Legado (parada por tempo indeterminado)

8 Capítulo VIII – De volta à “normalidade”?


No Campus da Universidade, em Manhattan, existem muitos clubes. Associações que dão as boas vindas aos calouros todos os anos. Havia uma, na qual, os alunos nunca colocaram muita “fé”. Seu nome era Clube dos Betas. Por mais que eles quisessem novos membros, os calouros nunca se interessavam. E os “líderes” do clube também pensavam que nem todo mundo era digno. E por esse motivo, o clube possuía apenas quatro integrantes.

Integrantes estes, que, no momento, estavam tendo uma pequena discussão sobre as próximas ações do grupo sobre um assunto em questão.

— Já chega! — exclamou Sônia. — Eu não sei vocês, mas eu cansei de esperar. Vou buscar o Sam agora.

— Sônia, segura a sua onda. — disse Marcos. — Foi esse seu gênio horrível que o colocou nessa situação, pra começar.

— Eu já disse. Foi ideia da Blue Moon.

— Só dela né?... Sei. — disse Julius

— Nós não podemos abandoná-lo! — disse ela.

— E não vamos. — ponderou Marcos. — Mas não podemos sair por aí feito cães raivosos. Precisamos de um plano.

Como podem ver, aquele não era um simples clube. Mas sim, a sede dos Guardiões de São Cristóvão. Por que escolheram criar seu quartel general em um Campus de Universidade?... Simples, pelo mesmo motivo que os vampiros escolheram para fazer seu ninho – fora, é claro, a questão do sangue jovem. — seria o último lugar que caçadores e outros seres iriam procurar.

— Eu tenho um. — disse Sam surgindo de repente, cheio de escoriações pelo corpo. — Que tal se vocês me ajudarem aqui?

— Sam! — exclamou Sônia correndo ao seu encontro e o sustentando para que não caísse. — Sam, eu sinto muito. Foi tudo culpa minha.

— Tá tudo bem Sônia. Eu estou bem. O importante é que você estava certa. Uma vez caçador, sempre caçador. Fui eu que cometi o erro em pensar que os Van Helsing seriam diferentes.

— Eles te torturaram, Sam? — perguntou Marcos.

— Sim. Queriam informações. Sobre a nossa localização, em quantos éramos... Mas eu não falei nada. E assim que eles deixaram uma brecha, eu consegui fugir.

— Você conseguiu fugir? — disse Marcos.

— E inteiro? — completou Julius.

Aquela troca de olhares só podia significar uma coisa.

— O que foi? — disse Sam.

— Sônia, afaste-se do Sam. — disse Marcos.

— O quê?... Por quê?

— Sônia, obedece. — Julius.

Raramente, caçadores deixavam lobisomens escapar de uma sessão de interrogatório. A não ser que os próprios caçadores facilitassem a fuga para segui-los ou os usarem como um espião dentro da alcateia.

— Vocês não acreditam em mim? — disse Sam. — Pessoal, qual é?... Há quanto tempo nos conhecemos?

— Não se trata disso, Sam. Mas você sabe que nós temos regras. Temos que nos certificar. — disse Marcos. — Sônia, deixe a Blue Moon fazer o trabalho dela, lá fora.

— Isso é palhaçada! — disse Sônia saindo à contragosto.

— Sam, precisamos saber se você está “grampeado”. — disse Marcos.

No mundo místico, existem runas que podem ser colocadas internamente para servirem de comunicação entre o portador da runa e a pessoa que a implantou. Essas runas internas só podem ser detectadas por outros seres místicos.

— Tudo bem. Façam o que tem que fazer. — disse Sam.

— Cara, eu detesto essa parte. É constrangedor. — disse Julius contrariado.

— Mas necessário, Julius. Tire toda a roupa, Sam.

Assim que Sam ficou totalmente despido, Julius rapidamente se transformou em Beast Ice.

Diferente de outras transformações, os Guardiões de São Cristóvão possuíam uma ligação mais profunda com seus cavaleiros, fazendo com que a transformação de humano para lobisomem fosse instantânea e indolor.

Beast Ice começou a andar ao redor de Sam, farejando, procurando por algo fora do comum. Por conhecer as regras muito bem, Silver Fang não podia se manifestar, caso contrário, aquilo poderia atestar a culpa de Sam. E se Beast Ice encontrasse alguma coisa que não deveria estar ali, Sam seria despedaçado.

— Lá fora está tudo limpo... Mas que p**** é essa?! — disse Sônia cobrindo o rosto, mas espiando discretamente o corpo de Sam sem roupa. — Uau! — ela sussurra. — Vocês dois são dois malucos, isso sim!

