Legado de Semideuses!
10 Aprendendo a matar.
Notas iniciais
Naquela noite eu sonhei que estava lutando com uma garota de cabelos negros no meio de uma galeria. Ela era forte e muito habilidosa com sua espada, mas pra minha sorte se movimentava de forma previsível. Em outro momento eu estava enfrentando uma espécie nojenta de monstro com três cabeças, quando subitamente a cena mudou e eu prestigiei de fronte aos meus olhos um amigo tomar uma facada pela mesma garota de cabelos negros; ela tinha uma tatuagem riscada no ombro. Estive perto o suficiente para ver o rosto da vítima quando acordei sobressaltado por uma figura que não parava de me remexer na cama sibilando “treinamento” mais de uma dúzia de vezes. Meus olhos se abriram numa lentidão sonâmbula e eles vagaram até o garoto que estava em pé ao meu lado.
– Acorda ai, Lyu – Ele tirou meu cobertor – Hoje o treinamento é por minha conta. Vamos!
Assim que cheguei ao refeitório percebi que Alinne e Martinato só estavam me esperando pra começar a devorar o café da manhã. Andei calmamente até o prato quando um bocejo idiota tirou a minha atenção e uma casca de banana me fez escorregar até bater com as nádegas no mármore velho. Risadas abafadas vagaram até os meus ouvidos — Thalles e Bieringuer armaram mais uma. Levantei-me assim que os ossos da nádega direita pararam de doer e lancei um olhar cruel aos filhos de Hermes; haveria vingança. Continuei a andar sobre os risonhos olhares idiotas que me lançavam até conseguir me sentar na cadeira com a parte esquerda da poupança. Fitei Alinne e Martinato sem qualquer expressão de incômodo ou desconforto com o ocorrido, em seguida foquei toda minha atenção na comida e me perdi no gosto de queijo derretido.
(...)
Não ficamos para testemunhar a guerra de comida que os filhos de Hermes estavam planejando. Mas ainda assim um cupcake atingiu o cabelo do conselheiro de Apolo que esbravejou de início ao fim até o campo de arco-flecha. Eram dez árvores com alvos redondos — vermelho e branco – nos troncos de madeira. Cada cor tinha uma pontuação diferente e o ponto minúsculo vermelho no centro valia quinhentos pontos, era a quantia mais valiosa.
– Existem quatro tipos de grupos – Marinato apontou para as quatro flechas sobre a mesa – O primeiro são as comuns. Elas ainda são úteis para atingir algum monstro no meio da testa ou injetar veneno – Ele tomou o instrumento em sua mão e o arremessou com seu arco em direção dos alvos sem olhar a sua trajetória. O baque foi imediato e percebi que ele tinha acertado a última borda do branco; dez pontos – O segundo são as especiais. Elas podem ser usadas principalmente para causar danos à audição do seu inimigo, pois elas são musicais. Além de ter um barulho ensurdecedor, o ruído ataca de forma cruel o sistema auditivo do oponente. São muito utilizadas por nós, mas as minhas favoritas são as flechas de bombas – Ele sorriu – Elas podem explodir qualquer um que esteja em seu caminho, mas também servem para bloquear a visão do adversário com o rastro de fumaça pós-explosão, observe – E novamente acoplou a flecha em seu arco e disparou sem olhar o resultado. O metal fixou-se no arco vermelho de vinte pontos e imediatamente explodiu deixando uma grande quantidade de fumaça, ele nem chegou a se importar com o barulho – O terceiro grupo é de teleguiadas. Essas são umas belezinhas quando se precisa acertar um alvo muito longe ou muito pequeno – Ele nos olhou com uma expressão assustadora – Ela é tão filha de Hera que vai atrás do alvo até derrubá-lo – Notei um pequeno painel embutido em sua madeira, ele piscava interminavelmente.
Martinato escolheu como alvo o minúsculo ponto vermelho da árvore que estava bem a nossa frente. Ele atirou-a despreocupadamente, estava certo de seu sucesso em relação a sua mira fantástica.
– Acho que você está meio ruim de mira maninho – Alinne soltou um leve riso de escárnio.
– Primeiro dez, vinte e agora setenta e cinco pontos – Eu lhe disse – Acho que posso superar.
