Legado de Sangue e Ouro livro 3
5 Olhares famintos
O jantar no Grande Salão de Astúria transcorria sob a pompa habitual, mas a atmosfera estava carregada de uma eletricidade que nada tinha a ver com as tempestades do Norte. O som dos talheres de prata batendo na porcelana era abafado pelas conversas cruzadas de três gerações, mas um silêncio particular se formava em um ponto específico da mesa.
Siena mal havia tocado em sua vitela. Ela girava a taça de cristal entre os dedos, mas seu olhar estava fixo, predatório e intensamente brilhante, no homem sentado à sua frente. Ela não disfarçava. Observava a forma como Arthur levava o vinho aos lábios, a precisão com que ele cortava o alimento e, principalmente, a tensão no maxilar dele que denunciava que ele sabia exatamente que estava sendo vigiado.
Caelum, sentado na cabeceira, levava um pedaço de pão à boca quando percebeu o olhar da filha. Ele parou o movimento no ar. Viu o sorriso malicioso e quase imperceptível que brincava nos lábios de Siena — um sorriso que ele conhecia bem demais.
Preocupado, Caelum desviou os olhos para Catarina. A Rainha estava elegantemente relaxada, mas seus olhos encontraram os do marido com uma faísca de diversão contida. Ela sabia. Ela sempre sabia.
Tentando dissipar a tensão que começava a tornar o ar denso, Caelum pigarreou, a voz saindo um pouco mais alta do que o pretendido:
— Arthur! — chamou o Rei, fazendo o sobrinho finalmente erguer os olhos da mesa. — Eu estava revisando os mapas da fronteira leste esta tarde. O General Gaspar mencionou que você tem algumas sugestões sobre a redistribuição das patrulhas nas Gargantas de Gelo. Qual a sua estratégia?
Arthur sentiu o alívio da interrupção, mas, ao tentar responder, seus olhos cruzaram com os de Siena. As "chamas" no olhar da prima quase o fizeram perder o fio da meada.
— Sim, Majestade — Arthur começou, a voz um pouco mais rouca que o normal. — A estratégia consiste em fortalecer os postos avançados e... e utilizar o terreno a nosso favor, diminuindo a visibilidade para o inimigo.
— Interessante — interveio Gaspar, o Rei Emérito, do outro lado da mesa. — Terreno e visibilidade. Às vezes, o que não vemos é mais perigoso do que o que está à mostra, não é, Arthur?
Siena soltou uma risada baixa, um som melodioso que interrompeu a fala de Gaspar. Ela inclinou o corpo levemente para frente, apoiando o queixo na mão, sem tirar os olhos do primo.
— Ah, vovô, eu discordo — disse Siena, a voz carregada de uma provocação que fez Julian e Aria pararem de conversar. — Eu acho que o perigo real está naquilo que vemos claramente, mas tentamos ignorar. Algumas estratégias são tão óbvias que chega a ser um pecado não agir sobre elas. Não acha, Arthur?
Arthur apertou o cabo de sua faca com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O "Capitão de Mármore" estava lutando para não rachar sob o escrutínio dela.
— A obviedade pode ser uma armadilha, Siena — rebateu Arthur, encarando-a finalmente. — Às vezes, o que você acha que é um convite para o ataque é apenas uma defesa esperando para ser fechada.
— Ou talvez — Catarina interveio, bebendo seu vinho com uma calma irritante — vocês dois estejam falando de mapas diferentes. Caelum, deixe o rapaz jantar. As fronteiras não vão se mover até amanhã.
Julian, percebendo que algo estava no ar, deu uma cotovelada amigável em Arthur.
— Ouviu a Rainha, filho! Coma. Você está pálido. Parece que viu um fantasma... ou uma loba faminta.
A mesa explodiu em uma conversa geral novamente, mas a tensão entre os herdeiros permaneceu. Siena levou uma uva à boca, mantendo o sorriso vitorioso enquanto via Arthur desviar o olhar, buscando desesperadamente manter a disciplina que, naquela mesa, parecia estar por um fio.
Caelum suspirou, olhando para Catarina. Ela apenas deu de ombros e piscou para o marido. O jogo de poder no castelo de Astúria tinha acabado de ganhar regras que nenhum mapa poderia explicar.
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