Legado de Semideuses!
11 Inconstante paisagem do medo.
Eram muitos...
Nunca havia me deparado com uma cena tão explicita de carnificina em toda minha vida. Tudo que pude imaginar enquanto flechava alguns monstros com meus instrumentos pontiagudos era que alguém havia aberto aquela masmorra na gruta, mas quem? Lorenna não faria uma coisa dessas, não depois de me mostrar como ela tratava aquelas criaturas. Dandara era muito delicada em suas ações, tanto que abriu um sorriso malicioso quando enfiou uma lâmina de bronze celestial dentro da barriga escamosa da criatura do mar chamada telquine. Consegui chegar até Alinne sem qualquer incidente, ela também portava um arco e esbanjava perfeição quando se tratava de mira – as últimas cinco criaturas não puderam viver pra contar história, não mesmo. Ficamos os três de costas uns para os outros – Alinne, Dandara e eu – cada um eliminando a quantidade necessária para que não causasse problemas aos outros campistas que travavam suas lutas individuas. Estávamos praticamente no meio duma duna que ligava os chalés com os bosques, mas ali dava claramente pra ver Lorenna destroçando os monstros com a lança de duas lâminas. Também tive total visão sobre Orsi que voava – com seu pégaso negro — sobre as cabeças de ratos e com leves movimentos arrancavam-nas com golpes de sua espada branca. Thalles e Bieringuer estavam sobre o telhado do chalé onze jogando bombas caseiras (se você pensou que elas eram inofensivas, está muito enganado), pois umas duas fileiras de oito musgos assassinos foram para o tártaro com a pressão explosiva das armas. Um leve sorriso percorreu meus lábios ao perceber que nós tínhamos total vantagem sobre eles, e que em poucos minutos poderíamos acabar com todas aquelas malditas criaturas. Pedro estava usando uma nova espécie de tecnologia sanguinária que me lembrou imediatamente o vilão do filme Homem Aranha (Doutor Octopus ), eram canos enormes de bronze que serviam como mãos esmagadoras. Munhoz usava seu raio lançador na mão direita e a sua espada dourada na esquerda – cheguei a me assustar quando ela enfiou a lâmina na barriga do telquine que urrou de dor abrindo a boca, logo a criatura percebeu seu erro quando a filha de Zeus colocou o raio em exata posição e o lançou diretamente entre os dentes do demônio do mar que explodiu em pó. Tentei me concentrar no meu próprio combate, mas Alinne conseguirá acertar todos os monstros em nossa volta, relaxei um pouco. Dudu estava com uma estranha arma que lançava líquido corrosivo; turqueza, azul, amarelo, verde. Era muito másculo, contudo bem eficaz, pois assim que as cores tocavam nas criaturas elas derretiam. Ouvi um estrondo repentino vindo do chalé de Deméter e três telquines saíram correndo aos tropeços pela escadaria de grama com a porta a bater. Assim que eles pisaram no último tecido verde do degrau todo enfeitado com plantas, raízes os prenderam. Vislumbrei uma sombra de uma garota na porta do chalé quatro andando furiosamente até os monstros, assim que consegui focar meus olhos nos dela vi uma expressão séria e orbes queimando em raiva. Percebi em suas mãos duas espécies de espadas longas curvadas, sem contar com um sorriso totalmente psicótico e um rosto sujo de chocolate. Ela esbravejava alguma coisa sobre roubarem sua nutella, só notei as mãos das criaturas cheias de chocolate quando Malu finalmente cortou as três cabeças e um pote marrom ficou no chão, ela agarrou o objeto e correu com ele abraçado “ninguém vai tomar você da mamãe de novo” e passou do brilho lunar para a escuridão do chalé.
– Esses foram os últimos, aqui está limpo – Letkaske derrubou o último lestrigão que a importunou. Ela por um breve segundo desviou a atenção do monstro e não percebeu que acertou com o cotovelo bem na testa da criatura que tentava se erguer novamente, e ele virou pó.