O conselheiro de Apolo olhou para os alvos e ficou um tanto decepcionado com a sua própria mira. Ele esbravejou sozinho e ignorou as provocações. Uma pequena brisa balançou seus cabelos castanhos claros e a moita ao lado das árvores chiou com a leveza do vento – parecia que ela estava rindo da péssima mira do garoto. Martinato colocou a última flecha em seu arco com calma, seus olhos estavam desconfiados de que alguma coisa estava errada. Ele tinha totalmente como alvo o mesmo tronco onde conseguira arrancar setenta e cinco pontos, contudo, isso era pouco para um conselheiro e ele mesmo sabia disso. Finalmente sua mão direita soltou o instrumento e a flecha viajou sobre a gravidade numa velocidade impressionante. Ela flutuava com tamanha leveza e rapidez, logo alcançando o objeto redondo em menos de cinco segundos. Enganei-me se ele estava preocupado em acertar o alvo; e ele estava, mas não o que estava na árvore.
A flecha quicou na ponta do tronco e foi totalmente para dentro da moita. Por um segundo ouvimos algo se desembrulhar e não tivemos dúvida de que não era o vento que estava fazendo as folhagens se mexer.
– E essa é a última classe das flechas; armadilhas, rastreadoras e as que quicam – Ele sorriu andando até a moita – Essas flechas não têm o intuito de machucar – Ele se embrenhou no meio das folhagens – Elas simplesmente usam a borracha em sua ponta e só mostram o conteúdo assim que o usuário aperta o botão no arco – Ele ergueu um menino de olhos castanhos e cabelo liso – Rasquel, conselheiro de Éolo. Não me admira que minhas flechas não tenham acertado os quinhentos pontos logo quando as joguei – O menino estava todo embrenhado numa rede feita de linhas grossas – Caiu na rede é peixe meu querido Rasquel.
– Foi apenas uma pequena descontração, qual é gente? – O filho de Éolo usava óculos com lentes semelhantes a algodões. Ele se vestia de branco da cabeça aos pés, tanto que suas roupas tinham pequenos desenhos de nuvens.
– O que esse menino fez? Não entendi – Saímos da moita (isso suou estranho) e ajudei o garoto a se libertar da rede.
– Toda vez que eu lancei uma flecha, ele desviava com o vento – Martinato fez uma cara de desdém – Eu nunca erro, achei bem estranho essa brisa repentina.
– Hehehe, teamganei! – Ele esboçou um sorriso – Agora que a brincadeira já acabou eu vou indo, boa sorte com o treinamento aí – E ele se foi junto à brisa de seu pai.
– Ali tem dois arcos com aljavas, peguem – Ele nos deu as costas, irritado – Depois que nego aparece morto a culpa é do filho de Apolo.
Alinne e eu passamos mais de meia hora praticando com as flechas normais. O conselheiro decidiu que não seria necessário usar as outras – já que não havíamos errado um alvo sequer. Todos os dez troncos tinham cerca de nove flechas grudadas em todas as cores; tanto as vermelhas e brancas. Martinato estava orgulhoso de ver que suas dicas de postura haviam dado resultado, por isso ele quis propor um jogo. Nós três usaríamos vendas e flechas com cores diferentes, assim, a arma que chegar mais perto do alvo de quinhentos pontos ganha a disputa. Eu estava no centro da arena, três metros de Alinne que estava a minha direita e dois metros e meio de Martinato que correspondia a minha esquerda. O silêncio tomou conta da arena e a tensão tomou conta de mim.
Ficamos parados esperando o décimo segundo, a qual iniciaria a disputa.
Primeiro segundo: Fui o último a amarrar a venda para me certificar que os outros dois também haveriam de seguir as regras.
Segundo: Agarrei fortemente meu arco.
Terceiro: Toquei em toda a extensão da flecha pra poder encontrar a ponta e o apoio ao arco.
Quarto: Sibilei um trecho da música da grande “pensadora e filósofa” Waleska Popozuda com o intuito de atrapalhar meus adversários.
Quinto: Só tiro porrada e bomba. Okay, eu fui o único a me incomodar com a música.
Sexto: Ela já estava entrando no meu subconsciente, por isso parei de cantar e apressei meus dedos. Flexionei a flecha contra a linha do arco e me preparei.
Sétimo: Pensei em me desfazer da venda e ganhar o jogo na base do roubo, mas acabei desistindo.
