Legado de Semideuses!

9 As doze pilastras da profecia.


Notas iniciais
"As doze barreiras salvarão apenas quando o calor for uma solução. Os amigos se encrencaram, se forem ajudar com o coração."

Pesaroso como o clima; o vento soprava em tom de lamentação sobre o gélido sussurro da perda de uma amiga que se desfazia em meio às lágrimas que molhavam a terra. As nuvens chegaram primeiro que o sol naquela manhã fúnebre. As pequenas gotículas de água caiam levemente do céu, esculpindo a tristeza em nossos corações. Os pássaros não cantavam. As flores não desabrochavam. As ninfas não sorriam. Os morangos apodreciam. E os deuses respeitavam o luto. O baque surdo da morte se tornou um estrondo gritante dentre os muitos corações que clamavam por uma sede de justiça; alguém tinha que pagar por isso, ela tinha que pagar por isso.

Em homenagem a nossa amiga, campista, colega, companheira, nos reunimos em grande peso na frente de um mini teatro que cercava o terreno próximo ao refeitório. Via em muitos olhares uma sensação de choro reprimido, uma sensação de tristeza recuada e uma dor latejante que pulsava junto à respiração de todos que estavam prestes a ver a fumaça do pano – mortalha – que honraria a garota falecida subir aos céus. Ficamos desordenadamente observando Rodrigo entrar sobre o palco com o pano roxo debruçado em seus braços, seus olhos estavam inchados. Alinne e eu estávamos de preto, ficamos a cerca de vinte e cinco metros olhando tudo aquilo sem dizer qualquer palavra, doía demais esse assunto. Meu braço esquerdo segurava o guarda-chuva, enquanto a loira mantinha sua cabeça sobre meu ombro direito e as mãos entrelaçadas no meu braço. Aos poucos a mortalha foi queimada, e a fumaça subiu aos céus; uma ida sem volta. Ouvi um pequeno assobio e levantei minha mão direita com três dedos levantados, mas percebi que não estava num filme de jogos vorazes e os abaixei. Desolado.

Assim que todos se retiraram eu também segui o meu caminho. Alinne se apoiou em mim e ambos conseguimos pisar no refeitório sem qualquer incidente com a grama escorregadia, a não ser um, é claro. Assim que entramos Munhoz se aproximou de mim e disse que Helena queria imediatamente uma reunião com todos os conselheiros, mas também estava querendo a presença de um certo filho de Apolo — este que havia estado frente a frente com a garota do capuz que agora era uma incógnita para todos. Segui Munhoz até a grande mansão – mas dessa vez sem Alinne — e novamente estava diante de vinte e cinco cadeiras e doze estátuas. Um silêncio inoportuno ecoava no fim da sala e, a incrédula quietude deixava um clima tenso no ar. Lembro-me que na primeira vez aquela sala dava lugar a uma gritaria sem limites, mas hoje, um silêncio doloroso estava presente.

– Sente-se, Lyu. – Novamente um banco ao lado direito de Helena me esperava. – Pode nos contar o que houve?

Tentei me lembrar de cada detalhe possível, desde o colar vermelho até a noite anterior que fui visitar os filhos de Hypnus, Well concordou quase caindo no sono. Evitei dizer que os filhos de Hermes me ajudaram, pois no dia seguinte – do meu passeio furtivo — o chalé oito estava terrivelmente pintado de azul e com muitos papéis higiênicos em todas as extremidades, Maary ainda estava de mau humor por aquela brincadeira idiota.

– Uma tatuagem de Raio? – Helena questionou.

– Sim, ela era filha de Zeus. – Eu rebati.

– Aquela Júlia já até foi aceita pelo meu pai. – Munhoz mudou seu tom. – Achei que fosse a única a ter um raio como arma.

– Isso tudo é estranho. – Mama olhou a mim. – Por que uma filha de Zeus fingiria ser uma nova campista quando na verdade era uma ladra ou espiã? – A garota ruiva colocou as duas mãos na mesa, sem entender. – Simplesmente fugir com uma pedra na mão, isso não faz sentido algum.

