Legado (parada por tempo indeterminado)
4 Capítulo IV - Fazer o que é preciso.
Existe uma regra muito importante quando o assunto é caçar seres malignos: nunca envolva humanos. No entanto, a situação é bem diferente agora.
— Você quis afastar um vampiro com um crucifixo de madeira?! — exclamou Daniel. — Meu Deus, onde achou esse garoto, afinal?! — ele olha para Tereza.
— Mike, nem tudo o que se encontra na internet é confiável. — disse Tereza.
— Tá de brincadeira! Até dois dias atrás eu pensava que toda essa m**** não passava de histórias de terror!
— Tipo Bram Stoker? — disse Tereza comendo um sanduíche. — Ele não chegou nem perto. O verdadeiro Vlad Tepes era bem pior. Certo, Denny?
— Ele deu trabalhão para o vovô Abby.
— Abby? — disse Mike.
— Abraham. O Primeiro de nós. — disse Tereza. — Quer uma cerveja?... Ah, é. É jovem demais pra beber.
— Isso é loucura!... Eu não tô conseguindo assimilar! — disse Mike parecendo estar tendo uma crise nervosa.
— Ótimo. O moleque tá surtando agora. Muito bom, Tess. — disse Daniel sendo irônico.
— Mike. Mike. — ela o segura pelos ombros. — Respira, garoto. Relaxa tá bom?... Vai ficar tudo bem.
— Se encontrarmos o ninho, você quer dizer. — disse Daniel.
— E se não encontrarem? — pergunta Mike.
— Vai ter que ficar se escondendo pra sempre, garoto, porque uma hora ou outra, eles vão te achar. Eles já têm o seu cheiro memorizado.
— Ah, m****! Eu vou morrer. — exclamou Mike.
— Não tá ajudando, Denny. — disse Tereza. — Olha, Mike, você não vai morrer. Eu vou resolver essa situação. Enquanto isso, você fica aqui com o Denny, ele vai te proteger.
— Vou ficar de babá agora?! Era só o que faltava!
— Se ele colocar, nem que seja um pé pra fora desse lugar, ele vai ser morto. Sabe disso, Denny.
— É melhor que resolva logo, então.
Tereza sai mais uma vez na esperança de encontrar o ninho e poder salvar Mike.
— Por que será que eu não me sinto seguro? — disse Mike vendo Daniel se aproximar dele lentamente. — Essa é a parte em que você me mata e diz pra ela que foi um acidente? — Mike se encolhe.
— Olha, garoto, eu não gosto de você. E não estou nem aí se você simpatiza comigo ou não.
— Não, com certeza não. Pode ficar tranquilo.
— Ótimo, estamos nos entendendo. ... Mas a questão é que eu fiz um juramento. E esse juramento me implica em ter que zelar pela sua vida.
— Zelar pela minha vida?
— Sim. Nós, Van Helsing, fizemos um juramento sagrado de proteger os humanos de qualquer ameaça de criaturas malignas.
— Como assim "criaturas?... Existem outras coisas além de vampiros? — disse Mike apavorado.
— Você ficaria surpreso. — disse Daniel com um sorriso de canto que deixa Mike ainda mais nervoso. — Então vamos começar nada de crucifixos de madeira. Eles não servem de nada. O instrumento usado precisa ser de prata e tem que estar abençoado.
— Então é por isso que vocês vivem embaixo de uma capela?
— Está começando a raciocinar, garoto.
***
Tereza saiu em patrulha e lembrou-se de alguém que poderia ajuda-la a encontrar o ninho. Melôsa, a dona do clube noturno de nome Pandora. Porém, antes de se dirigir ao local, ela diz algumas palavras em uma língua antiga e de repente uma runa aparece em sua mão.

A boate Pandora é uma das mais frequentadas da cidade. Lotação garantida todos os dias do ano, com entretenimento de todos os tipos para quem quisesse se divertir. Todos por conta da grande anfitriã.
No entanto, o que realmente interessava a Tereza estava no Salão Púrpura. Uma área VIP tão exclusiva que apenas alguns poucos tinham permissão para entrar.
Ao chegar na entrada do salão Tereza encontra um velho conhecido. Igor. Um sujeito de quase dois metros com uma força descomunal que se o seu olhar fosse mortal, Igor seria um verdadeiro flagelo.
— Boa noite, Igor. Como está? — disse Tereza.
— O que faz aqui, escória? — disse ele nada satisfeito com a presença dela ali.
— Sempre educado, Igor. Por isso adoro as nossas conversas. Onde está a sua chefe? Preciso falar com ela.
— Sabe muito bem que não pode entrar aqui. Você não é bem-vinda.
— Com isso aqui, eu posso. — disse ela mostrando a runa em sua mão.
— Por esta noite. — disse Igor, dando passagem para que Tereza entrasse, mas deixando bem claro que aquele "passe livre" era limitado.
— Valeu. — disse Tereza.
— Algum dia, Van Helsing, eu vou arrancar o seu coração e comê-lo. — disse ele.
— É sempre um prazer, Igor.
Quando se entra no Salão Púrpura, você se dá conta do porquê de ele ser tão exclusivo. Ele não era feito para humanos, e sim para outras criaturas. As quais olhavam feio para Tereza, pois sabiam o que ela era.
— Relaxem, pessoal. Não estou aqui à trabalho. Então, por esta noite, vocês podem ficar sossegados. — disse Tereza sorrindo.