Oitavo: Minhas mãos suavam e a flecha escorregava perante a minha ansiedade.
Nono: Já era tarde demais. Meu coração ribombava rapidamente e não pude conter a vontade de sobressair diante dos meus dois irmãos. Concentrei-me especialmente na linha reta e apenas visualizei a minha flecha fincando a lâmina de aço cortante no minúsculo vermelho, eu estava pronto.
Novo e meio; Respirei fundo e deixei que meus dedos fossem soltos, um por um.
– Heeeeey! – Uma voz feminina fez com que minha concentração fosse embora junto a minha desordenada flecha que voou sobre as árvores e sumiu pelo vento. Tirei a venda e vi Lorenna – O que estão fazendo?
– Antes de você atrapalhar? Uma disputa de flechas – Martinato respondeu friamente – Eu nem sei onde a minha flecha foi parar.
– Muito menos eu – Completei.
– Me desculpem, mas homens nunca superam as mulheres – Alinne apontou para a árvore. Apenas uma flecha estava fincada no alvo determinado, a loira havia acertado o vermelho com perfeição – Quinhentos pontos para a Slytherin! – E ela urrou de alegria batendo a mão com a de Lorenna.
– Quero ver como se sairão com as lanças. Você vem Martinato?
– Não, chega de intromissões por hoje – Ele começou a recolher as flechas – Boa sorte. E, Lorenna – Ela o olhou – Pegue leve.
[...]
Aquelas palavras de “pegue leve” me deixaram um pouco amedrontado. Lorenna era durona e como uma filha de Ares topava qualquer desafio que envolvia brigas; ela foi a única corajosa o suficiente para enfrentar Munhoz durante a reunião. Caminhamos para perto de uma gruta rochosa – fiquei imaginando como Mama poderia viver numa caverna. Certa curiosidade me percorreu em saber como seria por dentro. Contudo, o foco era o pequeno coliseu a quarenta e três metros dali. As arquibancadas estavam reluzindo ao sol que aparentemente resolveu dar as caras por alguns minutos. Havia três fileiras retas de concreto que percebi serem assentos, sem contar as muitas ruínas e rachaduras que o faziam se tornar um monumento antigo. Quinze metros quadrados era o que separava a arena da arquibancada — o suficiente para uma luta corpo a corpo. No centro do coliseu havia uma caverna que estava rigorosamente trancada com uma grade de bronze celestial. Alguns calafrios me arrepiaram assim que tentei olhar além das grades e acabei encontrando olhos amarelos me encarando – sem contar com os fortes gemidos fantasmagóricos que vinham lá de dentro.
– Não adianta eu dar dicas monótonas sobre como segurar uma arma ou usar um escudo – Lorenna se equipou com dois objetos dourados – Vamos transformar a teoria em prática. Vou dar uma breve demonstração, prestem atenção se não quiserem morrer.
Ela abaixou levemente a cabeça e Alinne assentiu abrindo a grade. Lorenna estava em modo de defesa esperando alguma coisa sair da escuridão. E Meus deuses! O que era aquilo? Eu mal pude acredita quando um monstro saiu aos pulos do fundo da caverna em direção a ela. Ele tinha rosto de humano enquanto seu corpo era totalmente coberto por uma pelugem marrom-clara, lembrava-me claramente um leão de dois metros e meio. Tinha músculos maiores que a sua própria cabeça e um rabo com muitos espinhos, sem contar que possuía unhas maiores que aquele personagem do The King of Fighters. O grandalhão possuía olhos amarelados, dentes afiados e um bafo descomunal, tanto que quando ele rugiu suas próprias narinas reluziram em fogo. Assim que Alinne viu aquela criatura sair da prisão, imediatamente fechou a grade e se afastou.
– Isso se chama Manticore – Lorenna ergueu o escudo que barrou a patada violenta da criatura – Um dos poucos que restaram.