– Ela disse que era uma chave. – Tentei ajudar o raciocínio da profetiza.

– Nem mesmo eu consegui prever uma coisa dessas, nem mesmo uma profecia do meu avô. – Mama se entristeceu.

– Apolo? Sempre achei que você fosse filha de algum outro deus. – Perguntei.

– Na verdade meu avô era filho de Apolo, enquanto meu pai era simplesmente um legado. – Ela mexeu no cabelo. – Meu pai era bonito, charmoso, tanto que Afrodite se atraiu por ele e eu nasci.

– Filha de Afrodite com descendência de Apolo. – Eu queria ao menos ter uma benção de Afrodite, mas tudo que eu disse foi... – Legal. – Encostei o cotovelo na mesa e as mãos na bochecha. – É chato ser feio.

– Podemos tentar falar com a minha mãe mais tarde, soube que... – Notamos que havíamos interrompido a reunião. – Desculpem. Depois trocamos um arco-íris.com.

– Foco, por favor. Isso não é bate-papo UOL. – Lorenna revirou os olhos em razão do tédio.

– Não vejo mais motivos para esconder isso á eles, senhora Helena. – Todos olharam para Batistão, curiosos. – Já passou da hora de tomarmos alguma providência.

– Concordo, mas primeiro, Rodrigo. – Ela olhou para o conselheiro de Dionísio. Os olhos dele ainda estavam vermelhos e inchados. – Você sabia que tipo de colar a Laura usava? – Notei o sofrimento em sua expressão por ouvir o nome.

– Sim. – Ele engoliu em seco. – No dia que ela foi aceita pelo meu pai e ganhou à tatuagem da pinga 51. – ele quase sorriu por lembrar-se do dia. – Ela foi presenteada com aquele colar vermelho do próprio Dionísio. – Finalmente ele conseguiu olhar nos olhos da tia dos bottons. – Ele disse que poucos poderiam ter aquela pedra e que confiava essa missão a ela. – Ele pausou. – Ela não era uma pedra comum, tinha até um nome... Portarius Dionx. – Percebi uma furtiva troca de olhares de Helena com a filha de Atena.

– Entendo. Tudo bem, isso já é o suficiente Rô. – A mulher se sentou na cadeira. – Beatriz.

Todos olharam para a filha de Atena com sede de informação; todos mortos de curiosidade. Ela endireitou-se na poltrona e tentou escolher uma caneta no lado esquerdo do acento. Sobre os olhos de Batistão havia um caderno — com muitos rabiscos, cálculos, anotações, projetos – que ela folheava até parar em uma página em específico. Tranquilamente retirou seus óculos e limpo na camiseta – laranja – voltando a colocá-lo no lugar de origem. Seus orbes azuis chegaram a brilhar por um pequeno segundo, sem pressa, ela passou a analisar as informações da página até erguer seu queixo.

– Algum tempo atrás... – Beatriz pausou, ela aproveitou a curiosidade de todos para se deleitar com um copo de água.

– Uma semana depois... – Disse Thalles.

– Um mês depois... – Bieringuer completou.

– Posso colher uma dúzia de mamões e ela ainda não vai ter falado... – Malu Mões caçoou.

– Calma, estou com sede. – Batistão voltou a falar. – Segundo alguns dos mais raros livros particulares do Olimpo...

– Se são particulares, por que você teve acesso a esse tipo de informação? – Orsi questionou com ambos os cotovelos sobre a mesa, apenas seus olhos atentos se mostravam fortemente curiosos.

– Meu pai sabe disso? – Munhoz completou.

