformação seja controlada.

— Exatamente.

Dos três, Daniel parecia ser o único a não estar surpreso com a revelação que Sam acabara de fazer.

— Eu pensei que a ordem dos Guardiões tinha sido extinta depois das Guerras Sombrias.

— Opa! Vamos com calma. – disse Tereza. – Você sabia que essa... Essa seita existia e não me disse nada?!

— Não somos uma seita, Tess, somos uma sociedade secreta. – disse Sam.

— Dá no mesmo, pra mim!... Denny? – disse ela cobrando explicações de seu avô.

— Eu já disse, pensei que estavam extintos.

— O que foram as Guerras sombrias? – disse Mike.

— As criaturas das trevas tiveram um conflito conhecido como Guerras Sombrias. Onde o prêmio para o vencedor eram as almas humanas. Os Guardiões de São Cristóvão tornaram-se protetores da raça humana, mas perceberam que não poderiam ganhar essa guerra se não fizessem um pacto com uma das raças mais fortes do clã das trevas. Os lobisomens. Assim, cada cavaleiro [lobo] escolhia o seu Guardião e os dois criavam um vínculo por toda a eternidade, ou até que o Guardião morresse em batalha, caso isso acontecesse, o cavaleiro tinha escolher outro receptáculo. Eles lutaram contra vampiros, bruxas, demônios... Foi uma guerra sangrenta. Houveram baixas de todos os lados.

— Nós, os Guardiões de São Cristóvão somos escolhidos por nossos irmãos de alma. Silver Fang me escolheu. Blue Moon escolheu a Sônia. – disse Sam.

— Por que sua amiga nos atacou? – disse Tereza.

— Eu não sei.

— Mas vai descobrir. – disse Daniel.

— Está pensando o mesmo que eu, Denny? – disse Tereza.

— O que? – disse Mike.

— Um agente duplo. – disseram os dois juntos.

Sam estava bastante enrascado.

***

_Clube Pandora, Salão Púrpura_

Há dias que Melôsa sentia uma inquietação. E feiticeiros quando sentem algo assim, geralmente a coisa não é boa. Maus presságios estavam a caminho. E todos eles tinham a ver com Tereza.

Melôsa prepara um feitiço de previsão. E como ela desconfiava as coisas não estavam nada satisfatórias para os Van Helsing.

— Vejo uma nuvem negra sobre o seu futuro, caçadora. E ela vai mudar tudo.