O jantar no Grande Salão de Astúria transcorria sob a pompa habitual, mas a atmosfera estava carregada de uma eletricidade que nada tinha a ver com as tempestades do Norte. O som dos talheres de prata batendo na porcelana era abafado pelas conversas cruzadas de três gerações, mas um silêncio particular se formava em um ponto específico da mesa.

​Siena mal havia tocado em sua vitela. Ela girava a taça de cristal entre os dedos, mas seu olhar estava fixo, predatório e intensamente brilhante, no homem sentado à sua frente. Ela não disfarçava. Observava a forma como Arthur levava o vinho aos lábios, a precisão com que ele cortava o alimento e, principalmente, a tensão no maxilar dele que denunciava que ele sabia exatamente que estava sendo vigiado.

​Caelum, sentado na cabeceira, levava um pedaço de pão à boca quando percebeu o olhar da filha. Ele parou o movimento no ar. Viu o sorriso malicioso e quase imperceptível que brincava nos lábios de Siena — um sorriso que ele conhecia bem demais.

​Preocupado, Caelum desviou os olhos para Catarina. A Rainha estava elegantemente relaxada, mas seus olhos encontraram os do marido com uma faísca de diversão contida. Ela sabia. Ela sempre sabia.

​Tentando dissipar a tensão que começava a tornar o ar denso, Caelum pigarreou, a voz saindo um pouco mais alta do que o pretendido:

​— Arthur! — chamou o Rei, fazendo o sobrinho finalmente erguer os olhos da mesa. — Eu estava revisando os mapas da fronteira leste esta tarde. O General Gaspar mencionou que você tem algumas sugestões sobre a redistribuição das patrulhas nas Gargantas de Gelo. Qual a sua estratégia?

​Arthur sentiu o alívio da interrupção, mas, ao tentar responder, seus olhos cruzaram com os de Siena. As "chamas" no olhar da prima quase o fizeram perder o fio da meada.

​— Sim, Majestade — Arthur começou, a voz um pouco mais rouca que o normal. — A estratégia consiste em fortalecer os postos avançados e... e utilizar o terreno a nosso favor, diminuindo a visibilidade para o inimigo.

​— Interessante — interveio Gaspar, o Rei Emérito, do outro lado da mesa. — Terreno e visibilidade. Às vezes, o que não vemos é mais perigoso do que o que está à mostra, não é, Arthur?

​Siena soltou uma risada baixa, um som melodioso que interrompeu a fala de Gaspar. Ela inclinou o corpo levemente para frente, apoiando o queixo na mão, sem tirar os olhos do primo.

​— Ah, vovô, eu discordo — disse Siena, a voz carregada de uma provocação que fez Julian e Aria pararem de conversar. — Eu acho que o perigo real está naquilo que vemos claramente, mas tentamos ignorar. Algumas estratégias são tão óbvias que chega a ser um pecado não agir sobre elas. Não acha, Arthur?

​Arthur apertou o cabo de sua faca com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O "Capitão de Mármore" estava lutando para não rachar sob o escrutínio dela.

​— A obviedade pode ser uma armadilha, Siena — rebateu Arthur, encarando-a finalmente. — Às vezes, o que você acha que é um convite para o ataque é apenas uma defesa esperando para ser fechada.

​— Ou talvez — Catarina interveio, bebendo seu vinho com uma calma irritante — vocês dois estejam falando de mapas diferentes. Caelum, deixe o rapaz jantar. As fronteiras não vão se mover até amanhã.

​Julian, percebendo que algo estava no ar, deu uma cotovelada amigável em Arthur.

— Ouviu a Rainha, filho! Coma. Você está pálido. Parece que viu um fantasma... ou uma loba faminta.

​A mesa explodiu em uma conversa geral novamente, mas a tensão entre os herdeiros permaneceu. Siena levou uma uva à boca, mantendo o sorriso vitorioso enquanto via Arthur desviar o olhar, buscando desesperadamente manter a disciplina que, naquela mesa, parecia estar por um fio.

​Caelum suspirou, olhando para Catarina. Ela apenas deu de ombros e piscou para o marido. O jogo de poder no castelo de Astúria tinha acabado de ganhar regras que nenhum mapa poderia explicar.