Lorenna tinha um controle gigante sobre aquela lança. Sempre conseguia quebrar o ritmo do manticore quando este tentava desferir um ataque duplo, mantendo-o afastado de si. Em um golpe ou outro ela conseguia acertar a lâmina no corpo do grandalhão, porém, não adiantava. O escudo dourado tinha inúmeras imagens de guerra e me parecia tão resistente quanto a outra arma da garota, uma lança dupla — duas lâminas feitas de bronze celestial que ocupavam as duas extremidades. A filha de Ares parecia saber o que estava fazendo até o momento que o leão conseguiu arrancar o escudo da sua mão esquerda, lançando-o para trás sem dó. Ela esbravejou pelos cantos da boca e vislumbrou uma patada sendo desferida em direção a sua cabeça, por sorte Alinne conseguiu avisá-la antes que fosse tarde demais, ela se abaixou no último segundo. Assim que mais dois golpes e uma tentativa ruim de mordida não funcionaram, Lorenna usou a ponta da lança e conseguiu fazer com que o monstro recuasse. Ela aproveitou esse momento para tomar fôlego.
– Acho que você já teve dias melhores – A morena conseguiu esboçar um sorriso provocativo – Que tal me mostrar do que é capaz leãozinho?
A garota sentiu uma pequena rocha bloquear a projeção da sua perna esquerda pra trás. Ela aproveitou esse momento para deixar o seu tronco levemente inclinado para a direita sem que ele percebesse o seu plano. Lorenna ainda permanecia sorrindo, o que deixava o – agora furioso – manticore mais frustrado ainda. Ele não tardou em tomar distância e pular em cima dela rugindo sobre as suas narinas fumegantes, mal sabia ele que havia acabado de ganhar uma passagem só de ida ao tártaro. Assim que a sombra dele pereceu sobre o ar, Lorenna travou a primeira lâmina onde se encontrava a rocha e uma pequena rachadura se formou, imediatamente prendendo a lança no chão. Eu percebi de longe que a ideia era deixar a segunda lâmina apoiada para cima — justamente como estava agora – para quando o manticore pousar no solo ser espetado violentamente pela lança. Mas o que me surpreendeu foi a filha de Ares se jogar ao chão a fim de passar por baixo do monstro. O que ela estaria tramando? A morena era esperta e muito ágil, o monstro que era burro. Por isso o que ela planejara havia dado resultado: O leão foi espetado violentamente no tórax pela lança que entrou cerca de trinta centímetros no corpo dele, não havia como se mexer.
– Game over – Aquele escárnio de outrora já não fazia mais parte da expressão da morena, seus lábios agora assumiam uma expressão séria e fria.
Lorenna não esboçou qualquer reação se não fosse a satisfação em chutar a parte de trás do joelho do animal e o fazer afundar ainda mais sobre a lança que o prendia. Mesmo com aquele golpe – que pra mim já teria pedido arrego — ela usou a perna dele que estava estendida para trás como uma escada. Foi tão rápido que nem consegui acompanhar ela tencionar os músculos e dar um perfeito salto sobre as costas dele. Perguntei-me o porquê dela fazer isso já que o manticore já estava preso pela lança, mas a morena tratou de responder minha curiosidade quando decidiu usar as lâminas.
A filha de Ares prendeu as armas entre as pelugens do leão que urrava de dor. Ela segurou ambas as facas com firmeza, e assim que seu corpo foi em direção ao chão as armas também desciam cortando violentamente a parte da coluna do monstro. Embasbaquei-me ainda mais ao ver aquela criatura de dois metros e meio virar cinzas assim que ela pisou no solo. Foi assim que prestigiei a primeira ida ao tártaro, tive sorte em não ser a minha.
– Antigamente eles costumavam ser um ótimo desafio – Pelo seu tom presumi que ela lamentava – Tudo bem, amanhã vocês dois lutarão contra alguma criatura. Ali tem mais de cem, podem até escolher – Aqueles olhos castanhos nos olharam como se tudo que acabamos de testemunhar fosse nada, eu a admirava.
[...]
Minha cabeça não parava de pensar sobre os acontecimentos de agora pouco. Lorenna me disse que eu não precisava me preocupar com a morte do leãozinho, pois os monstros sempre acabavam voltando, não interessa quanto tempo demore. Mais tarde Alinne e eu fomos encontrar o filho de Hefesto numa parte clara do bosque. Ele nos ensinou diversas formas para criar bugigangas que nos ajudariam sobreviver caso ficássemos perdidos, foi divertido fazer fogueira até uma ninfa me esmurrar por estar incendiando seu pé.
