Legado de Sangue e Ouro livro 3
4 Quase perdendo a cabeça
O sol da tarde entrava pelas janelas altas da ala leste, desenhando faixas de luz e poeira suspensa no escritório particular de Arthur. Ele havia acabado de retornar de um treinamento pesado com a guarda de elite e, buscando um momento de respiro, retirara a túnica suada, jogando-a sobre uma poltrona. Estava de costas para a porta, debruçado sobre um mapa da fronteira, quando ouviu o som leve de passos que ele reconheceria em qualquer lugar.
Siena não bateu. Ela nunca batia.
Ela entrou no quarto com a confiança de quem era dona de cada centímetro daquele castelo. Mas, ao ver o primo daquela forma, seus passos vacilaram por um milésimo de segundo. A luz do sol realçava a musculatura das costas dele, marcada pelo esforço dos anos no internato e pelas cicatrizes superficiais de treinos recentes.
Arthur não se virou, mas sua voz soou baixa e rouca:
— Eu já disse que as reuniões de conselho só começam ao anoitecer, Siena.
— Eu não vim como conselheira — ela respondeu, recuperando o fôlego e caminhando até ele.
Ele se virou lentamente. A visão de Arthur sem a armadura ou as túnicas formais era impactante. O peito era largo, definido, e a pele estava quente pelo esforço recente. Siena parou a poucos centímetros dele. O silêncio no quarto mudou de tom; não era mais o silêncio da paz, mas uma tensão elétrica que parecia vibrar entre os dois.
Sem pedir permissão, movida por uma curiosidade que transcendia a amizade de infância, Siena ergueu a mão. Seus dedos, finos mas firmes, tocaram a pele dele, bem acima do coração.
Arthur travou instantaneamente. Ele sentiu o toque gelado dos dedos dela contra o calor de seu tórax, e o contraste foi como um choque.
— Você está diferente — sussurrou ela, os olhos fixos onde sua mão repousava. — O internato te deu ombros de pedra, Arthur. Mas aqui... — ela moveu os dedos levemente — seu coração ainda bate rápido demais para alguém tão "controlado".
Arthur sentiu o autocontrole, sua característica mais orgulhosa, escorregar por entre os dedos. Ele estendeu a mão e envolveu o pulso dela, interrompendo o movimento. Ele não a afastou com força, mas a segurou com uma firmeza que denunciava o esforço que fazia para manter a voz firme.
— Siena... pare — ele disse, a voz soando como um aviso perigoso.
— Por que? — ela perguntou, erguendo o olhar para o dele. Os olhos castanhos dela estavam carregados de um desafio que ele nunca vira antes. — Tem medo que eu descubra que o Capitão de Mármore é feito de carne e osso?
Arthur puxou o pulso dela levemente para baixo, mas não a soltou. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela até que ela pudesse sentir o calor que emanava de seu corpo.
— Eu não sou de mármore — ele sibilou, os olhos escuros fixos nos dela. — E você sabe disso melhor do que ninguém. Mas há uma linha, Siena. Uma linha que nós dois juramos não cruzar no pátio de treinamento.
— O pátio ficou lá fora, Arthur — ela rebateu, a voz falhando minimamente pela proximidade.
— Mas as consequências vêm para dentro — Arthur soltou o pulso dela lentamente, mas manteve a mão próxima, como se ainda pudesse sentir o pulso dela acelerado contra seus dedos. — Você joga com fogo porque sabe que nunca se queimou. Mas eu não sou um dos seus guardas para você testar seus limites.
Siena deu um passo atrás, sentindo o peso das palavras dele. O ar parecia ter ficado mais denso. Ela deu um sorriso de canto, embora suas mãos ainda tremessem levemente.
— Você está ficando perigoso, priminho. A disciplina está começando a rachar.
— Saia daqui, Siena — ele pediu, virando-se de volta para o mapa, embora não visse uma única linha desenhada ali. — Vá se vestir para o jantar. Antes que eu esqueça que sou o herdeiro de Valória e você a Princesa de Astúria.
Siena caminhou até a porta, parando no portal.
— Eu prefiro quando você esquece — disse ela, antes de desaparecer pelo corredor, deixando para trás um Arthur que precisou de longos minutos e de muita respiração profunda para reencontrar a calma que o tornara famoso.
A "estratégia" de ambos estava mudando, e nenhum manual militar os havia preparado para aquilo.
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