Legado de Sangue e Ouro livro 3
15 Provocações e luxúria
A noite em Astúria era silenciosa, mas para Siena, o silêncio do seu próprio quarto era ensurdecedor. Ela cruzou o corredor com passos leves, mas desta vez, parou diante da porta de Arthur e bateu. Ela esperou a permissão, que veio em um "entre" baixo e firme.
Arthur estava sentado na beira da cama, retirando as botas de couro. Ele ergueu o olhar e, ao vê-la — desta vez sóbria e com um brilho lúcido nos olhos —, apenas indicou o espaço ao seu lado. Siena não se sentou na borda; ela se acomodou sobre a colcha pesada, encostando as costas na cabeceira de madeira esculpida. Arthur, após um momento de hesitação, fez o mesmo, deitando-se ao lado dela, mantendo uma distância segura, mas ainda assim sentindo o calor que emanava do corpo de Siena.
— Não consegue dormir de novo? — Arthur perguntou, os olhos fixos no teto, mas sua mente focada totalmente na presença dela.
— Eu sinto que se eu fechar os olhos, a paz que construímos hoje vai sumir — Siena confessou, virando o rosto para ele. — Eu gosto de conversar com você, Arthur. Sem espadas, sem plateia, sem vinho.
Eles conversaram por horas. Falaram sobre o medo do futuro, sobre as expectativas esmagadoras da coroa e sobre as memórias de quando eram crianças e o mundo parecia caber no jardim do castelo. Mas, conforme a madrugada avançava, o tom da conversa mudou. A honestidade deu lugar a uma tensão elétrica.
Siena deslizou um pouco mais para baixo, ficando com o rosto na altura do ombro de Arthur. Ela apoiou o braço sobre o peito dele — o mesmo lugar que ela havia tocado com as mãos trêmulas dias atrás.
— Sabe o que é engraçado? — ela sussurrou, a voz vibrando rente ao pescoço dele. — Todo mundo no castelo acha que você é um santo, Arthur. O cavaleiro de gelo. Mas eu consigo sentir seu coração agora. Ele não está seguindo nenhum protocolo militar.
Arthur sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele virou o rosto para ela, e a proximidade era perigosa. A luz das brasas da lareira desenhava os contornos do rosto de Siena, tornando tudo mais íntimo.
— Você gosta de brincar com o perigo, não gosta? — Arthur disse, a voz soando como um rosnado suave e profundo. — Você sabe que eu estou tentando manter a ordem aqui.
— E se eu não quiser ordem? — Ela deslizou o nariz levemente pela mandíbula dele, sem encostar os lábios, apenas deixando o rastro do seu perfume de amora e floresta na pele dele. — E se eu quiser saber o que acontece quando o Falcão perde o controle?
Arthur segurou o pulso dela, mas não a afastou. Ele o trouxe para perto de seus lábios e deixou um beijo demorado e quente na palma da mão de Siena, sem tirar os olhos dos dela. O olhar dele estava escuro, carregado de um desejo que ele lutava para não libertar.
— Você não faz ideia do que está pedindo — ele sibilou, a voz carregada de uma provocação que fez Siena prender a respiração. — Se eu perder o controle, Siena, não haverá manuais ou regras que possam te salvar. Eu não sou um dos seus súditos que se curva aos seus caprichos.
Siena sorriu, um sorriso lento e vitorioso, aproximando seus lábios dos dele até que apenas um fio de ar os separasse. Ela podia sentir o calor da respiração de Arthur contra a sua.
— Então por que você ainda está me segurando o pulso e não me expulsou daqui? — ela provocou, a voz sumindo em um sussurro.
Arthur soltou o pulso dela, mas suas mãos encontraram o caminho para a cintura de Siena, puxando-a apenas alguns centímetros mais para perto, o suficiente para que ela sentisse a rigidez do seu corpo.
— Porque eu sou um estrategista — ele murmurou, a voz rouca contra os lábios dela. — E um bom estrategista sabe que a antecipação é muito mais poderosa do que o ataque. Eu vou te deixar imaginando, Siena. Vou deixar você sonhar com o momento em que eu finalmente decidir cruzar essa linha.
Ele não a beijou. Ele apenas a manteve ali, presa em seu abraço, envolta naquela tensão insuportável e viciante. Siena sentiu o corpo arder de frustração e desejo, mas o sorriso não saiu de seu rosto. O jogo havia mudado. Ela não era mais a criança pedindo atenção; ela era a mulher que havia despertado o guerreiro.
Eles ficaram assim, deitados e provocando um ao outro com palavras e olhares, até que a primeira luz do amanhecer começou a surgir. Nada de beijos, nada de entregas — apenas a promessa de que, em Astúria, as noites nunca mais seriam frias.
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