Legado de Sangue e Ouro livro 3
16 Assuntos triviais
O clima no castelo de Astúria havia mudado drasticamente, e não era apenas por causa do degelo da primavera. Havia algo no ar, uma cadência diferente nos passos de Arthur e uma suavidade inédita em seus traços.
Nos corredores, quando ele e Siena se cruzavam, não havia mais o silêncio gélido ou as discussões acaloradas. O que restava era algo muito mais perigoso para quem tentava manter um segredo: o sorriso. Não era um riso aberto, mas aquele repuxar de lábios cúmplice, um brilho nos olhos que durava apenas um segundo antes de voltarem às suas obrigações.
Naquela tarde, a reunião na sala de mapas era estritamente masculina. Caelum, Julian, Richard e Gaspar estavam debruçados sobre pergaminhos, mas a atenção deles desviava constantemente para o jovem oficial no canto da mesa.
Arthur estava terminando de lacrar uma mensagem. Ele não estava carrancudo. Pelo contrário, parecia absorto em um pensamento distante, com um brilho no olhar que o tornava quase... humano.
— Arthur — chamou Richard, com um sorriso malicioso e arqueando uma sobrancelha. — Você parece muito satisfeito com essas rotas comerciais. Ou será que o ar do Norte finalmente amoleceu esse seu coração de pedra?
Arthur ergueu os olhos, recuperando a compostura instantaneamente, mas o brilho não desapareceu.
— Apenas eficiência, tio. É satisfatório ver os planos se concretizarem sem obstáculos.
— Eficiência, sei... — ironizou Julian, cruzando os braços e trocando um olhar divertido com Caelum. — Eu conheço esse olhar, meu filho. É o mesmo olhar que eu tinha quando sua mãe dizia que ia "estudar botânica" nos jardins e eu sabia exatamente onde encontrá-la.
Caelum soltou uma risada curta, observando o sobrinho com curiosidade renovada.
— Confesse, Arthur. Há uma nova luz em você. Alguma dama da corte tem enviado cartas para o quartel? Ou talvez alguma nobre das Terras do Sul chamou sua atenção durante o jantar?
Arthur manteve a expressão firme, embora uma leve coloração tenha subido por seu pescoço, algo que ele tentou disfarçar ajustando a gola da túnica.
— Meus únicos compromissos são com o exército e com a proteção da coroa, Majestade. Não há nada a relatar além de dever e disciplina.
— Ah, pare com isso! — exclamou Gaspar, o General Emérito, batendo na mesa com bom humor. — Nem o melhor soldado consegue esconder o rastro de uma batalha vencida no coração. Você está diferente, rapaz. Está mais... calmo. Menos "mármore" e mais "carne e osso". Quem é ela?
Arthur deu um meio sorriso, um vislumbre daquela provocação que Siena tanto gostava.
— Um bom estrategista nunca revela suas posições antes da hora, General. O fator surpresa é a arma mais poderosa em qualquer campo.
— Ele não vai contar — bufou Richard, rindo. — Ele é um Mackenzie puro. Teimoso como uma mula quando decide guardar um segredo.
— Deixem o rapaz — disse Caelum, embora seus olhos estivessem semicerrados, analisando cada movimento de Arthur. — Se houver algo que ameace — ou fortaleça — este reino, ele nos dirá no momento certo. Mas cuidado, Arthur... as paredes deste castelo têm ouvidos, e os olhos da Rainha Catarina são mais afiados que qualquer espião inimigo.
Arthur fez uma reverência curta, pegando seus mapas.
— Vou levar esses avisos em consideração, Majestade. Se me dão licença, preciso conferir o treinamento da guarda... e talvez respirar um pouco do "ar revigorante" dos jardins.
Quando ele saiu, Richard virou-se para Julian.
— Eu aposto dez moedas de ouro que tem uma mulher envolvida. E aposto mais dez que ela é a razão de ele estar tão... "estratégico" ultimamente.
Julian suspirou, um sorriso orgulhoso no rosto.
— Não importa quem seja, Richard. Pela primeira vez desde que voltou, meu filho parece que realmente encontrou um motivo para querer ficar em casa.
Mal sabiam eles que a "razão" estava, naquele exato momento, observando o pátio de uma das janelas superiores, esperando apenas o cair da noite para testar novamente a tão aclamada "disciplina" do Falcão.
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