O Grande Salão de Astúria parecia ter recuperado suas cores. As tochas brilhavam com mais intensidade e o aroma de carne assada com ervas finas preenchia o ar, mas o que realmente aquecia o ambiente era a expectativa. Quando as portas se abriram, não foi a sombra dos últimos dias que entrou, mas a Princesa Herdeira, recomposta e com a cabeça erguida.

​Siena vestia um traje de veludo azul-profundo, os cabelos presos em uma trança elaborada que deixava seu rosto limpo e sereno. Ao cruzar o portal, o silêncio que se formou não era de julgamento, mas de alívio.

​O primeiro a reagir foi Arthur. Sentado em seu lugar habitual, ele não desviou o olhar. Pelo contrário, ele ofereceu a ela um sorriso de canto — discreto, quase imperceptível para os outros, mas que para Siena significava o mundo: o perdão fora selado.

​— Finalmente a beleza decidiu se juntar à fera — brincou Richard, levantando sua taça. — Este jantar estava ficando seriamente entediante sem alguém para me contradizer, Siena!

​— Pois prepare-se, tio — rebateu Siena, sentando-se em seu lugar com uma leve reverência. — Eu tive tempo de sobra para pensar em novos argumentos para derrubar suas teorias sobre as rotas de caça.

​A mesa explodiu em risadas. Julian e Aria trocaram olhares de pura gratidão, vendo a dinâmica familiar retornar ao eixo. Catarina apenas assentiu para a filha, um gesto de aprovação silenciosa que dizia: “Bem-vinda de volta ao jogo”.

​No entanto, na cabeceira, Caelum observava a filha com uma mistura complexa de emoções. Ele sorria, sim, feliz por vê-la recuperada, mas havia uma sombra de melancolia em seus olhos. Ele via nela a mulher que estava amadurecendo através da dor, e isso o lembrava de que o tempo de protegê-la do mundo — e de si mesma — estava chegando ao fim.

​Siena percebeu o olhar do pai. Ela estendeu a mão sobre a mesa e tocou levemente a dele.

— Está tudo bem, papai. O ar da noite me fez bem.

​Caelum apertou a mão da filha e sorriu, um sorriso que finalmente alcançou seus olhos, embora carregado de saudade antecipada.

— O ar de Astúria é revigorante, minha filha. Fico feliz que tenha se reencontrado com ele. Julian! Sirva mais vinho a todos, menos para a Siena — ele piscou, fazendo graça — acho que ela prefere o suco de amora hoje.

​— Muito engraçado, Majestade — Siena riu, aceitando a provocação com leveza.

​O jantar seguiu entre conversas animadas. Gaspar começou a contar sobre uma antiga batalha onde a estratégia quase falhou por causa de uma tempestade, e Arthur interveio:

​— Às vezes a tempestade é necessária, General. Ela limpa o caminho e testa quem realmente está pronto para liderar. Não acha, Siena?

​Siena olhou para o primo, captando a profundidade da pergunta.

— Concordo, Arthur. E às vezes, a tempestade nos ensina que não importa quão forte seja o vento, é bom saber que há um porto seguro para onde voltar.

​— Bem dito! — exclamou Aria, radiante. — Agora, por favor, alguém mude de assunto antes que esses dois comecem a falar de manuais militares novamente. Julian, conte sobre o festival que está sendo planejado na cidade baixa!

​A noite transcorreu entre risos, planos para o futuro e uma sensação de unidade que o reino não sentia há muito tempo. Entre um brinde e outro, Siena e Arthur trocavam olhares cúmplices. A tensão proibida ainda estava lá, latente, mas agora havia algo novo: um respeito mútuo que prometia ser a base de algo muito maior do que qualquer regra de castelo.

​Astúria estava em paz, e seus herdeiros, finalmente, jantavam sob a mesma luz.