— Relaxa, Sônia. — disse Marcos. — Não tem nada de pervertido acontecendo aqui. Só o Beast Ice verificando se o Sam tá com algum “grampo”.

— Ele tá limpo, Marcos. Parece que Sam disse mesmo a verdade. — disse Julius.

— Valeu, mesmo! — disse Sam vestindo sua roupa bastante constrangido.

— Desculpa, cara. — disse Marcos, sem jeito. — Mas não podíamos arriscar.

— Já que a paranoia de vocês acabou, podemos dar um tempo pro Sam agora. Ele passou por muita coisa. — disse Sônia ajudando-o.

***

Dia seguinte...

— Capela de São Miguel_

Tinha, mais ou menos, uma semana que Mike estava com Tereza e seu avô Daniel. Porém, nesse meio tempo, ele praticamente não fez mais nada além de aprender sobre o ofício dos caçadores. E estava tão fascinado com aquilo que acabou esquecendo que tinha uma vida, um emprego – medíocre, mas era um emprego -, uma família a quem não dava notícias e que, muito provavelmente, estavam preocupados.

Ele arrumava algumas coisas em sua mochila enquanto pensava nas “justificativas” que poderia dar por seu sumiço.

— O que eu vou dizer, Denny?... Me ajuda a pensar em alguma coisa.

— A única coisa que posso dizer, é que quanto menos pessoas do seu convívio souberem sobre o que andou fazendo, melhor. Você não quer colocá-las em risco, certo?

— Claro que não.

— Então, sugiro que pense em alguma coisa.

— Cara, o que eu vou dizer pro meu chefe?! — disse Mike passando a mão no rosto.

— O que você faz mesmo?

— Sou estagiário numa empresa de contabilidade.

— Sério?... É um bom emprego. Mas sugiro que vá procurar outro. Tenho a impressão que esse aí, você já perdeu. — disse Daniel.

— Valeu, Denny! — Mike foi sarcástico. — Estou bem mais tranquilo agora. … Tess, poderia me dar uma carona?

— Só fale comigo daqui a vinte minutos. — disse Tereza com cara de poucos amigos.

— O que foi que deu nela?

— Ainda não tomou café da manhã? — disse Daniel.

Existem pessoas que não “ligam” direito antes do café da manhã. Tereza era uma dessas pessoas. E ela possuía uma boa genética, já que seu café da manhã não era assim... Muito saudável. Um prato de bacon com ovos, torradas, e uma caneca enorme de café.

— Não são só criaturas sobrenaturais que matam, sabia? — disse Mike. — Colesterol também.

— Pelo menos com o colesterol, minha morte é mais prazerosa. — disse Tereza. — O que você quer?

— Pode me dar uma carona até o Campus?

— Não. — ela foi bem direta.

— Por que não?

— Não posso ser vista com você. Tenho uma reputação a zelar. Tipo, não posso misturar o meu orgulho na sua vergonha, entende?

— Engraçadinha!... Então me empresta sua Harley.

O sorriso de Tereza se desfaz e ela se aproxima perigosamente de Mike.

— Não repita isso.

— O quê?... Sobre emprestar a Harley?

— Exatamente. Você repetiu. Eu disse pra não repetir.

— Ok. Nada de repetir, entendi. — disse Mike se afastando.

— Ninguém, a não ser eu, pode andar na Harley, entendeu?

— Sim, senhora.

— Não quero você chegando perto dela, ou olhando pra ela. Não quero que pense nela. Entendeu?... Ela não existe pra você.

— O quê?

— A Harley.

— O que é Harley? — disse Mike com uma risada nervosa.

— Ótimo. … Tem um ponto de táxi a uma quadra daqui. É um táxi especial.

— Como assim?

— Me dê sua mão.

Tereza segura na mão de Mike e recita algumas palavras de encantamento e uma runa aparece na mão de Mike. Como era a primeira vez dele, o feitiço queimou um pouco.

— M****! Isso dói!

— Olha a boca, moleque. Assim que o táxi chegar, mostre essa runa ao motorista e diga onde quer que ele te leve. Não vai precisar de dinheiro. Depois combine com ele a que horas ele pode ir te buscar. Mas não se atrase. Ele ODEIA atrasos. — disse Tereza.

— E como vou saber qual táxi é o certo?

— Ele vai estar lá, esperando. Agora é melhor correr. Você só tem dez minutos.

— Ai, meu Deus! — disse Mike correndo.

Dez minutos depois, quase sem fôlego, mas no horário combinado, ele conseguiu chegar ao ponto de táxi, onde já havia um a sua espera. No entanto, aquele não era um táxi comum, igual aos que Mike estava acostumado. Ao invés de ser uma cor amarela, ele era preto, do tipo bem brilhante; e o estilo do carro mais parecia um Chevrolet 1939.