Então, ela se aproxima. Uma mulher de postura imponente.

— Você tem muita coragem de aparecer aqui. Ou é muito estúpida.
— Melôsa. Há quanto tempo?
— Espero que tenha um bom motivo pra ter se arriscado tanto vindo aqui.
— Precisamos conversar. — disse Tereza mostrando a runa.
Melôsa conhecia as regras como ninguém. Afinal, elas eram tão antigas quanto o tempo. Ela sabia o que aquele símbolo significava.
— A caçadora veio em paz. Enquanto ela possuir o símbolo e estiver aqui, não poderá ser tocada. — disse ela a todos os presentes no salão, que começaram a se dispersar. — Venha, Tereza. Vamos ao meu escritório.
***
No esconderijo, Daniel e Mike pareciam estar se entendendo.
— Vocês têm muitos aparatos aqui. Que mal pergunte, quem paga por tudo isso?... O governo? — pergunta Mike.
— O governo?!... Garoto, você é uma daquelas pessoas que pensam haver uma conspiração em tudo, não é?... O governo não tem nada a ver com o que fazemos. — disse Daniel.
— E quem é que financia essa coisa?
— Você não vai acreditar se eu disser que é caridade, não é?
— Nem ferrando.
— Bom... Vamos dizer que o pessoal que nos financia tem muito mais dinheiro que qualquer governo.
— Vocês trabalham para o cara do Facebook? — brincou Mike.
— Essa foi boa, garoto.
— Vocês têm toda essa tecnologia, e ainda possuem uma biblioteca?... Não acha meio obsoleta?
— Antes da sua tecnologia, eram esses livros que livravam a pele dos humanos de serem mortos por alguma criatura demoníaca. Todo o conhecimento de como caçar essas criaturas, Mike, vem dessa "biblioteca obsoleta". São relíquias muito importantes para o nosso trabalho. Afinal, essas criaturas andam entre nós há muito tempo.
— É verdade mesmo?... A história do Drácula?
— Realmente existiu um Vlad Tepes. Ele foi um grande governante da Romênia. Um herói. Todos o amavam. Mas um dia... Bem... Ele perdeu sua alma. E quando isso aconteceu, meu bisavô precisou detê-lo.
— E a partir daí o legado de vocês foi passado de geração em geração. Como foi com a Tereza?
Nesse ponto da conversa, a expressão de Daniel mudou, e Mike notou que havia tocado em um assunto delicado.
— Com Tereza foi... diferente. — disse Daniel.
— Todos os vampiros são maus, Sr. Van Helsing?
— Como assim, garoto?... Claro que são! Isso não é a saga Crepúsculo. Aliás, não sei o que os jovens viram naqueles livros. Onde já se viu, vampiros brilhando no sol! Que absurdo!
Aos poucos, Mike percebeu que Daniel não era um homem ruim, e que possuía até um certo senso de humor.
***
De volta ao Pandora, mais precisamente no Salão Púrpura, no escritório de Melôsa.
— O seu pedido não é nada fácil de se conseguir, caçadora.
— Qual a complicação?... Eu só pedi uma informação. Onde eu posso encontrar um ninho de vampiros? Simples.
— Não gosto dessas criaturas tanto quanto você, Tereza. Elas prejudicam meus negócios, se é que me entende.
— Sei. Eles sugam o sangue da sua clientela humana, não é?
— Pois é. Negócios são negócios.
— Por isso mesmo. Você me ajudando, estaria se ajudando. — disse Tereza.
— A questão é: eu tenho um pacto de não agressão com essas criaturas. Elas não se metem comigo e nem eu com elas. — disse Melôsa.
— Qual é, Melôsa!... Sei que tipo de feiticeira você é. Você não respeita acordos, a menos que eles beneficiem você de alguma maneira.
— Cuidado com as palavras, caçadora. Está no meu território. ... Muito bem, se eu fizer um feitiço de localização, estaria disposta a pagar o preço?... Sabe muito bem que a magia tem um preço.
— Farei o que for preciso.
— Até arriscar a sua vida?
— Como assim?
— Eu posso fazer esse feitiço, mas você vai precisar sacrificar... Seu "passe livre" por exemplo. Afinal, um feitiço não pode funcionar em um indivíduo que já esteja sob um feitiço, mesmo que seja o das runas. E sabemos que assim que você tirar essa marca da sua mão, o pessoal lá fora vai querer te devorar viva.
— Deixe que eu cuido do pessoal lá fora. Faça o feitiço.
— Uma jogada bem arriscada, caçadora. Gosto disso. — disse Melôsa. — Preciso de algo de um vampiro que pertença ao ninho que você quer encontrar para usar como catalizador.
Melôsa prepara as ervas em um recipiente, e recita um feitiço antigo. Em seguida, Tereza coloca dentro do recipiente o punhal de prata com o sangue de Alex, e depois, pinga uma gota de seu próprio sangue, anulando assim, o feitiço da runa. Mas revelando para ambas a localização do ninho.
— Você não tem muito tempo. — disse Melôsa. — Logo, eles irão perceber que sua proteção não existe mais.
— Não se preocupe. Vou procurar não quebrar muita coisa lá fora. — disse Tereza.
— Mais uma coisa, caçadora. Você não é a única que está a procura desse ninho. Você e seu querido avô estão sendo vigiados. De perto. — disse Melôsa antes que Tereza saísse.
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