Naquela altura a escuridão já estava caindo e fomos para o chalé logo após um glorioso banho, estávamos extremamente cansados. Quando entramos todos já estavam se preparando para dormir, apenas o conselheiro que não. Martinato veio até mim com risos sufocados e começou a contar o resultado do nosso jogo com as flechas – aquelas que sumiram pelos ares. Eu gargalhei alto ao saber que a lâmina dele invadiu o chalé de Afrodite e causou um pânico quando fincou o estojo de maquiagem de Mariana na parede enquanto ela se maquiava. Elas acharam que o acampamento estava sob ataque e Babu fez todo o chalé dez colocar armaduras de guerra no mesmo minuto — queria poder ter testemunhado os campistas saindo com cabelos desgrenhados e armaduras com toalhas de banho por baixo. Chorei de rir só de imaginar.
Já a minha flecha – a vingança é uma lasanha que se come enquanto vê TV a cabo – atingiu a antena do chalé de Hermes que estava sendo arrumado por Thalles e mais uma filha de Hermes. O garoto perdeu o equilíbrio e em seguida despencou em cima das folhas com espinho antes que sua irmã pudesse o segurar. Em partes isso foi culpa de Lorenna, mas não seria eu quem falaria isso a ela, não depois do que vi hoje.
– Boa noite, Lyu.
– Boa noite, Marti.
Enfim, o conselheiro foi pra sua cama e se isolou ao som de solos de guitarra. Segui o ritmo dele e também subi a minha cápsula — que novamente jogou o fone sobre a minha testa – e não deixei de esbravejar as cinco palavras que não se devem dizer em uma fanfic, is secrets. Assim que fechei os olhos uma frase me fez perder o sono “olhe na sala da grande mansão” essa foi à mensagem da mensageira do além, Laura.
Eu sabia que remoer esses fatos aquela hora da noite não seria uma boa idéia, pois Alinne e eu teríamos treinamento assim que Apolo trouxesse a carruagem do Sol.
Tentei forçar meus olhos a se fecharem, eles se negavam. Tentei contar carneirinhos, mas sempre aparecia uma Lorenna no meio da cerca pra matar o carneirinho no ar, saudades carneirinho, saudades. Deduzi que nada me daria sono se não fosse um copo de leite com mel, por isso baixei o meu guarda-sol e silenciosamente fui até o segundo andar do meu chalé. Tinha uma pequena geladeira ao lado da sala de estar, que por sinal era equipada com vídeo games e muitos jogos de mesa, inclusive ping pong e pebolim. Fiquei tentado em fazer um ping, mas quem seria o meu pong? Quando abri a geladeira percebi que não tinha leite, nem mesmo o mel. Estive tão desatento que mal percebi minha irmã – Dandara – jogada no sofá vendo As terríveis aventuras de Billy e Mandy. Contentei-me com um copo d’água e fui até o sofá.
– Não consegue dormir? – Ela levantou os pés e deixou que eu me sentasse, logo o voltou a colocá-los sobre meu colo.
– Não, minha cabeça está no modo loading desde que cheguei aqui. Você deve saber como é isso.
– Te entendo. Comigo foi à mesma coisa maninho.
– É estranho saber que tenho mais irmãos.
– Sim, é uma loucura isso – Ela me ofereceu marshmallow – Saber que meu pai andou visitando mais camas além da king size da minha mãe. E ela nem se mexia quando ele ia embora.
– Sei como é isso, meu colchão também é assim – Mastiguei o doce oferecido.
– Pelo menos nosso pai não tem mais filhos que o Catra – Ela sorriu – O chalé de Hermes deve ser um verdadeiro puxadinho, se você pisa no lado acerta a cara de alguém.
Dandara era uma irmã legal. Ela tinha traços morenos e cílios bonitos (eu sabia disso por que toda vez que ela sorria parecia uma princesa), sem contar com o cabelo liso na cor castanha escura que me lembrava uma fada da Disney. Sim, eu disse Disney, me condenem. A madrugada chegou sem qualquer tipo de aviso prévio. Pela pequena janela ao meu lado percebi que havia algumas luzes iluminando todo o acampamento, mas o escuro ainda prevalecia pelas partes do bosque. Foi então que olhar a minha irmã cair no sono fez minhas pupilas pesarem. Quando finalmente pensei em pular no mundo dos sonhos, um alarme suou em um nível absurdo. O acampamento tremeu.
Senhoras e senhores. Acordem!