– Aqui também – Sofia fincou a espada nos olhos do rato.
– E aqui – Mariana cortou a cabeça de um musgo.
– Já terminamos – Babu finalizou acertando duas adagas em duas criaturas do mar, ambas caíram de joelhos e viraram nada.
Baixamos as armas quando o silêncio tomou conta do acampamento. Todos ofegantes e preocupados com as baixas que tiveram na noite, eram poucas, porém, algumas tinham valores inestimáveis. As cenas da morte do conselheiro de Hypnus vieram até meus olhos e uma sutil lágrima escorreu por entre meus olhos, ele era um cara legal e fiquei ainda mais triste pela maldade feita com o rocambole de goiaba que agora já não estava mais no chão, alguém o comeu. Olhei ao meu redor e notei que a maioria estava com roupas de dormir, camisolas, samba canção, top, shorts curtos e vários tipos de pijamas. Todos se entreolharam e imediatamente começaram os risos reprimidos, eu fiquei quieto é claro, mas não deixei de sorrir com as provocações que começaram a chover pelos ares.
– Anda assistindo muito Homem Aranha, Pedro – Bieringuer disse caçoando. Obviamente ele não estava falando do traje cheio de mãos, mas sim do pijama cheio de desenhos do spider man.
– Elas são descoladas até mesmo quando dormem – Dudu apontou para as três filhas de Afrodite que tinham pijamas curtos, eles eram rosa e com corações – Opa, que violência – Corações com facas no meio.
– Até sua samba canção é de arco-íris? – Dandara disse a Dudu, não deixei de sorrir ao reparar ele com aquelas cores.
– É, quer descobrir o que tem no final do arco-íris? – Ele sorriu.
– Todos sabem que não tem nada no final do arco-íris – Batistão se intrometeu no meio da conversa – Temos uma visita no acampamento, todos para a grande mansão!
[...]
Ao menos a grande mansão não havia sido devastada pela fúria das criaturas naquela madrugada. Tinham alguns rastros de sangue pelo chão estreito que ligava a sala de reunião, mas isso era um pequeno detalhe comparado aos estragos lá fora. Alguns conselheiros já estavam apostos nos seus lugares, mas no banco da dona Helena havia um homem alto e barbudo. Ele gesticulava ferozmente com os dedos prontos para espancar alguém, mas com ausência desse – alguém – quem sofria era a mesa que era esmurrada. Só de olhar pra ele já me deixava irritado, estava claro que era um tipo de cara que adorava encrenca, tanto que suas botas imundas estavam bem em cima da mesa e ele parecia muito á vontade a falar de suas guerras nos séculos anteriores.
– Pronto, sentem-se todos seus pivetes! – O barbudo voltou a encarar todos – Sabem por que eu estou aqui?
– Cara, quem é você? – Eu questionei.
– Quem sou eu? – Senti o bafo de cebola chegar próximo ao meu rosto. Ele me encarou e vi dentro de seus orbes chamas queimando – Eu sou Ares, algum problema cria de Apolo?
– Suas credencias são válidas – Tentei colocar minha raiva de lado e virei minha cabeça, finalmente respirando.
– Espero que todos aqui não estejam incomodados com os meus bons modos, ou estão? – Ele sorriu – Eu não sou a pessoa mais indicada pra explicar sobre as Portarius, mas como sabem...
– Existem doze, uma pra cada Deus – Batistão interviu.
– Você é filha de quem garotinha enxerida?
– Atena.
– OK. Faça-me um favor? – Ele olhou friamente nos olhos dela – Será que a filha da grande deusa da Sabedoria consegue calar a boca quando eu estiver falando? – Batistão fez que sim com a cabeça, obviamente com medo – Aposto que consegue.
– Pai, não acha melhor pegar um pouco leve? – Lorenna era a única que parecia não estar num estado de nervosismo, afinal ela estava acostumada com o temperamento de seu pai.