– Sim, sabe. – Beatriz olhou para as duas. – Vocês esquecem que eu já prestei muitos serviços ao Olimpo. Tanto que no último, Zeus me disse que eu poderia escolher qualquer coisa que não fosse imortalidade. – Seus lábios repetiram a frase “qualquer coisa” com muita satisfação. – Eu escolhi passar ao menos um dia dentro da biblioteca sagrada, podendo ler e anotar qualquer tipo de informação. – Ela deu de ombros. – Eu escolhi ser imortal, mas no conhecimento, assim, eu nunca deixarei de aprender e me adaptar as novas informações e minha inteligência se renovará a cada descoberta.

– Tudo bem, vamos direto ao ponto. – Helena interviu.

– Okay, vamos lá! – Ela arrumou os óculos. – Quando Gaia libertou seus filhos titãs que viviam presos dentro de suas entranhas, Cronos liderou uma fugaz rebelião contra o pai, Uranos. Este que prometeu algum dia retornar e simplesmente fazer com que todos paguem; ele iria se vingar de Gaia unindo o céu e a terra. – Ela tomou fôlego. – De acordo com esse argumento, Zeus tomou algumas providências para que esse dia nunca chegasse durante o reino dos Deuses Olimpianos. – Ela mostrou uma imagem com algumas figuras de objetos. – Por isso ele criou doze pilastras feitas com as próprias partes do corpo dele. Ou seja, existem doze Portarius no mundo todo. Um pra cada Deus, o que corresponde a uma pilastra por cabeça. – Batistão encarou Rodrigo. – A garota do capuz conseguiu a Chave de Dionx, ainda existem mais onze.

As palavras da filha de Atena preencheram o recinto com uma tensão incrível. O vento passou por entre minha orelha e um calafrio percorreu a minha espinha. Analisei os outros olhos e pude ter certeza que a situação não era uma das melhores, mas eu soube imediatamente que ali a diante muitas perguntas seriam relevadas.

– Mas por que as tatuagens com riscos? – Martinato franziu as sobrancelhas.

– Alguns semideuses não aceitam a descendência que tem. – Helena se aconchegou na sua poltrona. – Eles se tornam renegados do Olimpo e tendem a se aliar aos inimigos dos deuses sobre o pretexto de nunca ter tido a atenção que merecia, a atenção que um pai da ao filho durante o seu crescimento. – Helena jogou alguns documentos sobre a mesa. – Júlia, ela não foi a primeira nem vai ser a última. Existem outros, outras, muitos que ainda estão por ai com objetivos sombrios. – Os conselheiros arregalaram os olhos com as imagens, eram mais desenhos de tatuagens riscadas. – Eles foram aceitos, mas achavam que quem deveria aceitar eram eles.

– Existem filhos de Íris com essas características? – Dudu perguntou.

– Quem sabe? – Babu olhou Dudu de forma dura. – Mas eu prometo que se houver algum filho de Afrodite ingrato, eu juro que arranco os órgãos dele com a minha adaga.

– Então o que faremos? – Vinicius, o conselheiro de Hades perguntou.

– Por essa semana nada, mas daqui á três dias começaremos a reunir o máximo de informações possíveis para encontrar as portarius restantes. – Ela nos olhou de forma dura. – A profecia entra em vigor, agora.

[...]

Por um momento o teto dourado do chalé prendeu a minha concentração e me peguei vagando sobre os acontecimentos que me afetaram psicologicamente. Estava totalmente a vontade sobre o meu colchão king size, até que Alinne se sentou ao meu lado e percebi que eles realmente tinham razão – quando um se mexe o outro não sente. Retirei o fone de ouvido e abri alguns bocejos longos, estava de madrugada.

– Rodrigo queria falar com nós dois daqui á vinte minutos. – Sua expressão não me parecia ser uma das melhores.

– Você me parece preocupada.

– Ér, ele não parecia estar bem, além do mais estava dizendo algumas coisas sobre ir ver a Laura...

– Como assim? – Revirei meus olhos. – Óh, deuses... Deixe me levantar, vamos.

