Legado de Sangue e Ouro livro 3
13 Uma conversa franca
O corredor que levava aos aposentos da princesa estava mergulhado em um silêncio opressor. Os guardas, sob ordens anteriores, apenas assentiram quando Arthur se aproximou. Ele não trazia relatórios ou espadas; trazia apenas o peso de uma decisão que sua mãe o ajudara a tomar.
Ele parou diante da porta de carvalho entalhada com o brasão da loba. Por um momento, sua mão hesitou no ar. O Capitão de Mármore sentia as rachaduras aumentando. Ele respirou fundo e bateu. Três vezes. Firmes.
Não houve resposta. Ele girou a maçaneta e entrou.
O quarto estava na penumbra. O cheiro de incenso queimado e o ar parado denunciavam o isolamento de Siena. Ela estava encolhida no divã perto da janela fechada, envolta em uma manta pesada, olhando para o vazio. Ao ouvir os passos, ela não se virou. Achou que era apenas mais uma criada com uma bandeja de comida que seria ignorada.
— Você precisa comer, Siena — a voz de Arthur ecoou, baixa mas cortante.
Siena estremeceu. Aquela voz, que ela não ouvia direcionada a si há dias, agiu como um choque elétrico. Ela se virou lentamente, os olhos inchados e a pele pálida, encontrando o primo parado no centro do quarto.
— Veio conferir se a loba finalmente morreu de fome? — ela sussurrou, a voz falha e sem a ironia habitual.
Arthur caminhou até a janela e, com um movimento decidido, abriu as pesadas cortinas. A luz do fim da tarde inundou o quarto, fazendo Siena cobrir os olhos.
— Vim conferir se você finalmente parou de ter pena de si mesma — ele rebateu, aproximando-se dela. Ele não se sentou; permaneceu de pé, imponente. — O silêncio parece ter feito o que meus gritos não conseguiram: te fez pensar.
Siena baixou a manta, revelando o quanto parecia pequena e vulnerável naquela imensidão de seda.
— Eu pensei. Pensei em cada palavra que você me disse no estábulo. E pensei no que eu fiz. Eu sinto... eu sinto tanto nojo de mim mesma, Arthur.
Arthur sentiu um aperto no peito que sua disciplina tentou sufocar. Ele se ajoelhou diante dela, não por submissão, mas para ficar na altura de seus olhos.
— Me olhe — ordenou ele.
Siena hesitou, mas obedeceu.
— O que você fez foi perigoso, Siena. Não só para a sua reputação, mas para nós — ele começou, a voz perdendo a aspereza e ganhando uma honestidade crua. — Você invadiu meu espaço, testou minha honra e me tratou como se eu fosse um objeto para o seu entretenimento. Eu tive raiva. Muita. Mas o meu silêncio não foi só punição. Foi medo.
— Medo? — ela repetiu, confusa. — Você não tem medo de nada.
— Eu tive medo do que eu quase fiz — Arthur confessou, os olhos escuros fixos nos dela. — Quando você estava ali, sobre mim... eu tive que lutar contra cada instinto meu para não corresponder. Porque se eu correspondesse, eu estaria selando o seu destino e o meu de uma forma que não haveria volta. Eu te protegi de mim mesmo, Siena.
Siena sentiu as lágrimas transbordarem. Ela estendeu a mão, hesitante, e tocou o braço de Arthur. Desta vez, ele não recuou.
— Eu não queria ser um fardo, Arthur. Eu só... eu me sinto tão sozinha nesta coroa. E você era a única coisa que parecia real.
— Eu sou real — disse ele, segurando a mão dela com firmeza. — Mas se você quer que eu esteja ao seu lado, precisa parar de agir como uma criança que incendeia a própria casa para ver o fogo brilhar. Uma rainha não invade; ela conquista. Uma rainha não se embriaga de vinho; ela se embriaga de propósito.
Siena assentiu, as lágrimas lavando parte da culpa.
— Você ainda me odeia?
Arthur soltou um suspiro longo, e pela primeira vez em dias, um pequeno e quase imperceptível sorriso de canto apareceu.
— Eu nunca odiei você, Siena. Eu só odiei o que você estava fazendo consigo mesma.
Ele se levantou e estendeu a mão para ela.
— Agora, levante-se. Lave esse rosto e coma. Seus pais estão lá embaixo fingindo que não sabem de nada porque minha mãe os proibiu de intervir, mas Caelum está a um passo de derrubar esta porta.
Siena segurou a mão dele e se levantou, sentindo as pernas ainda um pouco fracas, mas a alma mais leve.
— Arthur?
Ele parou na porta e olhou para trás.
— Eu vou tentar ser a rainha que você espera — ela prometeu.
— Não seja a rainha que eu espero — ele respondeu, com o brilho de desafio voltando aos olhos. — Seja a rainha que Astúria teme que você se torne: indomável, mas justa. E, Siena... — ele fez uma pausa — da próxima vez que quiser me visitar à noite, tente usar a porta. E esteja sóbria. Eu prefiro a sua companhia quando você sabe exatamente o que está me dizendo.
Ele saiu, fechando a porta silenciosamente. Siena respirou fundo, o ar do quarto agora parecendo limpo. O Falcão tinha dado o mapa; agora cabia à Loba decidir se seguiria a trilha ou se criaria o seu próprio caminho. Mas, pela primeira vez, ela sabia que não caminharia sozinha.
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