– Lorenna Kogawa – Ares sorriu – Eu te considerar uma de minhas filhas favoritas não significa que tem direito de dizer o que eu tenho que fazer – Lorenna se calou – Enfim, quanto mais rápido eu falar mais rápido eu vou embora desse acampamento – Ele parecia descontente – Como eu estava dizendo, ou melhor, antes de eu ser interrompido, existem doze Portarius como disse a filha de Atena. Mas o que ela não sabe é que todas essas doze estátuas aqui dentro tem funções secretas que nem mesmo alguns deuses sabem – Os olhos flamejantes do Deus da guerra encararam a própria estátua – Em toda figura tem um objeto faltando se não perceberam, é ali que as portarius se encaixam.
Eu não estive prestando atenção, mas assim que olhei pra estátua do Deus do Vinho percebi que havia uma mínima brecha que dava lugar a um espaço oco que tinha formato de uma pedra. Lembrei-me imediatamente da Júlia, a ladra que havia matado Laura e que agora tinha o objeto que se encaixava perfeitamente na estátua.
– Elas ficaram muitos milênios desaparecidas, mas sempre quando uma aparece, as outras chaves se manifestam.
– Sabemos que são chaves, mas o que elas guardam naquelas pilastras? – Minhas dúvidas falaram mais alto.
– Zeus não me permite falar, terão que descobrir por conta própria – Curto e grosso.
– Mas por que os deuses estão se manifestando? – Alinne entrou no meio da conversa – Por que eles mesmos não resolvem isso e juntam tudo logo?
– Elas são mais seguras na terra, acredite. Por isso elas devem permanecer escondidas, mas ao que me parece tem um grupo de ingratos tentando derrubar o Olimpo – Ares revirou os olhos – Já vi esse filme uma vez.
– E por que precisam da nossa ajuda? – Munhoz esbravejou.
– Como filha de Zeus deveria saber que deuses não podem interferir no caminho de seus filhos, muito menos no destino da terra. Além do mais, não sabíamos que os dois Sóis seriam declamados nesse ano. Apolo escondeu essa surpresa até mesmo de seu Oráculo – Ele gargalhou.
– Mas se querem nossa ajuda, por onde começamos a procurar as Portarius? Isso Zeus não fala né? – Orsi falou brava.
– Por que acha que estou aqui? Você tem cheiro de peixe, eca – Ares reclamava do cheiro do mar sendo que tinha um odor pior ainda, vá entender. Não pude deixar de sorrir com essa grande ironia – Bem, isso é tudo – Ele se levantou e marchou até a porta – Apenas uma filha legitima de Ares pode ler a localização da PortariusArix, portanto ela é a líder dessa missão.
Ouvimos um barulho de motocicleta e logo o Deus se foi. A rocha que correspondia o temido Deus da Guerra começou a se mover de forma lenta — eu achei que era um tipo de fantasma que estava zuando com a minha cara. A rocha começou a roçar o piso e percebemos que havia uma brecha nas costas da estátua que subitamente começou a brilhar. Lorenna se aproximou e começou a checar toda a extensão de mármore, até que ela abriu um largo sorriso.
– “NADA MELHOR QUE LUTAR NUMA GUERRA OUVINDO UM BOM ROCK! MINHA SEGUNDA CASA É O MEU ESTILO!”
Assim que a filha de Ares terminou de ler as luzes do recinto se apagaram. Ficamos totalmente no escuro, mas quando os murmurinhos começaram a se tornarem irritantes, ouve um clarão vindo da estatua e uma projeção azul cobriu toda a sala. Eu de imediato conheci o lugar.
– Escutem todos! Ao amanhecer sete embarcarão comigo a procura da PortariuArix comigo, então recomendo que descansem bem até lá – Lorenna esbravejou – GALERIA DO ROCK, AI VAMOS NÓS!
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