Felizmente o clima já estava mais agradável. Podíamos sentir o vento soprar calmamente sobre as flores — uma sensação de alivio percorria meu corpo. As nuvens que antes estavam em grandes números nos céus abriam espaço a grandiosa Lua; ela brilhava intensamente. Assim que seguimos a trilha que ligava ao refeitório, nos deparamos com Rô encostado sobre um banco. Seu estado psicológico me parecia melhor, a não ser a ideia idiota de querer ir falar com a sua irmã morta. Mesmo assim o seguimos sem dizer qualquer palavra até que vimos uma roda de velas acesas com uma garota no centro; uma filha de Hécate.

– Se aproximem, meu nome é Trevisan. – Alinne e eu nos aproximamos aos passos curtos. – Venham, não tem o porquê ter medo.

– Relaxem, só vamos invocar o espírito da minha irmã. – Rodrigo nos olhou abrindo um sorriso.

– Você quer invocar espíritos e fala só? – Encarei Rô sem entender a sua expressão de calmaria.

– Só... Prestem atenção.

– Eu sou filha de Hécate, mas tenho benção de Psiquê. – Ela fechou os olhos. Uma suave brisa alcançou a roda de velas e o vento remexeu de leve os cabelos azuis. Ela vestia-se de forma simples; um vestido branco com uma coroa de flores sobre a cabeça, além de estar descalça. Ela estava sentada com os joelhos dobrados e me parecia sibilar algumas palavras em tom inaudível.

– Ela é a preferida dos deuses menores, simplesmente foi modesta em dizer que só tem benção de Psiquê. – Rodrigo cutucou-me. – Todos a abençoaram.

Não escondo que uma pontada de inveja invadiu meus sentimentos, mas fiquei embasbacado com os movimentos que ela fazia. Suas mãos se moviam de forma rápida, enquanto ela despejava algum tipo de pó sobre o circulo. Assim que ela terminou uma aura emergiu sobre a cabeça da garota de Hécate; era um espírito esbranquiçado.

– Nossa! Não acredito que aquela piriguete me matou. – A imagem de Laura ficou nítida. – Eu ajudei aquela idiota, quenga, ridícula, eu mesmo fiz a coroa de flores e dei os toques finais no vestido dela. – E o seu tom aumentava. – Como ela pode fazer isso? Ah não, eu vou voar aqui e puxar o pé daquela otária é agora...

– Laura... Precisamos de uma ajuda sua. – Rodrigo interrompeu o ataque de fúria da falecida.

– Aahm... Você também poderia ter me ajudado né seu imbecil. – Ela chegou perto do garoto. – Que tipo de irmão deixa a sua irmã bêbada dançando lepo-lepo sozinha no meio de desconhecidos? E se eu fosse estuprada? – Um semblante triste invadiu seu rosto holográfico.

– Você me pediu pra não tocar em você, esqueceu?

– Aé. Eu ainda consegui dar uns pega nuns filhos de Afrodite antes de ir visitar Hades. – Os risos percorram os lábios brancos. – Sabia que tem uma fila de espera até pra morrer? Nossa, nem o SUS é assim.

– Me diz uma coisa irmã, nosso pai te disse algo sobre aquele colar? Ele disse onde ficava alguma tal de pilastra e tudo mais?

– Ah não... Ele só disse que qualquer dúvida eu deveria procurar informações nas estátuas do salão principal da grande mansão, por que é lá que... – Trevisan tossiu e a figura desapareceu.

– Me desculpem. – Ela nos olhou. – Quê?

As últimas palavras ficaram sobre a brisa gostosa da madrugada “é lá que” o que? O que será que ela queria dizer com aquelas palavras incompletas? Senti meus dedos suarem com a presença inusitada da morta que agora havia ido para o seu lugar. Meus pelos estavam eriçados e minha boca estava entreaberta. Senti minhas pernas bambearem e olhei para Alinne e Rodrigo, fuzilando-os com os olhos.

– Se contarem que eu fiz xixi nas calças eu prometo que enfio uma adaga bem no lugar onde as mãos não alcançam.