Somos o medo batendo em sua porta.
Somos a escuridão ofuscando a sua luz.
Somos a carnificina alheia sujando o seu chão.
Acordem senhoras e senhores!
Tive certeza que aquele alarme levaria esses três fatores ao acampamento, medo, escuridão e carnificina.
CHAMEM OS BOMBEIROS! Eu tomei um tremendo susto quando Dandara gritou essa frase. Ela se desequilibrou com o barulho e se espatifou no chão assim que o alarme ficou insuportavelmente alto. Assim que ficamos em pé fui correndo olhar pela janela: Inúmeros monstros estavam correndo e quebrando tudo que encontravam pelo caminho, eles estavam transformando o acampamento em caos.
Desci pelas escadas circulares com pressa, tanto que os últimos degraus foram limpos pelo meu short que deslizou sem parar até o chão, minhas nádegas doeram. Levantei-me um pouco constrangido, mas assim que olhei para frente não havia mais ninguém dentro do chalé. Dandara seguiu-me logo atrás e jogou um arco-dourado com uma aljava vazia. Olhei-a com cara de desdém e um pouco sem graça, afinal como ela queria que eu usasse algo que não possuía munição.
– Só coloque a mão dentro da aljava que uma flecha se materializa, mas antes você deve pensar em qual grupo de flechas você quer. Você sabe quais são os grupos?
– Sim, eu sei.
– Fique perto de mim e não deixe que ninguém coloque os dentes em você.
– Até por que eu amo ser mordido.
– Idiota, vamos.
Assim que abri a porta me deparei com um enorme tipo de demônio do mar a frente dos degraus. Eles tinham enormes garras e escamas, mas seus rostos eram tão broxantes que me lembravam poodles. Havia muitos outros tipos de monstros: demônios com cara de rato, harpias, musgos, homens caranguejos e tantos outros que não conseguia enxergar. Escorreguei-me sobre os degraus e coloquei a mão dentro da aljava desejando apenas uma flecha comum, que por sorte apareceu bem no momento que um telquine avançou sobre mim. Ele estava a menos de um metro e meio da minha carne – modéstia parte saborosa — tempo e distância insuficiente para que eu pudesse acertá-lo. Rezei aos deuses para que me tirassem dessa enrascada quando Dandara saltou sobre o monstro. As roupas da garota pairavam sobre o ar e se remexiam conforme o corpo dela se projetava sobre mim, os cabelos negros esvoaçantes pelo vento criavam uma cena espectral. Ela estava com uma flecha na mão direita e usou os pés para chutar o telquine e fazê-lo de colchão para sua queda. Esbocei um sorriso quando ela levantou e pude ver a flecha bem no olho direito da criatura, dois segundos depois o demônio do mar virou pó. Outra sombra se projetou sobre Dandara, mas fui rápido o suficiente para fazê-lo de cadáver quando a minha flecha o acertou. Olhamos em volta e o acampamento parecia um campo de guerra: de dez monstros mortos, um dos nossos caíam. Em todos os lugares o sangue era jorrado, até mesmo num chalé onde os sonhos eram preservados. Os telquines tentaram invadir o chalé de Hypnus, mas assim que eles entravam caíam num sono profundo. Vi de relance Benvengo eliminando-os com uma espada em formato singular. Tentei me orientar e procurar o conselheiro daquele chalé, mas assim que olhei o rocambole de goiaba sendo sugado pela boca dele, desejei não ter visto a cena. Well estava friamente matando os monstros que chegavam perto da janela do recinto, porém infelizmente a sua genética não ajudou. Ele acertou um, dois, três, contudo o quarto se vingaria sem que ele percebesse. A espada rugia com as cinzas que recebia da morte das criaturas, e reparei que ele estava soltando alguns sorrisos de segurança para a sua irmã que ainda estava lá dentro aguardando novas instruções. Ele por um momento piscou; a piscadela da morte. O conselheiro adormeceu-se por um segundo — justo o momento que não podia. Meu estômago embrulhou e uma terrível dor no peito fulminou meus sentidos quando vi a criatura abocanhar o garoto, lágrimas desceram do meu rosto.
Quando olhei novamente não havia mais um garoto.
Não tinha um conselheiro.
Não existia um defensor.
Só tinha um rocambole caído na frente do chalé.
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