— Isso só pode ser brincadeira! — disse Mike.

Ele se aproxima cuidadosamente do carro e observa o motorista. O homem tinha uma expressão séria. Parecia não gostar muito de conversa. Tinha mais jeito de ser membro de uma gangue de motoqueiros do que um chofer, mas Mike resolveu guardar suas observações para si.

O chofer o olhava como se o questionasse sobre algo. Mike entendeu o recado e foi logo mostrando a runa em sua mão. O motorista então faz sinal positivo com a cabeça indicando que Mike podia entrar no carro. Mike ficou um pouco receoso de entrar naquele carro, afinal, tudo aquilo estava estranho demais. Contudo, ele já tinha presenciado coisas pra lá de estranhas naquela última semana. Mais uma, menos uma... Não ia fazer tanta diferença.

— Para onde vamos, senhor? — pergunta o chofer.

— Ah, sim. Campus da Universidade, por favor.

***

— Clube dos Betas_

As ligações profundas, também chamadas de transcendentais, entre os cavaleiros e seus guardiões possibilitavam a ambos terem acesso a conhecimentos e sensações um do outro. Era assim que os dons funcionavam. Marcos, por exemplo, possuía o raciocínio rápido e o discernimento necessário para tomar decisões difíceis. Esse dom ele recebeu de Grave Hart, líder da alcateia; Julius, tinha os seus sentidos mais aguçados entre todos os guardiões, por isso, na maior parte das missões, ele ficava com a função de rasteador de seres místicos; Sam, “o novato”, por assim dizer, herdou a força, o senso de justiça e o bom coração de Silver Fang; e a ligação de Sônia com sua cavaleira Blue Moon, a possibilitou de poder decifrar livros e relíquias antigas do mundo místico, assim como também, um vasto conhecimento sobre ervas curativas. Conhecimento este, que agora ela estava utilizando para ajudar Sam.

— Tome. Beba isto. — disse ela. — Vai potencializar o fator de cura do Silver Fang.

— O que é isso?

— Você não quer saber, vai por mim.

Sam bebe todo o líquido em um gole só. Porém precisa fazer um esforço tremendo para não cuspir tudo de volta.

— Isso é horrível!

— Eu não disse que o gosto era bom. — disse Sônia com um leve sorriso. — Mas vai te fazer bem, pode confiar. … Sam?

— Sim?

— Eu queria que você me desculpasse. A Blue Moon também tá péssima pelo Silver Fang. Se não fosse por nossos impulsos, vocês não teriam passado por isso.

— Eu disse que está tudo bem. Já passou. … Julius me disse que você ficou preocupada comigo. É verdade?

— Não!... Quer dizer... Sim!... Mas não desse jeito que tá pensando... É que... O Julius é um idiota! — disse Sônia bufando.

— Não precisa ficar constrangida, Sônia. — disse Sam sorrindo. — Eu agradeço sua preocupação, de verdade. Sua amizade é muito especial pra mim.

Não era bem aquilo que Sônia esperava ouvir. Mas Sam nunca lhe deu falsas esperanças. Ele sempre deixou claro que entre eles nunca poderia haver nada além de uma amizade.

— Agora me diga uma coisa. — disse Sam.

— Sim?

— O que foi que deu em você para ir atrás dos Van Helsing daquele jeito?

— Eu não sei explicar. De repente, de uma hora para outra, Blue Moon fez contato telepático comigo. Ela ficou surtada. Disse que precisávamos eliminar a caçadora.

— A Tereza? Mas por quê?

— Sam, eu confio em Blue Moon. Se ela diz que a caçadora é uma ameaça, pode ter certeza que é. Quer prova maior?... Olha o que eles fizeram com você. Não podemos confiar nos Van Helsing. — disse Sônia.

Sam ficou pensativo. O que poderia haver de tão ameaçador em Tereza que ele não pôde ter detectado?

***

— Capela de São Miguel_

Daniel recebe uma misteriosa mensagem. Ele coloca seu disfarce de padre e se prepara para sair.

— Pra onde o “padre” Daniel vai? — pergunta Tereza.

— Preciso resolver um assunto. Vigie o fort. — disse ele saindo.

— Esse velhote anda cheio de mistérios ultimamente.

Atendendo prontamente a mensagem, Daniel chegou ao local combinado. Embaixo de uma pequena ponte no parque.

— Pontualidade britânica. Muito bem, Daniel Van Helsing.

— O que você quer, Melôsa?